A Sucessão da ONU e a Urgência do Multilateralismo

A eclosão da Segunda Guerra Mundial demonstrou o preço devastador do nacionalismo agressivo e do expansionismo sem limites. Foi do trauma acumulado sobre as ruínas desse conflito que a humanidade compreendeu que a paz sustentável jamais seria mantida pela força das armas ou por alianças unilaterais. Em resposta a essa tragédia, fundou-se a Organização das Nações Unidas, um projeto civilizatório baseado no império do direito internacional, no diálogo e na cooperação entre as nações.

Atualizado em 06/08/2026 às 11:08, por Redação Envolverde.

Foto do plenário da Assembleia Geral da ONU

por Redação Envolverde - 

Nessa arquitetura nascente, a diplomacia brasileira desempenhou um papel estruturante na consolidação do diálogo global. Desde 1947, quando Osvaldo Aranha presidiu a Primeira Sessão Especial da Assembleia Geral, o Brasil assumiu a responsabilidade histórica de proferir o discurso de abertura do debate geral, estabelecendo-se como uma voz independente em defesa da solução pacífica de controvérsias. Essa atuação não se restringiu à diplomacia política em Nova York, mas expandiu-se para as agências especializadas da ONU, compreendendo que a paz depende do combate às causas profundas dos conflitos. A liderança de José Graziano da Silva na FAO transformou a segurança alimentar em prioridade internacional; a gestão de Roberto Azevêdo na OMC buscou proteger o comércio global contra o protecionismo unilateral; e o legado pioneiro de Bertha Lutz na inclusão da igualdade de gênero na Carta Fundadora ecoou nas atuações do país na UNESCO e na OMS.

Contudo, ao longo das últimas décadas, a reemergência de discursos nacionalistas e o retorno da competição geopolítica entre as grandes potências enfraqueceram esse edifício multilateral. Essa regressão ideológica causou o travamento do Conselho de Segurança da ONU, no qual o uso sistemático do direito de veto pelos seus membros permanentes paralisou a capacidade da organização de intervir em violações territoriais e crises humanitárias.

A impotência do Conselho de Segurança

A consequência direta dessa paralisia institucional é a erosão da autoridade moral das Nações Unidas perante as guerras contemporâneas. Sem um Conselho capaz de agir, a agressão militar na Ucrânia prossegue sem solução diplomática, a devastação no Oriente Médio atinge proporções catastróficas e os conflitos no continente africano — como no Sudão e na República Democrática do Congo — permanecem relegados ao esquecimento geopolítico. A impotência da diplomacia oficial alimentou o descrédito público na eficácia do próprio multilateralismo.

É no ápice dessa crise de governança que se insere o término do mandato de António Guterres no final de 2026. A escolha do próximo Secretário-Geral para o período 2027-2031 deixa de ser uma formalidade burocrática e torna-se um ponto de inflexão decisivo: a oportunidade de resgatar a liderança moral da organização ou consolidar sua irrelevância. Esse cenário impulsiona a exigência por uma candidatura vinda do Sul Global, com forte respaldo da América Latina e do Caribe (GRULAC), e pela eleição inédita de uma mulher para o topo da diplomacia mundial.

As candidaturas para sucessão de Antônio Gutierrez

Os perfis em debate surgem como respostas diretas às diferentes dimensões da crise global. Rebeca Grynspan (Costa Rica) traz a urgência da justiça financeira e do desenvolvimento sustentável frente ao colapso econômico dos países vulneráveis; Michelle Bachelet (Chile) encarna a defesa intransigente dos direitos humanos e a coragem política frente a regimes autoritários; Carolyn Rodrigues-Birkett (Guiana) coloca a sobrevivência climática dos Pequenos Estados Insulares no centro da agenda; María Fernanda Espinosa (Equador) oferece a maestria nos trâmites da diplomacia parlamentar; e Rafael Grossi (Argentina) traz a experiência prática de gestão de riscos em cenários de guerra e não proliferação nuclear. Simultaneamente, candidaturas africanas como a de Macky Sall (Senegal) e Olara Otunnu (Uganda) reforçam que não haverá estabilidade global enquanto o continente africano continuar fora dos centros de decisão.

Antonio Gutierrez, Secretário Geral Da Organização das Nações Unidas - ONU

Para que a mudança de liderança recupere a autoridade moral da ONU, o novo Secretariado precisará converter a legitimidade desses perfis em reforma institucional efetiva. Isso exige transferir o eixo de decisões de segurança para a Assembleia Geral por meio da resolução "Unidos para a Paz", democratizar a composição do Conselho de Segurança com assentos permanentes para a África e a América Latina e garantir a independência da ajuda humanitária. Somente ao rearmar o multilateralismo contra o nacionalismo agressivo — resgatando a tradição de diálogo iniciada pela diplomacia brasileira e pelos países fundadores — as Nações Unidas poderão provar que seu propósito original continua vivo e indispensável para a preservação da paz.

(Envolverde)


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