PuertoSuapeExterno TERRAMÉRICA   Os pecados ambientais de Suape

As áreas verdes de conservação são vistas atrás do Porto de Suape, fotografadas a partir do Oceano Atlântico. Foto: Cortesia Assessoria de Comunicações de Suape.

Se o projeto do Porto de Suape, no Nordeste do Brasil, não tivesse começado na década de 1970, mas agora, enfrentaria restrições ambientais muito mais rigorosas.

Recife, Brasil, 10 de outubro de 2011 (Terramérica).- O Porto de Suape pode ser eternamente absolvido de seus delitos ecológicos, por abrir portas para uma prosperidade sem precedentes no pobre Estado de Pernambuco, Nordeste do país, e por ter nascido antes de as exigências ambientais ficarem mais rigorosas. Testemunhos apaixonados dramatizaram seus pecados capitais, entre eles a interrupção, devido à terraplenagem, do fluxo de dois dos quatro rios que desembocam na baía de Suape, 40 quilômetros ao sul do Recife, capital pernambucana.

A construção do Porto começou em 1977, mas foi lenta devido à dificuldade em atrair empresas para o complexo industrial que faz parte de seu projeto. Os tubarões começaram a atacar os banhistas, especialmente os surfistas das praias do Recife, a partir de 1992, depois que o Porto começou a receber navios com maior frequência, entre 1989 e 1991.

Entre junho de 1992 e setembro de 2006, foram registrados 47 ataques com 17 mortos, segundo um estudo que Fabio Hazin, diretor do Departamento de Pesca e Aquicultura da Universidade Federal Rural de Pernambuco, elaborou com dois colegas pesquisadores e que aponta possíveis causas do fenômeno. A quantidade de ataques é alta para um trecho costeiro de apenas 20 quilômetros, considerando que a média mundial não chega a uma centena por ano, a maioria na Austrália, África do Sul e nos Estados Unidos. Também surpreende o foco repentino.

No Recife não se conhecia estes fatos antes, o que descarta explicações como maior concorrência de surfistas, presentes desde a década de 1960, ou a topografia submarina favorável à chegada de peixes grandes, que é permanente, argumentou Hazin, presidente do Comitê Estadual de Monitoramento de Incidentes com Tubarões. As evidências apontam o Porto de Suape como fator desse fenômeno, já que os tubarões costumam seguir os navios, aumentando o risco de ataques próximos a zonas portuárias.

Os casos na capital de Pernambuco se multiplicaram nos meses em que o terminal recebeu mais de 30 navios, disse Hazin. Outro possível fator foi o fechamento da desembocadura dos rios Ipojuca e Merepe, na baía de Suape para preparar instalações portuárias e de numerosas indústrias. Dessa forma foi bloqueado o acesso aos tubarões-cabeça-chata (Carcharhinus leucas), cujas fêmeas buscam água de menor salinidade para a desova.

Em consequência, a espécie se deslocou para o estuário do Rio Jaboatão, mais perto do Recife e cujas águas influem nas praias mais afetadas pelos ataques. Essa migração também foi estimulada pela redução de plâncton em Suape, outro impacto ambiental do Porto, que reduziu a afluência de peixes e crustáceos em busca de alimentos, explicou Hazin. A isso soma-se um canal submarino profundo que se aproxima das praias de Boa Viagem e Piedade, que concentraram “quase 80%” dos incidentes estudados, destacou o especialista.

Além disso, a contaminação do Jaboatão, cujas águas carregam sangue e entranhas de outros animais, pode ter contribuído para atrair especialmente o tubarão-cabeça-chata, uma espécie mais agressiva e a maior protagonista dos ataques. Estes dois últimos fatores, distantes do Porto, são naturalmente enfatizados pelos defensores de Suape, que tem a segunda melhor gestão ambiental dos terminais portuários brasileiros, segundo a Agência Nacional de Transportes Aquáticos, órgão regulador estatal.

O Complexo Industrial Portuário de Suape Governador Eraldo Gueiros ocupa 13.500 hectares ao redor da baía, mas 59% dessa superfície são destinados à preservação ambiental, uma proporção que causou “admiração entre europeus”, disse ao Terramérica o responsável de gestão da Secretaria de Desenvolvimento Econômico (SDEC) de Pernambuco, Roberto de Abreu e Lima. Inicialmente, previa-se 45%, “mas ampliamos a área ambiental, além de criar corredores ecológicos para conservar melhor a biodiversidade”, explicou o funcionário da entidade gestora do Porto. Há outros desafios, como recompor mangues e florestas nas margens dos rios, reconheceu.

Suape é uma palavra da língua dos indígenas caetés, dizimados no litoral de Pernambuco e obrigados a migrar para o interior, no Século 16. Significa “caminhos sinuosos”, e serviu para dar nome ao estuário de “rios e mangues de muitas curvas”, explicou ao Terramérica Daniel Cabral, assessor da direção da SDEC. O Centro de Tecnologia Ambiental, criado em associação com a Petrobras, monitorará água, ar e solo de todo o Complexo, acrescentou Abreu e Lima.

Suape é “um porto natural”, de águas profundas na costa e na baía, que por isso exigiu pouca intervenção, à exceção de uma brecha de 300 metros nos arrecifes que protegem os embarcadouros, disse ao Terramérica o gerente de segmentos econômicos da SDEC, Felipe Chaves. Contudo, as interferências humanas – como a construção de um porto somada ao polo industrial – afetam os ecossistemas marinhos de uma maneira difícil de avaliar, e os ataques de tubarões representam “a pequena parte visível” desses impactos, alertou Hazin.

Se Suape tivesse sido construído em anos mais recentes, teria enfrentado fortes objeções, como acontece agora com projetos em desenvolvimento. O privado Porto Sul, na Bahía, mudou de localização este ano por protestos de ambientalistas porque ameaçava florestas protegidas e mangues. O Superporto de Açu, também privado e concebido como gigantesco complexo industrial, situado em São João da Barra, litoral norte do Estado do Rio de Janeiro, a 320 quilômetros da sua capital, sofre constantes protestos de agricultores desalojados, ambientalistas e moradores.

Em 1975, Suape sofreu duras críticas de intelectuais pernambucanos que, em um manifesto de grande repercussão, acusaram o projeto de nascer de uma decisão “autoritária” e ameaçar o florescente turismo de um “patrimônio artístico” criado pela natureza. As questões ambientais ainda não vigoravam. Hoje, a multidão de trabalhadores chegados à região afeta o turismo, ao transformar hotéis e casas familiares em alojamentos, inclusive em praias próximas, como as de Porto de Galinhas, um centro turístico internacional, situado 20 quilômetros ao sul de Suape.

O congestionamento dos acessos desanima os turistas. Entretanto, a maioria dos proprietários não se queixa, ganham mais com seus hotéis lotados sem baixar preços, disse ao Terramérica a coordenadora de recursos naturais do vizinho município Cabo de Santo Agostinho, Rubia Melo. Porém, as cidades da área sofrem a contaminação do ar pelo pó, pelos milhares de ônibus e caminhões que ocupam estradas e ruas e pelo excesso repentino de demanda por transporte, saneamento, saúde e moradia, acrescentou. Rubia prevê que “se os impactos forem mitigados rapidamente, o futuro será melhor para a população local”.

* O autor é correspondente da IPS.

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Complexo Industrial Portuário de Suape, em português e inglês

Universidade Federal Rural de Pernambuco – Departamento de Pesca e Aquicultura

Agência Nacional de Transportes Aquáticos

Secretaria de Desenvolvimento Econômico de Pernambuco

Agência Estadual de Meio Ambiente de Pernambuco

Artigo produzido para o Terramérica, projeto de comunicação dos Programas das Nações Unidas para o Meio Ambiente (Pnuma) e para o Desenvolvimento (Pnud), realizado pela Inter Press Service (IPS) e distribuído pela Agência Envolverde.

(Terramérica)

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