Feira Socioambiental de Bonito transforma Educação Ambiental em legado para novas gerações

𝙍𝙚𝙞𝙣𝙖𝙡𝙙𝙤 𝘾𝙖𝙣𝙩𝙤 - Em sua 14ª edição, o evento reuniu mais de 5 mil pessoas e consolidou-se como a principal referência na mobilização pela conservação da natureza no Mato Grosso do Sul, conectando saberes locais à urgência climática global.

Atualizado em 18/06/2026 às 19:06, por Reinaldo Canto.

Letreiro de boas vindas

Por Reinaldo Canto, especial para a Envolverde - 

Quando a primeira Feira Socioambiental de Bonito (MS) foi realizada, em 2010, poucos imaginavam que a iniciativa, então embrionária, se transformaria em um dos mais longevos e importantes eventos de educação ambiental do Centro-Oeste brasileiro. Quatorze edições depois, os números impressionam: a feira reuniu mais de 5 mil estudantes, professores, pesquisadores, autoridades e membros da comunidade local. Mais do que um evento pontual, a iniciativa consolidou-se como um movimento permanente de mobilização em torno da sustentabilidade e da defesa intransigente do patrimônio natural.

A escolha de Bonito como palco dessa grande sala de aula a céu aberto não é acidental. A região, reconhecida como a capital do ecoturismo, abriga belezas cênicas incomparáveis e rios de águas cristalinas. No entanto, está inserida em uma área de extrema fragilidade ecológica, no ecótono onde o bioma Cerrado encontra o Pantanal. Nos últimos anos, esse paraíso tem sofrido pressões crescentes: o avanço desenfreado da fronteira agrícola, o desmatamento, as mudanças no uso do solo e o temido assoreamento de seus rios, que ameaça não apenas a biodiversidade, mas a própria base da economia local.

É exatamente nesse cenário de disputas territoriais e desafios ecológicos que a educação ambiental surge não apenas como uma disciplina escolar, mas como uma ferramenta de sobrevivência e de justiça climática. À frente dessa complexa trajetória está Liliane Lacerda, diretora executiva do Instituto das Águas da Serra da Bodoquena (IASB) e coordenadora geral da feira desde a sua criação.

Segundo Liliane, o projeto nasceu de forma modesta, impulsionado pelo desejo de conectar as crianças da região com a natureza que as cerca, mas cresceu vertiginosamente graças ao engajamento contínuo da comunidade, do poder público, das escolas e de uma vasta rede de instituições parceiras. "Estou envolvida com a feira desde a sua primeira edição, em 2010. O evento começou pequeno, de forma muito orgânica, e foi tomando corpo. Mesmo assim, é sempre uma luta diária, que envolve busca por recursos e apoio logístico para viabilizar a sua realização a cada ano", relembra a diretora do IASB.

Liliane Lacerda, diretora executiva do Instituto das Águas da Serra da Bodoquena (IASB)

O esforço monumental, no entanto, produziu resultados que vão muito além dos relatórios de participação. Ao longo de mais de uma década, a feira conquistou respeito e reconhecimento institucional, passando a integrar de forma orgânica o calendário de educação ambiental da região. "Hoje ela é reconhecida pela Secretaria de Meio Ambiente do Estado do Mato Grosso do Sul, pelas cidades vizinhas e por dezenas de secretarias de educação. As escolas já se preparam, desde o início do ano letivo, para trazer os alunos. Eles vêm não apenas para assistir, mas para participar ativamente, expor projetos e interagir com as atrações da feira", destaca Liliane. Para ela o principal legado construído nessa trajetória é a profunda mudança de percepção das novas gerações

Conseguimos criar uma marca forte sobre a importância da preservação ambiental. Essas crianças crescem entendendo que a água e as florestas da Serra da Bodoquena são parte da identidade delas

Liliane Lacerda, diretora executiva do Instituto das Águas da Serra da Bodoquena (IASB) 

Trabalho em rede e a formação de educadores

Um dos grandes diferenciais da Feira Socioambiental de Bonito é sua capacidade de atrair projetos de excelência de outras regiões, criando um rico intercâmbio de saberes. Pelo segundo ano consecutivo, o evento contou com a participação do Instituto Acaia Pantanal, organização com forte atuação na planície pantaneira, que promoveu atividades voltadas à formação continuada de professores e à disseminação de materiais educativos de alta qualidade.

A professora Sylvia Helena Bourroul, diretora-executiva do Acaia Pantanal, destacou que a presença do Instituto teve como propósito ampliar o acesso dos educadores da rede pública a experiências e metodologias pedagógicas inovadoras, que fogem do lugar-comum. "A Liliane, do IASB, disponibilizou um estande estratégico para trazer os materiais do Acaia para exposição, e também de organizações parceiras de peso, como o Instituto Ecofuturo e a iniciativa Documenta Pantanal", explicou Sylvia. O acesso a livros, documentários e mapas interativos enriquece o repertório dos professores, que muitas vezes carecem de materiais contextualizados sobre os biomas brasileiros.

Monica Pilz Borba do Instituto 5 Elementos

A valorização do papel do professor foi o ponto alto dessa edição. "Trouxemos a educadora Monica Pilz Borba para ministrar duas palestras focadas em trabalhar a questão da educação ambiental de forma transversal junto aos professores da rede pública", acrescentou a diretora do Acaia. A premissa é clara: ao capacitar um único professor, a semente da conservação é multiplicada para centenas de alunos ao longo dos anos.

Referência nacional na área e com décadas de dedicação ao tema, Monica Pilz Borba representou o Instituto 5 Elementos, sediado em São Paulo, e ampliou o alcance das discussões, conectando a realidade local aos grandes debates contemporâneos. Ela ressaltou a importância dessa sinergia institucional: "O Instituto 5 Elementos esteve presente ao lado do Instituto Acaia Pantanal com um foco muito claro: promover educação ambiental emancipatória para crianças, jovens e educadores. Nossas missões institucionais se unem de forma perfeita para garantir uma educação que tenha qualidade e significado. Estar nesta feira possibilitou levar nossa atuação, que já tem um histórico forte em outras partes do Brasil, a esta região tão vital do país", avaliou Monica.

Um patrimônio contra a emergência climática

Em tempos de ebulição global, onde a emergência climática impõe eventos extremos cada vez mais frequentes — como as secas severas e os incêndios devastadores que têm castigado duramente o Pantanal e o Cerrado —, a experiência consolidada em Bonito emite um sinal de esperança. Ela demonstra, na prática, que a educação ambiental não é um romantismo, mas continua sendo a ferramenta mais estratégica e eficaz para gerar mudanças comportamentais e políticas duradouras
Ao reunir sob as mesmas tendas estudantes de diferentes idades, professores da rede pública e privada, cientistas, gestores e organizações da sociedade civil, a Feira Socioambiental constrói pontes indestrutíveis entre o conhecimento acadêmico, o saber popular e a ação direta. Trata-se de empoderar a juventude, transformando a "eco-ansiedade" — o medo paralisante do futuro climático — em protagonismo juvenil e ativismo construtivo.

O retumbante sucesso e o engajamento massivo da 14ª edição confirmam uma certeza: a Feira Socioambiental de Bonito há muito deixou de ser apenas um evento anual que dura alguns dias. Ela foi alçada ao status de patrimônio imaterial e educativo da Serra da Bodoquena. É a prova viva e inspiradora de que a verdadeira transformação em direção a um futuro sustentável começa, obrigatoriamente, pelo aprendizado, pelo afeto à terra e pelo engajamento coletivo das pessoas.


 

Envolverde


Reinaldo Canto

LONG BIO Jornalista especializado em Sustentabilidade e Consumo Consciente, diretor de projetos especiais do Instituto Envolverde. LONG BIO Jornalista especializado em Sustentabilidade e Consumo Consciente, diretor de projetos especiais do Instituto Envolverde. LONG BIO Jornalista especializado em Sustentabilidade e Consumo Consciente, diretor de projetos especiais do Instituto Envolverde. LONG BIO Jornalista especializado em Sustentabilidade e Consumo Consciente, diretor de projetos especiais do Instituto Envolverde. LONG BIO Jornalista especializado em Sustentabilidade e Consumo Consciente, diretor de projetos especiais do Instituto Envolverde.

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