Ebola atinge campos de refugiados no leste da RDC e aprofunda crise humanitária

Com mais de 1,8 mil mortos e 4,4 milhões de deslocados expostos ao conflito e à falta de saneamento, surto expõe a vulnerabilidade extrema na República Democrática do Congo.

Atualizado em 10/08/2026 às 18:08, por Inter Press Service.

Funcionários limpam equipamento de proteção contra ebola. Foto: Cruz Vermelha

por Correspondentes IPS - 

GENEBRA (IPS) – A epidemia de Ebola que se alastra pelo nordeste da República Democrática do Congo (RDC) atingiu os campos de refugiados e deslocados internos gerados pelo prolongado conflito armado na região. A informação foi confirmada pela Agência da ONU para Refugiados (ACNUR) nesta sexta-feira (7).

Até o momento, as autoridades congolesas contabilizam 4.072 casos e 1.853 mortes causadas pela doença viral — uma infecção altamente letal que provoca febre hemorrágica, danifica os vasos sanguíneos e compromete a coagulação do sangue. O vírus já afeta cinco províncias do país.

O ACNUR informou ter identificado casos de Ebola em pelo menos 5 dos 69 campos situados na província de Ituri. A região, localizada na fronteira com Uganda, é uma das mais castigadas pela violência armada que já deslocou milhões de pessoas ao longo de mais de uma década.

O diretor-geral da Organização Mundial da Saúde (OMS), Tedros Adhanom Ghebreyesus, alertou para o caráter devastador da epidemia, destacando que a disseminação do vírus está sobrecarregando a capacidade de resposta das equipes no nordeste do país, que possui 115 milhões de habitantes distribuídos em 2,35 milhões de quilômetros quadrados.

“Todos concordamos que devemos intensificar urgentemente e massivamente todos os nossos esforços em todos os pilares da resposta e com a participação de todos os parceiros”, publicou Tedros durante visita à capital, Kinshasa.

Conflito armado e extrema precariedade

As províncias do nordeste (Ituri, Kivu do Norte, Kivu do Sul, Alto Uele e Tshopo), onde a presença do vírus foi confirmada, abrigam cerca de 4,4 milhões de deslocados internos. Essas áreas coincidem com o epicentro dos confrontos no leste da RDC, onde o exército nacional enfrenta diversos grupos insurgentes que também combatem entre si. Entre eles, destaca-se a milícia M23 (Movimento 23 de Março), formada predominantemente por membros da etnia tutsi e apoiada pelo governo de Ruanda.

O conflito tem raízes nas tensões étnicas entre tutsis e hutus em Ruanda, acentuadas pelo genocídio de 1994, e ganhou contornos econômicos nos últimos anos com a disputa pelo controle de áreas ricas em ouro e outros minerais estratégicos. A violência sistêmica exercida por milícias e por forças armadas contra a população civil já forçou o deslocamento de até oito milhões de pessoas ao longo dos anos, levando centenas de milhares a buscar refúgio em países vizinhos.

Em Uganda, nação vizinha, 20 casos de Ebola foram confirmados no último mês — 15 dos quais importados da RDC. O governo ugandense registrou duas mortes antes de declarar o país "livre de Ebola" em 28 de julho.

Na RDC, contudo, o cenário permanece crítico. Nos campos de acolhimento, a escassez de água potável, a ausência de infraestrutura sanitária e a desconfiança da população em relação aos serviços formais de saúde criam um ambiente propício à propagação acelerada da doença.

Cepa sem vacina e histórico de surtos

O vírus se espalha pelo contato direto com fluidos corporais (sangue, saliva, vômito, suor ou sêmen) de pessoas doentes ou falecidas. O surto atual é provocado pela cepa Bundibugyo, que apresenta taxa de mortalidade entre 30% e 50% e para a qual ainda não existe vacina autorizada nem tratamento específico, segundo dados da OMS.

Além dos infectados e mortos, as autoridades da RDC informam que 694 pacientes permanecem isolados ou hospitalizados, enquanto 793 já se recuperaram.

O histórico recente reflete a severidade da ameaça na região: surtos que atingiram o leste do Congo em 2018 e 2020 causaram 2.300 e 3.400 mortes, respectivamente. A maior epidemia registrada na história, ocorrida na África Ocidental entre 2014 e 2016, deixou 28 mil infectados e causou 11 mil mortes.

Diante da gravidade da situação, a OMS solicitou a ampliação imediata de medidas para a identificação precoce de casos, o fortalecimento do rastreamento diário de contatos e o acesso facilitado aos serviços de testagem, encaminhamento, isolamento e tratamento.

A agência enfatizou a necessidade de cooperação internacional para expandir com urgência a capacidade laboratorial, o transporte em ambulâncias e a realização de sepultamentos seguros e dignos. Requisitou também a proteção, o apoio e o pagamento em dia dos profissionais de saúde da linha de frente, além do acesso humanitário seguro às zonas de conflito armado.


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Envolverde/IPS


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