Brasil perde 40% da água tratada em meio a recordes de extremos climáticos

Estudo do Instituto Trata Brasil revela que o país desperdiça o equivalente a 6,3 mil piscinas olímpicas por dia; ineficiência custa bilhões e agrava a vulnerabilidade de 34 milhões de brasileiros.

Atualizado em 26/01/2026 às 19:01, por Dal Marcondes.

Uma piscina olímpica.

por Dal Marcondes, com dados do Instituto Trata Brasil - 

No final de 2025 o Brasil projetada uma reduão de 3,4% na oferta de água nos rios por ano. O "Estudo de Perdas de Água 2025", divulgado em novembro/25 pelo Instituto Trata Brasil (ITB) em parceria com a GO Associados, aponta que a ineficiência operacional atingiu um patamar crítico: 40,31% da água produzida no país não chega ao consumidor final ou não é faturada.

Em termos volumétricos, o desperdício anual de 5,8 bilhões de m³ equivale a 21.153.224 caixas d’água domésticas descartadas diariamente. No cenário internacional, o Brasil ocupa a incômoda 86ª posição em um ranking de 139 nações, ficando atrás de países como a África do Sul (33,73% de perdas) e a Rússia (26,59%).

A radiografia da ineficiência regional

O estudo evidencia que a crise de gestão hídrica tem CEP. A disparidade entre as macrorregiões brasileiras reflete o déficit histórico de investimento em infraestrutura:

  • Norte (49,78%) e Nordeste (46,25%): São as regiões com os piores índices, onde quase metade da água é perdida por vazamentos ou ligações clandestinas.
  • Sudeste e Sul: Embora apresentem indicadores melhores — com destaque para o Tocantins (30,96%), que foge à regra da sua região — o Sudeste registrou a pior evolução recente, com um aumento de 2,50 pontos percentuais nas perdas entre 2019 e 2023.
  • Estados Críticos: Alagoas lidera o desperdício com 69,86%, seguido por Roraima (62,51%) e Acre (62,25%).

No recorte dos 100 maiores municípios, a desigualdade é ainda mais latente. Enquanto Suzano (SP) reporta perdas de apenas 0,88% (influenciada pelo volume de água exportada), Maceió (AL) atinge o pico de 71,73%.

Oportunidade econômica e social

A redução das perdas não é apenas uma meta ambiental, mas um imperativo econômico. Segundo o levantamento, a adequação aos 25% de perdas na distribuição previstos pela Portaria 490/2021 traria ganhos sociais imediatos:

  1. Abastecimento: O volume recuperado (1,9 bilhão de m³) atenderia 31 milhões de pessoas, o que representa 92% da população que hoje não tem acesso regular à água.
  2. Impacto Financeiro: No "Cenário Realista", a redução de perdas pode gerar ganhos brutos de R$ 34,6 bilhões até 2034. Subtraindo os custos de investimento, o benefício líquido para a economia brasileira seria de R$ 17,3 bilhões.
  3. Capitais: Nas 27 capitais, o desperdício físico soma 1,62 bilhão de m³. Se a meta fosse batida, 21 das 27 capitais teriam água suficiente para ultrapassar 99% de atendimento populacional.

"Investir na redução de perdas e na modernização da infraestrutura hídrica não é apenas necessário, mas urgente, tanto para mitigar os efeitos das mudanças climáticas quanto para assegurar o uso sustentável de nossos recursos naturais."Luana Pretto, Presidente Executiva do Trata Brasil.


Tabela: Desempenho das Capitais e Municípios (Destaques)

CategoriaLocalidadeÍndice de Perda
Melhor Município (Top 100)Suzano (SP)0,88%
Melhor CapitalGoiânia (GO)18,34%
Pior Município (Top 100)Maceió (AL)71,73%
Média NacionalBrasil40,31%
Meta Regulatória (2034)Ministério do Desenv. Regional25,00%

Desequilíbrio ambiental e operacional

Gesner Oliveira

O estudo ressalta que altos índices de perda forçam as concessionárias a captar mais água do que o necessário, gerando um ciclo vicioso de custos: maior gasto com insumos químicos, consumo excessivo de energia para bombeamento e pressão desnecessária sobre mananciais já fragilizados pela seca. Para o Professor Gesner Oliveira, da FGV, reduzir perdas é a forma mais barata de "produzir" água em um cenário de escassez.

Próximos Passos: O desafio agora recai sobre a gestão municipal e as parcerias público-privadas para acelerar investimentos em telemetria, troca de tubulações antigas e combate às fraudes, ppara cumprir o Novo Marco Legal do Saneamento.

Envolverde


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