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Celular com GPS para localizar latrinas

Crianças indianas usam um latrina em uma favela de Bhudaneswar. Foto: Manipadma Jena/IPS

Nações Unidas, 29/4/2013 – O vice-secretário-geral da Organização das Nações Unidas (ONU), Jan Eliasson, surpreendeu a todos ao apresentar os seguintes números: dos sete bilhões de habitantes do planeta, seis bilhões têm telefone celular, mas apenas 4,5 bilhões possuem acesso a locais adequados para defecar. “Isto significa que há cerca de 2,5 bilhões de pessoas, majoritariamente em áreas rurais, sem saneamento”, afirmou. O mundo está saturado com uma abundância de telefones celulares, mas precisa desesperadamente de mais latrinas.

Uma ilustração no calendário de 2013 do Banco Mundial coloca os números em uma perspectiva mais divertida e concreta. O desenho um aldeão de algum rincão do mundo segurando um rolo de papel higiênico em uma das mãos e um telefone celular na outra, procurando encontrar uma latrina com seu GPS (sistema de posicionamento global). Na tela do aparelho está escrito: “Latrina mais próxima a dois quilômetros de distância”.

De todo modo, esse personagem pode se considerar com sorte, já que cerca de 1,1 bilhão de pessoas (das 2,5 bilhões que carecem de saneamento adequado) diretamente não têm outra opção a não ser defecar ao ar livre, detalhou Eliasson. Neste contexto, o Banco Mundial tenta ajudar a enfrentar os problemas de saneamento do mundo com tecnologia digital e aplicações para telefones móveis (apps).

Na semana passada, esse organismo anunciou os três ganhadores do Hackathon sobre Saneamento e Desafio de Apps, projeto de um ano de duração para desenvolver aplicações inovadoras e localmente relevantes para enfrentar o problema. “Hackaton” é um termo usado para se referir a um encontro de programadores de computação.

A Manobi, uma firma de serviços de internet e telefones celulares com sede em Dacar, desenvolve uma ferramenta de SMS (serviço de mensagens curtas) que permite a estudantes, pais e professores seguir de perto e relatar a situação de saneamento em instalações escolares.

Já a Sun-Clean, desenvolvida por uma equipe de estudantes da Universidade da Indonésia, é uma aplicação criada para ensinar às crianças boas práticas de saneamento e higiene. A aplicação inclui dois jogos: “Disposição do lixo” e “Lavagem das mãos para crianças”.

Por sua vez, a Taarifa, criada por uma equipe de desenvolvedores da Grã-Bretanha, Alemanha, Tanzânia e Estados Unidos, é uma fonte aberta de aplicações web que permite a funcionários públicos responder queixas de cidadãos sobre o fornecimento de serviços sanitários.

Consultado sobre este enfoque digital dos problemas de saneamento, Joseph Pearce, assessor técnico da organização Water Aid, com sede em Londres, disse à IPS que “essas aplicações são grandes exemplos da riqueza das inovações em TIC (tecnologias da informação e da comunicação) para melhorar a supervisão e a educação sobre água, saneamento e higiene”.

Também afirmou que essas simples ideias têm o potencial de transformar vidas. Porém, Pearce reconheceu que há desafios técnicos e de governança fundamentais para traduzir esses projetos em soluções duradouras. “As aplicações terão um papel cada vez mais importante na difusão de informação para a tomada de decisões, mas isto por si só não basta”, acrescentou.

A coleta de informação também custa dinheiro, e é preciso vontade política para financiar e atuar de acordo com as conclusões às quais se chegar. Converter a informação em decisões e ações concretas para melhorar o acesso a água e saneamento talvez seja a parte mais difícil, ressaltou Pearce.

Clarissa Brocklehurst, ex-chefe de água, saneamento e higiene no Fundo das Nações Unidas para a Infância (Unicef), disse à IPS que a falta de acesso a latrinas é um grande problema, até agora não tratado. “Temos que inovar tudo o que for possível”, destacou. Isto significa buscar inovações em tecnologia, transformações em nível institucional e mudanças nos costumes e nas formas de financiamento.

Andy Narracott, subchefe executivo da organização Water and Sanitation for the Urban Poor (WSUP), disse à IPS que a tecnologia por si só não pode resolve a crise global de saneamento. “Porém, combinando-a com especialistas em negócios, estrategistas, sociólogos e engenheiros, a real inovação pode chegar”, opinou.

As inovações tecnológicas podem ter um papel fundamental em muitos desafios relacionados com o saneamento. Por exemplo, realizando mapeamento das necessidades, identificando as brechas na cobertura, reunindo comentários dos clientes e difundindo mensagens de higiene para mudar o comportamento do público, segundo Narracott, para quem “o desafio mais importante é usar esta informação para agir”.

Narracott afirmou que o setor precisa de suficiente capacidade e financiamento para traduzir essa informação em benefícios reais para as pessoas, especialmente aquelas que vivem em áreas de baixa renda em cidades do Sul em desenvolvimento. “O desafio apenas começou. As ferramentas somente são efetivas se as pessoas sabem como usá-las. Gostaríamos que esta iniciativa agora fosse estendida a uma plataforma colaborativa global, onde muitas pessoas possam usá-la e replicá-la”, acrescentou.

Consultado sobre as críticas de que se dá maior atenção à água do que ao saneamento, Brocklehurst explicou à IPS: “Creio que, no passado, a comunidade internacional deu, de fato, mais atenção à água, e é por isso que vemos tais diferenças nos progressos. Alcançamos a meta referente à água (nos Objetivos de Desenvolvimento do Milênio) e pelo menos 89% da população mundial usa uma fonte melhorada de água, ainda que alguma possa ser de duvidosa qualidade. Contudo, apenas 63% da população mundial melhorou quanto ao saneamento, e mais de um bilhão de pessoas ainda defecam ao ar livre”. Envolverde/IPS