Além das flores: A masculinidade tóxica e a guerrilha contra as mulheres

𝗗𝗮𝗹 𝗠𝗮𝗿𝗰𝗼𝗻𝗱𝗲𝘀 - O 8 de março expõe a ferida de uma sociedade doente: a violência contra a mulher como subproduto da insegurança masculina e da exclusão feminina no poder. Superar o recorde de feminicídios exige mais que leis; demanda mulheres na decisão para que a segurança deixe de ser um ponto cego institucional.

Atualizado em 06/03/2026 às 11:03, por Dal Marcondes.

desenho de uma pessoa segurando um revolver com flores no cano

𝗣𝗼𝗿 𝗗𝗮𝗹 𝗠𝗮𝗿𝗰𝗼𝗻𝗱𝗲𝘀 𝗲𝘀𝗽𝗲𝗰𝗶𝗮𝗹 𝗽𝗮𝗿𝗮 𝗮 𝗘𝗻𝘃𝗼𝗹𝘃𝗲𝗿𝗱𝗲 - 

O 8 de março no Brasil de 2026 ainda luta para se desvencilhar de uma estética de celebrações vazias. Enquanto vitrines se enchem de flores e mensagens sobre "delicadeza", os relatórios de segurança pública pintam um cenário de guerra de baixa intensidade contra o corpo feminino. Ao retirarmos o filtro de romantismo das homenagens, deparamo-nos com uma realidade crua: a violência contra a mulher não é um erro do sistema, mas um subproduto de uma sociedade onde a liderança e a justiça ainda falam em voz masculina.

A Anatomia do "Não": A Fragilidade Masculina como Arma

Especialistas em psicologia social e segurança pública convergem para um diagnóstico perturbador: a escalada da violência está intrinsecamente ligada à inabilidade de uma geração de homens em lidar com a autonomia feminina. O feminicídio, em sua essência, é o crime do controle.

"O que vemos é uma masculinidade construída sobre a posse. Quando essa posse é questionada por um 'não', a estrutura psíquica de muitos homens colapsa, recorrendo à violência como ferramenta de reafirmação de poder", analisam sociólogos do Fórum Brasileiro de Segurança Pública (FBSP).

Essa "doença social" manifesta-se em números que desafiam qualquer discurso de progresso: um feminicídio ocorre a cada seis horas no país, e os registros de estupro ultrapassam a marca de 75 mil por ano — em sua esmagadora maioria, as vítimas são crianças e adolescentes, evidenciando que a vulnerabilidade começa na infância.

O Ponto Cego das Instituições

A fragilidade da segurança feminina é o resultado direto de um sistema desenhado por quem não vivencia o medo cotidiano do assédio. Como apontam dados do IDS Brasil, a ausência de mulheres nos centros de tomada de decisão gera uma "miopia de gestão".

Quando os conselhos de segurança, os comandos das polícias e as comissões parlamentares são compostos quase exclusivamente por homens, as políticas públicas tendem a ser reativas e burocráticas. Falha-se em entender a dinâmica do ciclo da violência porque, para quem decide, a dor da agressão é uma estatística, não uma experiência de pele.

O Judiciário e o Orçamento: Onde a Lei Falha

No Poder Judiciário, a assimetria de gênero nos tribunais superiores impacta diretamente a aplicação da Lei Maria da Penha. Uma justiça que não espelha a diversidade da sociedade corre o risco de "romantizar" conflitos domésticos ou, pior, revitimizar mulheres em audiências sob o manto de uma neutralidade que, na prática, é masculina e conservadora.

Já no Executivo, a ausência feminina traduz-se em orçamentos que ignoram a "infraestrutura do cuidado". A segurança feminina no município — onde a vida acontece — depende de transporte público iluminado, patrulhas Maria da Penha robustas e creches em tempo integral que garantam autonomia econômica. Sem mulheres na Secretaria da Fazenda ou no Planejamento, esses itens são frequentemente relegados a "gastos secundários".

Sustentabilidade é Segurança

Para a Envolverde, a sustentabilidade não se restringe à preservação de rios e florestas; ela pressupõe a gestão de recursos humanos sem comprometer a integridade física de metade da população. Uma sociedade que conta corpos em vez de celebrar conquistas é, por definição, insustentável.

Garantir mulheres em papéis de decisão não é um ato de caridade ou uma cota de diversidade; é uma medida de sobrevivência institucional. Enquanto as cúpulas do poder forem espaços de silenciamento, o chão continuará a ceder para milhões de brasileiras.

Um Chamado à Responsabilidade Coletiva

A carga da mudança não pode repousar apenas nos ombros femininos. A segurança pública e a reforma das masculinidades são obrigações da função pública e um dever dos homens. Políticas de cotas, mecanismos de proteção contra a violência política de gênero e uma educação voltada para a equidade são ferramentas de urgência.

Neste 8 de março, a pergunta que fica para os gestores e para a sociedade é: quantas vidas seriam salvas se o poder de decisão estivesse em mãos que conhecem o valor da preservação e da vida?
 


Envolverde


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