ODS 3

O “jogo do contente” e os impactos ambientais da Covid-19

O “jogo do contente” e os impactos ambientais da Covid-19

Por Deivison Pedroza* – 

Refletindo sobre os números da pandemia do coronavírus e de como ela está mudando o mundo, estabelecendo “novos normais”, me lembrei do livro “Pollyanna”, escrito em 1913 por Eleanor H. Porter, e do “jogo do contente” feito pela personagem principal. A estratégia, ensinada por seu pai para ajudá-la a enfrentar as dificuldades da vida, consistia em enxergar as situações mais adversas com otimismo, ver algo de positivo nelas, não importando quão difícil pudessem ser.

Eu não estou dizendo aqui que a Covid-19 seja algo bom, apenas quero mostrar que é possível olhar esse grande problema e tentar ver o “copo cheio”, não focando apenas nas coisas ruins que ele traz ou naquilo que não temos. Adotando esse olhar, conseguimos mudar nossa posição em relação as dificuldades, assim como nossos sentimentos. Em vez de focarmos apenas situações negativas, encontramos doses de otimismo para conseguirmos sobreviver.

Para utilizar o “jogo do contente” com a Covid-19, podemos começar analisando os impactos ambientais causados pela pandemia. Correu o mundo imagens da natureza tomando de volta seu lugar por direito. E isso em pouco tempo sem a presença dos homens nestes espaços.

Animais selvagens em áreas urbanas, paisagens até então invisíveis voltando a serem vistas, níveis de poluição diminuindo em vários locais do mundo são apenas alguns exemplos a serem citados. Esses acontecimentos chamaram atenção até da Nasa, que anunciou uma iniciativa chamada Rapid Response and Novel Research in Earth Science (ou Resposta Rápida e Pesquisa Inovadora em Ciências da Terra, em portugues). Isso significa que serão financiados três estudos para analisar os impactos ambientais da pandemia do coronavírus, sendo utilizados dados inovadores de dados de satélites e outros recursos da agência.

Um primeiro estudo será sobre as mudanças na qualidade do ar ao redor do mundo. Analisando dados de satélites com padrões climáticos e análise do tráfego, entre outras informações, será possível entender porque o número reduzido de veículos nas estradas diminuiu sensivelmente a poluição do ar em áreas urbanas. Principalmente, a quantidade de dióxido de nitrogênio, emitido pelos motores a combustão, mas de forma desigual em diferentes regiões do mundo.

Um segundo estudo da Nasa vai analisar o impacto da redução da poluição do ar na atmosfera, por meio de uma nova abordagem que combina dados meteorológicos e de satélite, a fim de quantificar a redução nas emissões e seu impacto na química da qualidade do ar. Esse estudo é importante e apesar de ter havido uma diminuição global no dióxido de nitrogênio, por exemplo, ainda não está claro quanto ela irá durar e quais efeitos essas mudanças terão na química da atmosfera no futuro.

Já o terceiro estudo busca avaliar como a redução na poluição do ar impactou a qualidade da água no estuário de Long Island, perto de Nova York. Com as medidas de lockdown, houve uma grande queda na poluição atmosférica causada por nitrogênio em todo o planeta. Segundo os pesquisadores responsáveis, os impactos no nitrogênio depositado no mar pela atmosfera e mudanças resultantes na ecologia aquática do litoral permanecem desconhecidos. E é isso que será avaliado.

O que podemos perceber de semelhanças entre esses estudos, além da apreciação que será feita dos impactos ambientais da pandemia, é que o objeto a ser investigado só passou a existir quando os homens reduziram suas atividades ou se retiraram dos espaços antes ocupados por eles. Caso contrário, tudo continuaria como estava ou se intensificaria.

O caso do Brasil é um exemplo neste sentido. Estima-se que a recessão global gerada pela Covid-19 deve causar uma redução mundial nas emissões de gases de efeito estufa da ordem de 6% em 2020. Mas não em nosso país. O Sistema de Estimativas de Emissão de Gases de Efeito Estufa (SEEG), do Observatório do Clima, lançou agora em maio uma nota técnica indicando que as emissões do Brasil podem subir entre 10% e 20% neste ano de pandemia em relação a 2018.

O motivo de irmos totalmente na contramão do restante do mundo tem explicação: um forte aumento do desmatamento na Amazônia neste ano que acabou compensando a queda das emissões no setor de energia e na atividade industrial. O estudo indica que a Amazônia pode terminar esse ano com 14,5 mil km2 desmatados e emissões 51% maiores do que em 2018.

Outro fator de aumento nas emissões do Brasil é a redução no consumo de carne. Reduzindo abates, há mais animais no pasto e, consequentemente, mais emissões. O setor de transportes também presenciou quedas no aéreo e no transporte individual durante o período de isolamento social. Entretanto, o consumo de diesel no transporte de carga subiu, causando apenas uma queda de 1% nas emissões no primeiro trimestre. É muito pouco, dado que as emissões em 2020 podem chegar à ordem de 2,1 bilhão a 2,3 bilhões de toneladas brutas de CO2 – contra 1,9 bilhão de 2018.

Diante de todo esse cenário e pensando segundo o otimismo de Pollyanna, ao jogar o “jogo do contente” para a Covid-19, percebemos que o planeta tem uma capacidade de regeneração relativamente rápida, ainda mais quando o ser humano sai da equação e dá maior espaço para a natureza, respeitando-a em todo a sua importância.

Também percebemos que não somos o centro de nada, mas que tudo, para funcionar bem, depende do equilíbrio. E nós fazemos parte desse equilíbrio. Se muda um elemento, podemos perceber reflexos em todos os outros, sejam eles positivos ou negativos.

Ter um olhar mais otimista para essa pandemia é olhar os impactos ambientais positivos que ela está causando, como estes que serão estudados pela Nasa. A ciência de todo o mundo está em busca de respostas, por meio do uso de tecnologias de ponta, para entender o que está acontecendo com nosso planeta. Esses estudos vão fornecer informações importantes aos responsáveis pelo monitoramento.

Podemos evitar as próximas pandemias? Não sei, mas provavelmente a resposta seja não. Mesmo assim, a partir de agora teremos mais conhecimento para decidir os rumos a serem tomados desde o início. E isso só pode ser entendido através do “jogo do contente” da Pollyanna, que pode nos ensinar muito, tornando a vida mais leve e com mais qualidade.

Por fim, sei que é obvio que não existe nada de “contente” nesta pandemia, porém a vida já é dura demais para sermos pessimistas com tudo o que acontece. Jogar esse “jogo” não fará da Covid-19 algo bom, mas fará com que nossa saúde mental se mantenha forte, além de tornamos mais resilientes, capazes de resistir a esse momento tão triste da história da humanidade.

* Deivison Pedroza é CEO da Verde Ghaia

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