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O papel do Indivíduo e da Cultura em um Novo Paradigma de Desenvolvimento

por Nilson Brandão – 

“Se você não tem consciência de como faz parte do problema, você não pode fazer parte da solução”. A citação do especialista em desenvolvimento e liderança organizacional Bill Torbert é trazida pela diretora da Techni Sustentabilidade Inclusiva, Cristina Mendonça, quando explica quais são os desafios e como lidar com a Transição para um Novo Paradigma de Desenvolvimento, título do novo curso de extensão que dará, a partir de agosto, no CCE PUC-RIO.

Mestre em Engenharia Ambiental e Urbana pela PUC-RIO, Cristina Mendonça esteve à frente por mais de 10 anos na organização C40 Cities Climate Leadership Group. Ela explica que áreas ou sistemas de conhecimento sistêmicos – como tecnologia, infraestrutura, políticas públicas, governança, finanças, pensamento sistêmico – embora importantes, isoladamente não conseguem dar conta de toda a complexidade exigida para fazer frente às interconectadas crises climáticas, de esgotamento de recursos naturais, sociais e existenciais.

As dimensões humana e cultural devem ser incorporadas nos processos de transformação, explica Cristina. “Crenças, visões de mundo, emoções, consciência, conexão social, coerência cultural se não integradas, geram o risco de apenas repetirmos padrões conhecidos. Mudar isso exige trabalho, individual e coletivo, exige ampliar perspectivas, conter situações de oposições para que algo novo emerja para sairmos dessa polarização exacerbada que cada vez mais se intensifica com resultados desastrosos”, afirma a especialista.

Abaixo, em entrevista, ela compartilha um pouco da experiência acumulada como estrategista na implementação de iniciativas globais no contexto de mudanças climáticas, cidades e desenvolvimento, além dos vetores que orientarão seu novo curso (https://bit.ly/2LAse4z). O curso será aberto a pessoas de todas áreas de atuação e formação, e incluirá áudios e filmes, além de debates e a formação de espaço virtual fechado para troca e apoio mútuo dos participantes, após o fim do curso.

Por que introduzir e sustentar mudanças é uma das questões mais importantes do momento diante dos desafios climáticos, do esgotamento de recursos naturais e das crises sociais?

Temos, há décadas, volume expressivo de informações científicas que demonstram a urgência de rever o tipo de desenvolvimento no planeta. Centenas de tratados, acordos, compromissos de governos locais, regionais e globais foram assinados. No entanto, não conseguimos implantar as ações necessárias para lidar de forma eficaz com emergência climática, para reverter o esgotamento dos recursos naturais e regenerar sistemas de poluição. A natureza humana resiste a mudanças. Introduzir e sustentar mudanças é uma arte e uma ciência, que precisa ser construída por todas as partes interessadas e não imposta. E sem um cuidadoso e estratégico plano de mudança, não chegaremos ao lugar que precisamos.

Que recursos o curso para agentes de mudança em um Novo Paradigma de Desenvolvimento utilizará?

Os recursos dizem respeito a uma combinação organizada de conhecimentos de psicologia, de neurociência, sociologia e teorias comportamentais, além das dimensões sistêmicas. De forma resumida, o curso buscará traçar marcadores que nos orientem a navegar neste complexo e contraditório território de crises e conflitos. Parte dos recursos está baseada nos elementos da Teoria Integral, teorias da mudança e do desenvolvimento adulto, além de material para trabalho em aula para debates e vivências, bem como indicações extra-aula. O curso nasceu de minha experiência e formação nas áreas de engenharias e administração com vivências nas áreas humanas e sociais.

Como as dimensões humana e cultural podem auxiliar nos processos de transformação?

Soluções sistêmicas, como tecnologia, infraestrutura, políticas públicas, governança, finanças, têm papel importante e relevante no desenvolvimento que precisamos alcançar, mas não dão conta de tudo isoladamente. E estamos vivendo as consequências disso. Historicamente, tem sido mais fácil buscar explicações e consensos em áreas fragmentadas de conhecimento, negligenciado em grande parte as “interioridades” de indivíduos e de cultura. Crenças, visões de mundo, emoções, consciência, conexão social, coerência cultural se não integradas geram o risco de apenas repetirmos padrões de diagnósticos e iniciativas conhecidas. Temos buscado atalhos, que se refletem em narrativas simplistas que criam e culpam “inimigos” pelos problemas e intensifica polarização: guerra à pobreza, combate ao aquecimento global, luta contra o

desmatamento. Resistimos a olhar para nossos próprios padrões internos e comportamentais. Mudar isso exige trabalho, individual e coletivo, para exercitar “novos músculos” e ampliar perspectivas através de contemplações e técnicas, inclusive corporais, que serão oferecidas no curso e praticadas ao longo das aulas. Os agentes de mudança do século XXI não são apenas mais habilidosos, com capacidades mais elevadas, mas incorporam essencialmente um novo modo de ser, através de uma visão de mundo mais complexa, compassiva e inclusiva. É o início de uma verdadeira jornada de transformação. É assim que tenho experimentado, em mim mesma, este processo.

Nilson Brandão Nilson Brandão é jornalista e advogado, fundador da Conteúdo Evolutivo.