Justiça climática, um alicerce para a Resiliência Climática - Artigo 9

𝙁𝙚𝙧𝙣𝙖𝙣𝙙𝙤 𝙁𝙞𝙜𝙪𝙚𝙞𝙧𝙚𝙙𝙤 - As mudanças climáticas não afetam a todos da mesma forma, e a responsabilidade por ela está longe de ser compartilhada de maneira justa. Os fatos científicos e estatísticos demonstram uma assimetria clara. Os maiores responsáveis pelas emissões atmosféricas globais são os que menos sofrem com as suas consequências imediatas.

Atualizado em 20/07/2026 às 17:07, por Redação Envolverde.

Paisagem criada por IA com elementos de resiliência climática

Imagem criada por IA Gemini

𝙁𝙚𝙧𝙣𝙖𝙣𝙙𝙤 𝙁𝙞𝙜𝙪𝙚𝙞𝙧𝙚𝙙𝙤 – Coluna Envolverde – Emergência Climática: E nós com isso? 

A resiliência climática como trazida na coluna anterior é fundamental ser construída.  Enquanto os países industrializados do Norte Global (como Estados Unidos, China, Canadá e nações europeias) historicamente acumularam riquezas gerando a maior parte das emissões globais, as populações mais pobres e vulneráveis do Sul Global pagam a conta mais alta, sem dispor de infraestrutura ou recursos financeiros para se adaptarem.

Justiça Climática e desigualdade social

A desigualdade social e a injustiça climática são indissociáveis. No topo da pirâmide econômica, o 1% mais rico da população mundial emite quase a mesma quantidade de gases de efeito estufa (GEEs) que os 50% mais pobres combinados. Sob a ótica do business as usual "negócio como de costume" que a grande maioria de nações, empresas e pessoas ainda tem seguido, traz como consequência que esta disparidade se aprofunde. 

As classes politicamente e materialmente favorecidas blindam suas vidas contra os extremos, enquanto os desfavorecidos enfrentam a deterioração direta de seus territórios ... até quando vamos ficar assistindo esta situação e achar que isso é normal? Que o mundo é assim mesmo, que a vida não é justa etc, etc. 

Os Mecanismos de Impacto

Já vivemos uma situação aguda, de acordo com o Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas (IPCC), a vulnerabilidade global atinge hoje entre 3,3 bilhões e 3,6 bilhões de pessoas no planeta. Na última década (2010-2020), a taxa de mortalidade por enchentes, secas e tempestades foi 15 vezes maior em regiões altamente vulneráveis do que em áreas mais nobres das cidades.

Esses impactos sistêmicos operam em frentes diversas junto à população. Temos os Efeitos Diretos, os eventos climáticos extremos, como ondas de calor severas, secas prolongadas e inundações, que causam desastres físicos diretos, perdas materiais e o avanço da ansiedade climática, o desgaste psicológico diante da incerteza do futuro, principalmente entre os jovens. 

Existem os Efeitos Indiretos que geram degradação dos sistemas ecológicos que comprometem a segurança alimentar, reduzem a qualidade do ar e da água potável, e alteram a ecologia de vetores (como mosquitos), acelerando a propagação de doenças infecciosas.

Por fim temos os Efeitos Socioeconômicos que geram rupturas demográficas e culturais que forçam a migração climática de comunidades inteiras cujos recursos de subsistência se esgotaram ou a localidade foi devastada e não tem mais as condições de sobreviver ali.

A Conexão Inseparável com a Resiliência Climática

É aqui que a Justiça Climática se conecta diretamente à Resiliência Climática. No entanto, tentar construir resiliência ignorando a justiça social é um erro estratégico. Uma cidade ou nação não pode se considerar "resiliente" se apenas os seus bairros nobres possuem defesas contra enchentes, infraestrutura, enquanto as encostas e periferias continuam desprotegidas e vivendo em condições de riscos eminentes. A fragilidade de uma comunidade vulnerável desestabiliza a economia local, sobrecarrega o sistema de saúde e rompe o tecido social de todo o território. 

A resiliência de um sistema é medida pelo seu elo mais fraco.

O Caminho Prático: O que está sob nosso controle?

Também, como a Carta da Terra que fez 26 anos em junho deste ano, em 2000, o conceito de que a mudança climática é, uma questão de direitos humanos e desenvolvimento sustentável foi formalizado durante a primeira Cúpula de Justiça Climática, realizada paralelamente à COP 6 em Haia. 

Os cientistas e pensadores já nos alertam há muito tempo sobre este tema. O que lamento, é que em 2026 ainda temos negacionistas e pessoas alheias a esta questão que afeta a todos nós direta ou indiretamente, e colocamos a culpa no governo que não fez sua parte, o que é fato, mas e Nós com isso?  

Não controlamos o histórico de emissões do passado, mas controlamos a governança e o planejamento do presente para o futuro. No entanto a forma de construir a justiça climática e resiliência real, segue uma lógica invertida, de baixo para cima, o que traz maior desafios e demanda um trabalho de escuta e diagnóstico nos territórios onde existem riscos.

O caminho é ouvir o território, aprender com as comunidades locais e populações tradicionais, que possuem a vivência e sabedoria intrínseca sobre a dinâmica de seus ecossistemas, e descentralizar recursos, criando mecanismos de financiamento inclusivos e políticas públicas locais que direcionem investimentos de infraestrutura (verde e cinza) prioritariamente para as áreas de maior risco. Estes são exemplos concretos para construção desta jornada. 

Sem justiça climática, a resiliência climática fica capenga, é apenas um privilégio temporário para uma minoria e no final irá afetar a todos.

Boa reflexão ! 

Organizações e estudos citados

IPCC - AR6 Mudanças Climáticas 2022: Impactos, Adaptação e Vulnerabilidade — IPCC - https://www.ipcc.ch/report/sixth-assessment-report-working-group-ii/

Paper Cúpula Justiça Climática- 2000 CorpWatch : Cúpula Alternativa Abre com Apelo pela Justiça Climática https://web.archive.org/web/20160419205823/http://www.corpwatch.org/article.php?id=333

Carta da Terra (2000) - Declaração de princípios éticos fundamentais para a construção de uma sociedade global justa, sustentável e pacífica. https://cartadaterrainternacional.org/leia-a-carta-da-terra/

Objetivos de Desenvolvimento Sustentável - ODS 13 (Combate as Mudanças Climáticas, ODS 11 (Cidades e Comunidades Sustentáveis) e ODS 16 (Paz, Justiça e Instituições Eficazes). ODS | GT Agenda 2030 - https://gtagenda2030.org.br/ods/

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Fernando Eliezer Figueiredo atua há mais de 30 anos em sustentabilidade, clima e desenvolvimento sustentável. Teve passagens marcantes como diretor do CDP na América Latina, head de Sustentabilidade da Schneider Electric Brasil e presidente da Câmara de Energia e Clima do CEBDS. Atualmente é consultor na Thinker & Associados, diretor de conteúdos de sustentabilidade na Miração Filmes, professor, curador e empreendedor. Como Líder da Realidade Climática, dedica-se a projetos estratégicos, educativos e audiovisuais para ampliar a consciência climática e traduzir essa agenda para públicos além da "bolha" da sustentabilidade.

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