ODS 3

O CRIME E O CÂNCER

Uma analogia entre o câncer, que lança suas ramificações sobre o corpo humanos e o crime organizado, que lança seus tentáculos sobre o corpo social.

O CRIME E O CÂNCER

por Gilberto Natalini –

Em primeiro lugar tenho que me desculpar por essa comparação de mal gosto.

Sou cirurgião há quase 50 anos, e como tal já operei cerca de 17 mil pessoas, sendo muitos desses, pacientes com tumores malignos.

Quando você vai intervir num caso assim é preciso todo um preparo anterior, como um diagnóstico precoce, a escolha detalhada da técnica cirúrgica empregada, a maior radicalidade da operação com o menor impacto sobre o organismo do doente.

Depois segue o pós-operatório, complexo e delicado, até a cura ou a recidiva da doença.

No ato cirúrgico, após todo o preparo pré-operatório citado acima, é preciso muita habilidade da equipe cirúrgica, para extirpar o tumor, que pode estar isolado, ou na maioria das vezes infiltrado nos tecidos subjacentes, confundindo-se com eles próprios. Além é claro, de possíveis metástases próximas ou distantes.

A inteligência somada com a técnica são a salvação do paciente, e se forem mal feitas, poderá leva-lo a consequências desastrosas ou mesmo à morte.

Um analogia perversa

Agora vai a comparação!

O crime organizado no Brasil – o tráfico de drogas, de armas, de pessoas, as milícias, o jogo ilegal, as quadrilhas de corrupção, públicas e privadas, o contrabando, as quadrilhas ambientais e as gangues de “Fake News” – é uma instituição estabelecida, profundamente enraizada e infiltrada no país.

É como um tumor maligno, que nasceu e se desenvolve no corpo da Nação.

Tem sedes centrais em órgãos – cidades e estados – como um tumor mãe e metástases no território nacional.

É um câncer social, econômico e político debilitando e corroendo todo o tecido orgânico do Brasil.

Seu estágio na vida do povo brasileiro é bastante avançado, e o prejuízo às pessoas é imenso.

O crime organizado vai transformando o Estado brasileiro num Estado criminoso e tomando as instituições públicas e privadas, como um câncer e suas metástases. Em muitos lugares já temos – presença de um narco Estado.

Não há exagero nessa observação. É só olhar para o lado e ver.

Reações atabalhoadas

Pois bem!

As reações dos governos a essa lastimável situação são espasmódicas, atabalhoadas, ineficientes e burras

Não temos uma política nacional de combate ao crime organizado, e nem uma política nacional de segurança pública.

As ações do poder público contra o crime organizado no Brasil têm se revelado um fiasco. Seja por incompetência, seja por conivência.

Sabe-se lá!

Por essas e por outras vamos perdendo a guerra contra o avanço das organizações criminosas no Brasil que só tem crescido e se expandido, inclusive para o exterior.

Só a título de exemplo, sabe-se que o Porto de Santos exporta 60% da cocaína que sai do Brasil.

Outro exemplo que assistimos todos os dias são as ações das polícias nas periferias e comunidades do Rio de Janeiro e do Brasil inteiro.

Digo sempre que estamos vivendo uma guerra urbana.

A metástase no tecido urbano

Como um tumor maligno o crime organizado infiltrou-se, enraizou-se, lançou metástases em todo território e nas instituições nacionais.

Como a nação não tem um Sistema Único de Segurança Pública, cada ente federativo, cada governo, cada polícia, age por conta própria, trazendo um fracasso descomunal no combate ao crime e à violência.

Nessa “guerra” entre as forças de segurança e os criminosos, quem mais sofre as consequências são as populações pobres que moram ou trabalham nessas comunidades palcos da violência, da arbitrariedade, da corrupção, da letalidade tanto de bandidos como da polícia, mas principalmente das pessoas comuns.

Uma guerra de poucos resultados

O resultado são os mortos, os feridos, os perseguidos, vítimas da guerra urbana brasileira, que traz poucos resultados práticos e efetivos.

É como se o Brasil estivesse “enxugando gelo” na luta contra o crime organizado, que hoje já se tornou a 8ª máfia do mundo.

Só o combate efetivo à corrupção nas polícias, boa parte delas apodrecidas pelo crime, o combate ferrenho à corrupção nos órgãos públicos, parte deles já servindo aos bandidos, a implantação de um Sistema Único de Segurança Pública, a exemplo do SUS e do SUAS, o uso prioritário da inteligência e de asfixia financeira, poderão surtir algum resultado nessa guerra.

A Segurança Pública passou a ser a primeira preocupação do povo brasileiro. As pessoas estão com medo das ruas, e se veem ameaçados dentro de suas casas. E até nas suas redes sociais.

Só um Governo respeitado e corajoso pode liderar um mutirão cívico, que mobilize a população para, que dentro dos limites da Democracia e respeitando os direitos dos cidadãos, possa separar esse tumor maligno da criminalidade do tecido social brasileiro, seguindo o exemplo de como nós cirurgiões fazemos para tentar salvar nossos pacientes.

Publicado Originalmente no site OrbiNews

Gilberto Natalini é médico, foi vereador e titular da Secretaria Municipal de Mudanças no Clima, em São Paulo. É ativista social e ambiental.

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