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Quarta-feira, 14 de outubro de 2026 MPJ | Mais Pelo Jornalismo

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O Papel do Jornalismo Socioambiental na Era da Polarização, do ESG e da Inteligência Artificial

Este artigo reflete três décadas de atuação na linha de frente do jornalismo socioambiental no Brasil. A partir da trajetória construída na Agência Envolverde, examino a transformação da pauta ambiental — de nicho especializado a centro de disputas ideológicas —, os gargalos no relacionamento entre empresas, Relações Públicas e imprensa, o combate ao greenwashing e os iminentes desafios impostos pelas fake news e pela inteligência artificial generativa.

Imagem representando uma jornalista ambiental trabalhando - feita por IA
Imagem feita por IA

Por Dal Marcondes - 

ODS 16 — Paz e Justiça

Em tempos de polarização ruidosa e multiplicação da desinformação nas redes, o jornalismo socioambiental enfrenta o desafio de qualificar o debate público sem ceder ao simplismo. Fundada no rigor científico e na justiça social, a imprensa especializada precisa resistir às narrativas binárias, desmascarar o greenwashing e construir pontes sólidas para uma reflexão profunda sobre o nosso futuro comum.

A pauta ambiental no Brasil passou por uma transformação profunda nas últimas décadas. O que antes era visto como um debate técnico ou restrito a setores engajados passou a ocupar o centro do debate público e se tornou alvo de intensas disputas ideológicas. O negacionismo científico, sobretudo em relação às mudanças climáticas e ao desmatamento, ganhou uma visibilidade inédita. Embora posições negacionistas sempre tenham existido em círculos isolados, a ascensão da extrema direita e a força de amplificação das redes digitais concederam a esses discursos um alcance sem precedentes. Como observou Umberto Eco, as plataformas digitais deram voz ao "idiota da aldeia", transformando conversas marginais em megafones capazes de espalhar desinformação e corroer a confiança na ciência.

O efeito dessa polarização na sociedade, na mídia e nas políticas públicas é corrosivo. Questões socioambientais complexas passam a ser tratadas como escolhas binárias, reduzindo o debate e inviabilizando soluções construídas coletivamente. É nesse ambiente conturbado que veículos especializados assumem sua missão central. Na Envolverde, recusamos polêmicas vazias para oferecer fatos apurados, análises fundamentadas e opiniões qualificadas. Ao ouvir especialistas de diferentes áreas e valorizar os dados científicos, buscamos aprofundar a compreensão do público e entregar informação confiável que vá além do ruído polarizado.

Da Rio+20 ao Pioneirismo Digital Socioambiental

Para compreender o estágio atual do jornalismo ambiental no Brasil, é preciso resgatar marcos históricos decisivos. A Rio+20, realizada no Rio de Janeiro em junho de 2012 em celebração aos 20 anos da Eco-92, representou um divisor de águas definitivo. Foi um dos primeiros grandes eventos internacionais a utilizar a internet como arena principal de interatividade e difusão de conteúdos. Essa inovação fortaleceu as mídias independentes e especializadas, que até então enfrentavam dificuldades para competir com os grandes grupos de comunicação.

Além disso, a cobertura da Rio+20 evidenciou que os jornalistas especializados possuíam um conhecimento técnico e contextual mais aprofundado do que a imprensa tradicional. Esse cenário impulsionou a contratação de profissionais especializados pelas grandes redações, consolidando editorias dedicadas ao clima e ao meio ambiente nas principais mídias do país.

A trajetória da Envolverde confunde-se com essa própria evolução. Em 1995, participei da criação do Projeto Terramérica, parceria do Pnuma com a agência IPS para editar um suplemento ambiental encartado em jornais como Jornal do Brasil, Correio Braziliense e Estado de Minas. Em janeiro de 1998, demos um salto pioneiro ao lançar a Agência Envolverde como portal na internet. Adotamos a distribuição diária de matérias e o conceito de copyleft (atual creative commons), permitindo a livre reprodução para democratizar a informação. Expandimos com eventos como o Congresso Brasileiro de Jornalismo Ambiental e parcerias com veículos como O Estado de S. Paulo, Harvard Business Review e Carta Capital. Mantida pelo Instituto Envolverde, a agência consolida uma linguagem acessível e engajada, pautada pelos Objetivos de Desenvolvimento Sustentável (ODS) e fundamentada na ciência.

Cobertura Crítica, COPs e a Relação com o ESG Corporativo

No tratamento de pautas complexas — como desmatamento, negociações climáticas e agronegócio —, o jornalismo não pode limitar-se à denúncia superficial. No desmatamento, investigamos causas profundas, conectando a destruição a problemas como grilagem, violência no campo e cadeias de consumo. Nas COPs da ONU, olhamos além das declarações finais, acompanhando os bastidores e dando voz a atores sociais ignorados pela grande mídia. No agronegócio, reconhecemos sua relevância econômica, mas mantemos análise crítica dos impactos e destacamos tecnologias de baixo carbono e práticas sustentáveis.

Essa postura orienta o relacionamento diário com assessorias de imprensa e profissionais de Relações Públicas (RP). Recebemos cotidianamente grande volume de materiais sobre iniciativas ESG. Contudo, a Envolverde não funciona como um "mural de releases". Nada é publicado automaticamente. Todo conteúdo passa por checagem rigorosa, apuração de dados complementares e escuta de fontes independentes.

Os profissionais de RP exercem papel legítimo como facilitadores entre a linguagem corporativa e a jornalística. Porém, identificamos erros frequentes: atuação meramente tática, anúncios sem explicar o porquê ou a metodologia, falta de integração do tripé ESG e ausência de métricas auditáveis. A comunicação reativa e o desconhecimento da pauta socioambiental apenas geram ruído e desperdiçam oportunidades de diálogo qualificado.

Greenwashing e o Desafio da Inteligência Artificial

A superficialidade corporativa favorece a proliferação do greenwashing e do social washing. Enfrentamos com frequência tentativas de maquiagem de dados, uso de termos vagos e destaque exagerado para pequenas ações em empresas altamente poluidoras. Em momentos de crise, é comum o envio massivo de releases positivos para tentar "enterrar" fatos negativos. Combatemos essas práticas com independência editorial, apuração investigativa e a experiência necessária para distinguir marketing de um compromisso genuíno com a sustentabilidade.

Por fim, o jornalismo socioambiental encara os desafios interligados das fake news e da inteligência artificial generativa. A desinformação tornou-se uma indústria poderosa que mina a confiança na ciência e atrasa ações urgentes. A IA generativa amplia esse risco ao criar conteúdos falsos hiper-realistas em escala e a custo zero, enquanto os algoritmos reforçam bolhas ideológicas. Diante desse cenário desafiador, a credibilidade do jornalismo dependerá mais do que nunca de apuração rigorosa, transparência, responsabilidade editorial e da capacidade humana de contextualizar a realidade com ética e precisão.

Envolverde

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