Gerardo, um migrante de primeira classe

A Espanha tem hoje mais de cinco milhões de jovens como Gerardo, sem emprego e sem futuro.

Estávamos só os dois na fileira de bancos. Era cedo ainda para os voos internacionais. Mas eu havia passado ali uma tarde inteira, depois de ter perdido o avião por conta de uma operação tartaruga dos pilotos da Ibéria. Há dias que é assim na Espanha. Praticamente todos os voos domésticos da empresa apresentam atrasos de duas horas ou mais. E o povo fica quieto, esperando. A não ser um ou outro latino que, vez em quando, se põe a gritar.

Eu ruminava a impaciência depois de um dia inteiro mofando. O aeroporto imenso era um deserto, quase nenhuma alma por ali. O rapaz estava meio sem lugar, como um desses desajeitados que parecem não caber no mundo. Identifiquei-me com o arquétipo. Estava triste, ansioso. Ora lia, ora tamborilava os dedos no banco olhando para um vazio além da enorme janela. Achei melhor puxar conversa.

Seu nome é Gerardo. Tem 29 e foi o que poderíamos chamar de “nerd” a sua vida inteira. Bom aluno em todas as fases da vida, ele fez faculdade de engenharia e pós-graduação. Agora era um migrante. É, um migrante, como esses tantos que chegam à Espanha todos os dias, da África, do Marrocos ou da América Latina em busca de vida melhor. Ia tentar a vida na Holanda. Não havia nada para ele no próprio país.

Contou-me que tinha mais dois irmãos terminando a faculdade e eles também não sabiam o que fazer. “A gente investe tanto na vida e, ao final, não há emprego”. Não queria sair da Espanha, mas não via saída. “Aqui não consigo nada e me ofereceram esse posto por lá. Vai ser duro, mas não há escolha”. Gerardo lembra que já teve preconceito contra os migrantes que via na rua. Achava que era gente de segunda ordem a perturbar a vida dos espanhóis. Mas, hoje, vendo-se na situação de ter de sair do país, percebe que havia sido injusto. “E ainda estou em melhor condição, saio com emprego.”

O jovem engenheiro branco e de olhos claros certamente não será importunado pela polícia como são os migrantes pobres na Espanha. Para se ter uma ideia do racismo que se espalha nessa Europa em crise, um dos candidatos à presidência do reino, de um partido pequeno, de direita, disse no jornal, sem qualquer prurido: “aqui nascem muitos Mohamads e temos de dar um fim a isso”. Esta é sua proposta. A Espanha tem hoje mais de cinco milhões de jovens como Gerardo, sem emprego e sem futuro. Grande parte está partindo, buscando outra vida, e os políticos cretinos põem a culpa nos migrantes.

A Europa se converte num espaço de incertezas e de vidas em ruínas. Um povo que por muito tempo viveu a bem-aventurança do Estado de bem-estar social, agora vê cair seu castelo de cartas. O candidato do PP, partido que certamente ganhará as eleições, pondo fim ao projeto do rival “socialista”, tampouco esconde seus propósitos, dizendo que o povo vai ter de fazer sacrifícios e que serão alteradas as leis de aposentadorias e laborais. E, ainda assim, as pessoas votarão nele, por acreditar que isso poderá fazê-los sair da crise. Nós, na América Latina, já conhecemos bem essa ladainha.

Gerardo gagueja e diz que votará no PP. “Acho que precisa endurecer contra a crise. Eu quero voltar.” Olhei para ele, inseguro e perdido diante dos desafios que viriam, e tive pena. Pior sentimento que se pode ter. Fui-me a tomar um vinho, pois aquele homem me tocou o coração. Arrombado e ainda acreditando na conversa da direita, a mesma que lhe arruinou a vida e que, provavelmente, arruinará a de muitos outros espanhóis, exigindo sacrifícios enquanto enche as burras.

* Elaine Tavares é jornalista.

** Publicado originalmente no site Brasil de Fato.