Histórias reais do dinheiro

O dinheiro não valia nada, mas que dava um orgulho danado ter na carteira um Drummond, um Machado (foto), um Portinari, uma Cecília Meireles isso dava.

Hoje ninguém se lembra mais, mas como era sujo o nosso dinheiro. Um horror. Sujo e frágil. De mão em mão, ele ia logo puindo, rasgava, virava um molambo qualquer. E para que continuasse ainda valendo alguma coisa, era preciso passar por uma pequena cirurgia. Juntávamos um pedacinho aqui, um pedacinho ali e íamos montando aquele quebra-cabeça. Quantas e quantas vezes o Pedro Álvares Cabral não ficou com a barba meio falha, o Almirante Tamandaré com o nariz torto e o Barão do Rio Branco com a careca rachada?

Quem não se lembra da mania do brasileiro de escrever nas velhas notas de cruzeiro? De vez em quando caia uma na minha mão. “Quem passar essa nota um dia receberá em dobro”, “Vai e volta!”, “Dê essa nota a um pobre”, e por aí vai. Às vezes ensaiavam versinhos:

Quem nessa nota pegar
E souber bem gastar
Um dia rico ficará

Nos anos de chumbo, às vezes encontrávamos notas com um tímido “Viva Marighela!”, “Fora Costa e Silva!”, ou “Abaixo a ditadura!”. De mão em mão, o dinheiro ia circulando e a ditadura nada de cair.

Dinheiro velho já valeu muito, hoje é arroz de festa. Basta dar uma circulada por qualquer feirinha de antiguidade que lá estão as notas de cruzeiro, cruzeiro novo, cruzado, cruzado novo a preço de banana. Juscelinos enfileirados ao lado de Augustos Ruschi, Deodoros da Fonseca repousando tranquilamente pertinho da Princesa Isabel e dezenas de Câmaras Cascudo jogados dentro de uma peneira velha.

Brasileiro gostava também de apelidar o dinheiro.

– Quanto custa?
– Um Barão!

E lá se ia embora um Barão do Rio Branco.

– Vai ficar em quanto o serviço?
– Um Cabral e estamos conversados.

E bye bye Pedro Álvares Cabral.

O dinheiro não valia nada, mas que dava um orgulho danado ter na carteira um Drummond, um Machado, um Portinari, uma Cecília Meireles, isso dava. Mas o Brasil era outro e esses ilustres personagens da nossa história eram desvalorizados na calada da noite. De repente não passavam de uma figurinha carimbada.

O poeta Carlos Drummond de Andrade também já foi personagem da economia nacional.

Getúlio Vargas, Princesa Isabel, Dom João VI, Tiradentes, Santos Dummont, Vital Brasil, Carlos Gomes, até Castelo Branco já valeu alguma coisa nesse país. Uns valiam mais, outros menos. Drummond, por exemplo, 50 mil cruzeiros. Já Machado, mil cruzados novos. Castelo Branco valia 5 mil cruzeiros; já Juscelino, que um dia foi cassado por ele, 100 mil! Cada um tinha o seu preço.

Um dia até um índio foi parar numa nota de 5 cruzeiros. Virou chacota. O pobre coitado estava de perfil e alguém descobriu que bastava dobrar a nota para o índio ganhar um apito na boca. E logo no ano em que o sucesso do carnaval era uma marcinha que dizia assim:

Ê, ê, ê, ê, ê, índio quer apito,
Se não der, pau vai comer!
Lá no bananal mulher de branco
Levou pra índio colar esquisito.
Índio viu presente mais bonito.
Eu não quer colar! Índio quer apito!

Brasileiro andou também guardando dinheiro debaixo do colchão, era mais seguro. Com o dinheirinho ali quietinho, dormiam tranquilos. E quando a primeira máquina Bendix chegou ao país, começamos a lavar dinheiro. Como a roupa ia direto para a máquina, quantas e quantas notas não foram lavadas com Rinso, aquele sabão em pó que deixava o branco mais branco?

Uma revista francesa, impressionada com tanta sujeira, mandou para o laboratório dinheiro de várias partes do mundo para análise. O turco foi considerado o mais sujo. É verdade, o dinheiro turco não é brincadeira. Ele cheira mal e está sempre sujo de terra, não sei por quê. Encontraram coliformes fecais em quase todas as notas de liras turcas. A solução? Quem sabe um bom banho turco para limpar o dinheiro do país de Orhan Pamuk?

* Alberto Villas é jornalista e escritor, autor dos livros “O Mundo Acabou!”, “Afinal, o que viemos fazer em Paris?”, “Admirável Mundo Velho!”, “Onde foi parar nosso tempo?” (Editora Globo) e “Carmo” (Conceito).

** Publicado originalmente no site da revista Carta Capital.