Ambiente

Expedição encontra animal ameaçado de extinção, registrado há 25 anos

Pesquisadores identificaram inseto de um milímetro em caverna no interior do Pará

O que um bichinho de menos de um milímetro pode ensinar sobre biodiversidade? E por que é importante preservar esses seres tão pequenos? A resposta para os dois questionamentos é simples do ponto de vista da sustentabilidade: todos os seres vivos importam. Cada organismo é peça fundamental para a manutenção dos ecossistemas. E como mobilizar a sociedade, governo e organizações em prol da conservação desses pequenos animais?

A história dessa reportagem começa em 1995, quando pesquisadores registraram a presença de um inseto com seis pernas, sem olhos ou pigmentos, em uma caverna no estado do Pará, o Troglobius brasiliensis. Havia apenas um registro existente da espécie, que está classificada como Criticamente em Perigo (CR) na Lista Nacional  de Espécies Ameaçadas de Extinção (Portarias MMA nº 443/2014, 444/2014 e 445/2014).

Troglobius brasiliensis

Passados 25 anos, já em 2020, teve início o trabalho de elaboração do Plano de Ação Territorial para Conservação das Espécies Ameaçadas de Extinção do Território Xingu (PAT Xingu), resultado do projeto Pró-Espécies: Todos contra a Extinção. A ação, coordenada pelo Ministério do Meio Ambiente e Mudança do Clima (MMA) e tem o Funbio como agência implementadora e o WWF-Brasil como agência executora, procura alavancar iniciativas para reduzir as ameaças e melhorar o estado de conservação de pelo menos 290 espécies categorizadas como Criticamente em Perigo (CR) e que não contam com nenhum instrumento de conservação. O Pará é um dos 13 estados envolvidos com o projeto.

O PAT Xingu visa a conservação de oito espécies-alvo, sendo quatro da flora e quatro de fauna, e de seus habitats. Dentre as atividades previstas pelo plano estavam as  expedições para confirmar a presença do Troglobius brasiliensis na caverna do Limoeiro em Medicilândia, em uma área de distribuição de aproximadamente 596 hectares, ou seja, 596 campos de futebol. A primeira viagem foi realizada em dezembro de 2022 pelo Instituto de Desenvolvimento Florestal e da Biodiversidade (IDEFLOR-Bio), que coordena o plano, em parceria com a Universidade Estadual da Paraíba (UEPB).

Tudo o que os pesquisadores sabiam era que o animal vivia em ambientes cavernícolas e não havia nenhuma outra informação sobre hábitos ou características que facilitassem sua localização. “Imagina entrar em uma caverna, dentro do estado do Pará, e achar a espécie que estávamos procurando. A chance era pequena, pois não tínhamos informações nem sobre o comportamento do animal. Normalmente, em cavernas, a principal fonte de energia é o guano de morcego, mas procuramos por todo o lado e não encontramos. Então decidimos ampliar a área de busca e fomos para o rio subterrâneo, na superfície da rocha limpa, e lá estava ele”, relatou o pesquisador da UEPB, Douglas Zeppelini.

Em uma visita técnica da equipe do PAT Xingu, realizada em março deste ano, os pesquisadores ainda encontraram uma nova espécie de pseudoescorpião*, nunca antes descrita. “Não só achamos o Troglobius brasiliensis na caverna bem conservada, vivendo naturalmente, em densidades populacionais normais, como ainda filmei um pseudoescorpião predando o Troglobius. Imagina que essa espécie, que só vive nesse ecossistema, é presa para outros organismos, que provavelmente também estão restritos a esse ambiente. Ele é importante nessa cadeia trófica e nos possibilita concluir que o ecossistema da caverna está funcionando perfeitamente, pois temos duas espécies que ocupam diferentes níveis na cadeia alimentar nos papéis de consumidor primário e predador. E está confirmado que o T.brasiliensis não ocorre fora ou na estrada da caverna, então, até o momento, ele é classificado como endêmico deste local”, complementou o pesquisador.

As descobertas foram celebradas pois reforçam a importância de estudar as espécies, principalmente as classificadas como ameaçadas, para levantar dados e informações que fomentem ações como a do Pró-Espécies. “Muitas espécies que estão classificadas como Criticamente em Perigo (CR), por exemplo, nós mal conhecemos, não temos fotos nem dados suficientes, e não sabemos detalhes sobre sua ocorrência para tentar, ao menos, traçar um plano para preservá-las. Por isso é tão importante ter recursos para estudá-las e colocar uma luz para entender melhor essas espécies, checar informações e saber qual a real categoria de ameaça a qual estão sujeitas”, complementou Renata Emin, assessora técnica do PAT Xingu.

Rica biodiversidade

Após a constatação da presença do Troglobius brasiliensis na caverna, pesquisadores poderão desvendar todos os detalhes sobre a espécie e conhecer mais sobre a vida desse ambiente cavernícola. Segundo Douglas, a  conservação da floresta no entorno é fundamental para a manutenção da biodiversidade, pois garante a rica relação entre grilos, sapos e outros organismos que estão aproveitando os recursos disponíveis naquele local. “Espécies diferentes de morcegos depositam diversas sementes no ambiente, sejam roídas ou pré-digeridas, que servirão de alimento para grilos, que serão ingeridos por aranhas e escorpiões e assim fechamos toda a cadeia alimentar. A partir da descoberta do Troglobius puxamos um fio surpreendente de espécies que vivem ali. E tudo isso entra no cálculo do risco de extinção de um animal. Se o Troglobius desaparece, não existe outra presa para substituir e alimentar o pseudoescorpião, por exemplo, por isso é fundamental preservar esse ambiente”, ressaltou o pesquisador.

E a resposta para a pergunta do início da reportagem, sobre o que um bichinho de um milímetro pode ensinar sobre a biodiversidade, está clara: tudo na natureza tem seu valor intrínseco e cada elo que a compõem é fundamental para garantir a qualidade de vida de todos. Segundo Douglas Zeppelini, na biologia da conservação, cada espécie é um elemento da biodiversidade e isso, por si só, já é suficiente para preservá-la. “Cada espécie que compõe o planeta garante a sustentabilidade. O Brasil abriga a maior biodiversidade do planeta e esse inseto só existe nessa caverna. Se ele desaparecer, quem perde não é o Brasil, mas o planeta Terra. Essa é uma espécie na contagem geral, assim como o rinoceronte, como o urso panda. Se perdemos uma, não temos como retroceder e recuperar. E isso é muito gratificante para um biólogo: ajudar um bicho a não desaparecer”, argumentou.

PAT Xingu

Elaborado em dezembro de 2020, o Plano de Ação é resultado de várias oficinas virtuais realizadas com representantes de vários órgãos: IDEFLOR-Bio, MMA, WWF-Brasil, Universidade Federal do Pará (UFPA) e Universidade Estadual da Paraíba (UEPB), Museu Paraense Emílio Goeldi (MPEG), Instituto de Pesquisas Jardim Botânico do Rio de Janeiro (JBRJ), Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade (ICMBio), Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis (Ibama), Instituto de Desenvolvimento Sustentável Mamirauá (IDSM), Fundação Nacionais dos Povos Indígenas (FUNAI), além de representantes dos municípios de Senador José Porfírio e Altamira.

Segundo Nívia Pereira, representante do IDEFLOR-Bio e  coordenadora executiva do PAT Xingu, as espécies selecionadas não contavam com políticas públicas que promovessem sua conservação e manutenção. A área alvo do PAT apresenta grandes pressões antrópicas, como  desmatamento, avanço agrário, garimpo, entre outras. “O plano contempla a preservação de oito espécies e já tivemos resultados muito interessantes. Nós tínhamos muitas informações desatualizadas, ou mesmo erradas, relacionadas às espécies, e graças aos parceiros e articulações, estamos atualizando e aumentando nosso conhecimento. Além das expedições, realizamos todo um trabalho de educação ambiental que é fundamental para a preservação do meio ambiente”, destacou.

Além da expedição que localizou o Troglobius brasiliensis, o PAT Xingu também já realizou ações para investigar espécies-alvo da flora e três já tiveram ocorrências confirmadas na área: Pau-cravo (Dicypellium caryophyllaceum), Acapu (Vouacapoua americana Aubl) e Jutaí (Hymenaea parvifolia Huber).

“No caso das espécies de plantas, tínhamos poucas informações sobre locais de coleta, que foram disponibilizadas pelo Ministério do Meio Ambiente e Mudança do Clima, e  agora, indo a campo, estamos colocando uma lupa para encontrarmos esses indivíduos que podem ser matrizes. A ideia é realizar a coleta de sementes para a  produção de mudas. Para isso, estamos fazendo uma articulação com as comunidades que moram perto desses locais, tanto para encontrar outros indivíduos, quanto para se envolver no projeto. O plano possibilita ações muito mais efetivas em prol da conservação, mas o que promove a mudança é a participação da sociedade e a divulgação dessas atividades para o público em geral. Dessa forma, formamos elos e ampliamos a rede de proteção”, reforçou Renata Emin.

Pró-Espécies

O Pró-Espécies: Todos contra a Extinção, lançado em maio de 2018, trabalha em conjunto com 13 estados do Brasil (MA, BA, PA, AM, TO, GO, SC, PR, RS, MG, SP, RJ e ES) para desenvolver estratégias de conservação em 24 territórios, totalizando 62 milhões de hectares. O projeto busca reduzir as ameaças e melhorar o estado de conservação de espécies que não contam com nenhum instrumento de conservação e é financiado pelo Fundo Mundial para o Meio Ambiente (GEF, da sigla em inglês para Global Environment Facility Trust Fund), coordenado pelo MMA, implementado pelo Fundo Brasileiro para a Biodiversidade (Funbio), sendo o WWF-Brasil a agência executora.

*Pseudoescorpião é um aracnídeo pequeno que parece um escorpião, mas não tem o “rabo” (opistossoma).

(#Envolverde)