Quadras comunitárias fortalecem o direito ao esporte e à inclusão urbana
Projetos construídos com participação local evidenciam o impacto do brincar e da convivência na formação de crianças, jovens e comunidades

O direito de brincar e acessar o esporte de forma segura e contínua ainda está longe de ser uma realidade para milhões de crianças e jovens que vivem em territórios periféricos no Brasil e em outras partes do mundo. Em muitos bairros, a ausência ou degradação de quadras, praças e espaços coletivos representa muito mais do que a falta de lazer. Trata-se da negação de um direito fundamental ligado à saúde, ao convívio social e ao desenvolvimento humano.
Quando o espaço público é inexistente ou abandonado, o impacto ultrapassa o campo esportivo. Crianças deixam de brincar, jovens perdem oportunidades de socialização e comunidades veem enfraquecer seus vínculos. Nesse contexto, iniciativas que tratam o esporte como ferramenta de inclusão social e o espaço público como infraestrutura essencial contribuem diretamente para a redução das desigualdades.

Um exemplo prático dessas iniciativas é a love.fútbol, organização global sem fins lucrativos fundada em 2006. A premissa de sua atuação é de que o acesso ao esporte só gera impacto duradouro quando vem acompanhado de participação comunitária e governança local. Seu modelo parte da escuta ativa de moradores, envolvendo a comunidade desde o diagnóstico do território até a gestão dos espaços após a entrega. A quadra, nesse processo, passa a funcionar como ponto de encontro, pertencimento e organização social.
A experiência acumulada em mais de 100 quadras esportivas comunitárias construídas ou revitalizadas em 23 países, nos cinco continentes, demonstra que o fortalecimento do direito ao esporte depende menos da obra em si e mais do envolvimento das pessoas que irão ocupar aquele espaço. Quando há corresponsabilidade, os locais permanecem vivos, cuidados e integrados à dinâmica do bairro, contribuindo para a promoção da saúde física e mental, bem como na construção de relações mais solidárias. O Brasil abriga hoje 32 quadras cocriadas pela love.fútbol, maior número entre todos os territórios onde a organização atua.

Outro aspecto central da iniciativa é a articulação entre sociedade civil, setor privado e comunidades locais. Parcerias com empresas e instituições viabilizam recursos e escala, porém o impacto social só se consolida quando respeita as especificidades de cada território e evita soluções padronizadas que ignoram a realidade local. Foi o caso, por exemplo, da inauguração, em dezembro, de uma quadra revitalizada na comunidade São Benedito, localizada às margens da rodovia Anhanguera, em Cajamar (SP), com apoio da Amazon. Há anos sem condições de uso, o espaço voltou a ganhar vida como ponto de encontro e convivência para cerca de 500 famílias da região, que, até então, contavam apenas com a escola municipal como principal local para atividades coletivas. Todo o processo foi desenvolvido com protagonismo da própria comunidade, fortalecendo vínculos e ampliando oportunidades de convivência e desenvolvimento.
Além de ampliar o acesso ao esporte de forma geral, iniciativas desse tipo têm contribuído para abrir espaço ao futebol feminino em territórios onde meninas historicamente encontram mais barreiras para ocupar quadras e participar de atividades esportivas. Ao garantir ambientes seguros, organizados e legitimados pela comunidade, esses projetos ajudam a romper estigmas de gênero, estimular a permanência de meninas no esporte e ampliar referências positivas desde a infância e adolescência.
Em um momento em que o futebol volta ao centro das atenções globais com a proximidade de mais uma Copa do Mundo, experiências locais como essas lembram que a transformação por meio do esporte acontece nos territórios e não em grandes arenas. É no acesso cotidiano ao brincar, à convivência e à prática esportiva que se constrói uma base mais justa e inclusiva para o futuro.
Envolverde




