
por Fernando Figueiredo - Coluna Envolverde – Emergência Climática: E nós com isso?
Vou retomar pontos que coloquei em minhas colunas anteriores ao longo dos últimos meses, para chegar a este tema delicado que hoje se apresenta. A realidade climática está trazendo mudanças e transformações reais, afetando a vida de muitas pessoas. Talvez você e eu não tenhamos sido muito afetados, mas uma parcela considerável de brasileiros já foi.
O porquê do nome da coluna — Emergência Climática: e Nós com isso?
O paralelo vem da linguagem médica universal quando se fala de risco. Ela explica com clareza a forma de atuação que precisa ser realizada com base no estado do paciente, nos sintomas e no diagnóstico observado, que demandam uma ação e classificação em três frentes: Eletivo, Urgência ou Emergência.
Eletivo é algo que pode esperar. Uma cirurgia programada, uma consulta agendada. Nada crítico.
A Urgência, que exige atenção rápida. Não há risco imediato de morte, mas precisa de cuidado em horas, no máximo no dia seguinte.
Já a Emergência, por sua vez, é outra coisa: é risco imediato de vida. É intervenção e cuidados já. É o vermelho piscando. É, faça agora, ou haverá consequências graves para a vida da pessoa.
E é exatamente aí que entra este assunto da Ansiedade Climática, com o vermelho piscando. Uma parcela considerável da nossa sociedade brasileira e mundial tem vivenciado suas consequências em eventos climáticos que acontecerem em seu território, perdem suas casas, coisas e suas histórias.
Não quero ser ou sou catastrofista. São realidades que temos visto acontecer em nosso país e no mundo pelos veículos de comunicação. Como estamos aqui, vamos cuidar do que é nosso, do nosso país e de um futuro melhor para todos?
Segundo estudos, 42% dos brasileiros já foram afetados direta ou indiretamente por algum evento climático. São aproximadamente 90 milhões de brasileiros. E aí pergunto, como ficamos Eu, Você, Nós com isso? Estas pessoas já viveram ou vivem na Emergência Climática. Quantos outros vamos deixar entrar nesta sala?
Uma caminhada contribuindo com a agenda do Desenvolvimento Sustentável
Tenho uma caminhada de 32 anos trabalhando pelo Desenvolvimento Sustentável no Brasil e 19 nesta agenda das mudanças climáticas. Quando me perguntam sobre uma visão de futuro, digo que sou um "realista com informação". Sei que temos as soluções para as questões que enfrentamos hoje, porém estamos seguindo um caminho que não nos levará rápido a elas.
Urge realinharmos o curso, a direção e a velocidade do que temos feito. Caminhamos muito, mas a visão de curto prazo, a desinformação e a agenda contrária são grandes e têm poder. Isso tem nos levados para um caminho desalinhado da realidade que precisamos seguir, com uma visão limitada e pouco estratégica para o Brasil.
Trouxe nestes últimos meses temas que não são muito conhecidos até para muitos de dentro da "bolha da sustentabilidade" ... muito menos fora dela. E este é um dos desafios que me coloco com esta coluna: levar informações e conhecimento disponível de uma forma menos técnica, mais clara e reflexiva, para que mais pessoas possam conhecer e entender os desafios que temos pela frente.
Como já coloquei, temos hoje as soluções de que precisamos para mudar este quadro. Porém, é necessário um processo de consciência, ação e transformação de um grupo maior da sociedade. É urgente que entendamos que esta agenda, com papéis e responsabilidades diferentes, é de Todos.
Uma breve retrospectiva
Nesta coluna, compartilhei sobre a Emergência Climática, diversas organizações de referência com seus links para pesquisa e conhecimento como o Climate Reality Project, os desafios da Justiça e dos Direitos Climáticos. Sobre a Carta da Terra, um manifesto de valores e princípios para o nosso futuro, que sugiro a todos lerem. Sobre Mitigação, Adaptação e Resiliência Climática, que todas as nossas cidades precisam aprimorar em várias frentes.
Também trouxe as Soluções Baseadas na Natureza (SBN). Se são soluções da natureza, são bem-vindas. De acreditar na Ciência, na nossa Constituição e no nosso papel como cidadãos.
A importância estratégica da agenda climática para o Brasil, do nosso maior capital, o ambiental, sendo dilapidado por algumas pessoas e decisões. O que isso tem destruído de valor do nosso patrimônio?
Por fim, falei sobre Inventários de Carbono e metas baseadas na ciência — Science Based Targets initiative (SBTi) , que organizações no Brasil e no mundo têm adotado para colocar metas consistentes, com critérios científicos, alinhando-se à construção de uma agenda sustentável com visão de médio e longo prazo.
Trago este resumo, pois dentro dos diversos temas contidos no Desenvolvimento Sustentável, as mudanças climáticas têm um papel relevante. Os temas que já trouxe são uma parte pequena e importante para o conhecimento de todos. Existem ainda muitas outras frentes, ações, projetos e movimentos importantes nesta agenda, com players de peso que seguirei trazendo no decorrer do tempo.
Pode surgir uma pergunta na sua cabeça, vivemos hoje a Urgência Climática?
Respondo que depende! Mas não, não estamos na Urgência Climática em todas as frentes ... ainda, e desejo que não cheguemos a esse extremo! Não precisamos. Temos as soluções. Estamos vivendo na Emergência Climática, na antessala da Urgência em sua grande maioria de frentes!
Mas com nossos jovens, a Urgência já está se apresentando.
A Ansiedade Climática já afeta muitas pessoas e uma parcela grande dos nossos jovens, aqui no Brasil e no mundo. É um alerta que merece atenção especial. Estamos vendo muitos jovens, que serão o futuro do nosso país, ficando doentes, preocupados ou muito preocupados com as questões climáticas, sem uma visão clara do que está acontecendo e de como serão afetados pelo clima daqui para frente. Sem falar nos jovens que vivem ou já viveram episódios climáticos em suas vidas, na sua grande maioria, moradores de periferias das grandes cidades e regiões empobrecidas do nosso país.
O que é a Ansiedade Climática
A ansiedade climática, ou ecoansiedade, é definida pela Associação Americana de Psicologia (APA) como o medo crônico de um cataclismo ambiental, caracterizado por angústia, tristeza, desamparo, culpa e apreensão constante em relação ao futuro do planeta e à sobrevivência das próximas gerações.
Estamos diante de um "transtorno novo", do nosso tempo. Diferente de um transtorno psiquiátrico clássico, a comunidade médica internacional a reconhece não como uma patologia intrínseca, uma condição de doença ou alteração anormal que se origina no interior do próprio organismo, do indivíduo, mas como uma resposta emocional racional e adaptativa diante de uma ameaça existencial real. Quando atinge níveis agudos, pode provocar insônia, paralisia funcional, depressão e sintomas somáticos, o que temos visto em alguns dos nossos jovens.
Para algumas pessoas, principalmente aquelas que já sofreram com queimadas, enchentes, inundações ou outras situações traumáticas relacionadas às mudanças climáticas, gatilhos cotidianos podem ser devastadores. O som de um raio durante uma chuva forte, por exemplo, pode desencadear uma série de sensações desconfortáveis como a falta de ar, suor excessivo, mal-estar e outros sintomas que caracterizam uma crise de ansiedade, para aquela pessoa.
A ansiedade relacionada a questões ambientais é um problema de saúde mental que vem sendo reconhecido e estudado por especialistas. É uma realidade hoje, infelizmente! E está entrando na zona da Emergência.
É o que está acontecendo neste momento no Brasil e no mundo. Sei que temos as soluções, mas estamos deixando a vida seguir, o tempo passar, e uma parcela grande da população brasileira e mundial pagar caro e viver situações que não seriam necessárias se fossem analisados previamente e seriamente os riscos e as oportunidades climáticas de cada região e território.
Uma reflexão final
Este é um artigo sobre uma situação delicada que está aflorando em nossa sociedade, a ansiedade climática, e trago para nossa reflexão, principalmente para nós que estamos na "bolha da sustentabilidade" há mais tempo a pergunta se não está na hora de unirmos esforços, recursos e cabeças para construir um Plano de Estado com as perspectivas e fundamentos do Desenvolvimento Sustentável para os próximos 20, 50 anos pensando em todas frentes ... Para nossos jovens, para nós, para nossa sociedade, nosso meio ambiente e nossa economia ... alguns podem pensar que é utópico ... será? Penso ser necessário e estratégico!
Boa reflexão!
Organizações e Referencias
Estudo Internacional sobre Ansiedade Climática - Climate anxiety in children and young people and their beliefs about government responses to climate change: a global survey
Climate anxiety in children and young people and their beliefs about government responses to climate change: a global survey - The Lancet Planetary Health https://www.thelancet.com/journals/lanplh/article/PIIS2542-5196(21)00278-3/fulltext
Matéria Fio Cruz
Ecoansiedade: como lidar com o medo de catástrofes ambientais? - Invivo https://invivo.fiocruz.br/clima/ecoansiedade/
Matéria USP
Ansiedade climática: caminhos ainda a serem explorados pela ciência – Governança Ambiental https://sites.usp.br/govamb/ansiedade-climatica-caminhos-ainda-a-serem-explorados-pela-ciencia/
Carta da Terra: A CARTA DA TERRA
Site carta da terra - https://cartadaterrainternacional.org/leia-a-carta-da-terra/
_______________________________________________________________________________________________________________________

Fernando Eliezer Figueiredo atua há mais de 30 anos em sustentabilidade, clima e desenvolvimento sustentável. Teve passagens marcantes como diretor do CDP na América Latina, head de Sustentabilidade da Schneider Electric Brasil e presidente da Câmara de Energia e Clima do CEBDS. Atualmente é consultor na Thinker & Associados, diretor de conteúdos de sustentabilidade na Miração Filmes, professor, curador e empreendedor. Como Líder da Realidade Climática, dedica-se a projetos estratégicos, educativos e audiovisuais para ampliar a consciência climática e traduzir essa agenda para públicos além da "bolha" da sustentabilidade.
Envolverde



