Brasil perde R$ 14 bilhões ao ano — e enterra o que vale ouro
Reinaldo Canto - O Brasil produz, todos os anos, dezenas de milhões de toneladas de resíduos sólidos urbanos — algo em torno de 81 milhões de toneladas de lixo, o equivalente a mais de 1 quilo por dia por habitante. Desses montantes, apenas uma fração é reciclada; a maior parte segue para aterros, lixões ou simplesmente desaparece na paisagem das nossas cidades.

Por Reinaldo Canto, especial para a Envolverde -
A peda financeira que hoje assombra gestores públicos, ambientalistas e economistas é este: cerca de R$ 14 bilhões por ano deixam de ser ganhos porque o país não recicla adequadamente os materiais que poderiam voltar à economia — papel, plástico, vidro, metal e outros.
Esse valor não é abstrato. É dinheiro que, se aproveitado, poderia virar emprego, renda, inovação e competitividade para setores industriais e comunidades inteiras — especialmente as associações de catadores que, hoje, sustentam a economia da reciclagem com muito suor e pouca estrutura.
O Brasil recicla pouco — e paga caro por isso
Os números jogam luz sobre um problema crônico: o índice de reciclagem do país é extremamente baixo. Segundo dados de entidades que acompanham o setor, entre 4% e 8% dos resíduos gerados são efetivamente reaproveitados — um patamar muito inferior não só ao potencial nacional, mas também à média de países com economia semelhante ou até menores.
Em comparação, na Alemanha o índice de reciclagem supera os 60%, e países como Chile e Argentina chegam a taxas na casa dos 16%.
O resultado dessa negligência é claro: materiais que poderiam retornar ao ciclo produtivo — como plástico, que representa milhões de toneladas de resíduos — acabam sendo descartados junto com o lixo comum.
Por que o Brasil não recicla mais?
As explicações são múltiplas e entrelaçadas:
- Falta de infraestrutura pública: muitas cidades ainda não têm coleta seletiva organizada, centros de triagem ou sistemas de logística reversa estruturados.
- Baixo engajamento da população: sem uma cultura forte de separação e descarte responsável, grande parte do material reciclável sequer chega às mãos de quem pode reaproveitá-lo.
- Mercado pouco atrativo: diferenças tributárias, preço baixo de matérias-primas virgens e dificuldade de integração de reciclados nas cadeias produtivas reduzem o interesse da indústria.
- Políticas públicas insuficientes: a Política Nacional de Resíduos Sólidos, sancionada há mais de uma década, ainda não conseguiu virar realidade em escala nacional — e o prazo para acabar com os lixões foi repetidamente adiado.
Impactos ambientais e sociais
O impacto vai além da balança econômica. A destinação inadequada de resíduos contamina solos e águas, libera gases de efeito estufa e agrava problemas de saúde pública em comunidades ao redor de lixões e aterros mal geridos.
E enquanto bilhões são enterrados no solo junto com garrafas, plásticos e papéis, catadores — os protagonistas invisíveis da reciclagem — lutam para sobreviver com pouca proteção social e renda instável, representando uma face humana do desperdício estrutural.
Uma oportunidade histórica perdida
Especialistas apontam que, se o Brasil adotasse estratégias efetivas de economia circular — reaproveitando resíduos como matéria-prima, reformulando tributos e investindo em tecnologia — o cenário poderia mudar radicalmente. Estudos sugerem que cada ponto percentual de aumento na reciclagem pode criar milhares de empregos diretos e gerar mais riqueza no longo prazo.
Alguns setores até projetam que, com incentivos, o Brasil poderia estar extraindo centenas de bilhões de reais por ano em valor econômico de resíduos recicláveis — transformando o que hoje é problema em ativo estratégico.
O que o país perde — e o que poderia ganhar
Perdemos bilhões todos os anos simplesmente por não transformar o que é lixo em matéria-prima valiosa. Perdemos empregos, desenvolvimento tecnológico, autonomia econômica — e, acima de tudo, deixamos de enviar uma mensagem clara sobre o tipo de sociedade que queremos construir.
No fundo, trata-se de decidir: vamos continuar enterrando valor no solo — ou vamos começar a recuperar oportunidades para o Brasil crescer de forma mais justa, sustentável e eficiente?

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