
por Fernando Figueiredo – Emergência Climática: E nós com isso?
Sabemos que quando as águas sobem, nem todas as casas são atingidas da mesma forma. O calor extremo não é igual para todos, nem todos os bairros têm árvores, sombra ou ar-condicionado em suas casas. Quando a chuva escolhe suas vítimas, ela raramente escolhe ao acaso: apesar de ser igual para todos, ela afeta áreas geográficas, econômicas e sociais mais vulneráveis com impactos diferentes. Esse padrão não é coincidência nem fatalidade, é um fato gerado pela desigualdade que vivemos em nosso país.
Ele também é umas das facetas das Mudanças Climáticas que traz um paralelo da relação de forças que existe entre os países desenvolvidos e os em desenvolvimento, da interação entre norte e sul global, dos que tem condições e dos que não tem.
E o nome deste fato é racismo climático, uma face dura de um fenômeno que atinge muitas pessoas no Brasil e no mundo, que foi falado a primeira vez nos anos 80, e que no Brasil, na COP 30 deu um passo importante para caminhar rumo ao centro das discussões.
O conceito de racismo ambiental nasceu em 1982, nos Estados Unidos, quando comunidades negras de Warren County, na Carolina do Norte, resistiram à instalação de um depósito de lixo tóxico em seu território. De lá para cá, a expressão ganhou o mundo: hoje engloba a exposição desproporcional de quem tem piores condições de vida, como as populações negras, indígenas, quilombolas e periféricas por consequência dos impactos causados pela degradação ambiental, falta de infraestrutura e a crise do clima, todas juntas e ao mesmo tempo.
No Brasil, os números mostram uma realidade complexa e desafiadora. A população negra, cerca de 56% dos brasileiros, vivem em sua grande maioria, nas periferias urbanas, localidades que mais sofrem e sofrerão as consequências das mudanças climáticas.
Quando chuvas torrenciais provocam deslizamentos, rios transbordam e cidades ficam ilhadas pelo calor, quem sofre primeiro e com mais intensidade são os mesmos territórios historicamente negligenciados pelo Estado.
O tema esteve por muito tempo na borda das discussões climáticas, tratado como pauta secundária, quando não invisível. Esse cenário ganhou um novo capítulo na COP30, que colocou a justiça climática no debate e produziu um marco inédito: a Declaração de Belém sobre o Combate ao Racismo Ambiental, o primeiro documento internacional a tratar o tema de forma estruturada.
No Brasil, o Conselho Nacional do Meio Ambiente (Conama) também aprovou em dezembro de 2025, a primeira resolução que incorpora de forma estruturante os princípios da justiça climática e o combate ao racismo ambiental, que reconhece que a crise climática afeta de forma desigual populações vulneráveis.
Reconhecer o racismo climático não é um exercício retórico: é uma necessidade para que as discussões sobre as políticas climáticas sejam justas, eficazes e verdadeiramente transformadoras para o bem de todos e principalmente daqueles que estão com maior exposição ao risco.
A crise climática pede ação e urgência. Nenhuma estratégia de adaptação, mitigação ou resiliência será completa se não considerarmos as desigualdades que temos em nossa sociedade.
E Eu, Você, Nós com isso? Como vamos nos posicionar frente a esta questão e exigir de nossos governos ações e políticas assertivas?
Trago este assunto delicado e desafiador para nossa reflexão, pois o racismo climático é uma preocupante realidade. Ele está saindo da borda e precisa ser considerado de forma consistente nas discussões, trazendo escuta e voz de quem está vivendo nos territórios, não como pauta acessória, cumprir o protocolo ou ter como anseio e plano futuro. Mas como um dos eixos de debates para fazer parte dos planos e leis climáticas que precisamos ampliar e co construir para um Brasil mais justo e sustentável à Todos.
Boas leituras, aprofundamento e reflexão sobre o tema!
Organizações e Referencias
Livro Editora Fio Cruz
SciELO Books | Injustiça ambiental e saúde no Brasil: o Mapa de Conflitos https://books.scielo.org/id/468vp
Mapa de Conflitos e Saúde no Brasil
Início - Mapa de Conflitos Envolvendo Injustiça Ambiental e Saúde no Brasil
https://mapadeconflitos.ensp.fiocruz.br/
Rede Brasileira de Justiça Ambiental
RBJA - Rede Brasileira de Justiça Ambiental https://rbja.org/
Portal Combate Racismo Ambiental
Combate Racismo Ambiental - O blog Combate Racismo Ambiental foi criado e é mantido por Tania Pacheco, sem fins lucrativos e utilizando tecnologia WordPress. A reprodução de seu conteúdo é incentivada, desde que citando a fonte e também sem fins lucrativos. https://racismoambiental.net.br/
Quem precisa de Justiça Climática no Brasil?
Quem_precisa_de_justica_climatica-DIGITAL.pdf https://oc.eco.br/wp-content/uploads/2022/08/Quem_precisa_de_justica_climatica-DIGITAL.pdf
Declaração de Belém
C:\Users\ferna\Downloads\2025 11 07. Cúpula de Belém. Nota. Racismo. Rev DEMA_RevDDH.pdf
Resolução do CONAMA
RESOLUÇÃO CONAMA Nº 511, DE 19 DE DEZEMBRO DE 2025 - RESOLUÇÃO CONAMA Nº 511, DE 19 DE DEZEMBRO DE 2025 - DOU - Imprensa Nacional https://conama.mma.gov.br/?option=com_sisconama&task=arquivo.download&id=846
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Fernando Eliezer Figueiredo atua há mais de 30 anos em sustentabilidade, clima e desenvolvimento sustentável. Teve passagens marcantes como diretor do CDP na América Latina, head de Sustentabilidade da Schneider Electric Brasil e presidente da Câmara de Energia e Clima do CEBDS. Atualmente é consultor na Thinker & Associados, diretor de conteúdos de sustentabilidade na Miração Filmes, professor, curador e empreendedor. Como Líder da Realidade Climática, dedica-se a projetos estratégicos, educativos e audiovisuais para ampliar a consciência climática e traduzir essa agenda para públicos além da "bolha" da sustentabilidade.
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