Biometano avança de promessa, a escala industrial na transição energética

Reinaldo Canto - A adoção do biometano pela Natura em sua principal unidade industrial, em Cajamar (SP), marca um ponto de inflexão importante na transição energética da indústria brasileira. Ao combinar o uso do combustível renovável tanto nos processos produtivos quanto na logística, a iniciativa sinaliza que soluções de baixo carbono já são viáveis em escala operacional — e não apenas em projetos-piloto.

Atualizado em 11/02/2026 às 20:02, por Reinaldo Canto.

Ilustração apresentando o Biometano

Por Reinaldo Canto, especial para a Envolverde

A estratégia da Natura contempla duas frentes críticas de emissão. O biometano passa a responder por 45% da energia utilizada na fábrica, principalmente na geração de vapor das caldeiras, ao mesmo tempo em que abastece 100% da frota que opera na rota entre a unidade e os centros de distribuição da Grande São Paulo. Na prática, a iniciativa atua diretamente sobre os escopos 1 e 3 de emissões, tradicionalmente os mais desafiadores para empresas industriais.

Com consumo projetado de cerca de 3,5 milhões de metros cúbicos de biometano por ano a partir de 2026, o projeto consolida o combustível como alternativa concreta ao gás fóssil e ao diesel. A redução estimada é de até 1,3 mil toneladas de CO₂ anuais — o equivalente a retirar cerca de 280 carros de passeio das ruas todos os dias —, reforçando o potencial do biometano como vetor relevante de descarbonização no curto prazo.

Outro aspecto estratégico está no modelo de economia circular. O combustível é produzido a partir do biogás gerado em aterros sanitários parceiros, incluindo resíduos que têm origem na própria operação da empresa. Parte do que seria descartado retorna como energia, fechando um ciclo que conecta gestão de resíduos, eficiência energética e redução de emissões.

Josie Romero, vice-presidente de Operações, Logística e Suprimentos da Natura

Do ponto de vista operacional, o projeto também desmonta um argumento recorrente contra combustíveis alternativos: a perda de eficiência. Com uma estação interna de abastecimento, os caminhões são reabastecidos em cerca de 10 minutos — tempo significativamente inferior ao observado em rodovias —, o que gera ganhos diretos de produtividade e previsibilidade logística.

A iniciativa está alinhada ao Plano de Transição Climática da Natura, que prevê neutralidade de carbono até 2030, com metas validadas pela Science Based Targets initiative (SBTi) e compatíveis com o limite de 1,5°C do Acordo de Paris. O plano inclui a redução acelerada das emissões próprias e o corte de 42% das emissões da cadeia de valor, integrando energia renovável, logística limpa, eficiência energética e insumos de origem regenerativa.

“Esse é um passo concreto do nosso plano de transição climática. Ele mostra como é possível reduzir emissões de forma relevante em operações industriais e logísticas complexas”, afirma Josie Romero, vice-presidente de Operações, Logística e Suprimentos da Natura. Para Angela Pinhati, diretora de sustentabilidade, o projeto representa a materialização de uma ambição antiga da companhia.

Ao viabilizar o uso integrado do biometano na fábrica e na frota, a parceria com a Ultragaz também reforça um ponto-chave para a transição energética no Brasil: a maturidade crescente das soluções baseadas em resíduos. “Ao integrar fábrica e frota em uma mesma solução energética, é possível descarbonizar processos complexos, aumentar a eficiência operacional e fortalecer a competitividade do negócio”, afirma Guilherme Darezzo, vice-presidente de operações da Ultragaz.

Mais do que um caso corporativo, o projeto de Cajamar sinaliza um caminho possível para a indústria brasileira: combinar escala, eficiência e redução de emissões com soluções já disponíveis, acelerando a transição energética sem comprometer a operação. Se replicável, o modelo ajuda a reposicionar o biometano de alternativa complementar a peça central da descarbonização industrial.
 

Envolverde


Leia também: