COP30 - avanços, limites e protagonismo em Belém

Pedro Roberto Jacobi, Leila Vendrametto e Valeriana Augusta Broetto - A COP30 era vista como uma oportunidade estratégica para que o Brasil retomasse a liderança global nas questões climáticas, especialmente depois de anos de desmonte das políticas ambientais e de sua diplomacia

Atualizado em 10/01/2026 às 20:01, por Redação Envolverde.

imagem da mesa da COP 30

por Pedro Roberto Jacobi, Leila Vendrametto e Valeriana Augusta Broetto - texto publicado originalmento no Nexo em 11/12/2025 - republicação com autorização dos autores. 

As expectativas de que a COP30 pudesse impulsionar, finalmente, a ação climática e criar as bases para a implementação de decisões históricas se contrapunham a cenários nacionais e globais complexos. Além do avanço do negacionismo climático, da proliferação de fake news, e de retrocessos significativos nas políticas ambientais, a escalada de conflitos e guerras, a insistência na exploração de combustíveis fósseis e o aumento dos eventos extremos desafiaram os avanços esperados.

A participação da sociedade civil e seus vários grupos, muito esperada para essa COP, que depois de anos aconteceu em um país democrático, foi intensa em distintos espaços, mas não necessariamente se viu refletida em documentos e acordos mais ambiciosos, que colocassem os países e populações mais vulnerabilizados e impactados pela crise climática no centro.

A COP30 era vista como uma oportunidade estratégica para que o Brasil retomasse a liderança global nas questões climáticas, especialmente depois de anos de desmonte das políticas ambientais e de sua diplomacia. A presidência da Conferência, sob André Corrêa do Lago, definiu cinco prioridades para fazer dela a “COP da virada”. Contudo, o contexto internacional não era favorável ao fortalecimento das governanças globais. Entre os focos centrais estavam: promover uma transição justa e acelerada dos combustíveis fósseis para fontes de energia sustentáveis, estruturando uma economia de baixo carbono; erradicar o desmatamento de florestas tropicais até 2030; ampliar o financiamento climático para países menos desenvolvidos; implementar políticas econômicas e socioambientais de adaptação; e reafirmar o multilateralismo. Outro desafio relevante era aproximar a ciência das políticas públicas, fortalecendo práticas integradas e multidisciplinares.

O evento encerrou-se com um conjunto de decisões importantes para o enfrentamento da crise climática – como avanços em adaptação, mecanismos de transição justa e um reconhecimento importante para povos indígenas e afrodescendentes. Entretanto, não conseguiu produzir respostas imediatas para o tema que dominou as negociações finais: a construção de um “mapa do caminho” que orientasse a eliminação progressiva dos combustíveis fósseis. Questões essenciais como a eliminação desses combustíveis e o combate ao desmatamento ficaram fora do documento final. O financiamento climático, considerado crucial tanto para a reparação histórica quanto para apoiar países em desenvolvimento, avançou pouco e permaneceu sem um compromisso público, acessível e livre de endividamento, o que compromete uma transição verdadeiramente equitativa.

O evento encerrou-se com um conjunto de decisões importantes para o enfrentamento da crise climática – como avanços em adaptação, mecanismos de transição justa e um reconhecimento importante para povos indígenas e afrodescendentes. Entretanto, não conseguiu produzir respostas imediatas para o tema que dominou as negociações finais: a construção de um “mapa do caminho” que orientasse a eliminação progressiva dos combustíveis fósseis

Cientistas e ambientalistas expressaram frustração com a ausência de referências explícitas a roteiros para eliminação dos combustíveis fósseis. Embora o texto final avance na estruturação do debate global e estabeleça a meta de triplicar o financiamento para adaptação até 2035, não menciona diretamente os combustíveis fósseis, o que gerou críticas de diversos movimentos e organizações. Marina Silva ressaltou, contudo, que o Mapa do Caminho não está descartado e permanecerá na agenda de discussão enquanto o Brasil exercer a presidência da COP, até novembro de 2026.

A comunidade científica também desempenhou um papel ativo durante a COP30, buscando chamar a atenção dos negociadores para a urgência de abandonar os combustíveis fósseis. No Pavilhão de Ciência Planetária, área oficial dedicada à ciência na conferência, alguns dos principais climatologistas do mundo divulgaram uma declaração contundente. Nela, classificaram como “provocação” as propostas de textos que tratavam de roteiros ou caminhos para a eliminação gradual dos combustíveis fósseis e para o fim do desmatamento, argumentando que tais documentos eram insuficientes diante da gravidade da crise climática.

A declaração convoca governos a fazer uma escolha clara: proteger vidas ou proteger a indústria do petróleo. Segundo os especialistas, uma transição energética alinhada à ciência exige ações urgentes, especialmente diante do fracasso, até agora, em implementar plenamente os objetivos do Acordo de Paris. Eles defendem que a curva global de emissões seja reduzida imediatamente, atingindo emissões zero absolutas de combustíveis fósseis até 2040, ou, no limite, até 2045. Para isso, a curva de emissões globais deveria começar a cair já em 2026, com reduções de pelo menos 5% ao ano nas emissões de CO₂ provenientes de combustíveis fósseis.

Os cientistas alertam que, sem essas ações, o planeta enfrentará impactos climáticos incontroláveis e de altíssimo custo humano e econômico, afetando de forma generalizada as populações mais vulneráveis. Por isso, defendem a interrupção de qualquer novo investimento em combustíveis fósseis, a eliminação de todos os subsídios a essas fontes de energia e a implementação de um plano global para introduzir energias renováveis de maneira justa e acelerar a eliminação progressiva dos combustíveis fósseis. Essas recomendações dialogam diretamente com o Mapa do Caminho, proposto pelo Brasil durante a conferência, ainda que não incorporado ao texto final.

Entre frustrações e avanços

A COP30 deixa um balanço marcado por contrastes, avanços relevantes e importantes indefinições. Embora a conferência tenha produzido progressos históricos em temas como justiça racial e de gênero, participação social ampliada e institucionalização da transição justa, o resultado final ficou aquém da urgência exigida pela crise climática – especialmente no que diz respeito à eliminação dos combustíveis fósseis, ao combate ao desmatamento e ao financiamento climático. As divisões geopolíticas ficaram explícitas, limitando consensos e bloqueando decisões mais robustas.

Ainda assim, Belém registrou conquistas significativas, como o reconhecimento oficial, pela primeira vez em uma COP, do papel de povos afrodescendentes, incluindo comunidades quilombolas brasileiras, na mitigação das mudanças climáticas. Para organizações da sociedade civil, uma das maiores vitórias foi a decisão de desenvolver um mecanismo global para apoiar transições justas, garantindo cooperação, assistência técnica e troca de conhecimentos entre países. Esse mecanismo contempla trabalhadores, povos indígenas, comunidades locais, migrantes, afrodescendentes, mulheres, crianças, idosos, pessoas com deficiência e outros grupos vulnerabilizados.

Em um contexto internacional de forte polarização, havia o risco de paralisia das negociações. No entanto, prevaleceu a defesa do multilateralismo e o apelo para acelerar a implementação de políticas existentes, ampliar o financiamento climático, avançar em adaptação e operacionalizar o Fundo de Perdas e Danos. Ainda assim, a ausência de referências explícitas aos combustíveis fósseis e ao Mapa do Caminho levanta dúvidas sobre a disposição das Partes em assumir compromissos mais ambiciosos no curto prazo. A presidência da COP30 tratou o Mapa do Caminho como tema paralelo, evitando o confronto direto com a questão mais sensível da diplomacia climática contemporânea: a nomeação e superação dos combustíveis fósseis.

Os resultados limitados da COP30 mostram sinais de desgaste no modelo de decisão por consenso e indicam a necessidade de discutir mudanças no processo da UNFCCC

A Colômbia teve uma atuação marcante ao contestar publicamente o texto final e denunciar que a recusa em nomear os fósseis alimenta o negacionismo climático e favorece interesses petroleiros. O ponto mais relevante da conferência, a construção de roteiros para encerrar o desmatamento e abandonar os combustíveis fósseis, ficou fora das decisões formais devido à exigência de consenso no âmbito da UNFCCC e à resistência de países produtores de petróleo. Os resultados limitados da COP30, portanto, expõem sinais de desgaste do modelo decisório baseado no consenso e indicam a necessidade de debater reformas no processo multilateral do clima.

Apesar das lacunas, o encontro deixou importantes marcos: o estabelecimento do BAM (Mecanismo de Ação de Belém) para transições justas; os avanços na Meta Global de Adaptação; e o compromisso de triplicar o financiamento para adaptação até 2035. Como afirmou o secretário-executivo da UNFCCC, Simon Stiell, a conferência ocorreu em meio a um cenário internacional instável, marcado por “águas políticas turbulentas”, negacionismo, tensões geopolíticas e retração da cooperação – um contexto agravado pelo isolamento dos Estados Unidos e pelo discurso climático do governo Trump, com reflexos inclusive no G20. Mesmo diante disso, os 194 países presentes enviaram uma mensagem de reafirmação do processo multilateral.

Finalmente, a primeira COP realizada na Amazônia trouxe para o centro do debate global aqueles que vivem na linha de frente da crise climática. Ao revelar a realidade e as contradições de uma cidade amazônica a delegações e movimentos de todo o mundo, Belém reforçou que não há solução climática possível sem justiça territorial, participação social ampla e enfrentamento direto das causas estruturais da crise ambiental.

Entretanto, cabe destacar que o assunto mais importante dessa COP ficou fora das decisões formais, pois a construção de mapas do caminho para acabar com o desmatamento e se afastar dos combustíveis fósseis, não foi possível dentro do processo formal da UNFCCC que exige consenso para a tomada de decisões, em virtude da resistência de países produtores de petróleo.

Os resultados limitados da COP30 mostram sinais de desgaste no modelo de decisão por consenso e indicam a necessidade de discutir mudanças no processo da UNFCCC. Portanto, várias questões seguem abertas e devem ser retomadas na próxima conferência da ONU sobre clima, marcada para 2026, em Antália, na Turquia.

Pedro Roberto Jacobi é do Instituto de Energia e Ambiente da Universidade de São Paulo.

Leila Vendrametto é do Instituto de Energia e Ambiente da Universidade de São Paulo.

Valeriana Augusta Broetto é do Instituto de Energia e Ambiente da Universidade de São Paulo.

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