Odisséia, o Filme
𝙎𝙖𝙢𝙮𝙧𝙖 𝘾𝙧𝙚𝙨𝙥𝙤 - Assisti numa das últimas cadeiras disponíveis e numa sala lotada de jovens. É um filme para digerir e pensar na mitologia que conhecemos - ou pensamos conhecer. Quase todo mundo está aplaudindo o filme que já é uma das maiores arrecadações entre os que o Nolan dirigiu.

por 𝙎𝙖𝙢𝙮𝙧𝙖 𝘾𝙧𝙚𝙨𝙥𝙤 -
Vi, até agora, só uma critica ácida ao filme: a do Eduardo Bueno, editor, jornalista e historiador. Mas ele adora o papel de 'sou do contra', então relativize.
Minha opinião? Não ouso até pensar um pouco. Impactante, barulhento, furioso, tira nosso fôlego.
Mas tais sensações provocadas por um roteiro de vertigens faz um bom filme?
Reproduzo abaixo um texto do argentino Juan José Sauer, escritor e ensaísta, publicado no caderno Mais da ‘Folha de S. Paulo’, que me caiu nas mãos graças ao Ernani Terra. É um artigo antiguinho, mas gostei.
É só 'uma pulguinha atrás da orelha':
ULISSES, O HOMEM QUE OUVIU O CANTO DAS SEREIAS
Segundo a tradição, eram filhas das Musas. Para alguns, de Melpômene, a da tragédia; para outros, de Terpsícore, a da dança. Embora sejam conhecidas por vários outros nomes, o mais comum de cada uma é Partênope, Leucósia ("a alvíssima") e Lígia. Certos mitógrafos enumeram quatro, mas as sereias que o engenhoso Ulisses enfrentou (e venceu) num canto célebre da "Odisséia" eram apenas duas.
Nos tempos modernos (que, afinal, são apenas um novo cenário para o avatar presente dos mitos mais arcaicos), acreditamos reconhecê-las pela porção inferior de seu corpo, a de um belo peixe dourado, e pelos cabelos louros derramados sobre seus seios adolescentes, mas essa representação é falsa, e em todo caso tardia. Ainda no século 13, Brunetto Latini (1230-1294), o mestre de Dante, descreve-as como seres triplos, com rosto humano, escamas e asas, mas na Antiguidade as sereias não eram criaturas aquáticas e sim voadoras, pois haviam sido transformadas em pássaros. As razões dessa transformação variam segundo a fonte: no canto quinto das "Metamorfoses", Ovídio afirma que foram elas mesmas que o pediram, para terem mais eficácia na busca de Perséfone, de quem eram damas de companhia, quando ela foi sequestrada por Plutão ("o Rico"), epíteto pelo qual, devido a suas origens agrárias, também era conhecido Hades, o deus do inferno.
Pierre Grimal, em seu mais que excelente "Dicionário da Mitologia Grega e Romana" (ed. Bertrand Brasil), recolhe várias versões dessa metamorfose, sendo uma das mais interessantes a que afirma ter sido Afrodite, a deusa do amor, quem, para castigá-las por seu desprezo dos prazeres eróticos, lhes arrebatou a beleza juvenil e transformou-as em monstros metade humanos, metade pássaros. (Esse desprezo do erótico poderia talvez justificar o rabo de peixe com que são representadas na atualidade, que as incapacita para o ato sexual.) Restou-lhes o inefável dom da música: Partênope tocava a lira, Lígia, a flauta, e "a alvíssima" cantava com voz melodiosa, embora seus talentos musicais tenham outra distribuição segundo certas tradições. Mas eram seres monstruosos e malignos: um dos muitos trios demoníacos da mitologia, cuja forma peculiar de maldade consistia em atrair os marinheiros com seu canto sublime e fazer com que os navios se aproximassem perigosamente da ilha que elas habitavam, até se chocarem com as rochas.
Dizem que essa ilha ficava no mar Tirreno, não longe de Sorrento (e não longe da caverna em que a Sibila de Cumes expedia seus oráculos), e reza a lenda que, quando Partênope morreu, seus despojos foram depositados pelas ondas onde agora se ergue a cidade de Nápoles, cujo nome primitivo foi justamente o da Sereia. Poucas criaturas mitológicas desfrutaram de tanta posteridade como esses monstros femininos -Medusa e as demais górgonas, Quimera, Cila e Caribdis etc.- da mitologia greco-romana, mas somente as sereias foram se adaptando aos tempos que corriam para, por fim, graças à colaboração de Hans Christian Andersen (1805-1875), entre outros, representarem o oposto do que eram, ainda que se possa reconhecer que uma parte (secundária) do mito primitivo lhes atribui beleza e fidelidade.
Entre os heróis que as enfrentaram, dois são mais do que famosos: Orfeu e Ulisses. Um terceiro, Butes, sucumbiu ao feitiço do canto e se atirou no mar, mas foi salvo no último instante por Afrodite, sempre disposta a contrariar os desígnios dos seres monstruosos que desprezam o amor. Para vencê-las, Orfeu e Ulisses aplicaram estratégias muito diversas: o primeiro confrontou-lhes seu próprio canto; o outro se arriscou a escutar o delas até o fim, para indagar seu sentido.
A exatidão dos mitos é de uma ordem diferente da dos números ou dos fatos: Orfeu, que com seu canto combateu o das sereias, fez isso na qualidade de membro da expedição dos Argonautas, quando esta, comandada por Jasão e integrada pelos 50 mais proeminentes heróis da Grécia, navegava rumo ao nordeste, para a Cólquida, em busca do Velocino de Ouro. O canto de Orfeu se impôs ao das sereias, e os argonautas puderam seguir viagem. Mas é digna de nota a ubiquidade da ilha habitada por esses monstros melodiosos, já que no ciclo de Jasão ela se encontra num extremo do Mediterrâneo muito distante do ponto em que Ulisses as enfrentou.
Embora a cena seja universalmente conhecida, vale a pena recordá-la mais uma vez. Quando avistam uma nau, as sereias se põem a cantar, e seu canto é tão doce que os marinheiros naufragam por se aproximarem da costa rochosa mais do que o razoável, momento em que os monstros alados (que em outros tempos, lembremos, foram lindas jovens) aproveitam para devorá-los. Uma planície que integra a vaga geografia da ilha reverbera ao longe sua brancura, feita dos ossos das vítimas imemoriais. Advertido por Circe do perigo que representa o canto das sereias, Ulisses manda que o amarrem ao mastro do navio e que os ouvidos dos remadores sejam tapados com cera (Adorno e Horkheimer descrevem o mito como uma primitiva metáfora da divisão do trabalho), incitando-os a remar com energia para afastar a embarcação da ilha o mais rápido possível. Além disso, recomenda-lhes que, se ele, presa do feitiço musical, por acaso lhes pedir que o soltem, tratem de apertar as cordas ainda mais. Graças a seu estratagema, Ulisses é o único, da infinita e fugidia sucessão de gerações humanas, a ouvir o canto: descoberto seu segredo, as pobres criaturas monstruosas, vencidas, se precipitam no abismo.
Embora Homero só reproduza oito versos desse canto, e embora o trecho tenha dado lugar a infindáveis especulações, não é difícil adivinhar seu sentido. Dos primeiros quatro versos, dois tratam de incitar a vaidade de Ulisses e os outros dois pretendem atraí-lo com a afirmação mais do que ambígua de que nenhum navio passou pela região sem escutar o doce canto. Já os quatro últimos têm um sentido inequívoco: "Bem mais instruídos prosseguem, depois de se haver deleitado./ Todas as coisas sabemos, que em Tróia de vastas campinas,/ pela vontade dos deuses, troianos e aqueus sofreram,/ como, também, quanto passa no dorso da terra fecunda".
O canto das sereias é, nem mais nem menos, a proposta de Mefistófeles. Este, como sabemos, numa nova transcrição cristã do mito do saber proibido, desde a Idade Média precipita a condenação do imprudente doutor Fausto: oferece o conhecimento da realidade última das coisas em troca da perdição do sujeito. Para certos helenistas, porém, a originalidade do mito grego residiria em seu aspecto positivo, humanista, já que ele inauguraria a inclinação do homem ocidental ao conhecimento, contra as correntes da superstição. Ulisses encarnaria, assim, a razão triunfante, a supremacia da ciência e da filosofia sobre o obscurantismo primitivo do mito e da lenda.
Essa interpretação otimista não é a única. Sabe-se que Ulisses conta a maioria de suas aventuras num reino aonde chegou depois de um miserável naufrágio: a ilha de Esquéria, habitada pelos feácios, cujo rei, Alcínoo, neto de Posídon, é um dos personagens mais curiosos da Odisséia. Esquéria é uma espécie de reino encantado que conserva os privilégios da Idade de Ouro: abundância, paz, harmonia, prazer, felicidade ininterrupta. Mais morto que vivo, nu e tendo perdido todos os seus companheiros, Ulisses é recolhido pelos feácios e só revela sua identidade quando ouve uma menção à história do cavalo de Tróia. Depois de passar algum tempo na ilha - lugar maravilhoso mais afim ao paraíso que a qualquer paragem terrestre -, os feácios o enviam de volta a Ítaca, sua terra natal, deitado numa embarcação carregada de enfeites e de víveres. Alguns helenistas vêem nesse episódio certa ruptura formal com a epopéia e sustentam que a travessia nessa embarcação fretada não passa de um rito fúnebre. Segundo essa interpretação, Ulisses teria de fato naufragado e padecido a tão temida morte no mar, longe da família e da pátria, o que transformaria a ilha de Esquéria no delírio feliz de sua agonia.
A solução é simples: as duas versões são corretas. Mito e relato não significam: são. Transparentes e opacos ao mesmo tempo, iluminam ou ensombrecem tanto quem os escuta quanto quem os lê. Como ocorre com qualquer outro objeto do mundo, por momentos acreditamos adivinhar seu sentido, um sentido instável que em seguida nos foge outra vez. Só a presença do mito permanece, incontroversa e única. O homem que ouviu o canto impossível realmente o ouviu: esse instante luminoso do relato possui uma evidência tão intensa quanto a do próprio mar em que ocorreu. Se esse sentido roubado implica o triunfo ou a perdição será um persistente enigma e um persistente feitiço para nós, o resto dos cinzentos mortais."
Dizem que o filme de Nolan está despertando uma odisseymania. Será?
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Envolverde

Samyra Crespo
Samyra Crespo é historiadora, pesquisadora e uma das pioneiras mais expressivas do movimento ambientalista e da ecologia social no Brasil. Doutora em História Social pela Universidade de São Paulo (USP), construiu uma trajetória marcante na articulação entre ciência, políticas públicas e engajamento da sociedade civil. Destacou-se ao conceber e coordenar por mais de duas décadas a pesquisa pioneira "O que o brasileiro pensa do meio ambiente", estudo fundamental para compreender a percepção pública sobre a pauta ecológica no país. Com participação decisiva na Eco-92 e na construção da Agenda 21 Brasileira, presidiu o Instituto de Pesquisas Jardim Botânico do Rio de Janeiro (2013–2016) e atuou como pesquisadora titular do Museu de Astronomia e Ciências Afins (MAST). Integrou o Conselho do Greenpeace Brasil, esteve à frente do programa ambiental do ISER e foi professora visitante na Universidade de Colúmbia (EUA). Sua atuação segue como referência central para os debates de sustentabilidade, justiça socioambiental e governança democrática no Brasil.





