Ensino Superior: Matrículas duplicam em duas décadas, mas desigualdades persistem
𝙐𝙣𝙚𝙨𝙘𝙤 - Nas últimas duas décadas, o mapa do ensino superior mundial sofreu uma transformação sem precedentes. De acordo com o primeiro relatório global de tendências da UNESCO, o número de estudantes universitários em todo o mundo mais do que duplicou, atingindo a marca histórica de 269 milhões de matriculados em 2024. No entanto, por trás deste crescimento vertiginoso escondem-se assimetrias geográficas severas, barreiras financeiras e novos desafios éticos e tecnológicos que ameaçam a promessa de uma educação verdadeiramente inclusiva.
Relatório da UNESCO fez recomendações sobre como tornar ensino superior mais equitativo e acessível para todos. Foto: Agência Brasi

Redação Envolverde com informações da Unesco -
Paris – Atualmente, os 269 milhões de estudantes registados representam 43% da população mundial na faixa etária elegível para frequentar o ensino superior (geralmente balizada entre os 18 e os 24 anos). Paralelamente, a mobilidade internacional acompanhou esta tendência e triplicou no mesmo período: cerca de 7,3 milhões de estudantes realizam hoje os seus estudos fora do país de origem, demonstrando uma forte dinâmica de globalização académica.
[[Este novo relatório mostra a crescente procura por ensino superior, que desempenha um papel insubstituível na construção de sociedades sustentáveis. No entanto, essa expansão nem sempre se traduz em oportunidades equitativas, o que evidencia a necessidade de modelos inovadores de financiamento, capazes de garantir um ensino superior inclusivo e de qualidade. Por meio de importantes iniciativas, como a Convenção Global sobre a Educação Superior e o Passaporte de Qualificações, a UNESCO continuará apoiando os países na oferta de oportunidades de ensino superior de alta qualidade para todas as pessoasAUTOR: Khaled El-Enany, Diretor-Geral da UNESCO]]
Assimetrias Geográficas e o Funil da Conclusão
Embora os números agregados sugiram uma era de democratização do saber, a análise regional revela uma realidade profundamente fragmentada. O acesso à universidade continua a ser determinado, em grande parte, pela geografia:
- Europa Ocidental e América do Norte: 80% dos jovens encontram-se matriculados.
- América Latina e Caraíbas: 59% de taxa de matrícula.
- Estados Árabes: 37% de taxa de matrícula.
- Sul e Oeste da Ásia: 30% de taxa de matrícula.
- África Subsariana: Apenas 9% dos jovens conseguem aceder ao ensino superior.
Outro sinal de alerta prende-se com a eficácia dos sistemas de ensino: a taxa de conclusão de estudos não aumentou ao mesmo ritmo que as matrículas. A taxa bruta global de graduação situou-se em apenas 27% em 2024, um aumento tímido face aos 22% registados em 2013. Isto significa que a capacidade de retenção e sucesso dos estudantes continua a falhar, convertendo o acesso, muitas vezes, numa frustração académica.
Financiamento, Privatização e Barreiras Económicas
O modelo de financiamento emerge como um dos nós da crise de equidade. O investimento governamental médio global fixa-se em modestos 0,8% do PIB mundial. Diante de políticas de austeridade fiscal frequentes, o setor privado ganhou um espaço considerável, representando hoje um terço de todas as matrículas mundiais.
Esta dependência do setor privado atinge o seu expoente máximo na América Latina e nas Caraíbas, onde retém 49% das matrículas em 2023. Em países como o Brasil, o Chile, a Coreia do Sul e o Japão, a proporção é ainda mais drástica: quatro em cada cinco estudantes frequentam instituições privadas. Em contraste, o relatório alerta que apenas um terço dos países a nível global assegura legalmente o ensino superior público e gratuito, o que agrava a exclusão de franjas sociais desfavorecidas.
Apesar destas barreiras, alguns países (como a África do Sul, Chile, Coreia do Sul, Filipinas, Itália, Japão, Maurício e México) têm implementado programas específicos para reduzir ou eliminar as propinas para grupos sub-representados.
Avanços de Género e Novos Polos de Mobilidade
No campo da igualdade de género, os avanços são históricos. Globalmente, as mulheres são agora a maioria no ensino superior, registando-se 114 mulheres para cada 100 homens matriculados em 2024. A paridade foi alcançada em quase todas as regiões do globo, com destaque para a Ásia Central e o Sul da Ásia, que saltaram de uma proporção de 68 mulheres por 100 homens no ano 2000 para a igualdade em 2023. A única exceção a esta tendência positiva continua a ser a África Subsariana.
Contudo, este domínio numérico esbarra no chamado "teto de vidro": as mulheres permanecem sub-representadas no nível de doutoramento e ocupam apenas um quarto (25%) dos cargos de liderança sénior na academia.
Relativamente à mobilidade internacional, embora beneficie somente 3% do total de estudantes do planeta, observa-se uma reconfiguração geográfica dos destinos. Sete países tradicionais (Alemanha, Austrália, Canadá, Estados Unidos, França, Reino Unido e Rússia) ainda concentram metade dos estudantes internacionais. Contudo, novos polos emergem com força: a Turquia e os Emirados Árabes Unidos viram os seus fluxos multiplicarem-se por cinco na última década, aproximando-se dos números da França.
Nota-se ainda uma crescente preferência por rotas intrarregionais. Na América Latina e nas Caraíbas, a mobilidade dentro da própria região subiu de 24% para 43% entre 2000 e 2022, tendo a Argentina como o principal polo recetor. Fenómeno semelhante ocorre nos Estados Árabes, onde os estudantes procuram cada vez mais as universidades do Golfo e da Jordânia, reduzindo a dependência tradicional das instituições europeias e norte-americanas.
A Resposta Humanitária e o Desafio da Inteligência Artificial
O relatório salienta igualmente progressos significativos na inclusão de populações vulneráveis. O acesso de pessoas refugiadas ao ensino superior cresceu exponencialmente, saltando de uns residuais 1% em 2019 para 9% em 2025.
Para contornar a perda ou a impossibilidade de verificação de documentos académicos — um problema crónico no Sul Global —, a UNESCO tem expandido o seu Passaporte de Qualificações. Este instrumento de justiça humanitária já apoia centenas de candidatos e está a ser implementado em países como o Iraque, Quénia, Uganda, Zâmbia e Zimbabué.
Finalmente, o documento deixa um aviso claro quanto à transição tecnológica. A inteligência artificial (IA) e as tecnologias emergentes estão a redefinir os moldes da aprendizagem, mas as instituições de ensino superior tardam em estruturar esta transição de forma regulada. Em 2025, apenas uma em cada cinco universidades (20%) em todo o mundo dispunha de uma política formal implementada sobre o uso de inteligência artificial.
A rápida expansão do número de estudantes nas últimas décadas aumentou a pressão sobre as infraestruturas educativas. O grande desafio do futuro próximo será expandir o acesso e abraçar a inovação tecnológica sem comprometer a qualidade de ensino e a equidade financeira dos sistemas de ensino globais.
Sobre a UNESCO
Com 194 Estados-membros, a Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura contribui para a paz e para a segurança ao liderar a cooperação multilateral nas áreas de educação, ciência, cultura, comunicação e informação. Com sede em Paris, a UNESCO tem escritórios em 54 países e emprega mais de 2,3 mil pessoas.
"Uma vez que as guerras se iniciam nas mentes dos homens, é nas mentes dos homens e das mulheres que devem ser construídas as defesas da paz." – Constituição da UNESCO, 1945.
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