ONU alerta que desigualdade de gênero dificulta soluções para a crise mundial da Água

Enquanto o mundo discute grandes obras de infraestrutura para enfrentar a escassez hídrica, uma barreira invisível e persistente continua a comprometer a segurança hídrica global: a desigualdade de gênero. Segundo o Relatório Mundial das Nações Unidas sobre o Desenvolvimento dos Recursos Hídricos de 2026, publicado nesta quinta-feira (19) pela UNESCO, as mulheres são as protagonistas da coleta de água, mas figuram como figurantes nas mesas de decisão.

Atualizado em 19/03/2026 às 12:03, por Redação Envolverde.

Uma mulher carregndo uma bacia de água na cabeça

Crédito: Banco Mundial

por Redação Envolverde com informações da UNESCO - 

O documento, intitulado “Água para todas as pessoas: direitos e oportunidades iguais”, revela um cenário alarmante. Em mais de 70% dos domicílios rurais sem acesso a serviços básicos, a responsabilidade de buscar água recai exclusivamente sobre ombros femininos. No entanto, quando o assunto é governança, financiamento e liderança no setor, elas ocupam menos de 10% dos cargos governamentais em quase um quarto dos países avaliados.

A crise da água não é apenas uma questão de metros cúbicos; é uma crise de tempo e desenvolvimento humano. O relatório quantifica o custo social desse esforço:

250 milhões de horas: É o tempo total que mulheres e meninas gastam, todos os dias, coletando água no mundo.

Educação em risco: Meninas menores de 15 anos têm quase o dobro de probabilidade (7%) do que meninos (4%) de serem retiradas da escola para buscar água.

Saúde e Dignidade: Entre 2016 e 2022, estima-se que 10 milhões de adolescentes faltaram à escola ou ao trabalho devido à falta de instalações sanitárias adequadas para a higiene menstrual.

“Garantir a participação das mulheres na gestão hídrica é um fator fundamental para o progresso. Quando as mulheres têm acesso igual à água, todos se beneficiam”, afirma Khaled El-Enany, diretor-geral da UNESCO.

O Custo Real da Crise Climática para as Mulheres

O relatório de 2026 traz um dado contundente sobre como o aquecimento global castiga de forma desproporcional os lares chefiados por mulheres. A vulnerabilidade não é apenas física, mas severamente econômica.

Os dados revelam uma disparidade alarmante no impacto socioeconômico das mudanças ambientais sobre as mulheres. Quando a temperatura global sobe apenas 1Cº, os domicílios chefiados por mulheres enfrentam uma redução de renda 34% maior do que aqueles chefiados por homens, aprofundando o ciclo de pobreza.

Além do prejuízo financeiro, há um desgaste físico crescente: a carga horária de trabalho dessas mulheres aumenta, em média, 55 minutos extras por semana para lidar com os desafios impostos pela escassez de recursos. Para agravar o cenário, elas possuem menor acesso a sistemas de alerta precoce e suporte à recuperação, o que as deixa em uma posição de extrema vulnerabilidade diante de desastres naturais e emergências climáticas.

Liderança: O Elo Perdido

Para a ONU, a solução para a crise hídrica passa obrigatoriamente por uma reforma na estrutura de poder. Alvaro Lario, presidente da ONU-Água, reforça que é hora de reconhecer as mulheres como "usuárias, líderes e profissionais".

Atualmente, o setor hídrico é um dos mais desiguais. Em países de renda baixa e média, as mulheres representam menos de um quinto da força de trabalho dos serviços hídricos e recebem salários sistematicamente inferiores aos de seus colegas homens.

Essa exclusão é alimentada por barreiras legais: em muitos países, o direito à água está atrelado à posse de terra. Como as leis de propriedade frequentemente discriminam as mulheres — com homens detendo o dobro de terras em certas regiões — elas perdem automaticamente o acesso à água para uso produtivo e agrícola.

O Caminho para a Mudança

O relatório finaliza com um chamado urgente aos governos para:

  • Eliminar barreiras legais que impedem mulheres de possuir terras e direitos hídricos.
  • Investir em dados desagregados por sexo, para que a invisibilidade estatística não mascare a desigualdade.
  • Valorizar o trabalho não remunerado no planejamento de investimentos.
  • Fortalecer a liderança feminina em áreas técnicas e científicas da governança.

A mensagem das Nações Unidas é clara: não haverá segurança hídrica sustentável enquanto a gestão da água continuar sendo um diálogo de uma nota só.

UNESCO/Envolverde


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