Desconfiança sobre marcas amplia cobrança sobre projetos sociais e de sustentabilidade
Levantamento mostra que só 18% dos brasileiros acreditam em promessas de marcas; exigência por dados também chega à Responsabilidade Social Corporativa e ao investimento social privado

Apenas 18% dos brasileiros acreditam que empresas cumprem o que prometem em relação à sustentabilidade, segundo levantamento da Ilumeo, em parceria com Ecomunica e Weleda. A pesquisa mostra que a desconfiança sobre o discurso verde das marcas já afeta as decisões de consumo.
De acordo com o estudo, 49% dos entrevistados deixariam de comprar de uma empresa ao descobrir que ela não é sustentável. Entre os consumidores classificados como engajados, o percentual sobe para 77%. O levantamento também mostra que 88% dizem estar dispostos a fazer mais pelo meio ambiente, mas apenas 17% sabem se as compras que realizam são amigáveis ao planeta.
Embora o conceito de sustentabilidade corporativa costuma ser associado principalmente a compromissos ambientais, como descarbonização, redução de resíduos, uso de recursos naturais e metas climáticas, a cobrança por evidências também alcança outras frentes da agenda ESG. Entre elas estão a Responsabilidade Social Corporativa e os projetos sociais apoiados por empresas.
Para Guilherme Galvan, CEO e cofundador da Civicus, esse ambiente de desconfiança também aumenta a cobrança sobre as frentes sociais da agenda corporativa. “Durante muito tempo, projetos sociais foram avaliados pelo volume de ações realizadas ou pelo número de pessoas alcançadas. Esses dados são importantes, mas não respondem sozinhos à pergunta principal: o que realmente mudou depois da iniciativa?”, afirma.
Relatos de sustentabilidade padrão ISSB
O movimento também dialoga com o debate sobre transparência no mercado de capitais. No dia 29 de maio, a Comissão de Valores Mobiliários (CVM) publicou a Resolução 244, que alterou a Resolução 193 e mudou o regime de divulgação de informações financeiras relacionadas à sustentabilidade para companhias abertas. Com a nova regra, o reporte alinhado aos padrões do CBPS e do ISSB passa a ser voluntário, no modelo “pratique ou explique”. As companhias que optarem por divulgar essas informações, porém, devem seguir as normas previstas pela autarquia.
A regra não trata especificamente de projetos sociais, mas integra um cenário de maior cobrança por informações verificáveis, comparáveis e consistentes. Para Galvan, essa exigência também influencia a forma como empresas estruturam e comunicam ações de Responsabilidade Social Corporativa
Segundo ele, áreas de Responsabilidade Social Corporativa, investimento social privado e relacionamento com comunidades passaram a ser provocadas a responder perguntas mais objetivas: qual problema a iniciativa pretende enfrentar, quem foi beneficiado, quais indicadores serão acompanhados, que resultado foi observado e como os aprendizados serão usados nas próximas etapas.
“Quando uma empresa mede melhor o resultado de um projeto, ela não faz isso apenas para comunicar melhor. Ela passa a tomar decisões melhores. Consegue entender o que funcionou, o que precisa ser ajustado e onde o investimento gera mais valor para a sociedade e para o próprio negócio”, diz Galvan.
Por que isso deixou de ser assunto só das empresas
A mudança não impacta apenas as companhias. Quando projetos sociais são mensurados com mais consistência, a sociedade passa a ter acesso a informações mais qualificadas sobre ações privadas em temas de interesse público, como educação, saúde, meio ambiente, inclusão, formação profissional e desenvolvimento comunitário.
Esse movimento também ajuda a separar iniciativas estruturadas de ações pontuais de reputação. Uma campanha pode gerar visibilidade, mas um projeto com diagnóstico, metas, indicadores e avaliação de resultado permite entender se houve continuidade, transformação e valor social.
A cobrança muda também a forma como as áreas de sustentabilidade e Responsabilidade Social Corporativa se organizam. Em vez de tratar projetos como ações isoladas, companhias passam a ser provocadas a responder onde o recurso foi aplicado, quem foi beneficiado, quais resultados foram observados e como os aprendizados serão usados para melhorar as próximas iniciativas.
“O futuro da Responsabilidade Social Corporativa não está em fazer mais barulho sobre boas ações, mas em demonstrar o impacto que elas deixam
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Guilherme Galvan é CEO e cofundador da Civicus. Cursa MBA em ESG pela Fundação Getulio Vargas e tem formação em Administração pela Universidade do Estado de Santa Catarina. Atua na gestão da Civicus e do Instituto Civicus, organização sem fins lucrativos criada pela consultoria. Sua atuação envolve a criação, gestão e mensuração de projetos para institutos, fundações empresariais e áreas de sustentabilidade.
Sobre a Civicus
A Civicus é uma consultoria que atua na estruturação e adequação de agendas ESG para grandes empresas. A organização desenvolve projetos em frentes como engajamento e desenvolvimento de stakeholders, Responsabilidade Social Corporativa, investimento social privado, voluntariado estratégico, relatórios de sustentabilidade, matriz de materialidade, inventário de gases de efeito estufa e mensuração de impacto.
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