Quem serve as suas notícias?
𝗡𝗲𝘂𝘇𝗮 𝗔́𝗿𝗯𝗼𝗰𝘇 - Mídias locais estão na base da Democracia e, hoje, correm grande risco com a IA. Veículos focados em territórios percorrem as mais finas veias da cidade e antecipam pautas para os grandes veículos, tanto em termos de memórias e marcos históricos, talentos culturais e inovações, quanto em relação a problemas de infraestrutura e conflitos sociais que, em pouco tempo, repercutem em toda a população.

por Neuza Árbocz, especial para a Envolverde -
Como diversos estudos demonstram, mídias locais compõem a base da democracia. São como a urdidura, por onde os fios se alinham para compor o tecido social.
Qual não foi a surpresa da cidade de Austin, nos Estados Unidos, renomada como capital de música ao vivo e, também, polo de tecnologia, sede das big techs e influenciadora de legislação nesta área, ao ver surgir, do dia para a noite, um site com volume incessante de notícias locais, supostamente oriundas do jornal The Austin, que existiria desde 1988 - mas, do qual ninguém ouvira falar.
Como a cidade também se destaca pelo seu Knight Center for Journalism in Americas - ou, Centro dos Defensores do Jornalismo nas Américas, em tradução livre - da Universidade do Texas, não demorou para que uma investigação fosse iniciada.
A repórter Massie Quinlan, acionada por seu editor no Chronicle, apurou que a maioria das notícias nem sequer existia. Eram compostas de um título, uma foto e uma linha de chamada. Ao clicar, esta estrutura se repetia, sem complemento algum, na maioria dos casos.
No meio deste conteúdo simplesmente furtado de sites de notícias locais verdadeiros (mas não citados), estavam artigos assinados por supostos jornalistas, formados na Universidade de Nova Iorque e com currículo de peso.
Outra busca e a ajuda da IA - “ficou claro que aquilo era mantido por um agente de inteligência artificial, então usei fogo contra fogo”, justificou Massie - revelaram que os perfis dos jornalistas eram falsos e usavam avatares genéricos da Untitled UI - uma grande biblioteca de componentes para designers online.
Quem estaria por trás desta iniciativa e por quê?
A professora de jornalismo da Universidade do Texas, Talia Stroud, especialista em notícias geradas por IA, analisa que sites parecidos já foram usados para influenciar politicamente determinadas populações. “Ou são criados para gerar receitas com vendas por anúncios exibidos especificamente para cada usuário através dos cookies, ou revelam sua verdadeira intenção após conquistarem uma camada significativa do público local”, explica a acadêmica.
A busca revelou que The Austin pertencia ao grupo Nexcom Media, que mantém dúzias de sites locais no mesmo estilo, em diferentes pontos dos Estados Unidos. O país já enfrentou interferência da Rússia em seus assuntos internos, através de perfis e portais de notícias distorcidas ou falsas, impulsionadas por algoritmos que rastreiam opiniões e valores dos norte-americanos. Este era um dos receios dos pesquisadores.
Identificada a origem, Quinlan disparou uma série de perguntas para o canal de atendimento, via email - única forma de contato disponível: info@nexcom.media. Aproveitou para citar o caso da Nota News, uma rede similar de sites de notícias geradas por IA, obrigada a fechar por reproduzir conteúdos copiados sem dar os devidos créditos.
No dia seguinte, o site The Austin ganhou um novo visual. Sua cara de jornal real, com letras iguais às dos grandes veículos do país, desapareceu. Assim como os perfis falsos de jornalistas. As notícias replicadas passaram a indicar sua fonte original. Já a data de fundação sumiu e uma marca “AI-Assisted” foi adicionada à sua abertura.
Quanto à renda obtida, a resposta garantiu que será listada online, de forma transparente. Um aviso de que a Nexcom, eventualmente, poderá alcançar remuneração através dos chamados ‘IA crawlers’ (os robôs que raspam a web para treinar os modelos de LLMs para as IAs) também foi publicado na seção “Sobre nós”.
Isto chamou a atenção e levou à análise da estrutura do código do site. Embora o conteúdo fosse escasso, suas páginas dispunham de uma quantidade abundante de metatags, indicando uma intenção estruturada de influenciar diretamente o conteúdo assimilado e utilizado pelas IAs na construção de suas respostas.
Sistema em colapso
O crescimento da automação de notícias assim ‘raspadas’ e servidas diretamente por agentes de IA, sem revisão ou contextos para lhe dar sentido e profundidade, inunda a web mundial de um pseudo-jornalismo, que os robôs-indexadores para as IAs aceitam como fontes válidas.
Se estes sites automáticos forem programados ou, por erro, disseminarem histórias falsas ou distorcidas, podem fundamentar respostas para lá de enviesadas pelas confiantes IAs.
Quem não conta com a preciosa defesa de notícias locais com crivo e responsabilidade, como feito em Austin, está à mercê de fake news, mesmo que exibidas com design profissional e com supostos autores, validando sua autenticidade.
Fazer a verificação por conta própria pode ser exaustivo.
A imprensa real tem se defendido ao manter, ela própria, às suas custas, serviços de checagem com equipe de profissionais afiados e eficientes em rastrear e confirmar a origem e veracidade de fatos e afirmações.
Mas com cada vez menos anunciantes e sem um público volumoso de assinantes, por quanto tempo resistirá?
“Estou preocupado com nosso sistema de jornalismo e notícias”, declarou Oren Bracha, especialista em direitos autorais da Universidade do Texas. No ano passado, dois a trës veículos de notícias locais fecharam suas portas, a cada semana, nos Estados Unidos. “O sistema de informações locais está em queda livre em nosso país”, alertou.
Cenário favorável
No Brasil, historicamente, enfrentamos um deserto de notícias nas localidades menores. Segundo o Atlas da Notícia, produzido pelo Instituto para o Desenvolvimento do Jornalismo (Projor), 78% dos municípios sofrem com falta de notícias locais ou com a precariedade delas.
Embora em nosso país, o desenvolvimento da comunicação digital tenha facilitado o surgimento de canais locais online, que cresceram 7,7% entre outubro de 2024 e junho de 2025.
O sociólogo Dubes Sônego, professor da Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras de Ribeirão Preto (FFCLRP) da USP, em entrevista ao jornal da universidade, explicou que estes desertos criam uma lacuna entre os indivíduos e suas realidades mais imediatas. “Você tem acesso a notícias internacionais e nacionais, mas quando se trata do âmbito regional, depende do boca a boca”.
“O trabalho jornalístico é fundamental na fiscalização dos poderes, na promoção do debate sobre as políticas públicas e na informação sobre assuntos da atualidade”, afirmou ou na mesma matéria, o professor Francisco Rolfsen Belda, do Departamento de Comunicação Social da Faculdade de Arquitetura, Artes e Comunicação (Faac) da Unesp de Bauru.
A gente vive um momento de muita disseminação de fake news, de informações, senão falsas e maliciosas, muitas vezes incompletas ou incorretas. Por isso, comunidades locais podem constituir espaços para checagem e filtragem das notícias
*Com informações do Jornal da USP:
Cidades sem imprensa local sofrem com desinformação e insegurança

Neuza Árbocz - Jornalista, pioneira da Internet no Brasil, especializada em temáticas socioambientais e em treinamento de LLMs e governança de sistemas de Inteligência Artificial. Passou uma temporada em Austin, Texas, em agosto de 2026, em viagem particular.
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