Opinião

Para que serve um gato?

Por Dal Marcondes –

Dizem que todas as pessoas deveriam ter um gato e um cachorro. O cão serve para que, ao chegar em casa, a pessoa sinta-se como um rei com toda aquela demonstração de amor. Bom, o gato fará o contrário, ignora sua presença e coloca a pessoa em um patamar mais minimalista.

A mesma história é contada de muitas maneiras, uma das mais divertidas é sobre o que gatos e cães pensam de seus humanos. O cão olha com aquele seu olhar de adoração e pensa: “Ele me dá comida, carinho, cuida de mim, ele deve ser um deus”. O gato, por sua vez, pensa: “Ele me dá conforto, carinho, comida… Eu devo ser um deus”. É isso, os bichanos que dividem nossas vidas nos dão a real noção de qual é nosso papel no mundo, ser humanos. Eu não consigo conceber vinha vida sem os peludinhos que passaram por ela, e que ainda estão em minha casa. Desde cedo viajo muito, atualmente mais pelo Brasil do que pelo mundo. No exato momento em que escrevo estou em um avião indo de São Paulo para João Pessoa, a trabalho, sou jornalista. Também passo tempos em diferentes cidades, onde mantenho semi-casas, no entanto, quando me perguntam onde moro, a resposta é sempre: “minha casa é onde moram meus gatos, atualmente três, o Tico, a Borrachinha e o Bizu”.

Ache os gatos

Minha relação com gatos começou cedo, quando eu tinha perto de 8 anos, hoje tenho mais de sessenta. Vivia com meus pais em uma casa de bairro em São Paulo quando, em um dia de chuva, ouvi um miado fino e fraco vindo da rua. Curioso, fui ver o que era e encontrei uma gatinha preta, de não mais de um mês, se escondendo da chuva em um buraquinho no muro da casa. Bom, o resto foi um grande reboliço na casa, com todo mundo dando palpites sobre como cuidar da Mimi. Sim esse ficou sendo seu nome, me acompanhou dos 8 aos 24 anos. Na época em que a encontrei eu estava cursando a escola primária, onde a diretora, tia Alba, foi tão importante para mim que esse é o nome da minha filha mais velha.

Mimi era pequena, frágil e não gostava que outras pessoas a pegassem, dedicou sua vida a fazer de mim seu mais fiel súdito. Uma das virtudes da tia Alba era sua paciência, fazia vistas grossas ao fato de que a gatinha ia comigo para a escola todos os dias, no bolso interno de um casaco, ficava como um filhote de canguru, com a carinha de fora ou acomodada e dormindo no fundo do bolso. Isso durou por um bom tempo, até que ela cresceu um pouco e não cabia mais no bolso e minha mãe achou melhor proibir a prática, o que provocou uma certa consternação entre os alunos do grupo escolar Conde Pereira Carneiro. Estudar nessa escola foi outra coincidência interessante em minha vida, uma vez que o tal conde foi o fundador do Jornal do Brasil e sua viúva nos visitou uma vez e tivemos de estudar quem havia sido o nobre. De fato, um nobre jornalista.

Bom, mas a Mimi teve de interromper os estudos e trocou a vida acadêmica por uma mais apropriada para uma gata. Dormia durante o dia e, à noite, por mais que escondêssemos achava bolinhas de gude para jogar estridentes pelo chão da cozinha. De todos os gatos com quem convivi certamente essa foi a de personalidade mais marcante, mudou-se de casa várias vezes e tinha o hábito de ter seus filhotes na minha cama. Aliás, sua casa era, na verdade, o meu quarto, onde quer que ele fosse. Tínhamos, também, uma cadela pastora alemã, a Fumaça, com quem a Mimi mantinha uma relação de amizade e respeito. Todas as vezes que a Fumaça ia dar à luz a Mimi entrava em um profundo frenesi e acordava todos na casa. Após o parto fazia uma visita de cortesia à amiga, cheirava os filhotes e saia com ar de aprovação.

Quando calhava das duas terem filhotes ao mesmo tempo, Mimi se utilizava dos préstimos da amiga quando queria dar uma volta. Pegava seus gatinhos e lavava um a um para a cama da amiga, que simplesmente os acomodava junto com os cachorrinhos e os deixava mamar.

Comigo era uma convivência sempre ao sabor dos humores da gata, o que representava, em grande parte das vezes arranhões nas mãos e alguns na canela quando eu passava muito perto.

Uma vez eu estava viajando quando meus pais fizeram uma mudança de cidade. A Mimi se assustou com a movimentação e fugiu de casa, não conseguiram encontrá-la mais. Foi dada como perdida e quando voltei, já para a casa nova, cadê a Mimi?

Mais de um mês depois da mudança arranjei um carro emprestado e lá fui eu procurar minha gata. Parei em frente à casa onde moramos e chamei por uns cinco minutos e lá veio ela, se esfregando em mim, um pouco magra, mas bem. Entrou no carro, se acomodou no banco do passageiro e foi tomando banho para sua nova casa, ou seja, meu novo quarto. Ao chegar não quis conversa com ninguém. Comeu e dormiu por uns dois dias.

Mimi foi o início de uma relação com gatos que hoje é uma marca da família. Minha mãe tem a KitKat, minha filha mais velha, a Alba, tem três e a mais nova, Alice, tem sete, mas com a ressalva de que ela mora em uma chácara.

Quando me casei pela segunda vez, com a Ana Maria, que nunca tinha tido gatos, eu tinha a Fofa, também uma gatinha preta muito delicada, o oposto da Mimi. Um dia ela me disse que depois da Fofa não teríamos mais gatos, eu sorri, porque ela não tinha ideia do que estava falando. A Fofa era já bem velhinha, viveu 19 anos, sendo que os últimos 5 com a Ana Maria em casa. Um dia se foi. No entanto, poucos meses antes minha filha mais nova, Alice, pediu para trazermos de Santos para São Paulo um gatinho preto e branco, um frajolinha que ela tinha achado na rua e que devia ser entregue na casa da irmã. Ele não tinha mais do que dois meses. No caminho veio no colo da Ana. A frase fatal veio quando estávamos chegando em São Paulo: “a Alba não vai saber cuidar dele”. Comecei a rir, hoje esse é o Tico, um gatão de 8 quilos que anda atrás dela o dia todo e ela chama de “meu bebê”.

Gatos são assim, capazes de amolecer os mais duros corações.

FIM

(Envolverde)