Mídia e Economia: Histórias da Sustentabilidade em um Planeta Exaurido

Dal Marcondes - Movimentar a economia por meio do consumo desenfreado foi uma decisão política tomada no rescaldo da Segunda Guerra Mundial. Naquele momento, pareceu a solução ideal para evitar uma nova Grande Depressão; hoje, sabemos que essa escolha apenas acelerou a degradação dos sistemas vitais da Terra. O grande dilema é que a mídia tradicional, em sua maioria, ainda não acordou para a necessidade de mudar a bússola.

Atualizado em 23/04/2026 às 10:04, por Dal Marcondes.

Imagem de uma pilha de jornais impressos.

Por Dal Marcondes*

Neste quarto de século, com a humanidade ultrapassando os 8,2 bilhões de habitantes, a reflexão sobre os limites da atividade econômica tornou-se uma questão de sobrevivência. A ideia de que a economia pode crescer infinitamente em um planeta finito é uma falácia geométrica. Atualmente, apenas dois bilhões de pessoas desfrutam plenamente dos benefícios do modelo atual, enquanto a predação dos recursos naturais avança sobre o futuro de todos.

O financiamento da informação está no centro desse conflito. O modelo de negócio das empresas de mídia ainda depende quase exclusivamente da publicidade — o motor que induz ao consumo.

O Conflito de Interesses: Como o jornalismo pode questionar a lógica do consumo se é essa mesma lógica que paga os salários das redações?

O Modelo de Financiamento e o Direito à Informação

A Constituição de 1988 garante o livre pensamento e o acesso à informação, mas não oferece garantias econômicas para o jornalismo de qualidade. Sem subsídios diretos, a mídia rendeu-se à métrica do "Custo por Mil" (CPM).

A Dicotomia do Conteúdo

Para sobreviver, o mercado jornalístico dividiu-se em duas frentes:

  • O que o público quer saber: Conteúdos populares, superficiais e sem senso crítico. Atraem grandes massas e, consequentemente, grandes anunciantes.
  • O que o público precisa saber: Reportagens sobre ética, democracia, justiça e sustentabilidade. É o jornalismo que constrói cidadania, mas que encontra eco em uma parcela menor (e mais exigente) da sociedade.

A Armadilha de Victor Lebow

A "economia do consumo" substituiu a "economia do abastecimento". Nossos avós compravam itens duráveis; hoje, vivemos sob a ditadura da obsolescência programada. Essa transição foi arquitetada em 1945 pelo consultor Victor Lebow, que defendeu que o consumo deveria se tornar nosso "estilo de vida e ritual espiritual".

O resultado dessa aceleração é visível:

Indicador de ImpactoTendência Recente
Consumo de Matéria-PrimaChegou a 9 toneladas/ano por pessoa.
Resíduos Sólidos99% dos produtos são descartados em até 6 meses.
Desigualdade SocialOs 20% mais ricos detêm 82,7% da renda global.
ClimaConcentração de CO² atinge níveis recordes, apesar das metas dos acordos climáticos.

 

O Papel da Mídia na Crise Climática

Embora o consenso científico sobre as causas antropogênicas das mudanças climáticas seja esmagador, a mídia global ainda oscila. Estudos do Instituto Reuters mostram que, em países como EUA e Reino Unido, grupos de pressão ainda conseguem espaço para o "ceticismo climático" sob o pretexto de neutralidade.

No Brasil, o cenário é mais consciente, mas o desafio mudou: não se trata mais de negar o clima, mas de negar a urgência da mudança do modelo econômico. O mercado é frequentemente apresentado como uma entidade criativa e autossuficiente, capaz de resolver crises que ele mesmo criou.

A Urgência do Planejamento

Como bem aponta o professor Ricardo Abramovay, a ecoeficiência na produção (fazer mais com menos energia) tem avançado, mas o volume total de consumo anula esses ganhos. Sem um planejamento que redirecione a economia para o baixo impacto ambiental e para a redução das desigualdades, continuaremos a "enxugar gelo" tecnológico.

A mídia raramente assume posições de vanguarda; ela costuma refletir o padrão da sociedade onde está inserida. No entanto, o jornalismo independente e as mídias nativas digitais — como a Envolverde — têm atuado como a "guerrilha informativa" necessária.

Assim como a mídia alternativa foi fundamental para a redemocratização do Brasil nos anos 80, o jornalismo de sustentabilidade é a ferramenta de transformação para a "redemocratização dos recursos".

Uma Escolha de Governança

O Brasil vive uma oportunidade única. Com investimentos em infraestrutura e a liderança em biociência e energias renováveis, podemos transitar de uma economia baseada em commodities para uma economia baseada no conhecimento.

Para isso, a mídia deve abandonar a fantasia da isenção hipócrita. Escolher o que noticiar é um ato ideológico. O compromisso do jornalista moderno deve ser com o desenvolvimento humano e a preservação da vida, e não com a simples reprodução do capital.


Dal Marcondes é jornalista referência em sustentabilidade e economia, fundador da Agência Envolverde e mestre em Produção Jornalística.



Dal Marcondes

Jornalista com especialização em economia, meio ambiente, sustentabilidade e ESG.

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