Uma arena em Pinheiros. Quem pediu?

𝙑𝙚𝙧𝙤̂𝙣𝙞𝙘𝙖 𝘽𝙞𝙡𝙮𝙠 - Nas duas primeiras edições desta coluna, eu comentei como o poder público se esquiva, de formas diferentes, da mesma obrigação: ouvir a população antes das suas decisões. Em Pinheiros, isso apareceu no licenciamento de obras, sem avaliação do impacto cumulativo do barulho sobre quem já mora no bairro. Depois, apareceu na gestão do patrimônio e dos parques da cidade: decisões do Conpresp contra pareceres técnicos, conselhos gestores esvaziados do poder de deliberar, um espaço público quase rebatizado com o nome de uma marca de salgadinhos, também sem consulta alguma. Um mês depois, um terceiro episódio mostra que o padrão não é coincidência.

Atualizado em 08/08/2026 às 09:08, por Veronica Bilyk.

Ilustração criada por inteligência artificial sobre participação social

𝗩𝗲𝗿𝗼̂𝗻𝗶𝗰𝗮 𝗕𝗶𝗹𝘆𝗸 | Coluna A Cidade Humana | Envolverde

Em junho, a Prefeitura de São Paulo publicou o Chamamento Público nº CH/001/2026/SGM-SEDP. Trata-se de um Procedimento Preliminar de Manifestação de Interesse, o PPMI, para estruturar uma parceria com o setor privado. O objetivo: implantar, operar, manter e explorar comercialmente um hub de inovação, uma arena esportiva e um edifício-garagem numa área de 53.795 m² em Pinheiros, onde hoje funcionam a Subprefeitura, o recém-inaugurado Descomplica, um posto da CET, a GCM, a Inspetoria Regional e uma unidade da Vigilância Sanitária. Além disso, estão em fase de implantação e de licitação, respectivamente, uma usina de compostagem e um Ecoponto 24 horas. Batizaram o projeto de Hub Pinheiros.

Os números já estão fixados no edital. O hub de inovação terá no mínimo 8.000 m² construídos. A arena, fechada e com isolamento acústico integral, comportará entre 7.000 e 20.000 pessoas sentadas. O edifício-garagem terá no mínimo 6.000 m² de área construída, com vagas dimensionadas conforme estudo de demanda apresentado pelas próprias empresas interessadas. A Praça Victor Civita e o Hub Green Sampa, construídos sobre o antigo Incinerador Pinheiros e hoje um dos poucos espaços verdes do bairro, entram no perímetro da parceria.

Tudo isso já está decidido. Sem qualquer consulta pública antes.

As perguntas que fizemos, e o que a Comissão respondeu

Como representante do Pró-Pinheiros na Frente em Defesa de Pinheiros, protocolei um pedido formal de esclarecimentos à Comissão de Avaliação Preliminar do chamamento. Quatro perguntas: se as áreas do projeto configuram uma gleba única ou lotes distintos para fins de enquadramento urbanístico; se haverá um Estudo de Impacto de Vizinhança formal e independente, com audiência pública, antes de travar as metragens do empreendimento; se existe estudo de compatibilização entre eventos de até 20.000 pessoas na arena e o uso cotidiano da Praça Victor Civita; e se o dimensionamento de vagas vai considerar separadamente quem usa a praça hoje, para lazer, de quem viria para grandes eventos.

Praça-Victor-Civita-Auditório

A resposta chegou no prazo. E repete a mesma fórmula nas quatro respostas: por se tratar de um procedimento preliminar, ainda não há definição. Sobre parcelamento do solo, não há definição. Sobre a necessidade, o escopo ou o cronograma de um EIV formal, também não. Estudo de compatibilização entre a arena e a praça? Inexistente até aqui. Segregação da demanda de vagas entre moradores e público de eventos? Fica para depois, sem data marcada.

A Comissão esclareceu também que as Áreas 1 e 2 do projeto pertencem à mesma matrícula, somando cerca de 35.997 m², e que a Área 3 é matrícula separada, de 4.134 m². Isso quer dizer que, isoladamente, nenhuma das duas ultrapassa o limiar de 40.000 m² que, pela Resolução SMUL.ATECC.CTLU/001/2023, obrigaria loteamento ou Projeto de Intervenção Urbana para definir os parâmetros da área. Só que o edital trata a soma das três áreas, os 53.795 m² com a praça incluída, como uma única área de intervenção, para uma parceria também única. A Comissão não disse se esse tratamento unificado, para efeitos de PPP, vale também para efeitos de enquadramento urbanístico. Segue em aberto.

O padrão, outra vez

A mobilização em torno do caso avançou em mais de uma frente. No início de julho, as associações de moradores SAAP (Associação dos Amigos de Alto dos Pinheiros) e SAB (Sociedade Amigos de Boaçava) protocolaram denúncia formal pedindo a suspensão do chamamento público e a realização de audiências públicas presenciais antes de qualquer prosseguimento, com cópia ao Ministério Público, ao Tribunal de Justiça e à OAB-SP. No mesmo período, protocolei, como representante do Pró-Pinheiros na Frente em Defesa de Pinheiros, o pedido de esclarecimentos técnicos e jurídicos detalhados acima.

Em decorrência da denúncia da SAAP e da SAB, a Promotoria de Justiça de Habitação e Urbanismo do Ministério Público abriu procedimento para apurar a adequação urbanística e ambiental do Hub Pinheiros. Cita a ausência de avaliações sobre efeitos no sistema viário, na mobilidade, na drenagem, no manejo arbóreo e nos equipamentos públicos do entorno. É leitura tecnicamente mais precisa do problema do que dizer, sem mais, que o edital viola alguma norma vigente. O PPMI é, por desenho, uma fase preliminar, e isso não é o defeito. O defeito é o uso que pode ser feito dela: travar o tamanho da obra, a capacidade da arena, o volume construído, antes de qualquer estudo de impacto existir. Preliminar deveria significar que nada está decidido. Aqui, o essencial já está. É exatamente esse risco que a apuração do Ministério Público mira. Enquanto o procedimento seguir aberto, ainda há chance de reverter o que já foi travado antes da hora.
 
Essa vigilância importa porque, no Hub Pinheiros, a esquiva aparece na própria arquitetura do processo de contratação. As metragens, a capacidade da arena e os equipamentos obrigatórios já estão definidos no edital. O único estudo de impacto previsto nesta etapa é o que o próprio edital chama de "preliminar", a ser produzido justamente pelos agentes economicamente interessados no resultado. A Prefeitura afirma que, se o projeto avançar, haverá "mecanismos de transparência e participação social cabíveis" mais adiante. Não informa quando, em que formato, nem se isso ocorrerá antes ou depois de o tamanho da obra estar fechado.

Participação que chega depois da decisão não é participação. Foi assim nas obras de adensamento e, novamente, no Conpresp. O Hub Pinheiros é a versão mais

Proposta da Arena Por do Sol - Imagem criada por IA pela Prefeitura

 recente da mesma lição — só que, desta vez, o alerta chega antes de a obra começar.

O Estatuto da Cidade, lei federal de 2001, estabelece a gestão democrática como diretriz da política urbana e prevê instrumentos de participação, como debates, audiências e consultas públicas e órgãos colegiados de política urbana. O Estudo de Impacto de Vizinhança, quando exigido, também deve assegurar publicidade e acesso aos documentos produzidos. O poder público de São Paulo testa, repetidamente, até onde consegue empurrar essa obrigação para depois. Documentamos isso aqui, com nome do processo e data de protocolo.

Mas essa é só metade da história. A outra metade é nossa. Poucos moradores leram o edital do Hub Pinheiros até hoje. Menos ainda sabiam que havia prazo para pedir esclarecimentos ou que era possível provocar o Ministério Público antes de qualquer obra sair do papel. Reclamar da leniência de quem decide é fácil. Difícil é construir o hábito de ler editais, ocupar audiências públicas, cobrar respostas por escrito e se tornar um interlocutor incômodo antes que a decisão esteja pronta. Participação é músculo. Quem não usa, atrofia. E uma cidade que não treina esse músculo continua sendo surpreendida por chamamentos públicos que já chegam com o tamanho todo definido.


Verônica Bilyk é comunicadora e gestora de projetos, eleita três vezes conselheira participativa municipal da Zona Oeste e coordenadora do Pró-Pinheiros. Representa o movimento na Frente em Defesa de Pinheiros e protocolou pedido formal de esclarecimentos junto à Comissão de Avaliação Preliminar do Chamamento Público nº CH/001/2026/SGM-SEDP. @veronica.saopaulolinkedin.com/in/veronica-bilyk




 

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