A importância da agenda climática para o Brasil: O clima não escolhe “bolhas” - Artigo 12

𝙁𝙚𝙧𝙣𝙖𝙣𝙙𝙤 𝙁𝙞𝙜𝙪𝙚𝙞𝙧𝙚𝙙𝙤 - Aconteceu na semana passada, em São Paulo, a Climate Week: uma semana intensa de discussões, debates e diálogos sobre o clima. Mais de 200 organizações se mobilizaram para realizar mais de 250 atividades em 30 locais diferentes da cidade, atraindo um público estimado em mais de 30 mil pessoas. O movimento coletivo, inspirado nas semanas do clima de Nova York e Londres, nasceu para conectar cidadãos, empresas, governos, investidores e ações locais, com o objetivo de compartilhar conhecimento e promover a colaboração.

Atualizado em 10/08/2026 às 17:08, por Redação Envolverde.

Imagem da Ponte Estaiada com grafismos de natureza

por 𝙁𝙚𝙧𝙣𝙖𝙣𝙙𝙤 𝙁𝙞𝙜𝙪𝙚𝙞𝙧𝙚𝙙𝙤 – Emergência Climática: E nós com isso? 

Você pode estar se perguntando: o que significa ter uma semana do clima em São Paulo e por que é importante saber sobre ela?

Para quem olha de fora, pode parecer apenas um conjunto de reuniões entre executivos, cientistas e organizações da sociedade civil discutindo um tema complexo que não nos afeta diretamente. Há quem pense que esses encontros pertencem a uma "bolha" isolada da realidade.

Mas a verdade é que os debates que aconteceram lá são extremamente práticos. De forma muito direta, eles discutem questões que impactam o nosso cotidiano: o preço do que comemos (segurança alimentar), a segurança de nossas casas frente a eventos extremos (resiliência climática) e a própria viabilidade de nossos empregos nos próximos anos.

A edição de 2026, realizada entre 3 e 7 de agosto, consolidou-se como o maior movimento climático da América Latina. Ela foi estruturada em seis eixos temáticos principais, que traduzem a complexidade da crise climática em ações práticas de mercado e de Estado:

Os eixos que fizeram parte desta semana do clima

  • Eixo I: Transição dos setores de Energia, Indústria e Transporte: debateu a descarbonização e a transformação das cadeias industriais, matrizes energéticas e sistemas de mobilidade.
  • Eixo II: Florestas, Oceanos e Biodiversidade: apresentou a importância da conservação, restauração e uso sustentável dos biomas terrestres e marinhos como pilares da agenda climática.
  • Eixo III: Agricultura e Sistemas Alimentares: trouxe discussões sobre produção regenerativa, segurança alimentar e cadeias sustentáveis de baixo carbono.
  • Eixo IV: Cidades Resilientes, Infraestrutura e Água: debateu infraestrutura adaptada, gestão hídrica e soluções urbanas para enfrentar riscos climáticos.
  • Eixo V: Desenvolvimento Humano e Social: abordou a sensível e urgente questão da justiça climática, inclusão e proteção das populações mais vulneráveis.
  • Eixo VI: Catalisadores da Implementação: focou no que realmente fará a diferença nessa jornada: financiamento, tecnologia, inovação, capacitação e fortalecimento institucional para viabilizar a agenda.

Para compreender melhor o impacto dessas discussões, vale analisar o cenário sob duas perspectivas distintas:

Para quem está dentro da “bolha da sustentabilidade”: Estamos na era da execução

Para profissionais de Sustentabilidade, ESG, investidores, cientistas e ONGs, a São Paulo Climate Week 2026 foi um marco histórico. Os debates focaram na implementação prática, um desdobramento natural dos compromissos sinalizados pela COP 30 em Belém, balizando as ações concretas que o país precisa adotar com foco em 2050.

Não basta mais assinar manifestos, declarar boas intenções ou realizar projetos pontuais e isolados. A régua subiu. As empresas que buscam perenidade precisam ampliar o olhar sobre seus riscos climáticos e adotar novas diretrizes. A TCFD (Força-Tarefa sobre Divulgações Financeiras Relacionadas ao Clima), por exemplo, oferece recomendações claras desde 2022. Embora ainda não sejam mandatórias para todos os setores no Brasil, é um caminho sem volta.

Outro ponto fundamental é validar as metas de descarbonização com base na ciência (tema que trarei em um próximo artigo) e integrar a sustentabilidade e a governança corporativa à gestão dos negócios, independentemente de seu porte. A "bolha" da sustentabilidade entendeu que o rigor técnico, com idicadores e a conformidade regulatória são as chaves para acessar recursos de grandes fundos de investimento globais, bancos multilaterais e investidores diretos. Trata-se de uma questão de sobrevivência e perenidade que deve estar na mesa de quem toma as decisões.

Para quem está fora da bolha: O que eu tenho a ver com isso?

Se você não trabalha diretamente com sustentabilidade ou em setores onde essa agenda já é rotina, pode se perguntar: por que eu deveria me importar com a Semana do Clima e seus seis eixos temáticos?

A resposta não é tão simples, mas vou trazer de uma forma que fica claro para nosso entendimento e discussões em nosso dia a dia:

  • Quando o evento debate segurança hídrica, está discutindo se haverá água na sua torneira e energia elétrica na tomada sem que a sua conta de luz dispare por conta de bandeiras tarifárias vermelhas.
  • Quando debate a transição energética nos transportes, está falando sobre reduzir a poluição do ar que causa doenças respiratórias para a população e em seus filhos.
  • Quando debate a socio bioeconomia, está falando sobre manter a floresta em pé para regular o regime de chuvas que irriga as lavouras, evitando que o preço dos alimentos dispare no supermercado. Dentre outros exemplos concretos. 

Tudo está interconectado. Não dá mais para viver à parte dessa realidade.

As mudanças climáticas deixaram de ser uma previsão distante para o fim do século; elas já impactam o nosso cotidiano. Participar, compreender e exigir que governos e empresas locais apliquem soluções baseadas no "Princípio da Precaução" é fundamental para todos nós. Olhar para os temas da Climate Week de forma ampla e entender as conexões é, no fundo, exercitar a nossa cidadania, como mencionei na coluna anterior.

É urgente co construir o amanhã

A conexão entre esses dois mundos, do rigor técnico, com novas tecnologias e formas de negócios da "bolha" é a realidade prática do dia a dia em muitos negócios no Brasil e no mundo, e é o que dará concretude à transformação. Ela permite que nós, brasileiros, colaboremos com projetos sustentáveis e cobremos as mudanças necessárias para garantir qualidade de vida para todos.

A São Paulo Climate Week prova que o Brasil tem as soluções, a tecnologia e a natureza a seu favor. Agora, cabe a cada um de Nós, dentro ou fora da bolha, garantir que essas soluções saiam dos painéis de debate e dos projetos-piloto isolados para moldar as ruas, as leis e a economia do nosso país.

Afinal, o clima não escolhe bolhas para transformar e no fim das contas, todos compartilhamos a mesma e única bolha: o nosso planeta. Diante disso, a provocação que deixo é: o que faremos com essa realidade que estamos vivendo? O amanhã ainda é uma escolha, mas o posicionamento precisa ser imediato.

Boa reflexão!

Organizações e Referencias 

TCFD - Força-Tarefa sobre Divulgações Financeiras Relacionadas ao Clima 

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Fernando Eliezer Figueiredo atua há mais de 30 anos em sustentabilidade, clima e desenvolvimento sustentável. Teve passagens marcantes como diretor do CDP na América Latina, head de Sustentabilidade da Schneider Electric Brasil e presidente da Câmara de Energia e Clima do CEBDS. Atualmente é consultor na Thinker & Associados, diretor de conteúdos de sustentabilidade na Miração Filmes, professor, curador e empreendedor. Como Líder da Realidade Climática, dedica-se a projetos estratégicos, educativos e audiovisuais para ampliar a consciência climática e traduzir essa agenda para públicos além da "bolha" da sustentabilidade.

Envolverde


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