O peso da água exportada na balança comercial brasileira

Dal Marcondes - O Brasil é frequentemente celebrado pelos recordes sucessivos de safra e exportação, com o agronegócio alavancando o PIB nacional. No entanto, por trás das cifras bilionárias, existe um insumo invisível (finito e sob grandes riscos climáticos) que sustenta essa engrenagem: a água.

Atualizado em 06/02/2026 às 17:02, por Dal Marcondes.

Ilustração que mostra seca e água.

Por Dal Marcondes, com dados do SEI (Stockholm Environment Institute), MapBiomas, ANA (Agência Nacional de Águas) e Embrapa - 

Dados recentes revelam que a pecuária brasileira consome, anualmente pouco mais de 10 bilhões de metros cúbicos de água. Para se ter uma dimensão do que isso representa, esse volume supera o consumo somado das populações de São Paulo, Rio de Janeiro, Bahia, Paraná e Distrito Federal.

Essa estatística coloca em xeque a percepção de que a água é um recurso inesgotável em solo brasileiro. Quando o gado consome mais água do que as maiores metrópoles do país, a gestão hídrica deixa de ser uma pauta meramente ecológica para se tornar uma questão estratégica de segurança nacional.

A conexão e soja

Se a pecuária impressiona pelo consumo direto, a produção de soja eleva a escala para níveis monumentais. As lavouras do grão, principal commodity da nossa pauta exportadora, utilizam entre 188 e 206 bilhões de metros cúbicos de água por ano. Esse montante equivale a aproximadamente sete reservatórios do porte de Itaipu.

Embora a soja brasileira seja predominantemente "sequeira" (dependente da chuva e não de irrigação artificial), essa característica não diminui o risco; pelo contrário, a acentua. O sistema produtivo está intrinsecamente amarrado à regularidade do ciclo hidrológico. Sem a "irrigação natural" vinda do céu, o modelo colapsa. A vulnerabilidade é direta: qualquer alteração no regime de chuvas, provocada pelo aquecimento global ou pelo desmatamento regional, atinge o coração da economia agrícola.

Bacias em risco de exaustão

A análise geográfica do uso da água revela que os grandes polos exportadores estão concentrados em bacias hidrográficas que já operam no limite. As regiões do Paraná, Tocantins-Araguaia, Amazônica e São Francisco enfrentam um conflito silencioso pelo uso da água.

Na pecuária, um agravante técnico é a eficiência: uma parcela significativa da água se perde por evaporação em bebedouros e reservatórios abertos destinados ao gado. Essa perda "passiva" reduz drasticamente a disponibilidade hídrica para ecossistemas a jusante e para o consumo humano, criando um cenário de escassez mesmo em regiões historicamente ricas em rios.

O avanço do desmatamento no Cerrado e na Amazônia — biomas que funcionam como as "caixas d’água" do Brasil — está alterando os padrões de precipitação. O fenômeno dos "rios voadores", que transportam umidade da bacia amazônica para o centro-sul, está perdendo força. O resultado é claro: a escassez hídrica deixou de ser uma previsão alarmista para se tornar uma realidade operacional.

Para o agronegócio, ignorar o custo da água é um erro de cálculo que pode custar a própria viabilidade do setor. A sustentabilidade econômica agora depende da capacidade de integrar a variável hídrica em toda a cadeia de valor.

O caminho da transparência

Enfrentar o desafio do estresse hídrico exige uma mudança de paradigma. Não basta produzir mais; é preciso produzir com menos impacto por tonelada. Isso passa por:

  1. Monitoramento e Transparência: Rastreabilidade das cadeias produtivas para identificar o "rastro de água" da carne e da soja exportadas.
  2. Tecnologia de Conservação: Implementação de sistemas de dessedentação animal mais eficientes e técnicas de plantio que preservem a umidade do solo.
  3. Políticas Públicas Integradas: Incorporar a gestão de bacias no planejamento agrícola nacional.

O Brasil tem a oportunidade de liderar a produção sustentável global, mas isso só será possível se reconhecermos que o verdadeiro valor das nossas commodities não está apenas no peso do grão ou da arroba, mas na preservação da água que os torna possíveis.
 

Envolverde

 


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