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Preservativos femininos com demanda e pouca oferta

Mabel Bianco mostra a camisinha feminina para três jovens em uma rua de Buenos Aires. Foto: Juan Moseinco /IPS

Buenos Aires, Argentina, 30/11/2011 – Apesar do sustentado crescimento do HIV/aids entre as mulheres latino-americanas e caribenhas, o preservativo feminino, que poderia ajudá-las a controlar sua saúde, não ganha espaço na oferta de opções. Na Argentina, país de 40 milhões habitantes, onde o Estado distribuiu 39 milhões de anticoncepcionais de diversos tipos apenas em 2010, a camisinha feminina não é oferecida como alternativa, nem é encontrada nas farmácias.

No Brasil, com quase 200 milhões de habitantes, perdeu impulso desde 2010 uma iniciativa lançada quatro anos antes, na qual o Estado distribuía camisinhas femininas que permitem às mulheres evitar gravidez e se prevenir contra o HIV/aids e outras doenças sexualmente transmissíveis. No México, cuja população chega aos 112 milhões, também cresce a transmissão do HIV (vírus da deficiência imunológica adquirida, causador da aids) entre elas, mas só agora o Estado prevê entregar os preservativos em pequena escala.

Enquanto isto ocorre nos três países da América Latina com maior população e economia, no Peru, com 29 milhões de habitantes, há apenas um plano-piloto de distribuição entre trabalhadoras sexuais. Esta realidade não difere do que acontece no resto do mundo. Segundo a Campanha Internacional pelo Acesso Universal ao Preservativo Feminino, somente 1% das camisinhas usadas em nível mundial é para uso das mulheres.

A campanha opera em cerca de 20 países da América, África, Ásia e Europa, impulsionada por mais de 40 organizações não governamentais que procuram divulgar esta ferramenta que dá poder às mulheres e as torna menos vulneráveis. Em suas pesquisas, a campanha obteve dados segundo os quais 215 milhões de mulheres que vivem em países em desenvolvimento estariam dispostas a usá-la se tivessem acesso.

Das pessoas que vivem com o vírus HIV no mundo, 50% são mulheres ou meninas, informou a Onusida, o Programa Conjunto das Nações Unidas sobre Aids. A maior proporção das infectadas está na África subsaariana (59%) e no Caribe (53%), destaca a Onusida em um balanço sobre a situação por ocasião da celebração, em 1º de dezembro, do Dia Mundial de Luta Contra a Aids, que este ano recorda os 30 anos de seus primeiros diagnósticos.

Na América Latina, onde a epidemia está estabilizada, 36% do 1,5 milhão de pessoas com HIV são mulheres. Entretanto, entre jovens de 15 a 24 anos, a proporção é parelha, o que indica uma tendência à feminização do vírus. Por que, então, o preservativo feminino não é uma opção? É incômodo? Ou o preço limita seu acesso?

Especialistas ouvidas pela IPS disseram que o produto é bom, mas caro, talvez por não haver Estados dispostos a comprá-lo a granel. A médica argentina Mabel Bianco, da Fundação para Estudo e Pesquisa da Mulher – entidade que faz parte da campanha pelo acesso universal – informou que atualmente há três modelos no mercado internacional, um com a maior difusão.

Trata-se de um dispositivo com um aro que se coloca no interior da vagina e outro extremo que cobre a vulva e os lábios. Segundo Bianco, em geral, os modelos novos são muito superiores aos anteriores, que eram incômodos e faziam ruído durante o atrito do ato sexual. “O novo material é o nitrilo, que pode ser utilizado por pessoas alérgicas ao látex. Adapta-se à temperatura do corpo, permite maior sensibilidade à mulher e ao homem e pode ser colocado horas antes da relação sexual”, destacou a médica.

Bianco, ex-diretora do Programa Nacional de Aids na Argentina, disse que as mulheres com HIV pediam, mas há três anos o Estado promete fazer um teste e mudam os chefes de programa e nada é feito, lamentou. A seu ver, se o Estado não comprar fica difícil as empresas se arriscarem a fabricá-lo. Se, pelo contrário, for adquirida em grande escala, facilitaria a difusão da camisinha feminina, aumentaria a demanda e com o tempo ficaria mais econômica.

O certo é que atualmente o mercado de preservativos masculinos tem uma avalanche de variedade e bons preços, enquanto os modelos para as mulheres são caros (podem chegar a custar 30 vezes mais, segundo informa a Campanha) e apresentam pouca variação. A camisinha masculina hoje vem em até sete medidas, diversas texturas, espessuras e sabores variados. Existem as com sabor de frutas, como manga, banana, melancia, além de menta, coco ou baunilha. Também existe uma variedade que retarda a ejaculação. Por outro lado, a feminina tem apenas três tipos segundo material e forma.

No México, país atrasado em matéria de serviços de saúde sexual e distribuição de anticoncepcionais, o Estado se comprometeu a começar este ano a distribuição de camisinhas femininas com uma primeira aquisição de 400 mil unidades.

No Brasil, alertados pelo aumento da transmissão do vírus entre mulheres, o Estado avançou na entrega gratuita de camisinha feminina. Segundo o Ministério da Saúde, em 2006 foi distribuído 1,3 milhão, contra 230 milhões da destinada aos homens. Nos fóruns internacionais, o Brasil chegou a ser citado como exemplo por esta iniciativa, mas o programa não conseguiu se sustentar no tempo.

Em 2008, aumentou a distribuição de camisinhas femininas para três milhões, e em 2009 caiu para dois milhões. Em 2010, a distribuição caíra para 379 mil contra os 327 milhões de preservativos masculinos, e em 2011 deixaram de ser ofertadas.

Segundo Jo Meneses, da organização Gestos, outra integrante da campanha mundial, o custo do preservativo feminino no Brasil é dez vezes maior do que no caso masculino devido à escassez de fornecedores e à falta de competição. Alessandra Nilo, da mesma entidade, contou que “há uma única empresa que as vende no país, e o preço que pede é muito alto. O Brasil não está em condições de comprá-la”, acrescentou. No entanto, Jo antecipou que o Ministério da Saúde prometeu normalizar a compra do preservativo feminino. Afirmou que se trata de uma aquisição de 40 milhões de camisinhas femininas para distribuir nos próximos três anos. Envolverde/IPS

* Com a colaboração de Fabiana Fraysinet (Rio de Janeiro).