Maternidade sob Bombas: A Crise Invisível da Saúde Reprodutiva na Ucrânia

IPS - Desde o início da invasão russa em larga escala, a Organização Mundial da Saúde (OMS) documentou mais de 2.700 ataques a instalações de saúde. O impacto direto nas maternidades gerou um salto trágico nos indicadores: a taxa de mortalidade materna na Ucrânia subiu 37% entre 2023 e 2024. Enquanto em 2023 registravam-se 18,9 mortes por 100 mil nascidos vivos, o número saltou para 25,9 no ano seguinte.

Atualizado em 11/01/2026 às 13:01, por Inter Press Service.

Médico em pé em um bunker em hospital de Kharkiv

Funcionários observam o início da construção de uma instalação anti-bunker no Hospital Multifuncional nº 25 da cidade de Kharkiv. Crédito: UNFPA/Ucrânia

por Ed Holt, da IPS - 

KHARKIVNo Hospital Clínico Regional de Kharkiv, a rotina do Dr. Oleksandr Zhelezniakov desafia a lógica da medicina moderna. Realizar uma cesariana de emergência à luz de lanternas, sem água corrente e sob o eco de explosões, deixou de ser um "procedimento difícil" para se tornar o cotidiano de uma cidade na linha de frente. "Fazemos o que é preciso para salvar o futuro", resume o obstetra. Mas os dados revelam que, apesar do heroísmo individual, o sistema de saúde ucraniano está em um ponto de ruptura com consequências geracionais.

A análise do Fundo de População das Nações Unidas (UNFPA) aponta que a maioria das mortes era evitável. O estresse crônico e a destruição da infraestrutura elevaram emergências obstétricas graves: as rupturas uterinas cresceram 44%, os distúrbios hipertensivos subiram 12% e as hemorragias pós-parto quase 9%. Nas regiões de conflito intenso, como Kherson, os partos prematuros são quase o dobro da média nacional.

A insegurança forçou a medicina a se adaptar ao subsolo. Maternidades apoiadas pelo UNFPA agora operam em bunkers e trincheiras protegidas. Em Kherson, bebês nascem em abrigos antiaéreos enquanto a artilharia atinge as alas superiores dos hospitais. Essa realidade impulsionou a taxa de cesarianas para 46% em algumas áreas, não por escolha médica ideal, mas pela necessidade de programar partos em curtos períodos de relativa segurança.

O Medo do Futuro e a Crise Demográfica

Para além do trauma físico, a guerra instalou uma barreira psicológica na fertilidade do país. "É um medo racional em condições irracionais", afirma Zhelezniakov. O estresse constante altera o equilíbrio hormonal, elevando casos de infertilidade secundária e menopausa precoce em mulheres jovens. Muitas ucranianas admitem evitar a gravidez pela incerteza sobre o acesso a hospitais, aquecimento ou água.

A Ucrânia enfrenta agora o que Isaac Hurskin, do UNFPA, classifica como uma crise demográfica histórica. Com a perda de cerca de 10 milhões de pessoas por deslocamento ou morte desde 2014, a taxa de fertilidade caiu para menos de um filho por mulher — uma das mais baixas do mundo.

Lições e Perspectivas

Especialistas alertam que a reconstrução será lenta. Exemplos como o da Síria mostram que a saúde materna costuma ser despriorizada após conflitos, em favor de cirurgias de trauma e emergência. Para Zhelezniakov, a solução imediata exige o fortalecimento da atenção primária, digitalização de sistemas e a criação de "polos médicos" em zonas seguras com apoio internacional.

Enquanto a diplomacia não silencia as armas, a resistência ucraniana se manifesta no choro dos recém-nascidos em bunkers. Para os médicos de Kharkiv, cada nascimento sob bombardeio é um lembrete de que, mesmo em meio à destruição, a vida deve prevalecer.

Resumo de relatório do Escritório da ONU da IPS

IPS/Envolverde


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