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Quênia luta contra o alcoolismo em alta

Policial tenta levantar do chão um jovem alcoolizado na cidade de Nyeri, no Quênia. Foto: Miriam Gathigah/IPS
Policial tenta levantar do chão um jovem alcoolizado na cidade de Nyeri, no Quênia. Foto: Miriam Gathigah/IPS

 

Nairóbi, Quênia, 2/4/2015 – Apesar das tentativas por meio de leis de frear o consumo de álcool, o Quênia enfrenta um abuso crescente de cerveja, licores e outras bebidas alcoólicas. O consumo não diminuiu nem mesmo depois que o Ministério da Saúde e órgãos públicos, como a Autoridade Nacional para a Campanha Contra o Abuso de Álcool e Drogas (Nacada), confirmaram que os comerciantes clandestinos utilizam um líquido letal na elaboração de bebidas alcoólicas.

“Os clientes querem gastar o menos possível e beber o mais que puderem, por isso optam por bebidas ilícitas baratas”, afirmou Nduta Kamau, que produz bebidas alcoólicas caseiras em um bairro periférico de Mathare, em Nairóbi. Segundo ele, os que elaboram essas bebidas também gastam o menos possível “em tempo e dinheiro, e produzem a maior quantidade de álcool que podem”.

Os fabricantes clandestinos dos assentamentos pobres urbanos engarrafam, rotulam e vendem essas bebidas em bares de todo o país, explicou Kamau. Várias ações policiais encontraram restos de roupa íntima feminina e ratos mortos nas bebidas. A lei de Controle de Bebidas Alcoólicas de 2010 limita a venda de álcool entre 17 e 23 horas, mas os consumidores encontram formas de evitar esse toque de recolher.

Os dados obtidos pelo Euromonitor International, uma firma de pesquisa de mercado, revela que o álcool adquirido nas lojas durante o toque de recolher em dezembro de 2012 subiu 4,35%, chegando a 26,4 milhões de litros. Os clientes “se fecham nos bares e bebem durante o toque de recolher ou compram a bebida e a consomem em suas casas, expondo seus filhos ao álcool desde uma idade muito precoce”, contou Dave Kinyanjui, dono de um bar no centro de Nairóbi.

A lei de Controle de Bebidas Alcoólicas se debilitou substancialmente em 2013 com a incorporação da política do governo descentralizado. Esse sistema de autonomia significa que cada condado deve ratificar a lei, o que é uma batalha montanha acima já que vários dirigentes locais também são proprietários de bares. O aumento da bebida significa maiores ganhos para os fabricantes comerciais.

Um informe da empresa cervejeira African Breweries Limited East (EABL), de março, indica alta média de 11% nos ganhos com a venda de cerveja. Segundo EABL, o maior crescimento, de 67%, ocorreu nas bebidas de alto teor alcoólico, dirigidas principalmente às pessoas de baixa renda, e que também são alvo de muitas marcas do mercado negro.

Outro informe divulgado pelo Euromonitor International confirmou o crescimento constante do consumo de álcool, que poderia continuar com a melhora da economia “devido às boas perspectivas do setor do petróleo no Quênia e à estabilidade política”. As garrafas descartáveis e as latas fazem com que seja mais fácil levar bebida alcoólica para casa.

Uma pesquisa nacional realizada pela Nacada em 2012 mostra que o álcool é a substância da qual mais se abusa no país. Dos diferentes tipos de bebidas alcoólicas, o licor tradicional é o mais acessível, seguido de vinhos e bebidas de alto teor alcoólico, e em último lugar o “chang’aa, que significa “mate-me rápido”.

Uma análise da situação do álcool realizada em 2012 pelo escritório regional do IOGT-ONT, um movimento internacional contra o alcoolismo, concluiu que “63% das pessoas entrevistadas haviam consumido álcool e 30% consumiram mais de cinco tragos de bebida alcoólica em cada ocasião”. O estudo acrescenta que “os adolescentes entre 14 e 17 anos consomem dois tragos de álcool cada vez que bebem”.

As estatísticas oficiais revelam que o abuso de álcool e drogas é maior entre os adultos jovens de 15 a 29 anos e menor entre os maiores de 65 anos. E os menores de idade tampouco escapam do fenômeno. Segundo a Nacada, as meninas e os meninos do meio rural têm mais probabilidades de terem consumido licor tradicional e chang’aa do que as crianças de zonas urbanas.

David Ogot, coordenador nacional da organização Sensibilidade sobre o Álcool no Quênia e ex-alcoólico, disse à IPS que “o consumo excessivo costuma ser visto como um problema passageiro até que realmente foge ao controle, quando a maioria das famílias escondem a pessoa por vergonha.

As pessoas alcoólicas que querem acabar com o vício têm poucos lugares onde recorrer, segundo William Sinkele, diretor de Apoio à Prevenção e ao Tratamento dos Vícios na África. Embora o Quênia tenha mais de 70 centros de tratamento, apenas três são de gestão pública, pontuou à IPS. “É bom que tenhamos tantos centros de tratamento, mas a maioria se concentra na região de Nairóbi, e o queniano médio com um problema de álcool ou drogas não pode pagar o tratamento”, acrescentou.

Entretanto, alguns culpam por essa situação a indústria internacional do álcool, que tem uma forte presença no Quênia e minou a lei de Controle de Bebidas Alcoólicas com uma forte publicidade e promoção de eventos musicais e artísticos. A empresa de assessoria financeira KPMG destacou em um comunicado “o incrível crescimento do mercado de cerveja no Quênia”.

Segundo essa firma, a demanda aumentou, “impulsionada pelo forte crescimento demográfico, uma crescente classe média e pelo dinamismo do setor privado, a indústria cervejeira decolou de maneira impressionante, e promete um desenvolvimento ainda maior na próxima década”. Só a inflação e a alta de impostos poderiam deter esse aumento, acrescentou a companhia, ressaltando que, “para ampliar sua base de clientes, o setor investiu em suas divisões de marketing e vendas”. Envolverde/IPS