Da origem ao descarte: os desafios para tornar a cadeia da moda mais sustentável
𝗥𝗲𝗶𝗻𝗮𝗹𝗱𝗼 𝗖𝗮𝗻𝘁𝗼 - Rastreabilidade, dados, inteligência artificial e circularidade começam a mudar a relação da indústria da moda com seus impactos, mas o desafio central é transformar informação em decisão estratégica e fazer com que essa evolução alcance toda a cadeia produtiva.

𝗣𝗼𝗿 𝗥𝗲𝗶𝗻𝗮𝗹𝗱𝗼 𝗖𝗮𝗻𝘁𝗼, 𝗲𝘀𝗽𝗲𝗰𝗶𝗮𝗹 𝗽𝗮𝗿𝗮 𝗮 𝗘𝗻𝘃𝗼𝗹𝘃𝗲𝗿𝗱𝗲 -
Uma peça de roupa não começa na arara da loja nem termina no guarda-roupa. Antes de ganhar etiqueta e preço, ela percorre uma longa e complexa cadeia: o algodão é plantado, as fibras são fiadas, o tecido é confeccionado e transportado. Depois do uso, resta uma pergunta nem sempre respondida: qual será o seu destino final?
É nessa trajetória invisível que residem os maiores gargalos ambientais do setor têxtil — e também as oportunidades de transformação. O tema guiou o painel “The Good Hacker, o futuro da sustentabilidade na moda”, realizado durante o SP2B, sob mediação da pesquisadora Rita Wu e com a participação de executivos da C&A (Cyntia Kasai), Riachuelo (Taciana Abreu), Grupo Soma (Artur Lemos) e Blockforce (André Salém).

O raio-X de uma peça de roupa
A experiência apresentada por Cyntia Kasai ilustra o tamanho da complexidade. Em 2023, ao lançar sua primeira coleção rastreável, a C&A identificou que o algodão das peças vinha de 17 fazendas diferentes.
Descobrir a origem é o primeiro passo para mapear o impacto ambiental. O desafio seguinte é a comunicação: como traduzir dados técnicos de QR Codes e etiquetas em escolhas conscientes para o consumidor? A rastreabilidade deixa de ser um mero recurso de transparência e passa a funcionar como inteligência de negócio, permitindo comparar pegadas ecológicas entre matérias-primas como algodão e poliéster derivado de petróleo.
Dados e inteligência artificial na tomada de decisão
Para André Salém, da Blockforce, a tecnologia é a engrenagem que conecta essa massa de dados. O uso de blockchain ajuda a estruturar a informação, definindo o que deve ser compartilhado com o público e o que serve para a gestão interna.
O grande salto qualitativo ocorre quando se alia rastreabilidade à Inteligência Artificial. A meta deixa de ser apenas contar a história de um produto pronto e passa a ser decidir antes de produzir:
- Escolher matérias-primas e fornecedores com menor impacto ambiental;
- Ajustar o volume de fabricação à demanda real;
- Otimizar rotas e insumos antes do corte do tecido.
Produzir menos para produzir melhor
Um dos pontos centrais do debate foi o combate ao excesso de produção. Por meio do modelo “loja energia”, pautado pela metodologia test and learn, a C&A passou a identificar tendências via tecnologia e lançar peças em pequenos lotes. A escala só é aumentada após a confirmação da demanda do consumidor.
Em um setor historicamente marcado pela velocidade e pelo acúmulo de estoques encalhados, usar a tecnologia para ajustar volumes significa produzir melhor — e, potencialmente, produzir menos.
Circularidade e pós-consumo
A responsabilidade das marcas se estende para além do ponto de venda. A logística reversa exige infraestrutura operacional complexa:
- Coleta e triagem: O Movimento ReCiclo, criado há nove anos pela C&A, já recolheu cerca de 460 mil peças.
- Logística otimizada: A empresa utiliza a frota de caminhões que abastece as lojas para retornar as roupas recolhidas aos centros de distribuição.
- Destinação correta: Peças em bom estado alimentam bazares sociais do Instituto C&A, enquanto itens desgastados (como jeans) são direcionados para desfibragem, gerando novos tecidos circularizados ou insumos para cenografia.
Regulamentação e ação setorial
Para que a sustentabilidade não fique restrita a iniciativas isoladas, o setor debate o papel das políticas públicas. Artur Lemos, do Grupo Soma, pontuou que a rastreabilidade traz ganho comercial, mas regulamentações mais severas — a exemplo das diretrizes de gestão de resíduos na Europa e nos EUA — são cruciais para acelerar a transição global.
No Brasil, a criação de uma regulação abrangente e o apoio do poder público podem baratear custos operacionais, garantindo que pequenos e médios fornecedores também consigam integrar redes rastreáveis e sustentáveis.
Sustentabilidade eficiente não pode operar como um departamento isolado de ESG; precisa estar no núcleo da decisão financeira e comercial. Mudar a lógica da cadeia da moda significa garantir que origem, impacto, produção e descarte estejam integrados na criação de cada peça.
Envolverde

Reinaldo Canto
Reinaldo Canto é jornalista, consultor e especialista em sustentabilidade, responsabilidade socioambiental e comunicação estratégica no Brasil. Com vasta trajetória dedicada às causas ecológicas, atuou como diretor de comunicação do Greenpeace Brasil e diretor no Instituto Akatu de Consumo Consciente, liderando iniciativas marcantes de engajamento público. Atua como palestrante, professor e colunista em veículos de imprensa relevantes, como o Portal Envolverde e a CartaCapital, onde analisa temas de emergência climática, agenda ESG e transição energética. É consultor para empresas e organizações do terceiro setor, apoiando o desenvolvimento de estratégias socioambientais e relatórios de sustentabilidade. Sua atuação o consolida como uma das vozes de referência no jornalismo ambiental brasileiro, promovendo o debate sobre governança e justiça climática.
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