Prisão de Maduro redesenha a geopolítica e ameaça metas climáticas
Edson Capoano - No início dos anos 2000, tive a oportunidade de entrevistar o então editor-chefe do caderno ambiental do jornal El Mundo, da Espanha. Ouvi dele que o meio ambiente só ganha espaço no debate público quando outros temas não estão em alta, como crises econômicas ou guerras. Mas, e quando esses temas se cruzam? Quando grandes fatos globais afetam política, economia e meio ambiente ao mesmo tempo? É o que vemos com a captura e prisão de Nicolás Maduro, então presidente da Venezuela, por forças dos Estados Unidos, operação no último 3 de janeiro.

por Edson Capoano -
A Venezuela detém as maiores reservas provadas de petróleo do mundo, cerca de 17% do total global. Donald Trump deixou claro que os EUA podem destravar esse potencial, atualmente 1% da produção mundial, ao mencionar 21 vezes a palavra “petróleo” em sua entrevista coletiva após a capura de Maduro*.
Assim como destacou Marcelo Leite em sua coluna**, queimar integralmente essas reservas poderia consumir até 60% do orçamento de carbono remanescente para manter o aquecimento global em 1,5°C. Em termos simples, seria dois terços da margem de emissões ainda disponível vindos de uma única fonte nacional.
Se esse cenário se confirmar, China, Rússia e demais países da OPEP também podem aumentar sua produção. E o Brasil? Com a megabacia na Margem Equatorial à disposição, a decisão entre mantê-la debaixo da terra para proteger a foz do rio Amazonas ou explorá-la antes que alguém o faça fica ainda mais difícil.
Com a prisão de Maduro e o avanço dos EUA sobre os recursos venezuelanos, somos testemunhas de um novo capítulo que redesenha a geopolítica e reorganiza prioridades nacionais. Se a defesa do meio ambiente e a causa climática ficarem no fim da fila, a máxima do editor espanhol continuará válida — justamente quando a pauta ambiental deveria estar no centro.
Esse novo cenário geopolítico pode representar um retrocesso frente aos compromissos do Acordo de Paris, destravando grandes reservas fósseis no curto prazo. Vai depender mais uma vez da combinação entre decisões coletivas e individuais (pressão política, apoio à transição energética) para que a geopolítica não atropelhe a ação climática em 2026.
Referências
*THE BRIAN LEHRER SHOW. What Comes Next for the US and Venezuela. Nova York: WNYC, 5 jan. 2026. Disponível em: https://www.wnyc.org/story/what-comes-next-for-the-us-and-venezuela/. Acesso em: 9 jan. 2026.
**LEITE, Marcelo. Petróleo da Venezuela vai turbinar a crise do clima. Folha de S. Paulo, São Paulo, 5 jan. 2026. Ambiente. Disponível em: https://www1.folha.uol.com.br/ambiente/2026/01/petroleo-da-venezuela-vai-turbinar-a-crise-do-clima.shtml. Acesso em: 9 jan. 2026.
Envolverde

Edson Capoano
Doutor em Ciências pelo PROLAM-USP, Mestre e jornalista pela PUC-SP. Trabalhou na TV Cultura de São Paulo e na agência de notícias EFE, em São Paulo e em Madri.




