As pedras no caminho da RIO+20

Rio+20

As pedras no caminho da RIO+20


por Celso Dobes Bacarji*


“Um bilhão de pessoas estão na miséria plena. É a tragédia da civilização”. A frase é do professor e economista Ladislau Dawbor, dita nesta terça-feira (14/02) em palestra na reunião do Comitê Paulista para a Rio+20. Segundo ele, o grau de desigualdade no mundo está atingindo limites insuportáveis. “É o saco cheio planetário”.Mas, para o professor Dawbor, a extrema desigualdade não está acontecendo por falta de recursos do Planeta. A produção atual de grãos, diz ele, abasteceria com 800 gramas diárias cada habitante da Terra. Apesar disso, morrem de fome 10 a 11 milhões de crianças por ano.“Se a gente dividir o PIB mundial, que contabiliza US$ 60 trilhões, pelas 7 bilhões de pessoas teríamos uma renda per capita de mais de US$ 8 mil”. Com tanto esfomeado no mundo, esse dinheiro está na mão de quem? Para o professor Dawbor, está nas mãos das organizações econômicas globais.O gráfico do desempenho da economia nos últimos trinta anos, segundo o professor Dowbor, tem quatro grandes linhas: a dos salários, que permaneceu estável, a da produtividade, que cresceu a 30 graus, mais ou menos, a dos lucros, que empinou pelo menos 60 graus e a dos lucros financeiros, que disparou na vertical.O professor Dowbor cita um exemplo de lucro do mercado financeiro: “Vocês viram o lucro do Itaú em 2011? Superou o orçamento do programa bolsa família”. Em seguida, dá uma aula de como o dinheiro se multiplica na ciranda financeira internacional com um exemplo cristalino: o Lehman Brothers tinha uma alavancagem de 36 para 1, Isto é, para cada dólar que ele tinha, ele emprestou 36.O pior é que os governos são os intermediários dessa tragédia. “Vou explicar para vocês rapidamente o que está acontecendo na Europa, agora. O Banco Central Europeu repassou dinheiro para os bancos a 1% de juros, para que eles não quebrassem, e agora os bancos estão emprestando esse dinheiro para a Espanha a 6%. Grande negócio”, observa Dowbor.Citando dados do estudo “Rede do poder das corporações mundiais”, realizado pelo Instituto ETH, da Suíça, o professor alerta para a questão da governança mundial. Atualmente 737 grupos econômicos controlam 80% do PIB global. O núcleo desse poder está nas mãos de 147 grupos, com 40% de toda riqueza produzida. E um agravante, 75% desses 147 concentram seus recursos no mercado financeiro.Outro ponto de estrangulamento para a sustentabilidade do Planeta, de acordo com o economista da PUC, é a questão da democratização do conhecimento. Para dar uma idéia do peso da tecnologia na economia atual, ele estima que pelo menos 95% do preço de um celular de última geração correspondem ao valor do conhecimento. A mão de obra e o material empregado ficam com os 5% restantes. Para a sustentabilidade, essa é uma questão vital, diz ele. Em sua opinião, é preciso que as tecnologias limpas sejam livres de patentes, ou não será possível chegar a uma economia verde, como querem os organizadores da Rio+20.Por fim, as crises econômica e ambiental globais, na opinião de Ladislau Dowbor, exigirão o fortalecimento do poder local. Uma coisa que já vem acontecendo em muitas cidades do mundo. Na Espanha, algumas já voltaram a utilizar as pesetas, o antigo dinheiro nacional, no comércio local, como forma de fugir da crise do Euro. A prática tende a expandir e já se calcula que pelo menos 1,7 bilhão de euros pode voltar a circular em pesetas, no país.Para o professor, há fortes bases políticas para o fortalecimento dos governos locais, abrindo um espaço colaborativo na sociedade. Ele acredita que cada vez mais será necessário que as comunidades decidam sobre a forma como serão geridos os recursos naturais locais. Passa por aí a solução de dilemas como o de Belo Monte, ou como o desmatamento da Amazônia, que é provocado pelo tripé da exploração madeireira, agrícola e pecuária, controlada por grandes grupos econômicos mundiais.Para a perspectiva da Rio+20, uma Conferência que estabelece como foco a sustentabilidade ambiental e a inclusão social, a palestra de Dowbor representa o caminho das pedras. Seu raciocínio leva a conclusão de que será preciso: (1) promover a distribuição de riquezas, (2) estabelecer uma nova governança global, (3) regular o mercado financeiro, (4) democratizar o conhecimento e (5) fortalecer do poder local, para que a nossa civilização se salve de uma catástrofe.Um detalhe: o professor Dowbor não é um grande otimista quando fala das perspectivas dos acordos globais capitaneados pela ONU. Para ele, a partir do fortalecimento do poder local, é mais fácil chegar a um acordo direto entre nações, ou grupos de nações, do que esperar um consenso global. A partir dessa ótica, o que esperar da Rio+20?* Celso Dobes Bacarji é jornalista e atua na área ambiental.** Publicado originalmente no site Carbono Brasil.

Franquias são uma boa opção para aqueles que querem autonomia Economês

A diferença entre trabalhar e enriquecer

[caption id="attachment_43124" align="alignleft" width="270" caption="Franquias são uma boa opção para aqueles que querem autonomia"][/caption]É por altruísmo ou caridade que dedicamos nove, dez ou mais horas por dia para enriquecer os donos ou acionistas da empresa para a qual trabalhamos?Em artigo recente escrito no jornal Folha de São Paulo, o consultor financeiro Gustavo Cerbasi dá destaque ao conflito interno que vive todo ser humano que produz: trabalhar ou enriquecer? Mestre em Administração e Finanças e autor do livro Casais inteligentes enriquecem juntos, ele faz uma reflexão em seu texto que incomodaria, pelo menos, a metade dos trabalhadores brasileiros.Cerbasi questiona se seria por altruísmo ou caridade que dedicamos nove, dez ou mais horas por dia para, simplesmente, enriquecer os donos ou acionistas da empresa para a qual trabalhamos. Entre as receitas para se conquistar alguma independência, ele recomenda um hábito pouco usual entre nós e que dá mais certo em outras culturas: que se poupe parte do que se ganha – acumulando capital – para que, no futuro se tenha capital suficiente para viver de renda ou, quem sabe, investir esse capital em um negócio próprio. Para ele, quem opta por receber salário ou – como Cerbasi prefere – indenização, está praticando uma autossabotagem, condenado a si próprio à irrisória aposentadoria de nossa previdência social.Não cabe aqui dar uma receita de bolo para transformar em renda o que o consultor chama de “indenização” por dedicar a maior parte de seu tempo, suor, inteligência e experiência para gerar riqueza para os outros. Não é intenção também empurrar quem quer que seja para o empreendedorismo até porque, num país como o nosso e numa economia mundial como a nossa, isso pode significar uma grande aventura. Mas é sempre bom lembrar, por exemplo, que o universo das franquias tem feito alguns empresários satisfeitos, principalmente no setor de alimentos, o que mais cresce neste modelo de negócio – cerca de 17% do total dos segmentos do franchising. Essa expansão se deve à abertura de novos shopping centers, que começam a dar preferência por lojas franqueadas. Em São Paulo 60% das lojas em shoppings são franquias.Em média, o futuro franqueado deve ter, pelo menos, R$ 150 mil para se lançar no projeto. Para ter uma franquia do Rei do Pretzel, por exemplo, este é o valor do investimento inicial. Depois virá uma taxa de franquia, no valor de R$ 25 mil e uma reserva do faturamento mensal de 5% para royalties e outros 3% para publicidade. Em contrapartida, a empresa estima um faturamento bruto de R$ 40 mil, lucro líquido entre 25% e 30% do faturamento e retorno entre 24 e 36 meses.A autossabotagem e a escravidãoPara quem não tiver a menor intenção de correr riscos e preferir permanecer como funcionário ou um alto executivo, por exemplo, o instinto de autossabotagem – apontado por Cerbasi – permanece. Em entrevista ao Opinião e Notícia, ele avalia que os executivos com bons salários recebem mais, teoricamente, porque são mais bem preparados para garantir resultados às empresas. “Não deixam, porém, de praticar a autossabotagem, quando se deslumbram com um padrão de vida mantido principalmente por benefícios oferecidos pelas empresas e subestimam a necessidade de renda obtida por seus próprios meios para garantir a aposentadoria. A maioria dos trabalhadores conta com o INSS para garantir parte do estilo de vida que levava durante a fase produtiva. Já os executivos têm que, necessariamente, criar seus próprios meios de renda para não sofrer perdas significativas” alerta.O consultor recomenda o investimento de tempo em educação, a montagem de um plano de negócios e o estudo de seu futuro mercado para quem pretende se tornar empresário: “Preparando-se bem, será possível diminuir bastante os riscos típicos dos negócios e garantir bons ganhos. Uma franquia nada mais é do que uma forma de simplificar esse planejamento inicial, pois o negócio começa com uma marca instituída e, geralmente, com um planejamento pré-definido por especialistas. Porém, a conveniência cobra um preço: nas franquias, uma parte nada desprezível do lucro fica para os donos da marca, para pagar justamente essa proteção contra riscos”.Cerbasi refuta o termo “escravidão” para aquilo que chamam de trabalho moderno, uma vez que trata-se de uma escolha do trabalhador e não de imposição. “Mas se existe algo digno de alforria seria o que é imposto pela desigualdade de acesso ao conhecimento, e não por existir uma relação subjugada entre trabalho e capital”, avalia. “Quem tem riqueza põe essa riqueza para trabalhar e multiplicar seu capital, convidando aqueles que não têm capital para ajudá-lo nesse objetivo de multiplicar riquezas. Em troca, oferece parte da riqueza gerada, na forma de salário. É a mais franca tradução do que é o capitalismo”, conclui.* Publicado originalmente no site Opinião e Notícia.


por Claudio Carneiro, do Opinião e Notícia
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A grande contradição brasileira

Mais e mais cresce a convicção, inclusive entre os economistas seja do stablisment seja da linha neokeynesiana, de que nos acercamos perigosamente dos limites físicos da Terra. Mesmo utilizando novas tecnologias, dificilmente poderemos levar avante o projeto do crescimento sem limites. A Terra não aguenta mais e somos forçados a trocar de rumo.Economistas como Ladislau Dowbor entre nós, Ignace Sachs, Joan Alier, Herman Daly, Tim Jack e Peter Victor e bem antes Georgescu-Roegen incorporam organicamente o momento ecológico no processo produtivo. Especialmente o inglês T. Jack se celebrizou pelo livro "Prosperidade sem crescimento”(2009) e o canadense P. Victor pelo "Managing sem crescimento”(2008). Ambos mostraram que o aumento da dívida para financiar o consumo privado e público (é o caso atual nos países ricos), exigindo mais energia e uso maior de bens e serviços naturais não é de modo algum sustentável.Os Prêmios Nobel como P. Krugman e J. Stiglitz, porque não incluem explicitamente em suas análises os limites da Terra, caem na armadilha de propor como saída para a crise atual um maior gasto público no pressuposto de que este produzirá crescimento econômico e maior consumo com os quais se pagarão mais à frente as astronômicas dívidas privadas e públicas. Já dissemos à saciedade, que um planeta finito não suporta um projeto desta natureza que pressupõe a infinitude dos bens e serviços. Esse dado já é assegurado.O que Jack e Victor propõem é uma "prosperidade sem crescimento”. Nos países desenvolvidos o crescimento atingido já é suficiente para permitir o desabrochar das potencialidades humanas, nos limites possíveis do planeta. Então chega de crescimento. O que se pode pretender é a "prosperidade” que significa mais qualidade de vida, de educação, de saúde, de cultura ecológica, de espiritualidade etc. Essa solução é racional mas pode provocar grande desemprego, problema que eles resolvem mal, apelando para uma renda universal básica e uma diminuição de horas de trabalho. Não haverá nenhuma solução sem um prévio acerto de como vamos nos relacionar com a Terra, amigavelmente, e definir os padrões de consumo para que todos tenham o suficiente e o decente.Para os países pobres e emergentes se inverte a equação. Precisa-se de "crescimento com prosperidade”. O crescimento é necessário para atender as demandas mínimas dos que estão na pobreza, na miséria e na exclusão social. É uma questão de justiça: assegurar a quantidade de bens e serviços indispensáveis. Mas simultaneamente deve-se visar a prosperidade que tem a ver com a qualidade do crescimento. Há o risco real de que sejam vítimas da lógica do sistema que incita a consumir mais e mais, especialmente bens supérfluos. Então acabam agravando os limites da Terra, coisa que se quer exatamente evitar. Estamos em face de um angustiante círculo vicioso que não sabemos como fazê-lo virtuoso sem prejudicar a sustentabilidade da Terra viva.A contradição vivida pelo Brasil é esta: urge crescer para realizar o que o governo petista fez: garantir os mínimos para que milhões pudessem comer e, por políticas sociais, serem inseridos na sociedade. Para as classes já atendidas, precisa-se cobrar menos crescimento e mais prosperidade: melhorar a qualidade do bem viver, da educação, das relações sociais menos desiguais e mais solidariedade a partir dos últimos. Mas quem vai convencê-los se são violentamente cooptados pela propaganda que os incita ao consumo? Ocorre que até agora os governos apenas fizeram políticas distributivas: repartiram desigualmente os recursos públicos. Primeiro garantem-se 140 bilhões de reais para o sistema financeiro a fim de pagar a dívida pública, depois para os grandes projetos e somente cerca de 60 bilhões para as imensas maiorias que só agora estão ascendendo. Todos ganham, mas de forma desigual. Tratar de forma desigual a iguais é grande injustiça. Nunca houve políticas redistributivas: tirar dos ricos (por meios legais) e repassar aos que mais precisam. Haveria equidade.O mais grave é que com a obsessão do crescimento estamos minando a vitalidade da Terra. Precisamos de um crescimento mas com uma nova consciência ecológica que nos liberte da escravidão do produtivismo e do consumismo. Esse é o grande desafio para enfrentar a incômoda contradição brasileira.* Leonardo Boff escreveu Sustentabilidade: o que é e o que não é, Vozes, Petrópolis 2012.** Publicado originalmente no site Adital.


por Leonardo Boff*
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E se os sonegadores fossem expostos em praça pública?

Durante o Carnaval, um homem – que já havia bebido todas e mais uma – contava suas diabruras contábeis para outros amigos em uma mesa de bar na Vila Madalena, em São Paulo (juro que não queria ouvir, mas ele estava se esgoelando de gritar. Fazer o quê?). Em determinado momento, ele disse que só recolhia imposto previdenciário no Brasil quem era otário.Que bonito isso! Ver sonegadores saindo do armário, sem vergonha de serem felizes, mostrando ao mundo sua cara de peroba.Em primeiro lugar, se algumas empresas não sonegassem esses impostos ou, na melhor das hipóteses, não empurrassem seus débitos com o INSS com a barriga, o “déficit” previdenciário não seria do tamanho que é. Coloco sempre essa palavra entre aspas porque ela tem que ser entendida de outra forma. Previdência não é para dar lucro ou mesmo empatar, não é banco, apesar do desejo de muitos. Deve cumprir uma função social e ser um instrumento para garantia da qualidade de vida. De um lado, critica-se os “déficits”, de outro sonega-se. Lindo.Mas, japa, daria para reduzir impostos em algumas áreas e facilitar a vida de quem produz e quer pagar os impostos conforme a lei, não?Sim, há mudanças importantes que podem ser feitas – sem que seja preciso mexer na legislação trabalhista. Por exemplo, rebaixar a contribuição de trabalhadores e empregadores ao INSS, compensando com a tributação do faturamento de empresas que não são intensivas em mão-de-obra ou que não fazem recolhimento per capita do INSS de seus empregados, como instituições do sistema financeiro ou empresas que usam alta tecnologia. Quem contrata mais, deveria recolher menos à Previdência do que os que contratam menos. Uma redistribuição dos tributos também cai bem, zerando os que recaem sobre a cesta básica, por exemplo. Afinal de contas, o aumento da produtividade e o aumento na arrecadação devem levar à diminuição do custo de vida para o trabalhador e não ao enriquecimento de alguns.Tenho um milhão de críticas ao atual governo venezuelano. Mas gostei de uma ideia que veio de lá. A placa acima estaria sendo colocada em empresas que sonegaram impostos previdenciários. Expostos ao público, talvez os empregadores pensariam duas vezes antes de dar um calote nos trabalhadores. Ou, pelo menos, o povo saberia quem atua dentro da lei e quem fica apenas no discurso.Não temos um “impostômetro” para mostrar os tributos pagos pela sociedade? Pois bem, mais útil do que um “sonegômetro” que apontaria “quanto” é saber “quem” foi que (não) fez. Dessa forma, ajudamos o nobre senhor da Vila Madalena a mostrar para o mundo quem são os otários e quem são os espertinhos.* Publicado originalmente no site Blog do Sakamoto.


por Leonardo Sakamoto, do Blog do Sakamoto
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A última oportunidade de São Paulo se humanizar

Nos próximos meses, São Paulo terá a oportunidade de discutir a última grande oportunidade de se tornar numa metrópole habitável. Trata-se do projeto Operações Urbanas, no qual estão envolvidos, além da prefeitura, as principais associações profissionais e Organizações Não Governamentais (ONGs) que trabalham o tema das cidades.O projeto visa reurbanizar cinco áreas imensas, as últimas que restam na cidade.Somando, são 40 milhões de m2 em plena cidade, para serem recicladas com conceito de nova cidade, convivendo comércio, serviço e habitação no mesmo lugar, com qualidade para pedestres, ciclistas.Se mantido o padrão atual de urbanização – deixando por conta do mercado imobiliário, sem nenhuma espécie de regramento – repetir-se-ão os mesmos erros históricos da cidade: espaço apenas para classes de maior renda e para o comércio, expulsando para longe toda a mão de obra empregada na região – seja no comércio, nos prédios ou nas residências.Se bem planejado, poderá se constituir em um novo modelo civilizatório para as grandes metrópoles brasileiras.Do lado da prefeitura, o responsável pelo projeto é Miguel Bucalem, Secretário Municipal de Desenvolvimento Urbano e um dos muitos politécnicos que o prefeito Gilberto Kassab trouxe para a prefeitura.Em São Paulo existe escassez de terrenos. Há a necessidade de produtos imobiliários para a cidade crescer. Mas a cidade tem reservas estratégicas, especialmente em torno de ferrovias.O papel da prefeitura será, então, coordenar grupos de discussão que consubstanciem o projeto final.Duas das maiores áreas estão nas margens da ferrovia.Uma delas é a que se estende da Lapa ao Braz, sendo atendida pelas linhas 7 e 8 da CPTM (Companhia Paulista de Transportes Metropolitanos). De um lado da linha, há áreas bem ocupadas, como Pompéia e Perdizes. Entre a Marginal Tietê e a ferrovia, áreas subutilizadas, com padrão de ocupação industrial e densidade de 20 habitantes por hectare – contra 60 na Lapa, podendo ir a 200.A solução proposta será enterrar a ferrovia de superfície abrindo espaço para a revitalização da área.A outra área será da Mooca até a fronteira com São Caetano, região de industrialização antiga ocupada por galpões industriais, muitos dos quais inativos.A ideia será revitalizar vários córregos, abrir e criar corredores ambientais resolvendo problemas de drenagem, criando novas áreas verdes.Outro grande desafio será o projeto da Nova Luz. Pela concepção inicial da gestão Serra, criavam-se facilidades para investimentos imobiliários – inclusive direito do vencedor da licitação em desapropriar – sem nenhum plano urbanístico que regrasse a ocupação.Agora, a Nova Luz terá definições que obrigarão os vencedores a mexer o mínimo possível com quem já está instalado e a providenciar moradias de interesse social, como contrapartida às moradias de médio e alto luxo que forem levantar.Independentemente das intenções anunciadas, o importante será o acompanhamento estreito da população das decisões a serem tomadas.* Publicado originalmente no site Carta Capital.


por Luis Nassif, da Carta Capital
inovacao Economia Criativa

As boas perspectivas de uma economia criativa e sustentável

Sites de venda, troca e aluguel de usados oferecem uma bela alternativa ao consumismo compulsivo.Uma sociedade consumista baseada na compra irracional e por impulso ainda permanece firme e forte sem apresentar mudanças relevantes num horizonte de curto prazo. A publicidade segue firme vendendo produtos e serviços baseados naquilo que, efetivamente, eles não oferecem: alegria, amor e emoções, ou seja, o alcance da felicidade puramente pela via da aquisição de bens materiais.Quantas vezes não compramos algo baseado nessas qualificações maravilhosas e realizadoras, mas passado um tempo, em geral bastante curto, descobrimos estupefatos que eles nada mais eram do que objetos inanimados e desprovidos dessa capacidade de realizar sonhos e desejos. Quando úteis, as premissas iniciais apesar de não se concretizarem, serão capazes de justificar a aquisição desses produtos para situações mais corriqueiras e menos fantasiosas. Em caso contrário, quando as emoções “vendidas” pelo anúncio não se comprovarem, restará aquele vazio depressivo e, muitas vezes, um triste e desnecessário desfalque na conta do mês.Mas como dizia a minha e as avós de muita gente: “tudo na vida tem solução, menos a morte!”. Pois eis que se consolida no Brasil, uma maneira de, ao menos, remediar aquela compra mal feita. A popularização de sites que vendem usados, como o Mercado Livre, já é uma realidade. Agora o que começa a fazer parte da realidade brasileira é a troca e em menor medida, até mesmo o aluguel de produtos e serviços.Recentemente, entraram em operação, entre outros, os sites DescolaAí e BuscaLá. Assim como o Mercado Livre, eles também anunciam a venda de usados, mas têm como foco principal o modelo de negócios conhecido como compartilhamento de bens. Exatamente aquele baseado na troca e aluguel.No caso da locação de produtos, é claro que não estamos fazendo referência ao aluguel de veículos ou de uma casa na praia, e sim de situações bem menos usuais como, por exemplo, o de uma furadeira. Excelente para o uso durante alguns minutos, depois largada num canto para tomar pó e se degradar muitas vezes por anos.Nesse sentido, o compartilhamento de bens pode se tornar um grande aliado para o desenvolvimento sustentável em nosso país. Afinal, a ideia de utilizar durante um período, ao invés de adquirir determinados produtos, reduz o impacto ambiental da produção ao mesmo tempo em que mantêm a economia aquecida.Sem dúvida que será preciso vencer enormes barreiras culturais baseadas na posse, mas ao menos, as perspectivas são bastante positivas. Nos Estados Unidos e na Europa essa prática possui exemplos de segmentos específicos como o de roupas e brinquedos infantis. São casos de sucesso já comprovado e que rendem a esses sites receitas contadas aos milhões de dólares e euros.Marcello Simonsen, idealizador do Buscalá, ficava assustado com a enorme geração de lixo das famílias e da sua própria. Além de fazer mudanças no seu próprio cotidiano como a redução no uso de embalagens, reciclagem e doação de bens com pouco ou nenhum uso, pensou que ali poderia estar a possibilidade de um novo negócio. Primeiro Marcello pensou em abrir uma usina de lixo para reciclagem. Desistiu da ideia, mas manteve o foco e criou o BuscaLá ao conhecer algumas experiências internacionais exitosas.Em funcionamento há menos de um ano (junho de 2011), o BuscaLá, segundo seu criador, espera consolidar o site e a marca. Para conseguir isso, nos parece que o caminho não será fácil, ainda mais se como diz Marcelo o objetivo é conseguir que o aluguel de produtos e serviços assuma um lugar de grande destaque no faturamento do site.A busca por parcerias com negócios tradicionais e consolidados parece oferecer boas chances para chegar aos resultados almejados pelos sócios do BuscaLá. “Estamos começando agora a trabalhar com loja de usados e o site irá funcionar como um e-commerce externo dando maior visibilidade e apoio a esses negócios”, explica Marcello.Ainda temos um longo caminho para incutir na mentalidade do brasileiro que mais do que POSSUIR melhor e ideal para todos é USUFRUIR efetivamente dos benefícios oferecidos pelo produto. Sem dúvida, será melhor para o bolso da gente e para o futuro do planeta.Muita coisa precisa mudar, mas felizmente, já há quem enxergue nesse mundo boas possibilidades de transformação rumo ao desenvolvimento sustentável. Que venham mais negócios assim!Endereços dos sites citados:http://www.buscala.com.br/http://www.descolaai.com/http://www.mercadolivre.com.br/* Reinaldo Canto é jornalista, consultor e palestrante. Foi diretor de Comunicação do Greenpeace e coordenador de Comunicação do Instituto Akatu. É colunista da revista Carta Capital, colaborador da Envolverde e professor de Gestão Ambiental na FAPPES.** Publicado originalmente no site da Carta Capital. 


por Reinaldo Canto*
arte13opin-100-col_op3-a11 Artigo

Humanidade sustentável

Precisamos emitir menos CO2, mas estamos poluindo muito mais.Desenvolvimento sustentável significa atingir um crescimento econômico que seja amplamente compartilhado e que proteja os recursos vitais do planeta. Nossa economia mundial atual não é sustentável – mais de um bilhão de pessoas deixadas para trás pelo progresso econômico e o ambiente terrestre sofrendo danos resultantes da atividade humana. Um desenvolvimento sustentável exige a mobilização de novas tecnologias norteadas pelo compartilhamento de valores sociais.O secretário-geral da ONU, Ban Ki-moon, declarou que o desenvolvimento sustentável está no topo da agenda mundial. Adentramos um período perigoso, em que uma população enorme e crescente, associada a um rápido crescimento econômico, agora ameaça produzir um impacto catastrófico no clima da Terra, na biodiversidade e no suprimento de água potável. Antropoceno é como os cientistas denominam esse novo período – em que os seres humanos tornaram-se os principais causadores de mutações físicas e biológicas na Terra.O Painel de Sustentabilidade Mundial (PSM) do secretário-geral da ONU publicou um novo relatório que delineia um referencial para o desenvolvimento sustentável. O PSM corretamente observa que o desenvolvimento sustentável tem três vertentes: erradicar a pobreza extrema, garantir que a prosperidade seja compartilhada por todos – mulheres, jovens e minorias –, e proteger o ambiente natural. Estes objetivos podem ser denominados pilares econômico, social e ambiental do desenvolvimento sustentável.O PSM exortou os líderes mundiais a adotarem um novo conjunto de Metas de Desenvolvimento Sustentável (MDS) que ajudarão a moldar as políticas e ações mundiais após 2015, ano alvo das Metas de Desenvolvimento do Milênio (MDM). Considerando que o foco das Metas do Milênio é reduzir a pobreza extrema, as MDS deverão centrar-se nos três pilares do desenvolvimento sustentável: erradicar a pobreza extrema, compartilhar os benefícios do desenvolvimento econômico entre toda a sociedade e proteger a Terra.Uma coisa, é claro, é definir as metas sustentáveis e outra alcançá-las. O problema pode ser percebido examinando um desafio crucial: as mudanças climáticas. Hoje, há sete bilhões de pessoas no planeta, e cada uma é responsável, em média, pela liberação um pouco superior a quatro toneladas de dióxido de carbono na atmosfera por ano. Este CO2 é emitido quando queimamos carvão, petróleo e gás para produzir eletricidade, conduzir carros ou aquecer nossas casas. Ao todo, os seres humanos lançam cerca de 30 bilhões de toneladas de CO2 por ano na atmosfera, o suficiente para mudar acentuadamente o clima em poucas décadas.Em 2050, provavelmente haverá mais de nove bilhões de pessoas na Terra. Se estas pessoas forem mais ricas do que as pessoas atualmente são (e, portanto, consumirem mais energia), o total mundial de emissões poderá dobrar ou mesmo triplicar. Este é o grande dilema: precisamos emitir menos CO2, mas estamos, mundialmente, a caminho de poluir muito mais.Precisamos nos preocupar com esse cenário porque a permanência em um caminho de crescentes emissões em escala mundial produzirá, certamente, estragos e sofrimento para bilhões de pessoas que serão atingidas por ondas de secas e calor, furacões e muito mais. Já experimentamos o início desse sofrimento nos últimos anos, com uma série de fomes devastadoras, inundações e outros desastres relacionados ao clima.Então, como poderão as pessoas no mundo – especialmente os pobres – beneficiar-se de mais eletricidade e mais acesso a transportes modernos, mas de uma forma que salve o planeta em vez de destruí-lo? A verdade é que não poderão – a menos que melhoremos as tecnologias que usamos.Precisamos usar energia com muito mais sabedoria, e ao mesmo tempo precisamos abandonar os combustíveis fósseis e adotar fontes de energia que emitem pouco carbono. Estas melhorias são possíveis e economicamente realistas.Considere, por exemplo, a ineficiência energética de um automóvel. Nós atualmente movimentamos uma máquina que pesa entre uma e duas toneladas para transportar uma ou duas pessoas, cada um pesando talvez 75 quilos. E fazemos isto usando um motor a combustão interna que aproveita apenas uma pequena parte da energia liberada pela queima da gasolina. A maior parte da energia é perdida na forma de calor.Poderíamos, portanto, conseguir uma grande redução nas emissões de CO2 por meio da adoção de veículos pequenos e leves dotados de motores elétricos de alta eficiência alimentados por baterias carregadas a partir de uma fonte de energia de baixo carbono, como a energia solar. Ainda melhor: adotar veículos elétricos, em vez de continuar usando os atuais, nos permitiria aproveitar os mais avançados recursos de tecnologia da informação para tornar tais veículos inteligentes – suficientemente inteligentes para até mesmo possibilitar que se movimentem sozinhos usando sistemas avançados de processamento de dados e de posicionamento.Os benefícios das tecnologias de informação e de comunicação podem ser observados em todas as áreas da atividade humana: melhor agricultura utilizando GPS e microdosagem de fertilizantes; fabricação de precisão; edifícios que sabem como consumir menos energia; e, claro, o poder transformador da internet. Recursos de banda larga móvel já estão conectando até mesmo as aldeias mais distantes na zona rural da África e da Índia, reduzindo assim significativamente a necessidade de viagens.Movimentações bancárias são agora feitas por telefone, assim como uma diversidade crescente de diagnósticos médicos. Livros eletrônicos são transmitidos diretamente para dispositivos portáteis sem necessidade de livrarias, deslocamentos pessoais ou da celulose e do papel nos livros físicos. A educação também baseia-se cada vez mais na internet e em breve permitirá que alunos em toda parte recebam educação de primeira qualidade a um custo marginal quase zero para a inclusão de mais um aluno.No entanto, para migrar de onde estamos até o desenvolvimento sustentável não dependerá apenas de tecnologia. Isso envolverá também incentivos de mercado, regras governamentais e apoio público a pesquisa e desenvolvimento. Mas ainda mais fundamental do que políticas de governança será o desafio dos valores. Precisamos compreender nosso destino comum e abraçar o desenvolvimento sustentável como um compromisso comum de decência para todos os seres humanos, hoje e no futuro.* Jeffrey D. Sachs é professor de economia e diretor do Instituto Terra, na Columbia University, e assessor especial do secretário-geral da ONU para os Objetivos de Desenvolvimento do Milênio.** Tradução Sergio Blum.*** Publicado originalmente no site Valor Econômico.


por Jeffrey D. Sachs*
money-tree Artigo

O dinheiro sustentável

Vamos tomar como paradigma da história econômica, social e política da humanidade os critérios usados por Hazel Henderson, economia ganha/ganha, ganha/perde e perde/perde, completamente diferentes dos critérios economicistas usados pelos economistas convencionais. Segundo este critério só existem três tipos de modos de produção (ampliados e não marxistas). O primeiro toma toda a Pré-História, quando era usado por hominídeos e homo sapiens o paradigma ganha/ganha, isto é, o escambo simples e/ou o escambo mediado por um tipo de objeto, ou objetos, que servem como parâmetro para medir o valor dos produtos. Sejam eles conchas, pedras, gado, alimentos, sal (de onde a palavra salarium, que em latim designava o salário recebido por todos os assalariados) ou moedas de metal, mas que não geravam juros. Era então uma economia ganha/ganha, ou na qual ninguém saía perdendo nem ganhando. Era um preço assumido pelo comprador e pelo vendedor, ou melhor, aqueles que faziam o escambo.Isso durou mais de dois milhões de anos, pois o Período Histórico começou no máximo há cinco mil anos. As moedas de ouro/prata foram inventadas pelos lídios no Século 6 a.C., e estas eram moedas que geravam juros e, portanto, desigualdade. Assim começou uma nova relação entre os seres humanos, a relação ganha/perde, na qual as guerras tomam um sentido completamente diferente das guerras em busca de território ou alimentos da pré-história e do início do movimento agrário que começou ainda no fim da Pré-História, isto é, dez mil anos atrás. Agora as guerras são muito mais frequentes e se fazem em busca não só mais de território, como também de poder e dinheiro. O poder é mais verticalizado do que nunca, até se formarem os grandes impérios da antiguidade, inclusive o Império Romano, a Idade Média, o Período Industrial, que intensifica muito a desigualdade entre os seres humanos e quando se criam os Estados, as leis, e um novo tipo de poder baseado no dinheiro. Agora se luta por dinheiro.Ou melhor, quando um grande período termina e nasce outro período monetário, mudam-se todos os valores políticos e éticos. As relações não são mais de compartilhamento dos bens pelo grupo inteiro, mas de competitividade dentro dos grupos, o que cria um tipo de crueldade muito diferente, onde se cria a ganância e a avareza. E o Estado se torna a maneira legal de exercê-las. O período ganha/perde é um período em que o homem passa a ser o lobo do homem, de acordo com Thomas Hobbes. A principal diferença entre os dois paradigmas é que eles não nascem ao mesmo tempo, mas de acordo com a natureza da tecnologia inventada.A tecnologia de fundir os metais torna, de dez mil anos para cá, os seres humanos capazes de se fixar na Terra, graças aos processos de cultivá-la e ara-lá, especialmente o arado que precisa de trabalho pesado para manobrá-lo. Nasce assim a sociedade escravista que não existia na Pré-História, e que de formas diferentes existem até hoje.Na Pré-História não havia senhores e escravos, mas sim amigos e inimigos com o mesmo tipo de honra. E este tipo de relação que eu chamaria de guerreira, mas compartilhada, passa a ser dominada pela relação competitiva ganha/perde, senhores/escravos.A natureza do Estado muda e os mais violentos ficam com a sua posse, e são endeusados. Eles se consideram deuses ou filhos de deuses. Para, mais tarde, estarem na realeza por direito divino.Enquanto isto, a tecnologia vai se sofisticando e não é mais serva da vida humana como na sociedade cooperativa. Ela é mortal para as grandes maiorias dominadas, porque só serve àqueles que podem pagar, e até hoje é assim.Há uma relação simbiótica entre tecnologia e dinheiro, e é aqui que queríamos chegar. Aqueles que são tecnologicamente menos avançados perdem sempre a luta para aqueles que têm o domínio da tecnologia. Citaremos um exemplo dos últimos séculos: os indígenas que habitavam as Américas e os negros, que em sua maioria foram escravizados e que ainda estão numa relação não competitiva entre grupos e, portanto, não podem resistir ao armamento pesado dos colonizadores.Neste paradigma, quando se passa de uma fase para outra mais avançada, os que têm menos tecnologia acabam sempre perdendo, inclusive suas próprias vidas. E os que dominam a tecnologia acabam sempre ganhando. A natureza da simbiose entre tecnologia e dinheiro torna-se cada vez mais sólida e acelerada. Aqui podemos perceber muito claramente a relação de aceleração entre paradigmas: o período ganha/ganha tem aproximadamente dois milhões de anos, o período ganha/perde começa há vinte mil anos. A aceleração do período agrário dura quase todos os últimos dez mil anos, quando ele é substituído pelo poder industrial e o Estado industrial. Isto há trezentos anos apenas, desde meados do Século 18 (revoluções francesa, norte-americana e, já no Século 20, russa), mas a relação continua sendo a mesma de senhores/escravos nos dois subperíodos da relação ganha/perde: o agrário, o industrial e também o de depois da revolução russa, em que os oprimidos deveriam ser libertados como nas duas outras, mas também não foram. Pois não se tocou na principal relação que é a do dinheiro e da tecnologia.O Século 21: uma nova economia ganha/ganha e um novo tipo de dinheiroIsto vem durando até o Século 21, no qual a tecnologia dá um salto qualitativo enorme. Não é mais a tecnologia de baixa velocidade que se usava até a segunda metade do Século 20, mas as tecnologias de altíssima velocidade (a velocidade da luz), como os computadores e todas as invenções derivadas deles. Agora, os acontecimentos que se passam em uma parte do mundo são conhecidos em tempo real pelo mundo inteiro. Isto muda radicalmente as relações humanas e com elas a natureza da economia e da política.Aqui temos que falar sobre o mesmo problema que apareceu quando o primeiro paradigma (ganha/ganha) foi sobrepujado pelo segundo (ganha/perde), que tinha maior conhecimento da tecnologia e, por isto, dominou os pré-históricos de outras etnias. Deles ainda hoje resultam alguns resquícios, mas sempre estão nas classes mais baixas. O grande fenômeno que agora já podemos perceber é que estes oprimidos e todos os oprimidos do mundo já podem adquirir consciência da sua opressão e reagir.Como exemplo, tomaremos a primavera dos países árabes, em que a grande maioria da população rejeita a miséria, à qual são submetidos por alguns ditadores crudelíssimos e desumanos. Os oprimidos em geral vencem armas, pacificamente, exigindo democracia econômica, isto é, que o dinheiro e as riquezas não fiquem apenas em poucas mãos como nos sistemas anteriores, mas circulem pela população inteira, começando um movimento de ganha/ganha. A mesma coisa está acontecendo nos países europeus e nos Estados Unidos, onde os mais ricos manipularam as riquezas por meio das crises econômicas que não são naturais, mas sim fabricadas de acordo com seus interesses.A finalidade dessas crises econômicas é reconcentrar a renda, por exemplo, na última crise de 2007-2008, 96% da riqueza do mundo se encontrava em poder dos 8% mais ricos e dentre estes, dos 1% extrarricos, uma classe que não existia antes.Existe hoje uma classe dominante, uma classe dominada e uma classe superdominante, que domina dominantes e dominados, e à qual chamaremos de "senhores do dinheiro", que se concentram, principalmente, no setor financeiro ou no pós-industrial das novas invenções eletrônicas.Nos Estados Unidos e nos países europeus também vemos a mesma revolta dos países árabes. Eles vão às ruas para não serem obrigados a pagar “a farra” do setor financeiro das crises de 2001-2002 e 2007-2008, em que o FMI e outras instituições internacionais controladoras da economia do mundo inteiro lhes impõem: austeridade fiscal ao contrário da antiga frouxidão neoliberal, cortes de aposentadorias, salários e do bem-estar social, o que empobreceu enormemente estas nações que durante o período ganha/perde eram dominantes, mas hoje estão em rápido declínio.O que temos a dizer agora é que a democracia política vem existindo nos últimos séculos, mas não a democracia econômica, e o que as novas gerações exigem é uma democracia econômica. Para isto, é preciso mudar a natureza do dinheiro, tornando-o outra vez um dinheiro ganha/ganha e, com isto, mudar a natureza do Estado, que volta para as mãos das grandes maiorias em detrimento dos senhores do dinheiro que são o alvo almejado por todos.Na segunda década do Século 21, as populações estão na rua de praticamente todos os países do mundo, inclusive na América do Sul, que os especialistas denominavam de “miraculosamente” equilibrada. Em 2011, foram para a rua mais de um milhão de pessoas no Chile, principalmente jovens, exigindo maiores recursos para educação, e a revolta tornou-se uma exigência por democracia plena.Na China, aconteceu uma revolução destas, mas foi impiedosamente massacrada (a Revolução Jasmin) e a mídia praticamente não mencionou por ser dominada pelas classes mais ricas.Agora o desejo de igualdade, fraternidade e liberdade, finalmente, começa a se difundir em profundidade graças ao Facebook e outras ferramentas de comunicação, que não podem ser controladas e estão acelerando ainda mais estes movimentos.Não sabemos onde isto vai parar. Mas tem que parar, porque agora, ou se transforma o mundo instalando-se o paradigma ganha/ganha, ou se instalará o violentíssimo paradigma perde/perde em que todos acabaremos perdendo, porque está sendo envolvido o excessivo uso dos recursos naturais.Hoje, estamos usando uma Terra e meia, isto é, uma Terra e mais 50% do que ela pode dar. O preço das commodities não deve baixar mais, pois cada vez há mais habitantes e menos alimentos. Ou chegamos a um novo paradigma ganha/ganha, igual ao da Pré-História, mas infinitamente mais sofisticado, ou, se não, pereceremos todos.Por isso, chamamos esse terceiro paradigma de vida, de paradigma ganha/ganha, que ainda pode ser substituído pelo terrível perde/perde.As moedas complementares e a moeda universalA primeira coisa que está se fazendo é mudar a natureza do dinheiro. Em todas as partes do mundo, principalmente nos bolsões de miséria, estão aparecendo moedas escriturais que são controladas pelas comunidades mais pobres e excluem os ricos.Numa primeira fase, habitam em conjunto a moeda ganha/perde e a moeda ganha/ganha, e isto começa acontecer na segunda metade do Século 20. Vamos agora ver como funcionam estas moedas às quais chamamos de moedas ganha/ganha, ou moedas complementares.As moedas ganha/ganha, fatalmente, terão que ser moedas locais e gerenciadas pelas próprias comunidades. E de locais vão passando a nacionais e, finalmente, a uma moeda universal complementar. Chamaremos a estas moedas todas de moedas complementares. Elas surgiram no Século 19, inventadas por Sylvio Gesell e, ao tomar conhecimento delas, o próprio John Maynard Keynes disse: “vocês vão dever a Sylvio Gesell muito mais do que deverão a Marx”.Os primeiros casos verdadeiramente importantes foram os que se deram na Grande Depressão dos anos 1930, tanto na Europa, como nos Estados Unidos.A primeira foi na Alemanha, ainda na hiperinflação em que o povo estava todo na miséria e faminto. Um dos empresários alemães, dono de uma indústria de carvão, e falido, não tinha dinheiro para pagar seus operários, e fez um acordo com eles. Deu-lhes um carnê com trinta selos que podiam ser usados como moeda em estabelecimentos conveniados com a fábrica, e chamou a esta moeda de wara. Os operários aceitaram e os selos que eram lastreados por carvão começaram a funcionar.Cada vez que um wara do carnê circulava, uma vez dobrava seu valor, duas vezes triplicava, e assim por diante. E a população da cidade começou a circular cada wara trezentas ou quatrocentas vezes. E, assim, conseguiram construir pontes, ruas, estradas, e saíram da miséria absoluta. O êxito desta firma foi tão grande, que daí a dois anos, mais de duas mil firmas estavam usando o mesmo sistema com nomes diferentes, e todas estas moedas eram delimitadas localmente.Quando o Banco Central alemão soube, ficou apavorado, temendo que a moeda oficial fosse substituída pela moeda complementar. E, assim, colocou-a na ilegalidade. E o povo voltou à miséria absoluta. E foram os operários e as mulheres que elegeram Adolpho Hitler em 1933.Na Áustria houve caso semelhante: um prefeito de uma cidade falida só tinha quarenta mil schillings, que era a moeda austríaca e colocou em circulação não os schillings, mas quarenta mil worgls lastreados pelos schillings. E a Áustria também viveu um período de prosperidade até 1937, quando o Banco Central também colocou o worgls na ilegalidade pelo mesmo motivo.Naquele ano deu-se o auschluss, isto é, a anexação da Áustria pela Alemanha por vontade do povo austríaco. Temos a dizer que Hitler foi financiado pelo dinheiro dos que ficaram extrarricos na Grande Depressão de 1929, vendendo suas ações no pico, e que também financiaram Lênin.Na segunda metade dos anos 1930, a moeda chegou aos Estados Unidos, que estavam também na miséria, e se chamava stamp scrips e acabaram trazendo prosperidade a esta nação. Esta moeda chegou no fim da década às mãos de Irving Fischer, o maior economista da época e diretor de Harvard, que a levou a Roosevelt dizendo-lhe: “presidente, esta moeda pode acabar com a Grande Depressão em três semanas”. Roosevelt apavorado a pôs na ilegalidade, dando ao povo um pouquinho de dinheiro (New Deal), e um pouco mais tarde estourava a Segunda Guerra Mundial, e depois aconteceram os primeiros bombardeios de Pearl Harbor.E foi após a Segunda Grande Guerra, por meio da maior violência e da criação do complexo industrial militar, que Estados Unidos e depois Europa se tornaram os países mais ricos do mundo.Mas as moedas complementares locais continuaram agindo em alguns países europeus, principalmente na Suíça (wir), onde existe até hoje coabitando com a moeda oficial, o que tornou a Suíça o país economicamente mais estável do mundo, até recentemente. Mais tarde, no terceiro quarto do século, elas se espalharam pelo mundo inteiro, principalmente no “terceiro mundo”, onde pouco a pouco foram diminuindo a miséria. Hoje, já existem cerca de cinco mil moedas complementares no mundo inteiro.No Brasil, nos anos de 1990 cria-se a primeira moeda complementar numa favela infecta de vinte mil habitantes, chamada Conjunto Palmeiras. Em dez anos, lutando contra tudo e contra todos, o seu introdutor, Joaquim de Melo, conseguiu introduzir o palma lastreado em reais (a moeda brasileira), onde um palma valia um real, começando com dois mil reais, uma quantia mínima. Pouco a pouco, a favela foi melhorando, foi sendo saneada (no inverno a chuva chegava até o pescoço das pessoas), ganhou mais lastro de organizações nacionais e estrangeiras, inclusive chegando ao conhecimento do presidente Lula.O Banco Central brasileiro em vez de colocar a moeda na ilegalidade, incentivou-a e hoje já existem, com Joaquim de Melo, 53 bancos comunitários e locais no Brasil inteiro. E o Conjunto Palmeiras já é um bairro de classe média, totalmente urbanizado e ecológico. Além destes, há ao menos mais cem bancos também espalhados pelo Brasil, nos bolsões de miséria, ajudando os mais pobres a sairem dela. Todas lastreadas por reais emprestados à comunidade pelo BNDES (Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social).Esperamos que este número cresça exponencialmente. Já há países em que elas são adotadas com grande êxito. A Nova Zelândia, por exemplo, paga, e com muito êxito, todo o seu welfare com excelentes resultados em moedas sociais.Com a chegada das crises de 2001 e 2007-2009, que ainda não acabou e está se tornando uma recessão mundial profunda, o valor do dólar está declinando como moeda de reserva internacional e já se pensa na criação de uma moeda universal, um pouco nos mesmos princípios que o Bancor proposto por Keynes em Bretton Woods, que seria uma moeda universal independente de todos os países, mas que o representante dos Estados Unidos, Larry White, trouxe para ser o dólar. E daí começou a história da grande potência hegemônica, que possuía a moeda universal hegemônica, que era moeda de troca para todo o comércio internacional.Hoje, este quadro está sendo todo mudado e já se compram, com a chegada da Segunda Depressão, moedas internacionais denominadas em euro, em iene, e principalmente agora em ouro, que teve sua cotação exponencialmente aumentada, chegando a ser a maior da história.Mas isto é apenas um paliativo. Já existem muitos economistas pensando numa moeda complementar internacional sustentável, independente de todos os países.A moeda universal e o futuro: o terceiro paradigmaComo afirmamos, anteriormente, estão coabitando violência e pacifismo na maior parte do mundo neste momento, isto é, os métodos do segundo e os métodos ganha/ganha que formam o terceiro paradigma.A partir da moeda social, as camadas mais baixas estão tomando consciência da sua opressão no mundo inteiro. E estas reuniões comunitárias estão formando uma nova consciência da sua dignidade, que não tinham no segundo paradigma.A principal característica do terceiro paradigma (ganha/ganha) é a consciência da desigualdade e a luta concreta, contra ela, praticamente no mundo inteiro, muitas vezes sacrificando as vidas de centenas de milhares de pessoas como no mundo árabe. O que vale acentuar é que a moeda local tem que ser complementada por uma moeda universal que mude os parâmetros do comércio internacional. Caso contrário, este trabalho dos pobres levará muito mais tempo do que precisa.O que escreveremos a seguir foi baseado no livro A Moeda Universal (Editora Ciência Moderna, 2011, Rio de Janeiro), de Geraldo Ferreira de Araújo Filho, ao qual acrescentamos nossos comentários para aproveitá-lo e ampliá-lo.A moeda universal é o segundo item do terceiro paradigma. Ela seria mais ou menos uma ampliação do DES (Direito Especial de Saque, do FMI). Atualmente, este DES é uma composição de quatro moedas: dólar, euro, iene e libra, que são o lastro dos empréstimos feitos às nações. Cada país coloca uma pequena parte de suas reservas para fazer parte deste lastro, numa destas quatro moedas. Esta é a maneira de agir do segundo paradigma, que privilegia os países ricos em detrimento dos pobres, pois são as moedas mais caras que determinam o valor das moedas menores.No terceiro paradigma, a moeda universal, que no momento chamaremos de criterium-conceptum, seria uma reunião das moedas dos primeiros trinta ou quarenta países, e depois, numa fase posterior, dos 192 países do mundo. Em que critério isto seria baseado?Formando-se um lastro completamente novo para este Valor de Reserva do Desenvolvimento Sustentável (RVDS), que não teria mais o dólar como carro-chefe, mas sim uma média de todas as moedas do mundo. Não mais baseado no PIB, que é apenas a contagem econômica das riquezas e serviços do país, mas sim em um espectro muito maior e que abrange todas as necessidades humanas.Alguns deles serão referidos a seguir, mas antes temos que ter consciência da mudança profunda que a soma de todos esses valores e a sua média, baseada na nova moeda, o VRDS, a que estamos chamando de criterium-concemptum, terá, pois, por exemplo, os países que têm maior PIB poderão estar em um ranking muito inferior de países mais pobres, porém muito mais equilibrados. Os valores principais serão os seguintes:-a abrangência do comprometimento com a rejeição da guerra; -o alcance do envolvimento com a preservação ambiental, incluindo a pesquisa de matrizes energéticas sustentáveis e o seu uso concreto; -a disseminação do conhecimento e das relações dos povos dentro de suas próprias fronteiras e com os outros: guerra civil, terrorismo; -investimentos em inovação na solidariedade para debelar a fome dentro e fora das suas fronteiras (ajuda humanitária a países em grave perigo de fome); -implementação de programas de inclusão digital; -desenvolvimento de estudos que visem a expandir a qualidade do conceito habitacional de massa, incluindo o nível de melhoria dessas habitações; -financiamento de pesquisas em prol da melhoria da saúde e ações concretas nesse sentido.E, também, elementos do PIB integrados a estes valores mais importantes: a produtividade industrial, a liquidez bancária, a idoneidade mercantil, o percentual de empregabilidade, a capacidade de autofinanciamento, a abrangência do mercado interno, o tamanho do PIB e o nível de renda per capita, o coeficiente de Gini, que mede o nível de desigualdade entre as classes sociais.Obviamente, quando este consenso amadurecer e envolver todos os países do planeta, outros itens aparecerão. Por exemplo, concretamente: frente a esse cenário, a mesma medida que um país possa ganhar pontos por uma produção vigorosa (auto PIB), parte deles pode perdê-los pela não contemplação do respeito por determinados princípios ecológicos.Na mesma linha, uma renda per capita pouco expressiva perde parte de sua dimensão negativa quando implementados investimentos voltados para o aprimoramento acadêmico em todos os níveis.Melhor explicitando: a reserva de valor deixa de ser representada por pedaços de papéis ou de metais, e desloca-se para a efetiva capacidade de ajuste de cada uma das nações em cada um dos itens estabelecidos pela RVDS.O somatório e os diversos pesos dados a cada item serão colocados na internet à disposição de qualquer cidadão que os queira conhecer, e o centro que deverá regê-los será semelhante ao FMI ou, particularmente, um novo FMI ,que vai atuar com esses novos valores. Como veremos adiante.Antes de prosseguirmos vamos ver que o que afirmamos até agora já muda no antigo sistema. O mais importante de todos será a realidade concreta e uma governança mundial colegiada que até agora foi fruto de apenas alguns visionários. Em segundo, acabarão as reservas de valor, que hoje nada mais significam que um sorvedouro de recursos que ficam em stand by, sem qualquer vocação produtiva no país que a produziu, tais como o superávit primário e as reservas internacionais que todo país possui em dólares. Não haverá mais necessidade deles, que podem servir para o desenvolvimento pleno do trabalho de progressão da melhoria de vida dos povos, dentro do seu país.Em terceiro lugar, acabarão as moedas hegemônicas que não existirão mais com todas as suas consequências: os países menores perderão ou ganharão ao sabor dos caprichos da moeda norte-americana, que hoje está fazendo o mundo inteiro pagar pela crise violenta que estamos vivendo.Portanto, estas moedas locais e a moeda internacional serão fatalmente anticíclicas e as crises produzidas pelos senhores do dinheiro deixarão de existir. Aparecerá o seu caráter de crises fabricadas e não crises naturais, como querem os economistas conservadores.Outro fator importante é que as nações passam a ser qualificadas unicamente pela abrangência de seus desempenhos internos. A derrocada de uma não trará mais como agora a derrocada de outras. Finalmente, acabará o efeito dominó. E um novo tipo de globalização estará vigorando.Também nesse organismo internacional se concentrarão diversos técnicos que, em missões itinerantes, atenderão os governos que solicitarem apoio para o estabelecimento de planos diretores que contemplem metas plausíveis de desenvolvimento sustentável, sem, no entanto, exercerem qualquer papel coercitivo na implementação das providências sugeridas.O que é na realidade o criterium-concempetum?Agora vamos expor o que é na realidade a RVDS, ou criterium-concemptum. Este é apenas uma moeda virtual, e portanto ninguém pode comprá-lo ou vendê-lo. E servirá apenas como parâmetro para o comércio internacional, evitando todas as suas distorções como, por exemplo, o pagamento de porcentagens ao dólar na compra ou na venda.Por isso, extiguem-se as aflitivas cotações diárias, ou até mesmo horárias, que hoje calculam o valor da cesta de moedas frente ao dólar.Portanto, o criterium-conceptum não está sujeito a nenhuma especulação, é apenas um moderno mecanismo de ajustamento das relações cambiais no terceiro paradigma.Em outros termos, cada moeda de cada país será isso mesmo. O dólar norte-americano, o dólar canadense, o euro francês, o euro grego e assim por diante para todos os países do mundo. Os blocos de nações serão transformados num bloco mundial colegiado e democrático. Esta é a verdadeira globalização, absolutamente necessária para que se desenvolva o terceiro paradigma.Portanto, se desde o princípio do período de conversibilidade essas reservas começarem a ser utilizadas para suprir as deficiências de adaptação aos parâmetros garantidores do “novo dinheiro” –A RVDS–, os países aumentarão consideravelmente suas chances de as fermentarem e, consequentemente, de fazerem-nas valer mais do que representavam em dólar no início do processo, isto, obviamente, variando ao sabor dos resultados qualitativos dos investimentos aportados em suas respectivas economias internas.Este período de adaptação será um período longo, mas muito importante para o diálogo internacional. Cada valor, uma vez convertido em criterium-conceptum, terá um valor X valendo 30% de 1 criterium-concemptum, Y valendo 78% e Z 13%, por exemplo.Melhorá-las na classificação dependerá, exclusivamente, da atuação interna de cada nação frente aos fatores estabelecidos como sendo as metas universais a serem perseguidas.Com todas essas considerações estaremos vendo como o dinheiro do antigo primeiro mundo já está acabando. Cada país deve mais do que seu PIB. Tudo isto poderá ser mudado quando for implantado o uso pleno do criterium-concemptum, a única Reserva de Valor do Desenvolvimento Sustentável, possível.Como funciona o concreto?Operacionalmente, a nova moeda pouco difere dos padrões que vigem hoje. O como “fazer” criteriuns-concemptuns, por exemplo, continua vinculado às operações de importação/exportação, ou seja, exatamente como hoje são “feitas” as divisas em dólar.O que se altera, como já vimos, é o modo de cálculo do efetivo valor de cada uma das moedas nacionais frente a esse novo padrão, que se desvincula, por inteiro, das questões conjunturais da atual “nação-padrão”, nos caso os Estados Unidos da América do Norte, agregando, inclusive, forte blindagem, de forma a impedir que aquele país continue repassando sua inflação para o planeta, que compre petróleo com dinheiro do resto do mundo ou atrele ao seu mercado megaespeculativo –compulsivo inflador de bolhas– os esforços produtivos das demais nações.Assim, o criterium-concemptum é um cartão de crédito virtual, que não gera juros, e que passa uma moeda imediatamente para o outro país, de acordo com os valores atribuídos a cada uma delas em RVDS pelo Comitê Colegiado de todos os países.O contato entre uma moeda e outra, portanto, dá-se por intermédio de uma contabilidade virtual. E o valor, tanto de uma quanto de outra, não dependerá mais das conjunturas, quer do que restou da economia norte-americana, quer do que restou da do resto do primeiro mundo, Japão e União Europeia, mas sim dos específicos desempenhos individuais internos de cada país frente aos parâmetros da RVDS.É claro que um investidor individual ou corporativo japonês, por exemplo, poderá continuar aplicando seus recursos nas bolsas de Nova York, de Londres ou de São Paulo. E sem dúvida que isso continuará acontecendo.Só que, como é operação que tem como ponta aplicadora o espaço territorial japonês e como ponta tomadora o dos Estados Unidos, da Inglaterra ou do Brasil, a única forma de operacionalizar esta transação é via iene, que, contabilizado em criterium-concemptum, já aterriza por lá em dólares norte-americandos, libras esterlinas ou em real brasileiro.Não há a menor hipótese de esse investidor fazer algum tipo de operação extrafronteiriça, relativamente ao que for, utilizando-se de alguma outra moeda que não seja a da origem territorial do recurso financeiro.Uma futura desaplicação da totalidade ou de parte desse quantitativo, obviamente, seguirá a mesma rota: dólar norte-americano, libra esterlina ou real / criterium-conceptum / yen.Da mesma forma, inexiste a hipótese de o país destinatário da remessa não receber o valor a ser creditado em outra moeda que não a sua própria. O dólar norte-americano circulará exclusiva e especificamente em território norte-americano, a libra esterlina no Reino Unido, e o real no Brasil. Idem para o iene, relativamente às ilhas japonesas.Ou seja, ninguém, seja pessoa física ou jurídica, pode dispor, dentro dos territórios em que atuem, de outro tipo de moeda senão a daquele próprio país. Cremos que isto já ficou muito claro.É obvio, no entanto, que o citado investidor japonês –ou qualquer outra pessoa física ou jurídica– poderá ter uma conta-corrente, em seu nome ou no nome de alguma organização, em dólares norte-americanos, canadenses ou em peso mexicano, por exemplo, desde que estejam depositados, especificamente, em alguma instituição financeira baseada no território dessas nações.Evoluindo um pouco mais: se além do Japão, dos Estados Unidos, do Canadá e do México, esse investidor fictício também tiver conta-corrente em um banco no território francês e se predispuser a aplicar na Alemanha, o processo será exatamente o mesmo: euro francês / criterium-concemptum / euro alemão.No caso do turista comum, assim como já acontece hoje, a utilização do cartão de crédito, de débito e de saque é a melhor pedida, haja vista que a única coisa que muda é o fator de conversibilidade que, pura e simplesmente, deixa de ser o dólar norte-americano.Ou seja, não há solução de continuidade. Os mecanismos operacionais existentes, se aplicam todos eles ao criterium-concemptum.Ratificando, o criterium-conceptum tem como finalidade precípua duas funções primordiais: erradicar do consciente coletivo planetário a noção de que moeda é algo diferente que um mero padrão de conversão, e de definir, territorialmente, o valor de cada uma das moedas regionais, que será determinado em função das análises dos aproveitamentos nos deveres de casa que deverão ser aprontados, especificamente, por cada país de per si.No entanto, se for para melhorar o valor de cada moeda, nada impedirá cada país de copiar de outros as atitudes que melhorem a sua cotação, como, por exemplo, proteger mais as suas florestas ou diminuir a sua pobreza (índice de Gini).Dá para ver agora como essa moeda é anticíclica, isto é, acaba com as crises, as bolhas, ou com que as moedas sejam obrigadas a ceder aos caprichos da moeda hegemônica, por exemplo, aumentar a sua inflação porque o dólar tem que pagar compromissos muito acima do seu poder aquisitivo, desvalorizando assim a sua moeda; comprar moeda com a valorização do dinheiro de outros países; e assim por diante.Por isso, afirmamos que o criterium-concemptum acaba como moeda hegemônica e toma seu verdadeiro lugar. Ele será dólar norte-americano dentro dos Estados Unidos, dólar canadense dentro do Canadá, libra esterlina dentro do Reino Unido, real no Brasil, o efeito dominó das moedas, graças a existência do criterium-concemptum como RVDS.Acabam-se assim, também, as torturantes variações de dólar no mercado de câmbio flutuante.Nossa proposta é embrionária. É imperfeita. É conceitual. Longe de nós, portanto, estarmos pretendendo esgotar o assunto.Pelo contrário. Somos, meramente, protótipos.O primeiro minuto de uma partida que deverá arrastar-se por todo o seu tempo regulamentar, reservando-nos as emoções das grandes jogadas, dos erros e acertos dos árbritos e do virtuosismo dos profissionais que adentrarem o campo.No entanto, urge que comecemos, com seriedade, a pensar na criação de uma moeda sem a face e os cacoetes de qualquer nação.Como está, é injusto. Como está, é tortuoso. Como está, é censurável. Como está, é desonesto. Como está, não dá mais para ficar.Como exemplo típico, vejamos o caso do real. Deflagrada a crise brasileira, no início de outubro de 2010, o dólar norte-americano variava por aqui no patamar de R$ 1,50. Desnudada a economia norte-americana –todo o sistema bancário no vermelho, toda a indústria automobilística quebrada, todo o comércio sem ter para quem vender–, em menos de um mês o dólar quase dobrou seu valor por aqui.A entrada do Brasil nos organismos internacionais, juntamente com outros emergentes, não apenas colocou peso como desbancou o alquebrado G-8, até então o diretório econômico planetário, redefinindo toda a hierarquia de poder e contribuindo, sobremaneira, para a solidificação do G-20 como o centro das articulações econômicas globais.Com o G-20 tomando parte, diretamente, dos processos de decisões do sistema financeiro global, na prática isso nada mais significa que já está em pleno andamento uma nova ordem internacional.Em 2 de abril de 2009, aconteceu a primeira reunião do G-20 em Londres. Os tópicos dominantes versaram sobre uma regulamentação consistente para o mercado financeiro internacional, incluindo-se aí as chamadas zonas de paraísos fiscais e a revisão da própria conceituação filosófica de todo o sistema bancário, mais notadamente em relação aos da Suíça, Áustria e Luxemburgo, velhos conhecidos como os grandes estimuladores da evasão dos impostos que, obviamente, não lhes pertencem.E, enquanto América e o Reino Unido uniam forças em defesa dos estímulos fiscais como mola mestra para a recuperação econômica, Alemanha e França contrapunham-se e exigiam maior regulação do sistema financeiro internacional.De toda forma, o planeta Terra cansou de acalentar as ancestrais mesmices e se prepara para dar início a um desenvolvimento em bases sociomorais bem mais consistentes que as que vinham sendo exercitadas pelas, até então, nações líderes.Portanto, não há hora, lugar e momento mais adequado para que a ideia da moeda universal seja apresentada e, seriamente, discutida.ConclusãoFuncionam assim os três paradigmas da história da humanidade. Caso não tenhamos moedas locais e também uma moeda universal diferente da atual, que não gere juros, as coisas estarão como sempre foram: mais do mesmo. Só que piorando, exponencialmente, a cada dia até começarmos o violentíssimo paradigma perde/perde. Qual você prefere?Quanto ao papel da mulher temos a dizer que este artigo foi todo escrito numa perspectiva de gênero. No primeiro paradigma, a mulher era o gênero dominante porque ela era quem paria e o homem não tinha conhecimento do seu papel na procriação. Assim, na Pré-História os grupos eram pacíficos e a relação entre homens e mulheres e os filhos eram amorosas. A grande Deusa era a Terra, de onde todos saíam e para onde todos voltavam, conforme já vimos exaustivamente em toda nossa obra.No segundo paradigma, a mulher passa a ser dominada pelo homem, na maioria dos casos muito dominada, o que lhe dava uma condição de total dependência do homem. A partir de meados do Século 20, sua condição começa a mudar com a condição do mundo. Ela sai para trabalhar nas fábricas e começa a exigir seus direitos humanos. As moedas complementares são 97% manejadas pelas mulheres, pois, como dizem os norte-americanos, “man Bond, women network”, isto é, os homens fazem grupos que se enfrentam, e as mulheres tendem a fazer negociações e acordos, ou a tecer redes não violentas.Se o terceiro paradigma se instalar, ele será, como na história, também um paradigma em que a mulher terá sua plena individualidade vivida por ela mesma, isto é, perderá sua condição de escrava do homem e passará a ter um papel igual ao deste em todas as instituições, porque este paradigma deixará de ser guerreiro, e sim, pacífico. O mundo, para sobreviver, terá que ser, ao menos, andrógeno, isto é governado por homens e mulheres igualmente.Há um trabalho das Nações Unidas chamado “Engendering Developement”, no qual se comparou o status da corrupção, relativamente ao status de homens e mulheres, e que mostrou que naqueles países em que houvesse maior participação das mulheres nos primeiros escalões, menor seria a corrupção. E isto era uma correlação significativa.Ora, isto vem corroborar a tese central de nosso livro, em que as mulheres tendem a ser pacíficas e igualitárias porque biologicamente geram a vida e a alimentam, e os homens tendem a ser violentos e a gerar desigualdades. E aqui voltamos a nossa última pergunta: qual caminho você prefere?* Rose Marie Muraro é uma das maiores intelectuais brasileiras. É física, escritora e editora, e publicou livros polêmicos, contestadores e inovadores dos valores sociais modernos. Também foi uma das pioneiras do movimento feminista no Brasil.** Publicado originalmente no site Mercado Ético.


por Rose Marie Muraro*
O sociólogo belga François Houtart. Foto Roosewelt Pinheiro/ABr Entrevista

“A causa da crise financeira é a lógica do próprio capitalismo”

[caption id="attachment_42386" align="alignright" width="300" caption="O sociólogo belga François Houtart. Foto Roosewelt Pinheiro/ABr"][/caption]Para o professor François Houtart, somos confrontados com uma lógica que corre ao longo da história econômica do século passado.A crise que vivemos é mais profunda e bastante diferente da que conhecemos nos anos 1929 e 1930, afirma o professor François Houtart. Segundo ele, sua dimensão evidentemente está vinculada ao fenômeno da globalização. Porém, ressalta que a atual crise não é nova. Não é a primeira crise do sistema financeiro e muitos dizem que não será a última. Houtart acredita que o mais importante, e isto é diferente dos anos 1929 e 1930, é essa combinação com vários tipos de crises. E afirma: a causa fundamental da crise financeira é a lógica do próprio capitalismo. “A crise financeira é devida à lógica do capital, que tenta buscar mais lucros para acumular capital, que é, dentro dessa teoria, o motor da economia.”Em entrevista ao Brasil de Fato, Houtart fala também sobre as várias facetas desta crise, inclusive a crise alimentar, a qual, segundo ele, faz parte da mesma lógica. “A combinação da crise econômica com a alimentar é algo novo. Porém, são vinculadas.” François Houtart é sociólogo, professor da Universidade Católica de Louvain (Bélgica), e diretor do Centro Tricontinental, entidade que desenvolve trabalhos na Ásia, África e América Latina.Brasil de Fato – O mundo vive hoje uma crise mundial, que tem afetado principalmente os Estados Unidos e a Europa. Como o senhor avalia este cenário?François Houtart – Eu penso que, primeiro, se trata de uma crise do sistema econômico capitalista, que é muito similar à crise dos anos de 1929-1930 e também a muitas outras crises cíclicas do sistema capitalista, onde há subprodução, subconsumo e eventualmente crises financeiras.A crise que vivemos hoje me parece mais profunda e bastante diferente da que conhecemos nos anos 1929 e 1930, porque, primeiro, sua dimensão evidentemente está vinculada ao fenômeno da globalização. Isto significa que hoje há um efeito muito mais global do que nos anos 1929-1930, e que evidentemente afeta o conjunto da economia. Já está afetando os países emergentes e, de uma maneira ou outra, afetará outros países do mundo. Porém, o mais importante, e isto é diferente dos anos 1929 e 1930, é essa combinação com vários tipos de crises. Por exemplo, a crise alimentar, que foi conjuntural nos anos 2008-2009 e que correspondeu à crise do capital financeiro. Porque o capital financeiro tem buscado novos lugares de especulação e o lugar foi a alimentação, com consequências terríveis. E a crise alimentar é também estrutural e não somente conjuntural, porque precisamente afeta toda a maneira de fazer a agricultura. E a introdução cada vez mais forte do capital dentro da agricultura, com a concentração de terras, gera uma contrarreforma agrária mundial e o desenvolvimento de monocultivos, com todas as consequências ecológicas de destruição de ambiente e também de destruição humana; por exemplo, a exclusão dos camponeses de suas terras.A combinação da crise econômica com a alimentar é algo novo. Porém, são vinculadas. Na verdade, a crise financeira é devida à lógica do capital, que tenta buscar mais lucros para acumular capital, que é, dentro dessa teoria, o motor da economia. Se o capital financeiro é mais proveitoso do que o produtivo, ele faz a lei da economia mundial como é hoje. Assim, esta é evidentemente a lógica do capitalismo que provoca a crise financeira, que tem efeitos econômicos, porque tem efeitos sobre emprego, crédito e toda a economia. Porém, é esta mesma lógica que está provocando a crise alimentar, porque, por uma parte, há uma especulação – o preço do trigo, por exemplo, tem dobrado 100% em um ano, menos de um ano, por razões puramente especulativas.E quais são as consequências sociais dessa crise?Na verdade, as consequências sociais da crise financeira são sentidas além das fronteiras da sua própria origem e afetam os fundamentos da economia. Desemprego, custo de vida crescente, a exclusão dos mais pobres, a vulnerabilidade das classes médias, expandindo a lista de vítimas no mundo. Não é apenas um acidente no percurso, ou apenas de abusos cometidos por alguns atores econômicos que precisam ser punidos. Somos confrontados com uma lógica que corre ao longo da história econômica do século passado. O desenrolar dos acontecimentos sempre responde à pressão das taxas de lucro. A crise que vivemos hoje não é nova. Não é a primeira crise do sistema financeiro e muitos dizem que não será a última.A seu ver, qual é a principal causa dessa crise mundial?A causa fundamental da crise financeira é a lógica do próprio capitalismo, que torna o capital motor da economia. E seu desenvolvimento – essencialmente, a acumulação – leva à maximização do lucro. Se a financeirização da economia favorece a taxa de lucro e se a especulação acelerou o fenômeno, a organização da economia como um todo continua dessa forma. Mas um mercado não regulamentado capitalista conduz inevitavelmente à crise. E, como indicado no relatório da Comissão das Nações Unidas, é uma crise macroeconômica.Um dos graves problemas da humanidade hoje é a fome. Como fica esta questão frente a esse cenário de crise?A crise alimentar tem dois aspectos, um cíclico e um estrutural. O primeiro manifestou-se com o aumento dos preços dos alimentos em 2007 e 2008. Sim, para explicar o fenômeno, houve alguma base eficiente, como alguma diminuição fraca em reservas de alimentos, mas a principal razão foi de natureza especulativa, em que a produção de agrocombustíveis não ficou imune (etanol de milho nos Estados Unidos). Assim, o preço do trigo na Chicago Board (Bolsa de Chicago) aumentou para 100%, do milho 98%, e do etanol, 80%. Durante esses anos, uma parte do capital especulativo passou de outros setores para investir na produção de alimentos, na busca por lucros rápidos e significativos. Consequentemente, segundo o diretor da FAO, em geral, a cada ano, em 2008 e 2009, mais de 50 milhões de pessoas ficaram abaixo da linha da pobreza e o total de pessoas que viviam nessa situação em 2008 atingiu um valor nunca antes conhecido, de mais de um bilhão de pessoas. Esta situação foi claramente o resultado da lógica do lucro, a lei capitalista do valor.O segundo aspecto é estrutural. É a expansão durante os últimos anos da monocultura, resultando na concentração da terra, ou seja, uma verdadeira contrarreforma. A agricultura familiar foi destruída em todo o mundo sob o pretexto de sua baixa produtividade. Na verdade, as monoculturas têm uma produção que às vezes pode ir a até 500% ou mais de 1.000%. No entanto, dois fatores devem ser levados em conta. O primeiro é a destruição ecológica dessa forma de produzir. Florestas são removidas, solo e água contaminados pelo uso maciço de produtos químicos. Agricultores são forçados a deixar suas terras e há milhões que têm de migrar para as favelas das cidades, aumentando a crise urbana, e aumentando a pressão da migração interna, como no Brasil, ou externa, como em muitos outros países.Então a fome no mundo não tem nada a ver com a produção de alimentos, com a capacidade de produzir?Não. Não tem nada a ver com a produção. A questão é somente especulativa. É a Bolsa de Chicago que fixa os preços internacionais dos grãos.E como o senhor vê as afirmações de alguns estudiosos de que o planeta, com uma população na casa dos sete bilhões de pessoas, se torna incapaz de produzir alimentos para nutrir tanta gente?Isto é totalmente falso. Segundo a FAO, teoricamente a Terra pode facilmente nutrir dez ou 12 bilhões de habitantes.E a questão energética, também faz parte desse cenário de crise?A crise de energia vai além da explosão conjuntural dos preços do petróleo e faz parte do esgotamento dos recursos naturais explorados pelo modelo de desenvolvimento capitalista. Uma coisa é clara: a humanidade vai ter que mudar a fonte de sua energia nos próximos 50 anos. Os picos de petróleo, urânio e gás podem ser discutidos em termos de anos precisos, mas ainda assim sabemos que estes recursos não são inesgotáveis e que as datas não estão longe. Com o esgotamento, inevitavelmente vem o aumento dos preços das commodities, com todas as consequências sociais e políticas. Além disso, o controle internacional de fontes de energia fósseis e outros materiais estratégicos é cada vez mais importante para as potências industriais, que não hesitam em usar a força militar para se apropriar deles. É no contexto de escassez de energia no futuro que se insere parte do problema dos agrocombustíveis. Diante da expansão da demanda e da redução esperada em recursos energéticos fósseis, há uma certa urgência de se encontrar soluções. Como novas fontes de energia exigem o desenvolvimento de tecnologias ainda não muito avançadas (como a solar ou à base de hidrogênio) e outras soluções são interessantes, mas economicamente marginais ou não rentáveis (mais uma vez, a solar e a eólica), a dos agrocombustíveis pareceu interessante.Mas a produção dos agrocombustíveis traz também graves consequências.A produção de agrocombustível é feita na forma de monocultura. Em muitos casos, isto envolve a remoção de grandes florestas. Na Malásia e na Indonésia, em menos de 20 anos, 80% da floresta original foi destruída pelas plantações de palma e eucalipto. A biodiversidade é removida, com todas as consequências sobre a reprodução da vida. Para produzir, são usados não só muita água, mas um monte de produtos químicos, como fertilizantes ou pesticidas. O resultado é uma poluição intensiva da água subterrânea, dos rios que desembocam no mar, e um perigo real de falta de água potável para as populações. Além disso, os pequenos agricultores são expulsos e muitas comunidades indígenas perdem suas terras ancestrais, causando uma série de conflitos sociais, até mesmo violentos. O desenvolvimento de agrocombustíveis corresponde à negligência das externalidades ambientais e sociais, típicas da lógica do capitalismo.E como o senhor vê a questão climática nesse cenário atual?A crise climática é bem conhecida e as informações estão se tornando mais precisas, graças a várias conferências da ONU sobre clima, biodiversidade, geleiras, etc. Enquanto o atual modelo de desenvolvimento continuar emitindo gases de efeito-estufa (especialmente CO2), destruindo os sumidouros de carbono, ou seja, sítios naturais de absorção desses gases, especialmente florestas e oceanos, a crise continuará. A pegada ecológica é de tal ordem que, de acordo com estimativas, em 2010, em meados de agosto, o planeta tinha esgotado a sua reprodução natural. Além disso, de acordo com o relatório do Dr. Nicholas Stern para o governo britânico, em 2006, se as tendências atuais continuarem na metade do século existirão entre 150 milhões e 200 milhões de migrantes climáticos, e os mais recentes números são ainda mais elevados.E como o senhor avalia as medidas adotadas pelas elites e governos para tentar superar essas crises? E quais são as soluções?A primeira solução é a do sistema. Alguns, principalmente preocupados com a crise financeira, propuseram mudar e punir os responsáveis. Esta é a teoria do capitalismo (teoria neoclássica em economia), que vê elementos positivos na crise, porque eles permitem a liberação de elementos fracos ou corruptos para retomar o processo de acumulação em bases saudáveis. Atores são alterados, e não se muda o sistema. Evidentemente não é solução. A segunda visão é propor regulamentos. É reconhecido que o mercado regula a si mesmo e que os organismos nacionais e internacionais têm necessidade de executar esta tarefa. Os Estados e organizações internacionais devem ser envolvidos. O G8, por exemplo, propôs certos regulamentos do sistema econômico global, mas ligeiros e temporários. Em vez disso, a ONU apresentou uma série de regulamentações muito mais avançadas. Propôs a criação de um Conselho de Coordenação Econômica Global, em pé de igualdade com o Conselho de Segurança, e também um painel internacional de especialistas para acompanhar permanentemente a situação econômica global. Outras recomendações tratadas foram a abolição dos paraísos fiscais e do sigilo bancário e, também, maiores requisitos de reservas bancárias e um controle mais rígido das agências de notação de crédito. A profunda reforma das instituições de Bretton Woods foi incluída, bem como a possibilidade de se criar moedas regionais em vez de ter como referência única o dólar. Os regulamentos propostos pela Comissão Stiglitz para reconstruir o sistema financeiro e monetário, apesar de algumas referências a outros aspectos da crise, tais como clima, energia, alimentos – e apesar do uso da palavra sustentável para qualificar o crescimento –, não têm a profundidade suficiente para fazer a pergunta: para que reparar o sistema econômico? Para desenvolver, como antes, um modelo que destrói a natureza e é socialmente desequilibrado? É provável que as propostas para reformar o sistema monetário e financeiro serão eficazes para superar a crise financeira, e muito mais do que o que foi feito até agora, mas é suficiente para responder a desafios globais contemporâneos? A solução é dentro do capitalismo, um sistema historicamente esgotado, mesmo que tenha ainda muitos meios de adaptação. A gravidade da crise é tal que devemos pensar em alternativas, não somente em regulações.E, quais seriam, por exemplo, essas outras alternativas?Questionar o próprio modelo de desenvolvimento. A multiplicidade de crises que foram exacerbadas nos últimos tempos é resultado da lógica de mesmo fundo: uma concepção de desenvolvimento que ignora as “externalidades” (danos naturais e sociais); a ideia de um planeta inesgotável; o foco no valor de troca em detrimento do valor de uso; e a identificação da economia com a taxa de acumulação de lucro e do capital que cria, consequentemente, enormes desigualdades econômicas e sociais. Este modelo resultou em um crescimento espetacular da riqueza global, mas seu papel histórico se perdeu, devido à sua natureza destrutiva e da desigualdade social que resultou. A racionalidade econômica do capitalismo, escreve Wim Dierckxsens, não apenas tende a negar a vida da maioria da população mundial como também destrói a vida natural.Temos que discutir alternativas ao modelo econômico capitalista prevalecente hoje e os meios para rever o próprio paradigma (orientação básica) da vida coletiva da humanidade sobre o planeta, conforme definido pela lógica do capitalismo, que hoje é global. A vida coletiva é composta por quatro elementos que chamamos de base, porque as exigências são parte da vida de toda sociedade, desde as mais antigas até as mais contemporâneas: a relação com a natureza; a produção da base material da vida física, cultural e espiritual; a organização social e política coletiva; e a leitura do real e autoenvolvimento dos atores na sua construção da cultura. Ou seja, cada sociedade tem esta tarefa para realizar.Mas as alternativas necessariamente passam pelo envolvimento do conjunto da sociedade organizada, dos movimentos sociais.Exatamente. As alternativas são tão importantes que não vão chegar por si só. É somente pela pressão dos movimentos sociais, movimentos políticos também, que podemos esperar chegar a redefinir os objetivos fundamentais da presença humana no planeta e o desenvolvimento humano no planeta. E isto significa transformar a relação com a natureza. Passar da exploração ao respeito. Significa outra definição da economia. Não somente produzir um valor agregado senão produzir as bases da vida. Da vida física, cultural, espiritual de todos os seres humanos no planeta. Isto é a economia. Porém, isto não corresponde à definição do capitalismo. Também é preciso generalizar a democracia a todas as instituições, não somente políticas e econômicas, mas também nas relações humanas, relações entre homens e mulheres, etc. É necessário também não identificar desenvolvimento com civilização ocidental e dar a possibilidade a todas as culturas, religiões, filosofias de participarem dessa construção. Isso é o que chamo de construir o bem comum da humanidade, que é a vida; assegurar a vida, a vida do planeta e a vida da humanidade. Isso é um projeto alternativo, que pode parecer utópico. Porém, não é utópico porque existem milhares de organizações e movimentos sociais que já trabalham para transformar esses aspectos da vida comum da humanidade, para melhorar a relação com a natureza, para ter outro tipo de economia, para ter uma participação, uma democracia que seja participativa e para renovar a cultura. Existem muitas iniciativas. Isto posso chamar de construção do socialismo. Porque socialismo não é uma palavra. É um conteúdo. E eu penso que devemos redefinir o conteúdo do socialismo.Como o senhor analisa a América Latina neste contexto da crise e qual é o papel dos movimentos sociais?É muito interessante porque a América Latina é o único continente do mundo onde temos tido alguns avanços. Não ainda na opção de novo paradigma, nova orientação fundamental, porém, pelo menos avanços, que não existem em outros continentes até agora. Mas não é algo generalizado na América Latina. Há alguns países que só reproduzem o sistema, com sua dependência do capital internacional, particularmente do norte do continente americano. São países como México, Colômbia, Chile, Panamá, Costa Rica, Honduras, etc. São países onde a burguesia local está totalmente vinculada com o sistema internacional e, nesse sentido, não têm outro projeto senão um projeto muito repressivo contra as populações.Subordinação total.Exatamente. Há uma segunda realidade, que são os países que podemos chamar de “adaptações ao sistema”. E aí existem dois tipos de países. Há os que dizem: sim, o sistema necessita de mudanças fundamentais e devemos nos adaptar à lógica do capitalismo. E para se ter mais justiça social e repartir parte do lucro, como já dizia Marx, com o rápido avanço das forças produtivas, temos um aumento dos lucros e da destruição da natureza. Nesse tipo de desenvolvimento se inserem Brasil, Argentina, Uruguai e Paraguai, que possuem programas sociais eficazes. Com resultados indubitáveis porque milhões de pessoas saíram da pobreza, o que não podemos desprezar, porém, esse modelo não transforma profundamente a sociedade; isso representa apenas uma redistribuição de parte do lucro. Não podemos dizer que é uma mudança de paradigma. Entretanto, há países como Venezuela, Equador e a Bolívia, que têm outro discurso, o do socialismo do Século 21, que pelo menos faz uma alusão a uma transformação fundamental. Pelo menos no Equador e na Bolívia, entre o discurso e a prática, eu vejo grandes avanços, em que as práticas dos governos seguem uma orientação das demandas sociais apresentadas pelos movimentos sociais.Então, neste contexto de crise, os países que estão mais vulneráveis sofrem mais as consequências?Não estou seguro. Teoricamente pode-se dizer que sim, esses países serão mais afetados em médio prazo. Porém, no momento é igual em todas as partes. Mas, evidentemente, os países mais vinculados ao sistema serão mais afetados em médio prazo. Entretanto, desgraçadamente, países como Venezuela e Bolívia também são indiretamente dependentes do sistema global e sofrerão as consequências. O que eu acho que é cedo demais para se dizer, como diz Samir Amin, é que eles conseguiram fazer uma desconexão. Não, não conseguiram. Mas é óbvio que as economias mais vinculadas à economia do Norte sofrerão as consequências a curto prazo.No caso da América Latina, uma maior integração dos países seria uma alternativa frente a esse cenário mundial? O papel do Estado é fundamental neste contexto?Absolutamente. Mas, para encerrar a tipologia, eu penso que a Venezuela é um país que avança para um novo modelo, onde as mudanças são mais aprofundadas. O papel do Estado não pode ser concebido sem levar em conta a situação dos grupos mais marginalizados socialmente, os sem-terra, as castas mais baixas ignoradas por milênios, os povos indígenas da América e os excluídos de ascendência africana; e, nesses grupos, as mulheres são muitas vezes duplamente marginalizadas. A expansão da democracia também se aplica ao diálogo entre os movimentos políticos e sociais. A organização de instâncias de consulta e diálogo pertence ao mesmo conceito, respeitando a autonomia mútua. O projeto de um conselho de movimentos sociais na arquitetura geral da Alba é uma tentativa original nessa direção. O conceito de sociedade civil muitas vezes utilizado para esse fim ainda é ambíguo, porque ela é também o lugar da luta de classes: há realmente uma sociedade civil de baixo e de cima e o uso do termo de forma não qualificada permite muitas vezes a criação de uma confusão e a apresentação de soluções que ignoram as diferenças sociais. Por outro lado, as formas de democracia participativa, como as encontradas em vários países latino-americanos, também entram na mesma lógica da democracia em geral. Todas as novas instituições regionais latino-americanas, como o Banco do Sul, a moeda regional (o sucre) e a Alba, serão objeto de atenção especial na direção da propagação da democracia. E o mesmo vale para os outros continentes.* Publicado originalmente no site Brasil de Fato.


por Nilton Viana, do Brasil de Fato
'A cidade é a janela entreaberta por onde se pode vislumbrar o futuro' Mundo

As cidades e a economia mundial

[caption id="attachment_42392" align="alignright" width="200" caption=""A cidade é a janela entreaberta por onde se pode vislumbrar o futuro.""][/caption]Com a internacionalização econômica, surgiu um novo arranjo espacial urbano. A orientação do núcleo econômico urbano não é dada pelas atividades manufatureiras, mas por um complexo financeiro e de prestação de serviços.Neste sentido, a implantação de processos e mercados globais, em consonância com o setor internacionalizado da economia, expandiu-se profundamente e impôs uma nova dinâmica da valorização da terra e da produção de produtos e serviços.As cidades passam a ser locais de produção para as principais indústrias que prestam serviços na atualidade, daí decorre o fato de as matrizes das grandes corporações não estarem necessariamente localizadas nas cidades globais, afinal são complexos de prestações de serviços que atendem estas empresas e que, portanto, necessitam de uma localização em cidades específicas, onde a aglomeração é fundamental, como forma de controle global exercida pelas cidades, expressando estas o poder das grandes corporações.Por exemplo, Toronto, a maior cidade do Canadá, apesar de ter seu distrito financeiro estruturado somente nos anos 1980, apresenta elevado índice de concentração no setor, inclusive com uma infraestrutura totalmente estruturada e reestruturada para atendê-lo, demonstrando o poder de concentração espacial desempenhado por este setor.Esse intenso processo de urbanização, realizado sem um tipo de planejamento orientado a partir da participação daqueles que vivem nas cidades, submetido apenas a uma lógica de crescimento desigual e, ao mesmo tempo combinado, inevitavelmente vem acompanhado de projeções que nada alentam em termos imediatos no que se refere às condições de vida para a população.A saída para as mazelas socioambientais, que nos espaços urbanos manifestam-se tão fortemente, está vinculada à possibilidade de os diversos setores da sociedade civil construírem seu próprio projeto de cidade, que seja inclusiva e ambientalmente justa.Para tanto, a urbanização deve ser encarada como processo histórico mundial com forte tendência a sua intensificação, o que torna imprescindível o estudo sistemático do objeto urbano, que deve ser apreendido e compreendido, numa perspectiva totalizadora, como requisito para a construção social da utopia de um tipo de cidade/sociedade feliz, humanizada e humanizadora da espécie humana.Esse objetivo, encarado como possibilidade histórica, pressupõe conhecimento da realidade, experiências de lutas e conquistas resultantes da ação concreta, principalmente daqueles(as) que vivem do trabalho, por dentro da ordem social vigente, por meio de ações socioespaciais reformadoras que ajudem a compor um leque de ações que consolidem uma determinada estratégia de planejamento de uma cidade para todos.No caso brasileiro, enfrentamos, nos mais diversos municípios do país, os problemas imanentes às cidades capitalistas, agravados por um padrão intrínseco de sua acumulação. Se, por um lado, não se pode cair no “administrativismo”, por outro, é preciso constituir-se um espaço da sociedade civil de planejamento e execução de soluções para os seus problemas concretos imediatos ou estratégicos.Neste ponto, ao assumir a possibilidade da transformação estrutural como um momento que pressupõe um processo certamente longo de acúmulo de forças, há de se pensar, nessa perspectiva, um programa de caráter democrático no qual a dimensão urbana seja posta na medida de sua importância estratégica.A cidade é a janela entreaberta por onde se pode vislumbrar o futuro. Ela manifesta uma contradição fundamental, ao mesmo tempo em que enseja a acumulação ampliada de capital, é, também, o local de lutas e conquistas imprescindíveis para a superação de seus antagonismos sociais.* Publicado originalmente no site Carta Capital.


por Paulo Daniel, da Carta Capital
Talvez o Ocidente esteja preparado para 'guerra contra as finanças' Finanças

A guerra contra as finanças

[caption id="attachment_42402" align="alignleft" width="240" caption="Talvez o Ocidente esteja preparado para "guerra contra as finanças". Ilustração: Satoshi Kambayashi/The Economist"][/caption]Atacar os credores é uma estratégia intrigante, mas incorreta.O homem que, segundo pesquisas recentes, se tornará o próximo presidente francês, François Hollande, diz que as finanças são o seu “adversário real” na eleição futura. A Grã-Bretanha acaba de exonerar o antigo chefe-executivo do Banco Real da Escócia. Até Newt Gingrich, candidato à presidência nos Estados Unidos está atacando os “abutres capitalistas” nas atividades de private equity. Talvez o Ocidente esteja preparado para uma “guerra contra as finanças”, nos moldes da sua antiga “guerra ao terror”, e com igual grau de incerteza sobre como definir uma vitória.Os políticos parecem ter três problemas principais com o setor financeiro. O primeiro é que os banqueiros ganham muito. O segundo é que os bancos se arriscam imprudentemente para, em seguida, precisarem de um resgate do governo. E a terceira queixa é que os investidores dos mercados financeiros têm uma influência nefasta sobre a economia por meio de sua habillidade de afetar as obrigações de dívidas públicas e os preços das ações.Os dois primeiros problemas estão relacionados. As pessoas não se preocupam demais com os altos salários dos jogadores de futebol. O problema com os banqueiros é até que ponto eles são subsidiados pelo apoio implícito e explícito dos contribuintes. A questão de os bancos serem “grandes demais para falir” está sendo discutida, mesmo que lentamente, pelas altas relações de capital sendo impostas pelos reguladores. Relações de capital mais altas deveriam implicar baixos retornos nas ações; com o tempo, isto deve levar a um aumento de pagamento mais lento para os banqueiros.O terceiro problema é uma queixa que perdura há muito tempo, mas parece uma batalha difícil de lutar. Todos os governos da zona do euro precisam pegar dinheiro emprestado dos mercados. A queixa subjacente é que os especuladores manipulam as obrigações de dívidas públicas, tornando mais difícil para os governos se financiarem. Como resultado, os governos são forçados a adotar programas de austeridade, contra a vontade de seus eleitores.Mas o problema pode não ser com os mercados no fim das contas. O que acontece com países como a Grécia, que perdem acesso ao setor financeiro? Eles se tornam dependentes dos credores oficiais – o Fundo Monetário Internacional, o Banco Central Europeu, e outras nações da UE –, que podem ser ainda mais restritivos na demanda por programas de austeridade. Após alguns reveses com o BCE, Hollande, de 57 anos, pode acabar desejando que sua aposentadoria planejada para os 60 anos também se aplicasse aos presidentes.* Publicado originalmente no site The Economist e retirado do Opinião e Notícia.


por Redação do The Economist

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