Bibliotecários, Bibliotecas e a Tecnologia

𝙎𝙖𝙢𝙮𝙧𝙖 𝘾𝙧𝙚𝙨𝙥𝙤 - Bibliotecas são espaços nobres, de cultura, arte e paz. No entanto, Samyra nos lembra que mais de 6 mil delas foram fechadas nos últimos anos por falta de recursos ou por falta de bibliotecários.

Atualizado em 13/03/2026 às 19:03, por Samyra Crespo.

por Samyra Crespo - 

No 12 de março foi comemorado o  'Dia do Bibliotecário'.*

O mais famoso deles, o poeta e escritor argentino Jorge Luís Borges, dizia que a imagem mais perfeita do paraíso, para ele, era uma biblioteca.

Tendo a concordar.

Ali onde o conhecimento, a diversão e a imaginação dos humanos se acham armazenadas, catalogadas, classificadas, à espera de leitores e do garimpo dos pesquisadores.

Há três décadas (trinta anos só!) o sonho de toda escola era ter uma pequena biblioteca, a dos municípios progressistas também. Livraria e bibliotecas significavam acesso, educação continuada, entretenimento de qualidade, democratização da cultura.

Mas a tecnologia mudou drasticamente essa realidade. As 'bibliotecas' e acervos digitais tendem a substituir as bibliotecas físicas, utilitárias. Muitos bibliotecários se tornaram digitadores e curadores de coleções digitais.

Pesquisa on-line está na ordem do dia.

Cada vez mais as grandes bibliotecas, nacionais e estaduais viram grandes acervos congelados em nosso país. Aqui e ali se verifica uma tentativa de tornar tais espaços 'pontos de cultura', com programação que combina turismo cultural, eventos com autores, clubes de leitura, 'contação de histórias ' para crianças.

Recentemente, mais de 6.000 bibliotecas municipais foram fechadas: falta de recursos para mantê-las, falta de mão de obra especializada, pouca frequência de leitores...

Pesquisas do IBGE e do Instituto Nacional do Livro (INL) atestam que pouco mais de 10% dos municípios brasileiros (hoje em torno de 5.500) possuem livrarias. E mesmo esses 10% incluem livrarias religiosas (evangélicas, espíritas e católicas).

As políticas de incentivo à leitura em nosso país são tímidas ou sofrem por falta de uma comunicação eficiente. O que você sabe delas?

A indústria cultural e as editoras desenvolveram uma estratégia: promovem as feiras de livros pelo país, festivais literários, clubes de leitura, onde o livro se mistura a shows e outros tipos de entretenimento - um parque de diversões.

Por outro lado, centenas de 'influencers' e celebridades falam de livros, livrarias e recomendam autores. É 'in' possuir livros e ir aos lançamentos. Alavanca vendas e reacende o interesse dos jovens pela leitura.

Também firma-se a tendência de transformar grandes obras da literatura em séries de TV ou streaming, algumas bem cuidadas e dignas de nota: caso das recentes 'Cem Anos de Solidão', 'Pedroso Páramo' e 'Como Água para Chocolate', no caso da literatura latino-americana e 'O Gattopardo' no caso da europeia, entre outras.

Voltando aos bibliotecários, quem vai se arriscar a cursar biblioteconomia e aspirar a se tornar um profissional desse ramo? Quem quer ter uma profissão que o levará ao desemprego ou à baixa remuneração?

Procure com luz acesa cursos de pós-graduação nessa área. Cada vez mais raros.

As bibliotecas tradicionais se tornam museus, como pássaros empalhados, caso do Gabinete Portuguez de Leitura, no Rio, e outras que estão deteriorando em conventos e universidades (como a de Coimbra em Portugal, ou a de Estoril, na Espanha).

Bibliotecas especializadas, e lembro aqui a do Museu de Astronomia e a de Manguinho (Instituto Oswaldo Cruz) cada vez mais lançam suas coleções on-line e o número de bibliotecários diminui a olhos vistos.

Fomos, nós que temos idade superior a 50 anos, usuários ou 'ratos' de biblioteca. Além de não termos dinheiro para comprar todos os livros de que necessitavamos no ensino médio e superior (muitos deles em língua estrangeira), gostávamos do ambiente disciplinado e silencioso dos salões de leitura: favoreciam a concentração.

A belissima Biblioteca Nacional, na Cinelândia no Rio, era uma verdadeiro templo de pesquisa e leitura. O mesmo ocorria com a Biblioteca Mário de Andrade no centro de São Paulo.

Este tempo se foi. E o mais triste, as bibliotecas privadas, que antes eram doadas às universidades ou ao poder público, cada vez mais são destinadas aos sebos que desmontam as coleções e dispersam os tesouros duramente conquistados ao longo de anos.

Então, neste 12 de março, mesmo com poucas razões para celebrar, parabenizamos todos os bibliotecários e bibliotecários do país.

Vocês são verdadeiros 'heróis da resistência' num mundo em que provavelmente teremos robôs entregando livros aos usuários nas poucas bibliotecas públicas que restarem.

Muito brevemente!

Samyra Crespo

* A data foi instituída em 1980 para homenagear Bastos Tigre, o primeiro bibliotecário concursado do Brasil, no dia de seu nascimento. Ele foi, além de bibliotecário, escritor, cronista, teatrólogo e deixou imenso legado cultural, pouco conhecido hoje em dia.

 


Samyra Crespo

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