Erosão do solo eleva ameaça do aquecimento global, afirma ONU

Clima

Erosão do solo eleva ameaça do aquecimento global, afirma ONU


por Redação EcoD


[caption id="attachment_43080" align="alignleft" width="300" caption=""O carbono do solo é facilmente perdido, mas difícil de ser reposto", diz o relatório. Foto:irum"][/caption]O Programa das Nações Unidas para o Meio Ambiente (Pnuma) divulgou, no dia 13 de fevereiro, dados do livro Ano 2012, informando que o carbono no solo é perdido facilmente através do avanço da agricultura.O solo contém grandes quantidades de carbono na forma de matéria orgânica, que fornece os nutrientes para o crescimento das plantas e melhora a fertilidade da terra e o movimento da água.Segundo o documento, os estoques de carbono no solo são altamente vulneráveis às atividades humanas. O desmatamento, desenvolvimento urbano e o aumento das culturas podem ocasionar a decomposição da matéria orgânica, ocorrendo a conversão de parte do carbono em dióxido de carbono: o gás do efeito estufa.O livro informa também que a faixa mais superficial do solo sozinha armazena cerca de 2,2 trilhões de toneladas de carbono, três vezes mais que o nível atualmente contido na atmosfera.Cerca de 24% das terras do planeta já sofreram declínio na saúde e na produtividade ao longo dos últimos 25 anos em razão do uso insustentável do solo, afirma o Pnuma.Desde o século 19, aproximadamente 60% do carbono armazenado nos solos e na vegetação foi perdido como resultado das mudanças no uso da terra, tais como limpar a terra para a agricultura e para as cidades.* Publicado originalmente no site EcoD.

biodiversidade Biodiversidade

Uma vitória da biodiversidade

É muito importante e bem-vinda para o Brasil a notícia de que o professor Bráulio de Souza Dias, secretário de Biodiversidade e Florestas do Ministério do Meio Ambiente, está ascendendo ao cargo de secretário executivo da Convenção sobre Diversidade Biológica, a convite do secretário-geral da ONU, Ban Ki-moon. Competente e experimentado na área – onde atua há muito tempo –, Bráulio concorreu com outros 66 indicados para o cargo. Sua principal tarefa – dificílima – será levar à prática o protocolo assinado em Nagoya em 2010 que pede a ampliação, para 17% da superfície planetária, das áreas de conservação da biodiversidade em terra e para 10% das de ecossistemas marinhos e costeiros, incluídos os mangues. O protocolo, ao qual já aderiram 70 países, precisa ser ratificado por pelo menos 50 – mas somente seis já o fizeram.Entre as metas para o período que vai até 2020 está a de chegar a um acordo entre países – e em cada um deles, entre empresas, cientistas e povos tradicionais que detêm o conhecimento – sobre repartição de benefícios em produtos derivados da biodiversidade. E também tornar prioritário o tema da biodiversidade, que o próprio secretário executivo reconhece que ainda não é relevante para as sociedades, principalmente em meio a uma crise econômica (Valor, 23/1). Talvez por isso mesmo, especialistas calculam entre US$ 2 bilhões e US$ 4 bilhões as perdas anuais nessa área. A perda líquida de florestas no mundo, por exemplo, chegou à média de 145 mil quilômetros quadrados anuais entre 1990 e 2005 (30/11, 2011), segundo a Organização das Nações Unidas para Agricultura e Alimentação (FAO). Ainda assim, no último ano as florestas correspondiam a 30% da superfície terrestre.Mas, diz ainda a FAO, em 25% da superfície do planeta a desertificação é total, por causa de erosão do solo, degradação da água e perda da biodiversidade; em 8% a degradação é moderada; em 36%, “leve”. Como, nesse quadro, conseguir aumentar a produção de alimentos em 70% até 2050, para atender pelo menos mais 2 bilhões de pessoas e eliminar a fome de pelo menos 1 bilhão – sem falar que o investimento necessário para isso terá de ser de US$ 100 bilhões anuais? Nesse quadro, lembra o Programa das Nações Unidas para o Meio Ambiente (Pnuma) que já estamos consumindo recursos naturais 30% além da capacidade de reposição do planeta.É uma riqueza enorme desperdiçada. Edward Wilson, um dos maiores especialistas na área, lembra que, embora saibamos muito pouco, já estão identificadas 280 mil espécies de plantas (que podem chegar a 320 mil), 16 mil de nematoides (que podem ser 15 milhões), 900 mil de insetos (talvez 5 milhões). Podemos ter de 5 milhões a 10 milhões de espécies. Em uma tonelada de terra fértil podem estar 4 mil de bactérias. O comércio mundial de produtos naturais já está perto de US$ 4 trilhões anuais (talvez um quarto do comércio total), o de medicamentos derivados de plantas, em US$ 250 bilhões/ano. Robert Costanza e outros economistas da Universidade da Califórnia calcularam em US$ 180 trilhões anuais (o triplo do PIB mundial) o valor dos serviços que a natureza presta gratuitamente – fertilidade do solo, regulação do fluxo hídrico, regulação do clima -, se estes tivessem de ser substituídos por ações humanas.Por aqui mesmo a questão é grave, com a perda de florestas na Amazônia ainda acima de 7 mil quilômetros quadrados anuais, o cerrado já sem vegetação em 50% da área (85 mil km2 perdidos em sete anos) – no país que tem entre 15% e 20% da biodiversidade planetária. Uma esperança está no fato de que o governo federal recolhe em consulta pública sugestões da sociedade (academia, governos, populações tradicionais, segmentos sociais) para um plano estratégico destinado a implementar até 2020 as recomendações da convenção. E também estuda como avançar na complicada questão da repartição dos frutos da exploração da biodiversidade. Pensa-se até em criar uma taxa de 3% sobre o faturamento público – as empresas não concordam (O Globo, 22/1).É preciso correr. Como lembra Bráulio, a cada ano estamos descrevendo em média mil espécies novas no Brasil, que se somam às 41.121 espécies vegetais já conhecidas, 9.100 marinhas, 2.600 de peixes, dezenas de milhares de animais: “Estamos sentados em um baú de ouro e não sabemos o que fazer com ele” (Estado, 2/9/2010). Mas em Nagoya se calculou que serão necessários US$ 300 bilhões anuais (cem vezes mais do que hoje) em financiamentos dos países industrializados aos demais para cuidarem da biodiversidade. Porque em cem anos 75% da biodiversidade de plantas alimentares já se perdeu – 22% das espécies de batata, feijão, arroz ainda podem ser perdidas. Robert Zoellick, presidente do Banco Mundial, chega a propor que o capital natural seja incluído nos cálculos do produto interno bruto (PIB) de cada país.A posição brasileira será única se isso acontecer. Como já tem sido lembrado aqui, além da maior biodiversidade, temos 13% da água superficial do mundo, território continental, possibilidade de matriz energética “limpa” e renovável. O Brasil pode ser uma “potência ambiental”, diz Carlos Nobre, secretário de Políticas e Programas de Pesquisa e Desenvolvimento no Ministério da Ciência e Tecnologia – chamando a atenção para as questões graves na Amazônia e no Cerrado. Às quais é preciso acrescentar as que sobrevirão se o novo Código Florestal aceitar muitas das propostas que estão na mesa; se o governo não prestar atenção à proposta do professor Aziz Ab’Saber de criar, em lugar dele, um Código da Biodiversidade específico para cada bioma, cada região; se continuar esquecida a proposta da Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência (SBPC) de desmatamento zero na Amazônia e forte investimento, ali, na formação de cientistas para trabalharem com a biodiversidade.Caminhos há, certamente. E a ascensão de um brasileiro à secretaria executiva da Convenção sobre Diversidade Biológica pode dar forte impulso a eles.* Washington Novaes é jornalista.** Publicado originalmente no site Mercado Ético.


por Washington Novaes*
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O tripé (capenga) da Sustentabilidade, a RIO + 20, os políticos e os eleitores

O Ministério do Meio Ambiente é um dos menores orçamentos da República. E, ainda assim, consegue perder mais ainda, ano após ano. Em 15/02/2012, o Ministério do Meio Ambiente (MMA) perdeu 19% dos valores previstos originalmente na Lei Orçamentária Anual. São R$ 197 milhões a menos, dos R$ 1,01 bilhão previsto. Terá para investimentos em 2012 o montante de R$ 815 milhões. No ano passado, o corte no ministério do Meio Ambiente foi de R$ 398 milhões (o equivalente a 37% do montante inicial).Em junho teremos a RIO+20, quando o mundo todo estará de olhos voltados para o Brasil. O tema em pauta é a sustentabilidade, com ênfase em três questões, o combate à fome, a economia verde e a governança global. O evento na verdade são dois, como foi na ECO 92. Um oficial, dos líderes de governo, onde as decisões precisam ser por consenso e ainda dependem do aval dos cinco maiores e mais poderosos países e que costumam não gostar muito de regras que imponham limites aos seus modelos de desenvolvimento e governança, em boa parte, raízes dos problemas que o mundo vive hoje. Sorte nossa é que existe outro evento, este organizado pela sociedade civil, com o pé no chão da realidade, e que pressiona pelo mundo melhor que merece e que sabe que e possível.Cinco meses depois deste grande evento, o Brasil estará votando para escolher seus novos prefeitos e vereadores, ou para reeleger os que já estão aí. Então, será natural que os candidatos aproveitem qualquer espaço para divulgar suas campanhas. Ainda bem, por que o que a sociedade mais precisa agora - para reencontrar os caminhos entre o sonho e o possível - , é o exercício da boa política, capaz de intermediar conflitos que são naturais numa democracia. A falsa idéia de que político é tudo igual e nenhum presta é um desserviço à democracia e só contribui para manter no poder os maus políticos.O Brasil sempre se equilibrou sobre um tripé capenga, tão desproporcionalmente, que praticamente impossível equilibrar-se em pé. Em primeiro lugar, uma exagerada ênfase no crescimento econômico. Em segundo, nas questões sociais, mas no que diz respeito ao econômico, com sua ênfase na inclusão dos excluídos ao mercado de consumo, para aumentarem os lucros do econômico. E, finalmente, em terceiro, com bem pouquinha ênfase, na lanterninha dos interesses da sustentabilidade, as questões ambientais, que com a economia verde, ganha alguma chance de ser considerada pelos setores econômicos interessados em novos nichos de mercado e de lucros.É bem comum criticarmos prefeitos, vereadores, governadores, a Presidência da República de não cuidarem direito do meio ambiente. São críticas naturais e até desejáveis, naturais numa sociedade democrática. Entretanto, nem sempre são justas, principalmente quando apenas cobram maior compromisso ambiental e com a sustentabilidade de nossos governantes e dos empresários, mas na hora de votar, ou de consumir, tais questões não são prioritárias para eleitores e consumidores.É a maioria que dá força aos poderosos quando os elege e reelege. É essa maioria, com falsos sonhos de consumo, que enriquece os grandes grupos econômicos. Então, para sermos justos, a qualidade dos políticos e dos empresários que temos representa a vontade da maioria do povo brasileiro. E a maioria já foi responsável pela crucificação de Jesus ou pela subida do Hitler ao poder.Não conseguiremos sair de uma situação onde o meio ambiente é tratado com pouco caso para outra em que meio ambiente, economia e o social sejam vistos equilibradamente, sem que consigamos chegar à maioria.As questões da sustentabilidade ainda não são assunto de mesa de bar, de pagodes, ou de bate papo na esquina – e deveriam ser. E este é um grande desafio para jornalistas, educadores, artistas e todos que lidam com o publico e multiplicam opinião. Falar uma linguagem que seja percebida por todos, traduzirem o ecologês para as carências de nossa sociedade, falar para segmentos da opinião pública que muitas vezes não compreendem como um mico-leão-dourado, uma baleia, ou uma floresta podem merecer mais atenção e recursos que um ser humano que sobrevive dos restos que consegue achar no lixo.Somos quase 200 milhões de pessoas, com enorme dificuldade de acesso às informações sobre meio ambiente e sustentabilidade, a não ser aquelas informações que reforçam a idéia de que meio ambiente é assunto de plantinhas e bichinhos, muito bonitinhos e importantes, mas pouco prioritários quando o que estiver em questão for o progresso humano.A humanidade está, de certa maneira, diante da mesma mudança radical de ponto de vista proposta por Galileu, que quase morreu na fogueira da Inquisição ao afirmar que era a Terra que girava em torno do Universo, e não o contrário. Não somos nós que somos os donos da natureza. É o contrário. Por mais especial que nossa espécie se considere, a natureza não precisa de nós, mas é o contrário.O evento paralelo à RIO+20 permitirá a cada um de nós mostrar que mudamos de visão. As eleições também. A natureza não vota. Então, precisamos votar por ela, não que ela precise de nós para alguma coisa, nós é que precisamos dela. Ou descemos do salto alto da nossa cobiça e arrogância humanas, e reaprendemos a conviver com o Planeta, ou mais cedo ou mais tarde, não teremos mais condições de nos adaptar.* Vilmar Sidnei Demamam Berna é escritor e jornalista, fundou a REBIA - Rede Brasileira de Informação Ambiental (www.rebia.org.br), em janeiro de 1996 fundou o Jornal do Meio Ambiente e, em 2006, a Revista do Meio Ambiente e o Portal do Meio Ambiente (www.portaldomeioambiente.org.br). Em 1999, recebeu no Japão o Prêmio Global 500 da ONU Para o Meio Ambiente e, em 2003, o Prêmio Verde das Américas - www.escritorvilmarberna.com.br


por Vilmar Sidnei Demamam Berna*
Foto: Fabricio Vanden Broeck. Ambiente

TERRAMÉRICA – Segurança alimentar em tempos de crise

[caption id="attachment_42967" align="alignright" width="300" caption="Foto: Fabricio Vanden Broeck."][/caption]As perspectivas das colheitas de cereais para 2012 pioraram no Brasil, México, Argentina e América Central, afirma neste artigo Alan Bojanic, representante interino da FAO para América Latina e Caribe.Santiago, Chile, 20 de fevereiro de 2012 (Terramérica).- A incerteza diante do que virá em 2012 é um desafio para a capacidade dos governos de enfrentar de maneira equilibrada as ameaças que uma recessão representaria para a população de menor recurso. A preocupação com a segurança alimentar deriva do fato de que menores taxas de crescimento no emprego e na renda repercutem nas capacidades de acesso dos mais pobres aos alimentos.Como diz o último Boletim Trimestral de Segurança Alimentar da FAO, o cenário internacional atual está marcado pela persistência da crise da dívida soberana em vários países da União Europeia. Se houver uma recessão na zona do euro, haverá consequências na demanda mundial, e este processo influiria nas taxas de crescimento dos países emergentes que até agora sustentam a dinâmica do crescimento econômico mundial.Esta situação de incerteza afeta as previsões de crescimento da economia mundial, corrigido para baixo para 2012, de 6,2% para 5,4% para os países em desenvolvimento, e de 2,7% para 1,4% para os de alta renda (com queda de 0,3% para a zona do euro). Em escala mundial, o Banco Mundial espera que a economia cresça 2,5% este ano. Um crescimento mais lento implicará que o comércio internacional também diminua seu crescimento, e provavelmente esta situação incida nos preços dos produtos básicos.O Banco Mundial calcula que as exportações mundiais de bens e serviços cresceram 6,6% em 2011 (metade de 2010, quando a expansão foi de 12,4%) e se prevê aumento de 4,7% para este ano. Os preços internacionais dos alimentos experimentaram queda de 10% entre junho e dezembro de 2011.Entre dezembro de 2010 e dezembro de 2011, o preço do açúcar baixou 18%, os preços médios dos óleos caíram 14%, o índice de preços dos cereais (fundamentais na dieta humana) baixaram 8%, e os produtos lácteos 3%.É presumível que esta tendência de baixa – que repercute nas expectativas dos agentes do mercado internacional – se some aos aumentos de disponibilidade de alimentos para gerar um ambiente menos tenso em 2012, quando haverá altas e baixas de preços, porém, menos acentuadas. Entretanto, as flutuações nos preços internacionais não são transmitidas diretamente aos países: na América Latina e no Caribe não ocorreu essa transmissão direta quando os preços dos alimentos subiram, e tampouco agora se espera que o façam no sentido contrário.Isto não nega o impacto dos preços internacionais, e revela a importância das dinâmicas dos mercados nacionais e locais na formação de preços. A disponibilidade recorde de cereais em 2011 foi uma das principais razões da queda de preços nos últimos meses do ano passado. Os estoques mundiais de cereais em 2011 seriam dez milhões de toneladas maiores do que em 2010. A produção também aumentou e a estimativa mais recente da FAO para as colheitas de cereais em 2011-2012 indica o recorde de 2,323 bilhões de toneladas, 3,5% a mais do que na safra 2010-2011. A previsão é de que a colheita mundial de trigo aumente 6,5%, mas prognósticos para os cereais secundários e o arroz caíram levemente.Os países da região mostram estabilidade com um nível relativamente baixo de inflação (7%), segundo o Informe de Preços da América Latina e do Caribe divulgado pela FAO em janeiro, e a inflação anual dos alimentos mostrou sinais animadores, ao fechar 2011 com 8,5%, menor do que os 9,6% de 2010. Diversos países da região experimentaram reduções importantes na inflação dos alimentos entre 2010 e 2011, alguns inclusive chegaram a taxas inferiores às registradas antes da carestia alimentar mundial de 2008.Quanto à produção, as perspectivas pioraram na Argentina, onde, por causa da seca, se espera uma queda de aproximadamente 12% na colheita de cereais. No Brasil também se observa uma importante redução na colheita de trigo, com baixa de 16% entre 2011-2012 e 2010-2011, devido a geadas e reduções de áreas plantadas. Também se prevê contrações nas colheitas de milho do México e da América Central.Durante 2011, os governos da América Latina e do Caribe enfrentaram adequadamente a alta volatilidade dos preços dos alimentos. Vários deles ampliaram seus programas de transferência de renda, que garantem o acesso a alimentos a boa parte da população pobre. Contudo, é fundamental para 2012 que não baixem a guarda e se mantenham alerta pelas ameaças que uma recessão poderia representar para a segurança alimentar dos mais pobres, que sofrem os piores embates das idas e vindas internacionais.* Alan Bojanic é representante regional ad interim da Organização das Nações Unidas para a Alimentação e a Agricultura (FAO) para América Latina e Caribe. Excluída sua publicação na Colômbia. Direitos reservados IPS.LINKSJustiça social para regular a saída da criseBoletim Trimestral de Segurança Alimentar e Nutricional – Dezembro de 2011, em espanholArtigo produzido para o Terramérica, projeto de comunicação dos Programas das Nações Unidas para o Meio Ambiente (Pnuma) e para o Desenvolvimento (Pnud), realizado pela Inter Press Service (IPS) e distribuído pela Agência Envolverde.


por Alan Bojanic*
O transporte de material radioativo preocupa o Caribe e a América Central, afirma Gioconda Ubeda. Foto: Emilio Godoy/IPS Mundo

TERRAMÉRICA – América Latina deve discutir o tráfego de armas nucleares

[caption id="attachment_42963" align="alignleft" width="340" caption="O transporte de material radioativo preocupa o Caribe e a América Central, afirma Gioconda Ubeda. Foto: Emilio Godoy/IPS"][/caption]Não podemos ver a não proliferação sem medidas que nos levem ao desarmamento completo, afirma Gioconda Ubeda, secretária-geral do Organismo para a Proscrição das Armas Nucleares na América Latina e no Caribe.Cidade do México, México, 20 de fevereiro de 2012 (Terramérica).- América Latina e Caribe completam 45 anos como zona livre de armas nucleares em meio a denúncias sobre o suposto envio britânico de armas atômicas ao Atlântico Sul e sem um regime específico para o transporte de lixo radioativo. No começo deste mês, o governo da Argentina denunciou que a Grã-Bretanha decidira enviar um submarino de propulsão nuclear e com ogivas atômicas ao arquipélago austral das Ilhas Malvinas (Falkland Islands, para os britânicos), sob disputa de soberania desde o Século 19.Segundo Buenos Aires, esta decisão violaria o Tratado para a Proscrição das Armas Nucleares na América Latina e no Caribe, cujo Protocolo II foi assinado e ratificado por Estados Unidos, China, França, Grã-Bretanha e pela hoje extinta União Soviética, as cinco potências nucleares reconhecidas em 1967, quando esse pacto foi adotado. No Protocolo II, as potências nucleares se comprometem a “não empregar armas nucleares e não ameaçar com seu uso” os países da região.Entretanto, o transporte de armamento nuclear e de lixo radioativo não foram incluídos no Tratado, pioneiro em seu tipo, que América Latina e Caribe assinaram em 14 de fevereiro de 1967 em Tlatelolco, no México, e que entrou em vigor em abril de 1969. O tráfego de armamento “é um dos grandes desafios a serem tratados na região”, disse ao Terramérica a costarriquenha Gioconda Ubeda, secretária-geral do Organismo para a Proscrição das Armas Nucleares na América Latina e no Caribe (Onapal), encarregado de supervisionar o cumprimento do Tratado de Tlatelolco.Também o trânsito de material radioativo preocupa “o Caribe e a América Central”, mas há posturas divergentes das partes sobre incluí-lo, ou não, na agenda do Opanal, acrescentou. A diplomata Ubeda, à frente da Opanal no período 2010-2014, conversou com o Terramérica por ocasião das comemorações dos 45 anos da primeira zona livre de armas nucleares do mundo. Estas zonas “foram criadas como diques, como ilhas, para blindar esses territórios que, baseados na vontade política, devem evoluir e se converter em um motor que trabalhe para a aspiração máxima de eliminar as armas nucleares, ressaltou Ubeda.Terramérica: Como abordar o transporte de armas e lixo radioativos na região?Gioconda Ubeda: O transporte de armas ficou fora do Tratado. Há discussões muito documentadas nas atas, mas não se pôde chegar a acordos. É um dos grandes desafios que a região deve tratar. Fica sujeito a cada Estado a aplicação da lei internacional, bem como o controle marítimo em seu próprio território. Não quer dizer que faltem condições para abordar o tema, mas vejo isto mais no âmbito de cada Estado. Quanto ao lixo radioativo, não e considerado no Tratado, mas há instrumentos jurídicos vinculantes internacionais que tratam do assunto, como a Convenção das Nações Unidas sobre o Direito do Mar. É uma temática vinculada ao meio ambiente, que tem outro âmbito de aplicação. Por outro lado, existe uma preocupação válida do Caribe e da América Central pelo tráfego desses resíduos e pela eventualidade de um acidente. É um tema que merece atenção. Contudo, não está na agenda do Opanal, embora haja posições encontradas dos Estados quanto a incluí-lo, ou não.Terramérica: O que implica para a região os Estados Unidos terem um arsenal nuclear?GU: Não concordamos que as zonas livres de armas nucleares sejam usadas como mecanismo de segurança para aplicar a doutrina da destruição mútua assegurada, que surgiu na Guerra Fria. É uma situação à qual nos acostumamos. A resposta da América Latina foi dizer às grandes potências que “decidimos ser uma zona livre de armas nucleares e pedimos que respeitem e assumam os compromissos por meio dos protocolos para que não usem nem ameacem com o uso de armas nem instalem mísseis na região”. Isto se conseguiu, mas, não só os Estados Unidos, como qualquer país que tenha armas nucleares, significa sempre um risco, porque a ameaça não é apenas para uma determinada região. O espírito do Tlatelolco colheu claramente essa preocupação. As zonas foram criadas como um meio para o fim de liberar o mundo de armas nucleares. Então, nos preocupa onde quer que essas armas estejam.Terramérica: Qual a evolução das zonas livres?GU: Nossa tese é que foram criadas como diques, como ilhas, para blindar esses territórios que, baseados na vontade política, devem evoluir para serem um motor que trabalhe para essa aspiração máxima de eliminar por completo essas armas. Agora se trata de estender pontes entre os diques e apoiar a construção de novas zonas, com a do Oriente Médio, que está sobre a mesa desde 1995, mas só no ano passado registrou os primeiros avanços. É nossa responsabilidade compartilhar nossa experiência, porque continuamos trabalhando para preservar a zona livre de armas nucleares, e em nossa agenda está o trabalho para essa aspiração universal de libertar o mundo dessa ameaça.Terramérica: Como destravar o processo internacional de não proliferação e desarmamento?GU: Se tivesse essa resposta, creio que seria nomeada para os altos cargos das Nações Unidas. Esta é a pergunta sobre a qual se deve negociar medidas efetivas que nos levem à não proliferação vertical (que não aumentem os arsenais nacionais existentes) e horizontal (que não se amplie o grupo de países nucleares) e ao compromisso de erradicar as armas. Há alguns acordos e se trata de serem implementados, por exemplo, que os países que possuem arsenais que não são úteis os tirem de circulação. É importante também que sejam dados passos firmes para o desarmamento. É um assunto no qual o papel mais relevante é das potências nucleares. Também tratar de fortalecer o regime de não proliferação. As zonas livres contribuem com o não proliferar dentro desses territórios, mas falta avançar muito além, porque não podemos ver a não proliferação sem medidas que nos conduzam ao desarmamento completo.* O autor é correspondente da IPS.LINKSArmas nucleares queimam as mãos da diplomaciaO clube nuclear muda de roupaRenasce a energia nuclearReator nuclear desata polêmica na ArgentinaQue as bombas atômicas morram em HiroshimaTemor não freia exportações nuclearesComo cogumelos – Cobertura especial da IPS, em espanholOrganismo para la Proscripción de las Armas Nucleares en América Latina y el Caribe, em espanholTratado de Tlatelolco, em espanholConvenção das Nações Unidas sobre o Direito do Mar, pdf em espanholArtigo produzido para o Terramérica, projeto de comunicação dos Programas das Nações Unidas para o Meio Ambiente (Pnuma) e para o Desenvolvimento (Pnud), realizado pela Inter Press Service (IPS) e distribuído pela Agência Envolverde.


por Emilio Godoy*
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Espaço para os agricultores

Nunca se viu tanto interesse pelo clima como em nossos dias. Ele faz parte da agenda de qualquer noticiário. Na hora das informações sobre o clima, até as visitas ficam caladas para escutar melhor a previsão do tempo!Uma primeira explicação por este súbito interesse pelo tempo se encontra, sem dúvida, na apreensão diante das mudanças climáticas, que parecem se confirmar de maneira cada vez mais clara. Em todo o caso, como costuma advertir a comissária de bordo, "passamos por uma área de turbulência”. O que vai resultar destas mudanças, ainda não se sabe. A natureza tem fôlego de milhões de anos. Mas é bom estarmos atentos. Até para ver se a cada dia as previsões do tempo são confirmadas ou não!Quem mais olha com apreensão para o tempo são os agricultores. Para eles, não se trata só de curiosidade. É a safra que está em jogo. Com frequência, ela fica comprometida por completo, como está acontecendo neste ano em diversas regiões do país, sobretudo pela seca persistente que assola as plantações bem no momento da floração e da formação do grão, quando mais a plantação precisa de umidade.Pelos riscos a que está sujeita a agricultura, e pela importância fundamental da produção agrícola para atender as necessidades da alimentação, muitos países organizam todo um sistema de proteção especial para a agricultura. Assim, ela pode contar com garantias que resguardem sua continuidade, independente das oscilações das safras.Infelizmente, no Brasil este sistema é ainda muito precário. Muitas vezes os agricultores precisam arcar sozinhos com o prejuízo, num ano de safra frustrada. E quando a safra vai bem, com frequência o agricultor é explorado na venda do seu produto, que fica à mercê de grandes corporações que conseguem interferir nos preços.Todas as atividades econômicas são importantes. Mas nenhuma tem mais influência direta sobre a população do que a agricultura. Precisamos fortalecer a consciência de que a agricultura interessa diretamente a todos. E no Brasil interessa mais ainda, pela alta porcentagem que representa o comércio agrícola para garantir divisas para o país.Esta consciência deveria se traduzir num sistema de proteção à agricultura, que tornasse muito mais seguro o trabalho agrícola.Os agricultores precisam se sentir estimulados a continuar na agricultura. Em algumas regiões do Brasil, já é evidente o abandono progressivo da atividade agrícola. Seria triste se, por falta de uma política agrícola adequada, víssemos a última geração de pequenos agricultores abandonarem sua profissão, por falta de estímulo para continuarem com um trabalho tão cheio de riscos e incertezas, acrescido do descaso da população e dos poderes públicos.Dentro deste contexto foi feito um trabalho válido, mesmo se não compreendido por todos, na discussão do novo Código Florestal. Ficou garantido um capítulo de proteção especial para os pequenos agricultores, pois o novo Código não podia se constituir em novo desestímulo para os que sempre se sentiram os primeiros responsáveis por preservar o meio ambiente.Em recente reunião das "pastorais do campo”, seus participantes manifestaram apreensão diante da ameaça aos "espaços de reprodução física e cultural dos povos e comunidades camponesas”. Em outras palavras, diante do risco de ver inviabilizada, concretamente, a próxima geração de pequenos agricultores. Seria um desastre, não só econômico, mas sobretudo humano e social.Os pequenos agricultores precisam de grande apoio. Para o bem de todos nós!* Dom Demétrio Valentini é bispo de Jales, Estado de São Paulo, e presidente da Cáritas brasileira.* Publicado originalmente no site Adital.


por Demétrio Valentini*
andretrig Entrevista

“Já sabemos o que está errado, falta fazer”, ressalta André Trigueiro

O jornalista André Trigueiro não para. Entre palestras, as aulas no curso de jornalismo ambiental, idealizado por ele, na Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro (PUC-RJ), a apresentação do Jornal das Dez e a chefia da edição do premiado Cidades e Soluções, ambos da Globo News, o jornalista está lançando seu quarto livro: Mundo Sustentável 2 – novos rumos para um planeta em crise (Editora Globo Livros, R$ 44,90).Nas 400 páginas de papel reciclado certificado, é possível encontrar reportagens do jornalista veiculadas na Globo News e na Rádio CBN, artigos publicados em diversos veículos de comunicação, além de textos inéditos de diversos especialistas, entre eles, nomes como Adalberto Veríssimo, Roberto Schaeffer, Samyra Crespo, Sérgio Abranches e Suzana Khan.Programado para ser uma atualização do livro Mundo Sustentável: Abrindo espaço na mídia para um planeta em transformação, a publicação vai além ao abordar os desafios da maior crise ambiental da história da humanidade. Para Trigueiro, o livro está mais bem acabado do que o primeiro. “Superou as expectativas”, afirma. Os direitos autorais da obra foram cedidos para o Centro de Valorização da Vida (CVV), que completa 50 anos de serviço voluntário de apoio emocional e prevenção do suicídio.Nessa entrevista, concedida por telefone ao EcoD, o jornalista fala sobre o livro e ainda sobre as expectativas da Conferência das Nações Unidas sobre Desenvolvimento Sustentável, a Rio+20, o avanço da consciência socioambiental na política e no jornalismo, a liderança internacional do Brasil na questão ambiental e os principais desafios da área.EcoD: No dia 6 de janeiro, você lançou publicamente o seu quarto livro. Como foi a receptividade?André Trigueiro: Foi fantástica, uma tsunami verde de gente, de todos os matizes ideológicos, políticos e espirituais. Esse evento demonstrou que a sustentabilidade consegue aglutinar forças que não são propriamente iguais. Mas que não são opostas por isso, são apenas diferentes.EcoD: O livro é uma coletânea de artigos seus e teve a participação de 35 especialistas. Como foi o processo de produção?Trigueiro: O projeto original era para ser uma edição revista e atualização do livro Mundo Sustentável: Abrindo espaço na mídia para um planeta em transformação, lançado em 2005. Ano passado, me chamou a atenção que o livro ainda estava em catálogo e com boa vendagem. Mas eu estava constrangido porque em seis anos muita coisa nova aconteceu e o livro, em alguns aspectos, estava datado. Esse trabalho superou as expectativas e no final percebemos que, na verdade, trata-se de um novo livro. A colaboração dos especialistas é inédita. Eu acho que este livro está melhor acabado do que o de 2005.Rio+20EcoD: Essa nova edição foi inspirada na Rio+20?Trigueiro: Não era essa a intenção. O livro era para ter sido lançado há dois meses, mas houve um atraso no processo de revisão. Quando o livro ficou pronto, percebi que, pela multiplicidade de temas importantes na área do universo socioambiental, ele contempla a agenda da Rio+20, sem ter sido esta a intenção original.EcoD: E o que o senhor espera da cúpula?Trigueiro: (Suspiro). Eu espero que seja algo mais do que uma terapia de grupo, em que todo mundo diga como deseja a mudança, o que precisa ser feito, mas não sacramente uma posição, nem assuma compromisso. Porque o diagnóstico já existe, todo mundo sabe o que deve ser feito. O mundo tem pressa nas medidas efetivas. Este é o risco da Rio+20: ser mais um cúpula onde vai haver os discursos mais emocionantes e não se consiga acelerar o processo. Este é o grande desafio. Não podemos sair da cúpula como a gente entrou.EcoD: Muitos especialistas temem que seja uma cúpula que somente analise o que foi feito nos últimos 20 anos, desde a Rio 92...Trigueiro: Pelo que eu entendi, a pauta é discutir o que seria uma economia verde e procurar promover um encontro das expectativas do terceiro setor, que se reúne antes para formatar propostas para os chefes de Estados. Daí para frente não se sabe o que vai acontecer. Mas não podemos esperar que a Rio+20 seja uma grande conversa sobre 20 anos atrás, a gente tem que avançar. O que é incrível é que já sabemos o que está errado e o que precisa ser feito. Falta fazer.Desafios nacionaisEcoD: A conferência acontecerá no Brasil em meio a algumas polêmicas sobre políticas ambientais consideradas como retrocesso, como a possível aprovação do novo Código Florestal. Quais são os principais desafios ambientais do país?Trigueiro: Uma questão você já levantou, nós temos ainda uma dúvida sobre o que será o texto do novo Código Florestal. Ele ainda passa por uma última etapa no Congresso antes de ir à sanção presidencial. A presidente Dilma já disse que o novo Código não será o dos sonhos dos ruralistas, mas também não será aquele considerado o ideal pelos ambientalistas. O que vai ser ela não disse. Há uma expectativa nesse sentido. É importante que a gente faça esse link entre o Código Florestal e as metas que o Brasil assumiu voluntariamente, formatadas em lei, de redução de emissões de gases-estufa por meio da redução do desmatamento. Tenho a convicção de que a presidente Dilma tem esta preocupação, de que como anfitrião (da Rio+20) não podemos aprovar um novo Código que coloque em risco o cumprimento de uma lei. Ele não pode significar a redução das áreas vegetadas do Brasil.EcoD: E além do Código?Trigueiro: Nos outros quesitos eu acho que a gente avança. Nós temos no Brasil a vantagem estratégica de ter uma matriz energética majoritariamente renovável. É preciso consolidar esta posição e manter a meta de não sujar com mais combustível fóssil a nossa matriz. O Brasil foi um dos países que mais cresceram no mundo no incremento da energia eólica nos últimos anos. É uma referência na área do biocombustível, etanol e biodiesel. E o Brasil precisa, enquanto megaprodutor de petróleo com a descoberta do pré-sal, ser referência em segurança. Todo o protocolo de segurança que envolve a exploração do petróleo nessa camada requer a atenção, porque há lacunas importantes. Uma delas diz respeito ao papel da Agência Nacional do Petróleo (ANP). As agências reguladoras foram criadas para ter autonomia, funcionar sem a tutela do Estado. A partir do governo Lula, elas tiveram o seu poder de agência esvaziado. Alguns especialistas denunciam uma fragilidade no arcabouço jurídico para uma ação firme de monitoramento e fiscalização das petroleiras no Brasil. E isto é um problema. A gente precisa ter uma clareza sobre o papel dessas agências.EcoD: De certa forma, tivemos recentemente um vazamento que evidencia isso...Trigueiro: Qual dos três? Nas minhas contas, foram ao menos três vazamentos recentemente...EcoD: O do próprio pré-sal.Trigueiro: Não, mas antes, sem ser pré-sal que é mais preocupante pois a complexidade é maior, teve o vazamento da Chevron e o de outra companhia na Baía de Ilha Grande. Os três têm em comum o fato de terem acontecido muito próximo uns dos outros e as circunstâncias, principalmente nos dois primeiros, não devidamente esclarecidas. É muito importante termos a vigilância, a sociedade se dá conta de que a atividade de petróleo é arriscada em todo o mundo. Talvez não se tenha feito todos os esforços necessários para reduzir ao mínimo esse risco.EcoD: Recentemente o brasileiro Braúlio Dias foi indicado para assumir o cargo de secretário de biodiversidade da ONU, demonstrando o reconhecimento da intenção brasileira de liderança internacional na questão ambiental. O país está preparado para assumir esse papel?Trigueiro: Com certeza. O mundo mudou. Esse mundo, que a gente vê na geografia institucional da ONU, caducou. O Brasil se destaca pelo seu território, população e economia como um país que tem uma vocação natural para assumir um papel mais importante do que aquele que lhe foi atribuído no pós-guerra. É perfeitamente compreensível esse protagonismo.EcoD: Há muito que se fala sobre o equívoco que é o modelo de consumo desenfreado. Na semana passada, um relatório do Ipea destacou que o crescimento econômico não pode ser fundado nos recursos naturais. Está havendo uma mudança de consciência real ou ainda se enxerga a preservação ambiental como marketing?Trigueiro: Há uma mudança de consciência. Agora, é importante que essa mudança seja percebida nas diretrizes da política econômica. Fico satisfeito em perceber que cresce o número de economistas que ousam desafiar o pensamento econômico prevalente, o qual ainda insiste em demonstrar que não há limite para capacidade dos ecossistemas suprirem a humanidade de matéria-prima, energia e água. Economia pensa muito em fluxo, mas não pensa em estoque.Informação para a sustentabilidadeEcoD: Na análise que fez da mídia no seu livro Meio Ambiente no Século XXI, o senhor afirmava que a avalanche de informações perturbava a capacidade de discernir o que é essencial. Este quadro já mudou? Como o senhor avalia a cobertura ambiental nesses últimos anos?Trigueiro: Eu acho que houve um agravamento com um novo gênero de vício, que é a internet. Nós temos um problema: de tão fantástica que é a capacidade de se comunicar rapidamente com tanta gente por meio das redes sociais, muitas pessoas não têm controle desse processo e passam longas horas no computador, o que exaure a capacidade de elaborar a compreensão da realidade. Nesses últimos dez anos, tivemos fatores de dispersão agravados.Eu não gosto de usar a expressão jornalismo ambiental. Eu não sou jornalista ambiental, eu sou jornalista interessado nos assuntos da sustentabilidade. Parece que o jornalismo em si não contempla ou não deveria prestar muito atenção em assuntos ambientais, porque disso cuida o jornalista ambiental. Este fracionamento não é, para mim, real. Este esquartejamento não deixa compreendermos uma realidade sistêmica. Se a gente começa a fechar o foco em fragmentos, a compreensão dessa realidade se dilui.Os jornalistas, progressivamente, estão começando a entender que meio ambiente não se reduz a bichinho e floresta. Já há uma percepção de que, quando se discute uma pauta ambiental, estamos discutindo um modelo de civilização, ética no desenvolvimento, qualidade de vida, saúde e bem-estar, o direito de todos os seres. Estamos evoluindo, estamos conseguindo perceber que nem tudo é possível explicar no lead. E que existem meios no texto jornalístico de aludir à visão sistêmica.EcoD: O jornalismo ambiental, ao defender a preservação ambiental, quebra o dogma da imparcialidade, tão defendido nos cursos de comunicação. A sociedade estranha o “tomar partido” jornalístico?Trigueiro: Há questões sobre as quais os jornalistas devem ser parciais. Não é possível, no jornalismo, a gente achar que a corrupção tem dois lados: um bom e um ruim. Portanto, dentro da linha editorial de um veículo de comunicação, jamais será possível tolerar qualquer acolhimento da corrupção como uma ideia possível, uma prática perdoável. Segundo exemplo: a escravidão. Ainda existe escravidão no Brasil e no mundo. Não há dois lados da escravidão. Em qualquer circunstância, ela é abominável e deve ser condenada. O mesmo se aplica aos assuntos da sustentabilidade. Se a gente entende sustentabilidade como condição da nossa sobrevivência em um planeta com recursos finitos, teremos que repactuar a maneira como nos relacionamos com a natureza. Nesse sentido, sustentabilidade é a senha para que possamos todos viver nesse mundo, inspirados no que Gandhi disse: “A Terra possui o suficiente para garantir a necessidade de todos os homens, mas não a ganância de todos os homens”. Sendo assim, não é possível condenar a ideia da sustentabilidade. Se não reconfigurarmos os modelos, vamos perecer.EcoD: Você acredita que ainda dá tempo de evitar esse ecocídio?Trigueiro: Nós não somos suicidas. A história mostra que o ser humano sempre avançou com muito vagar em direção a uma consciência mais acurada da realidade, mas a gente sempre mudou rápido quando o que estava jogo era nossa sobrevivência. Porque aí não tem discussão. De uma forma ou de outra, a gente vai alcançar o objetivo. A forma ideal é não esperar acontecer o pior para mudar. A gente deve deixar de priorizar o lucro imediato, a acumulação absurda de bens e recursos no menor tempo possível, que é o mantra do capitalismo. A outra maneira é pela dor, pela escassez. E não é justo que seja assim porque já temos um estoque de conhecimento, de tecnologia, suficiente para dar esse salto.* Publicado originalmente no site EcoD.


por Raíza Tourinho, do EcoD
enchentes002 Artigo

A cidade, as pessoas e as chuvas de verão

Foi um mês de janeiro chuvoso. E como choveu! Os dias totalmente ensolarados puderam ser contados nos dedos em boa parte do território nacional. Como tem sido de praxe, as notícias sobre enchentes e deslizamentos foram acompanhadas das já tradicionais alegações mais do que batidas.- As águas do rio invadiram as casas e as pistas da avenida!- A forte chuva foi a responsável pelo desabamento do morro e pelo soterramento das casas!- A chuva torrencial foi à causadora da enchente que inundou as casas do bairro!São bordões a que já nos acostumamos e seu conteúdo, de certa maneira, contribui decisivamente para perpetuar essas conhecidas variações de tragédias de verão com perdas de vidas humanas e prejuízos materiais.As águas do rio não invadem casas e pistas, elas apenas ocupam, salvo exceções, áreas naturais de transbordo. O problema aí é que as casas, construções, avenidas e estradas é que estão a se utilizar de espaços indevidos.O mesmo vale para morros e montanhas desprovidos de suas vegetações naturais. Neste caso, a chuva é injustamente responsabilizada por tragédias. É apenas mais um caso de ocupação irregular.O processo acelerado de impermeabilização das cidades é um dos fatores que mais contribui para as enchentes. A chuva cai e a água não sendo capaz de escoar, por consequência, vai se acumulando sobre superfícies asfaltadas e concretadas, provocando as cheias.Ao insistir com as mesmas justificativas não enfrentamos verdadeiramente esses problemas. Mesmo que se possa constatar, nos últimos anos, o aumento progressivo no volume de chuvas, bem como, períodos de estiagem maiores resultantes do aquecimento global, também é verdade que épocas de chuva e seca são conhecidas e previsíveis.Nessas ocasiões, são constantemente mencionadas a incompetência, desvios e omissões de nossas autoridades. Obras prometidas que não foram feitas, desleixo na limpeza de rios e córregos, a não retirada de famílias vivendo em áreas de risco, e até mesmo a atitude pouco civilizada das pessoas ao jogar lixo nas ruas e rios. Tudo isto é verdade e merece ser denunciado, mas também é preciso interagir de maneira mais amigável com os fenômenos naturais.Com a acelerada urbanização nas sociedades modernas assistimos a um processo de distanciamento do que poderíamos chamar de “leis da natureza”. Nada mais, nada menos do que respeitar, entender e conviver com dinâmicas e ciclos do planeta.Muitas vezes, ao ultrapassar certos limites, ocorrem reações ambientais que poderiam ser evitadas, bastando para isso, apenas, a observação e o conhecimento. A força de reação da natureza não pode ser desprezada como vem acontecendo de maneira progressiva. O poder da água, como guardiã da vida na Terra, deve ser respeitado, mas também deve ser entendido como capaz de tirar essas mesmas vidas. As nossas enchentes e o acidente de Fukushima, no Japão, são exemplares dessa força descomunal e destrutiva.Temos o direito, mas também o dever de agir para garantir um ar bom para respirar, água pura para beber e alimentos saudáveis que colaborem com a nossa saúde. Para se alcançar esses objetivos, respeitar o meio ambiente é fundamental. Se no passado a meta era “vencer”, hoje é preciso buscar todos os caminhos para viver em harmonia com a natureza e dela extrair todos os benefícios resultantes dessa boa convivência.As boas intençõesRecentemente, com as melhores intenções, não duvido disso, um grande banco anunciava: “O que a enchente destruiu sozinha, a gente pode reconstruir juntos” e colocou à disposição um número de conta para ajudar as pessoas e famílias prejudicadas pelas chuvas.Essa é uma típica situação de desconhecimento das leis naturais, conforme descrevi acima. Em primeiro lugar a enchente não destruiu sozinha, o ser humano deu a sua contribuição determinante ao construir em locais inadequados, não permitindo a vazão das águas. Depois, ao falar em reconstruir, que significa fazer da mesma maneira, do mesmo jeito e no mesmo lugar serão cometidos os mesmos erros que levaram a tragédia.Nesse caso, vale a pena rever valores e estratégias para obter os melhores resultados para o banco e para as pessoas.* Reinaldo Canto é jornalista, consultor e palestrante. Foi diretor de Comunicação do Greenpeace e coordenador de Comunicação do Instituto Akatu. É colunista da revista Carta Capital, colaborador da Envolverde e professor de Gestão Ambiental na Fappes.** Publicado originalmente na coluna do autor no site Carta Capital.


por Reinaldo Canto*
Gansos azuis em voo de inverno sobre a Floresta Apache, no Novo México, Estados Unidos. Foto: Photostock/IPS Pesquisa

TERRAMÉRICA – Cientistas vinculam La Niña com a gripe

[caption id="attachment_42279" align="alignleft" width="300" caption="Gansos azuis em voo de inverno sobre a Floresta Apache, no Novo México, Estados Unidos. Foto: Photostock/IPS"][/caption]Pesquisadores sugerem estudar as relações entre variações climáticas, aves migratórias e pandemias de gripe.Cidade do México, México, 13 de fevereiro de 2012 (Terramérica).- As variações climáticas poderiam influir na propagação de pandemias como a da gripe A/H1N1, inicialmente conhecida como gripe suína, surgida no México e nos Estados Unidos em 2009. Esta é a hipótese de um artigo científico que propõe investigar os vínculos entre variações climáticas, migrações de aves e pandemias de gripe.“Examinamos as quatro pandemias de gripe – de 1919, 1957, 1968 e 2009 –, e encontramos que cada uma ocorreu na primavera ou no começo do verão boreal, precedida por temperaturas da superfície marinha abaixo do normal, indicador da fase do La Niña”, explicou ao Terramérica o doutor em ciências climáticas, Jeffrey Shaman, da Mailman School of Public Health, da Universidade de Columbia.“Sabe-se que as aves silvestres são o primeiro reservatório de vírus da gripe A e que facilitam a emergência de novas linhagens pandêmicas, transmitindo vírus para humanos e animais domésticos”, diz o artigo escrito por Jeffrey e seu colega Marc Lipsitch, da Harvard School of Public Health. “As aves migratórias, com suas viagens de longa distância e muitas escalas, são consideradas particularmente cruciais para a mescla e recombinação dos genomas dos vírus de gripe”, afirmam os autores.O artigo The El Niño-Southern Oscillation (Enso) – Pandemic Influenza Connection: Coincident or Causal? (O Fenômeno El Niño Oscilação do Sul (Enos) – Conexão com a Gripe Pandêmica: Coincidência ou Casual?) foi publicado em janeiro pela revista Proceedings of the National Academy of Sciences, dos Estados Unidos. O La Niña é a fase fria do Enos, um fenômeno climático e marítimo cíclico, que afeta os padrões meteorológicos em todo o mundo e é parte do sistema que regula o calor na zona entre os trópicos no Oceano Pacífico oriental.O Enos está pautado por mudanças na temperatura da superfície oceânica e na pressão atmosférica. O La Niña transporta água mais fria ao longo do Pacífico e costuma apresentar-se com uma frequência entre dois e sete anos, mas também de forma consecutiva, como ocorreu em 2011 e nos primeiros meses de 2012. Os especialistas sugerem que as condições do La Niña podem juntar subtipos divergentes de gripe em algumas partes do mundo, e favorecer a recombinação da doença mediante infecções múltiplas e simultâneas em portadores individuais e a geração de novas cepas pandêmicas.O Enos afeta a saúde e o comportamento das aves migratórias, ao alterar a biomassa dos animais, os padrões de voo e escalas, o tempo de troca da plumagem e a densidade populacional. A Oscilação do Sul muda drasticamente as condições meteorológicas – temperatura, precipitação pluvial, velocidade e direção do vento –, que por sua vez podem influir no comportamento das aves. Em abril de 2009, começaram a surgir no México casos de um tipo de gripe A até então desconhecido, que logo seria batizado de H1N1.Devido à onda de contágios, o governo federal e a prefeitura da Cidade do México ordenaram o fechamento de escolas e estabelecimentos comerciais, e a suspensão de atividades públicas como concertos e missas. Em junho daquele ano, a Organização Mundial da Saúde declarou estado de pandemia e promoveu o desenvolvimento de vacinas e o fornecimento do medicamento oseltamivir, que o laboratório Roche vende sob o nome de Tamiflu.“Sempre se soube que as variações climáticas mudam os vírus, desde o tempo dos gregos. Eles evoluem muito em épocas de frio e seca, e agora as duas condições se juntam”, explicou ao Terramérica o médico mexicano, Federico Ortiz, que em 2009 publicou o livro Código A (H1N1). Diário de uma Pandemia. Desde 2009 até este mês, foram registrados no México 252.388 casos de gripe, dos quais 75.328 correspondem ao A/H1N1, segundo o Ministério da Saúde. Morreram 2.261 pessoas, 1.837 pela nova cepa.Entre 2011 e este ano, parece ter ocorrido uma onda de contágios. No ano passado, foram registrados 925 casos de gripe, 345 de A/H1N1. Neste 2012, já foram contabilizados 2.815 infectados, e 2.544 pelo novo vírus. No ano passado, morreram 50 pessoas no México por gripe, e 40 delas por A/H1N1. Nos dois primeiros meses de 2012, os mortos foram 58 e 54, respectivamente.“O efeito do Enos sobre a saúde e a conduta das aves migratórias poderia ser um meio pelo qual o ambiente em grande escala altera a probabilidade de eventos de recombinação do vírus da gripe e a transmissão para portadores humanos”, ponderou Jeffrey. Para provar sua hipótese, os acadêmicos sugerem estudar a genética das populações de gripe, a prevalência dos vírus em várias espécies portadoras e os padrões de migração de aves.Há uma ampla literatura que documenta os efeitos do Enos em doenças infecciosas como malária, dengue e cólera, e alguns estudos parciais sobre seus vínculos com epidemias locais de gripe sazonal. Entretanto, até agora, “nossa capacidade para prever o desenvolvimento de uma gripe pandêmica é limitada”, afirmam os autores. “A gripe típica tem maior incidência e mortalidade. O A/H1N1 não é tão letal como se pensou”, afirmou Federico. “No entanto, conforme o vírus se expande, aumenta sua diversidade genética. Por isto, é possível que haja um crescimento maior”, previu.* O autor é correspondente da IPS.LINKSUma persistente Niña está de voltaCientistas atrás dos segredos da nova gripeQuando um vírus assola a aldeia global, em espanholNovo retorno do vírus, em espanholO vírus madruga, em espanholPandemias exigem que a OMS cumpra seu mandato, em espanholThe El Niño-Southern Oscillation (Enso) – Pandemic Influenza Connection: Coincident or Causal?, em inglêsSecretaria de Saúde do México, em espanholArtigo produzido para o Terramérica, projeto de comunicação dos Programas das Nações Unidas para o Meio Ambiente (Pnuma) e para o Desenvolvimento (Pnud), realizado pela Inter Press Service (IPS) e distribuído pela Agência Envolverde.


por Emilio Godoy*
Torre de observação científica em Boa Vista, capital do Estado de Roraima, fronteiriço com a Venezuela. Foto: Cortesia Mario Bentes Ciência

TERRAMÉRICA – Decifrado diálogo entre selva amazônica e água

[caption id="attachment_42271" align="alignleft" width="300" caption="Torre de observação científica em Boa Vista, capital do Estado de Roraima, fronteiriço com a Venezuela. Foto: Cortesia Mario Bentes"][/caption]O Experimento em Grande Escala da Biosfera-Atmosfera na Amazônia nasceu da necessidade de se entender e explicar a selva tropical integrando diferentes ciências.Rio de Janeiro, Brasil, 13 de fevereiro de 2012 (Terramérica).- Havendo alteração na relação entre a selva amazônica e os bilhões de metros cúbicos de água que circulam pelo ar, desde o Oceano Atlântico equatorial até os Andes, estará em risco a resiliência deste bioma crucial para o clima do planeta, alerta um experimento de duas décadas. A Amazônia é um ser vivo de 6,5 milhões de quilômetros quadrados, que ocupa metade do território do Brasil e parte de outros oito países (Bolívia, Colômbia, Equador, Guiana Francesa, Guiana, Peru, Suriname e Venezuela), e abriga a maior reserva de água doce do planeta.Para entender plenamente esse complexo sistema, cientistas do Brasil e do mundo criaram o Experimento em Grande Escala da Biosfera-Atmosfera na Amazônia (LBA, sigla em inglês). Após 20 anos de pesquisas, os dados coletados constituem um alerta. Segundo o Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe), que participa do experimento, se nos próximos anos não houver políticas efetivas para reduzir a emissão de gases causadores do efeito estufa, a Amazônia chegará ao final do Século 21 com 40% menos chuva, com temperaturas médias de até oito graus acima do normal.Isso converteria a Amazônia em uma fonte emissora de dióxido de carbono, em lugar de um depósito desse gás-estufa. A Agência Internacional de Energia estima que, em 2010, a população mundial lançou na atmosfera o recorde de 30,6 gigatoneladas de dióxido de carbono, principalmente procedente da queima de combustíveis fósseis. “As pesquisas nos mostram que a floresta tem um grande poder de resiliência, mas também que este poder tem limites”, disse ao Terramérica o físico Paulo Artaxo, presidente do Comitê Científico Internacional do LBA.“Se continuarmos queimando tanto carbono, o cenário climático para a região amazônica será bastante desfavorável a qualquer resiliência que a selva possa desenvolver. Dificilmente sobreviverá a um estresse climático tão grande”, acrescentou Paulo. Para a coleta de dados o LBA contou, entre outros instrumentos, com 13 torres de 40 a 55 metros de altura, instaladas em diferentes pontos da selva, para medir o fluxo de gases, o funcionamento das propriedades básicas do ecossistema, a radiação e muitos outros parâmetros ambientais. A informação coletada é analisada por cientistas de várias áreas, com a finalidade de entender a selva como um sistema interrelacionado.“A percepção da comunidade científica, de que os estudos individuais ou disciplinares não eram competentes para explicar a Amazônia, levou ao LBA. Percebia que era necessário um esforço integrado para explicar a floresta tropical, a partir das ciências físicas, químicas, biológicas e humanas, e também da relação entre elas”, disse ao Terramérica o engenheiro agrônomo Antônio Nobre, destacado cientista que também integra o LBA. “Quando comecei os estudos no LBA, minha parte principal no projeto era o carbono. Mas o carbono sem água fica seco e a floresta pega fogo. Se não há transpiração, não há sequestro de carbono, porque não ocorre a fotossíntese. Percebi que o ciclo da água e o do carbono são inseparáveis”, afirmou Antônio.Essa análise integrada demonstrou que a Amazônia está absorvendo uma pequena quantidade de dióxido de carbono da atmosfera, estimada em meia tonelada por hectare ao ano. Contudo, esta fixação varia muito por região, segundo o grau das alterações ambientais. Em áreas próximas a lugares onde a ação humana causou uma degradação significativa, a absorção diminui, e a Amazônia, em lugar de incorporar carbono, o emite.Além disso, a absorção de dióxido de carbono enfrenta “as emissões causadas pelo desmatamento e pelas queimadas” provocadas para expandir a agricultura, destacou Paulo. Como nos últimos anos as queimadas diminuíram drasticamente, de 27 mil quilômetros quadrados em 2005 para cerca de sete mil quilômetros quadrados em 2010, “hoje a selva tem como característica predominante a absorção”, explicou. Porém, com as mudanças causadas pelo efeito estufa e o aquecimento da selva, a estação seca tende a aumentar, criando um cenário propício para mais incêndios e mais emissões de dióxido de carbono.Segundo Paulo, “o lançamento na atmosfera de partículas sólidas pelas queimadas altera a microfísica das nuvens e o regime de precipitações. Em um dos estudos do experimento se constatou que o aumento das queimadas em Rondônia estende de duas a três semanas a estação seca, retroalimentando a incidência das queimadas e piorando ainda mais seu efeito sobre o funcionamento do ecossistema”. Na “muito severa” seca de 2005, “a Amazônia perdeu muito carbono”, contou Paulo. Em uma situação de “grandes secas” mais frequentes, é possível que a selva se converta em “emissora de dióxido de carbono e deixe de cumprir um importante serviço ambiental”, alertou.A extensão da temporada seca causa outro fenômeno, a emissão de carbono dos rios, que também foi estudado no LBA. “Os cursos de água de pequeno e médio portes emitem quantidades significativas de gás. Ocorre o que chamo evasão de dióxido de carbono dos corpos aquáticos, e isto acontece porque a maior parte desses rios está saturada de carbono dissolvido na água”, afirmou Paulo. Com o passar do tempo, este carbono “é lançado na atmosfera em quantidades bastante significativas. Todos os fenômenos que alteram o ecossistema amazônico têm um forte impacto na evasão de gases dos rios. Com o aumento da temperatura, aumenta a emissão de gás”, acrescentou.Para ilustrar as consequências que um desequilíbrio da Amazônia poderia acarretar ao clima mundial, Antônio citou a pesquisa que se popularizou com o nome de “rios voadores”, iniciada na década de 1970 e convertida em um projeto consolidado desde 2007. “Descobrimos que a ação do Sol sobre a região equatorial do Oceano Atlântico evapora grande quantidade de água. Esta umidade é transportada pelos ventos para o norte do Brasil. São cerca de dez bilhões de metros cúbicos de água por ano, que chegam à Amazônia em forma de vapor. Parte cai como chuva, e parte segue até encontrar a muralha da Cordilheira dos Andes”, descreveu Antônio.Na região andina, o vapor cai como neve e, ao derreter, “alimenta os rios da bacia amazônica. A maior parte da chuva que cai sobre a floresta volta a evaporar”, esclareceu Antônio. Esta umidade flutua sobre Bolívia, Paraguai e os Estados de Mato Grosso e Mato Grosso do Sul, no oeste; Minas Gerais, no leste; São Paulo no sudeste e inclusive até Paraná, Santa Catarina e Rio Grande do Sul, no sul. “E leva a maior parte das chuvas para todas essas regiões”, explicou. A seca da Amazônia prejudicaria esse rio aéreo e “o ciclo de chuvas nessas regiões, que são muito ricas em agricultura”, alertou Antônio.O LBA é hoje um programa do Ministério de Ciência e Tecnologia, coordenado pelo Instituto Nacional de Pesquisas da Amazônia, com apoio de outras entidades. Seus pesquisadores estão ampliando esse trabalho para outras áreas, como os sistemas agropastoris e o comportamento do dióxido de carbono nas plantações de soja. “Temos um trabalho enorme pela frente para compreender os processos naturais e o que os humanos fazem quanto à alteração dos ecossistemas”, concluiu Paulo.* A autora é colaboradora do Terramérica.LINKSO Brasil não pode nadar contra a correnteFlorestas tropicais lutam por sua sobrevivênciaA Amazônia pode converter-se em imensa savanaAplausos e vaias para a reforma florestal do BrasilA variável de ajusteA chave da vida está no ar, em espanholChuvas poderiam extinguir-se no celeiro do mundo – 2010, em espanholExperimento em Grande Escala da Biosfera-Atmosfera na AmazôniaInstituto Nacional de Pesquisas Espaciais, em português e inglêsAgência Internacional de Energia, em inglêsMinistério de Ciência e Tecnologia, em português e inglêsInstituto Nacional de Pesquisas da AmazôniaRios Voadores, em português e inglêsArtigo produzido para o Terramérica, projeto de comunicação dos Programas das Nações Unidas para o Meio Ambiente (Pnuma) e para o Desenvolvimento (Pnud), realizado pela Inter Press Service (IPS) e distribuído pela Agência Envolverde.


por Alice Marcondes*
economia_verde Economia Verde

Contra uma avalanche verde, aposta nos territórios do futuro

Em 2001, o dicionário Houaiss não dava nenhuma notícia do que poderia ser “economia verde” – ao contrário da economia de escala, de guerra, de mercado, de palitos, dirigida, doméstica, e muitas outras. Ainda agora, passados dez anos, o conceito não pode ser compreendido com a clareza dos dicionários. No entanto, já faz parte de documentos da ONU, acompanhados ou não da definição necessária aos conceitos que determinarão nosso jeito de viver. O documento “zero” da Rio+20 é um bom exemplo: o adjetivo “verde” acompanha o substantivo “economia” quase 40 vezes em 20 páginas. No entanto, não achamos ali a definição para o novo conceito.As possíveis definições constam em outras peças diplomáticas e no discurso de corporações e governos. E não parecem apontar para um modo de viver radicalmente diferente do atual, mas para o aprofundamento da forma de produção e consumo dominante no mundo, que gera desigualdades entre países e povos, além de múltiplas crises, como a ambiental.Pablo Sólon, que foi embaixador da Bolívia na ONU, lembrou que, no momento da convocatória, a Rio+20 deveria ter sido, fundamentalmente, um espaço de avaliação dos avanços de cumprimento da Agenda 21 (acordada na Eco 92) e, quem sabe, motivadora de seu fortalecimento. A economia verde, no primeiro momento, era um tema em discussão. Algo secundário. Por pressões de diversos atores, especialmente países da União Europeia, se transformou em central – mesmo, segundo Sólon, não tendo aceitação unânime entre as nações.Na opinião dele, a falta de definição do termo “economia verde” para a Rio+20 é um enorme risco. E não considera que estejamos falando apenas de um novo slogan. “Os entusiastas dizem que economia verde é tudo: separar o lixo, indústrias limpas, estar com Pachamama, vender créditos de carbono, tudo isso pode ser economia verde. E por isso não definir esta economia no documento. Se aceitamos isso, assinamos um cheque em branco”, avalia o ex-embaixador, explicando que a Rio+20 não será lugar de fechar tratados. “O que querem é o mandato para formular a arquitetura institucional necessária para criar este mercado de bens intangíveis. Depois, o processo vai se dar praticamente sozinho”, vaticina. E segue: “Se não temos uma posição categórica de repúdio à economia verde seremos cúmplices do lançamento de um dos maiores negócios de roubo da natureza que será lançado no Rio de Janeiro, em junho. É muito complicado porque há muitos interesses e um mercado multimilionário que não vai resolver nada, mas eles esperam, vai reverter as taxas decrescentes de lucro do sistema capitalista”.E foi em busca de uma “outra economia” que representantes de entidades e movimentos sociais “críticos à economia verde” se reuniram no seminário “Rumo à Rio+20: Por uma outra economia”.Além de expor alguns elementos que os fazem “críticos”, concluíram que para encontrar um novo modo de viver não é preciso sair do zero. Como sintetizou Maria Emília Pacheco, da Fase, não faltam práticas à margem da hegemonia, além de conceitos em construção – o bem-viver, os bens comuns, o decrescimento –, valores sendo reforçados, como a justiça ambiental, e lógicas que não se regem pela subordinação direta, como a economia do cuidado – para a qual apontam as feministas –, e a economia da reciprocidade, seguida por comunidades tradicionais e camponesas ao redor do globo. Também a insurgência de novos direitos, estes coletivos, em oposição aos mecanismos de propriedade privada ou intelectual, podem ser levados em conta, somados aos direitos dos agricultores, dos povos e da natureza (como já figura em duas constituições latino-americanas).O desafio, portanto, estará em tornar visíveis práticas tão plurais quando um encontro mundial do tamanho da Rio+20 aponta, exclusivamente, para a velha economia que vivemos, agora pintada de verde.Avalanche verdeAlgumas constatações eram consensuais àqueles que chegaram ao seminário realizado em uma das pequenas salas da antiga casa do centro de Porto Alegre que abriga o Instituto dos Arquitetos do Brasil. Uma delas, talvez a mais forte, era de que vivemos um ciclo de crises nunca antes experimentado pela humanidade.Jean Marc von der Weid, da Aspta - Agricultura Familiar e Agroecologia, fez uma leitura do quadro atual acentuando as questões ligadas à agricultura: “parecemos olhar para as profecias de Nostradamus. As crises parecem estar se integrando e se fortalecendo umas às outras”. O economista enumerou alguns aspectos para mostrar como o modelo hegemônico de agricultura simplesmente é insustentável em longo prazo: os recursos minerais usados para fabricação de adubos nitrogenados estão desaparecendo; o modelo é completamente baseado em petróleo e não faltam questionamentos sobre os limites de sua exploração; a degradação do solo chega a níveis alarmantes: calcula-se que já atinge 22% das terras férteis do mundo. “Desaparecem ainda as culturas agrícolas tradicionais. Isso tem uma significação que vai além da perda ambiental e do material genético. Perdemos também o conhecimento. Este é um problema grave para o futuro”, preocupa-se, lembrando que, neste cenário, questões antigas e não resolvidas no Brasil, como a reforma agrária, são ainda mais necessárias.Pablo Bertinant, do programa Cone Sul Sustentável, também falou do momento de crise, salientando os problemas da matriz energética mundial, ainda concentrada no petróleo, diante do aquecimento global. E sintetizou outro ponto de acordo – aliás, desde a convocatória do seminário: a crítica à economia verde. “Hoje a lógica de resolução de problemas é a mesma (da Eco 92), mas com um passo a mais, que é a economia verde”, afirmou. Para Bertinat, calcular o “capital natural” e argumentar que a medida é necessária para que as corporações tenham interesse na preservação é um erro. Afinal, revela, “a finalidade deste processo é encontrar outros meios para a acumulação de capital, com o objetivo de superar a atual crise financeira. E fica claro que nada muda no sistema atual”.Lúcia Ortiz, do Núcleo Amigos da Terra Brasil, seguiu no mesmo sentido, enfatizando uma aceleração dos processos e também a diminuição de transparência no que diz respeito às negociações e conferências das Nações Unidas. Lúcia também destacou que as corporações, dentro e fora da ONU, reafirmam seu poder. E que se antes a apropriação era dos bens públicos – via privatização –, agora é dos bens comuns – via abertura de mercados na economia verde. Para ilustrar a percepção de Lúcia, podemos voltar ao documento base da Rio+20: em diversas ocasiões o Rascunho Zero enfatiza “o importante papel do setor privado no caminho para o desenvolvimento sustentável”.Mas a ação dos governos, que têm por trás tantos interesses e com diferentes níveis de força, também foram questionados. Camila Moreno, da Fundação Heinrich Boell, analisa que, “sem a ação autoritária e impositiva dos governos, as corporações não poderiam fazer nada”. Ela enumerou diversos processos – seja as sínteses e documentos elaborados por agências da ONU, por coalizões de bancos oou por agências de consultoria que atuam junto a corporações e governos – que mostraram o avanço da chamada economia verde como realidade, agora em processo de regulamentação –, inclusive no Brasil, por exemplo com a tramitação de lei para o pagamento por serviços ambientais.Vale dizer que já existe, inclusive, uma metodologia para medir o valor de mercado do que antes era considerado bem comum: ar, água, biodiversidade, etc. A metodologia está em um estudo chamado Teeb (A Economia dos Ecossistemas e da Biodiversidade, na sigla em inglês), vinculado ao Programa das Nações Unidas para o Meio Ambiente e lançado na última Conferência da Convenção sobre Diversidade Biológica, em 2010. “O Brasil pode transformar, por exemplo, o carbono estocado na floresta amazônica em uma variável macroeconômica. Ou seja, a economia verde brasileira ‘vai bombar’, porque subitamente a água doce vai ser somada às riquezas nacionais. Nada contra contabilizar. A questão é: dentro de qual projeto isso se insere e para quais fins? E os fins são lançar isso em um mercado de commodities e, pior ainda, de financeirização e de uma série de produtos financeiros atrelados a estas commodities”.Outro ponto especialmente destacado por Pablo Sólon é o papel do Brasil na Conferência. O ex-diplomata boliviano lembra que o país será mais que um simples anfitrião, inclusive porque também quer “negociar seu pedaço” em um novo negócio no qual pode ser naturalmente privilegiado pelos recursos que estão em seu território. A isso, o canadense Pat Mooney, do ETC Group, adicionou que a pressão sobre o Brasil estará duplicada na Rio+20, visto que hoje brasileiros ocupam dois cargos importantes na ONU nesta área: José Graziano da Silva é diretor-geral da FAO, órgão para alimentação e, portanto, a cargo de parte da diversidade biológica do mundo e, agora, a cargo de outra parte, Bráulio Ferreira de Souza Dias, recém-escolhido como secretário executivo do Secretariado da Convenção sobre Diversidade Biológica. Mooney também lembrou que o mundo não para de girar depois da Rio+20. Assim, aconselhou: “devemos estar atentos a outros encontros mundiais, como a próxima Conferência das Partes sobre Biodiversidade Biológica, onde podem ser concretizados os mecanismos para o mercado verde”.Aposta nos “territórios do futuro”Se o contexto geral é de crise – e do ponto de vista ambiental nunca se viu tanta degradação como nos últimos 20 anos –, também podemos apontar como consenso entre os críticos à economia verde que está clara a necessidade de denúncia sobre os responsáveis pela tragédia anunciada.Mas denunciar como? Denis Monteiro, da Articulação Nacional de Agroecologia, aponta um dos caminhos. Para ele, mais que levantar números é preciso mostrar à sociedade a gravidade do problema a partir do concreto: as secas, as enchentes das grandes cidades, as doenças, a poluição, os agrotóxicos que contaminam alimentos, água, solo. “Tudo isso já é sentido com clareza pelas populações em seus territórios e mostra que as crises realmente estão aí”, comenta. Do mesmo modo, também as soluções estão nos territórios, como aponta Jean Pierre Leroy, da Fase, ao tratar de um conceito com crescente importância, o de bens comuns, que inclusive figura no documento de convocação da Cúpula dos Povos. Para ele, também os territórios podem ser considerados como bens comuns, aqueles bens, materiais ou não, geridos por grupos para bem de todos, lugares de conflito e relações sociais.Na opinião de Jean Marc, da Aspta, a diferença entre hoje e há 20 anos está, entre outros pontos, na solidez das práticas que respeitam as pessoas e o ambiente, como a produção de alimentos saudáveis na agroecologia. São muitas as experiências espalhadas pelo mundo. Soma-se a isso que são numerosas as pesquisas sérias, inclusive financiadas pela própria ONU, que comprovam serem soluções para os problemas ambientais e sociais que enfrentamos atualmente. É preciso tornar visíveis essas práticas que também se materializam nos territórios. No entanto, a questão não se restringe à visibilidade: ao argumentar que a agroecologia só é possível com reforma agrária e campesinato, Jean Marc nos lembra que o debate sobre as alternativas está no plano político.Jean Marc não foi o único a enfatizar a importância da agricultura familiar para o futuro do planeta. Enquanto Pat Mooney desfiou uma enorme quantidade de estatísticas que mostram como a agricultura familiar é melhor diante das mudanças climáticas, por ser mais flexível e adaptável, preservar a biodiversidade, conservar os solos, etc., Silvia Ribeiro, também do ETC Group, foi taxativa ao mencionar o trabalho dos camponeses, que, ao contrário do que pode sugerir o marketing das empresas, ainda alimenta certa de 80% da população mundial: “A agricultura ecológica é imprescindível”.Fátima Mello, da Fase, também aposta na materialidade para denunciar e mostrar as alternativas. Por isto, construir na Cúpula das Povos um “território do futuro”, mostrando as práticas que apontam para outra economia. “Mas é preciso que a sociedade saiba que o que chamamos alternativo, como a agroecologia, nunca será massificado se isso não passar pela política”, afirmou, lembrando que lutas como o levante de Chiapas no México, em 1994, e coalizões contra o Nafta, que desembocaram nos protestos de Seatle, em 1999, e no Fórum Social Mundial no início do século, partiram também de situações muito concretas e mudaram o contexto político depois de uma década. A Cúpula dos Povos, na opinião de Fátima, pode ser um ponto importante para a acumulação de força política, para novas convergências e para abrir um grande diálogo com a sociedade sobre os rumos possíveis. Não é por outro motivo, comenta, que o Comitê Facilitador da Cúpula dos Povos, do qual faz parte, escolheu realizar a Cúpula no Aterro do Flamengo – quando o evento oficial da ONU será no Riocentro, distante da área central do Rio de Janeiro. Com isso, o debate sobre outra economia segue para um espaço reconhecidamente público, que poderíamos considerar bem comum da cidade.O seminário “Rumo à Rio+20: Por uma outra economia” foi organizado pela Articulação Nacional de Agroecologia (ANA), Aspta (Agricultura Familiar e Agroecologia), Fase (Solidariedade e Educação), FBSSAN (Fórum Brasileiro de Soberania e Segurança Alimentar e Nutricional), FBES (Fórum Brasileiro de Economia Solidária), Núcleo Amigos da Terra Brasil, e SOF (Sempreviva Organização Feminista).* Publicado originalmente no site Mercado Ético.


por Lívia Duarte, da Fase

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