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Quando os Estados Unidos passaram a chamar tudo de arma de destruição em massa

Foto: Reprodução/Na Trilha do Castelo

Nações Unidas, 3/6/2013 – Quando os Estados Unidos invadiram o Iraque, em março de 2003, um dos principais objetivos expressos foi localizar e eliminar as armas de destruição em massa supostamente estocadas pelo regime do presidente Saddam Hussein. Washington dizia buscar freneticamente três dos armamentos mais letais do mundo: nucleares, biológicos e químicos, como também são classificados pela Organização das Nações Unidas (ONU).

A busca, aparentemente baseada em informação incorreta dos serviços de inteligência norte-americanos, demonstrou ser inútil. Mas as letras WMD, sigla em inglês de “armas de destruição em massa”, se converteram em parte integral do jargão militar em todo o mundo.

Entretanto, desde os atentados de abril em Boston, tanto o governo de Barack Obama quanto os meios de comunicação dominantes oferecem uma nova definição das armas de destruição em massa: duas bombas caseiras fabricadas com panelas de pressão cheias de pregos e outros metais que mataram três pessoas e feriram mais de 250 durante a maratona dessa cidade norte-americana. Esse explosivo foi reiteradamente descrito como “arma de destruição em massa”.

Natalie J. Goldring, do Programa de Estudos sobre Segurança na Escola Edmund A. Walsh de Serviço Exterior na Universidade de Georgetown, disse à IPS que as armas usadas em Boston foram artefatos explosivos improvisados, não armas de destruição em massa. As armas químicas, biológicas e nucleares costumam ser agrupadas sob o rótulo de destruição em massa, ressaltou. Combiná-las em uma única categoria faz com que pareçam a mesma coisa, quando não são, acrescentou.

“As armas nucleares são, de longe, mais destrutivas do que as químicas ou biológicas existentes. Ainda assim, os três tipos de armas têm a capacidade de serem maciçamente mais destrutivas do que as usadas em Boston”, pontuou Goldring. “Comparar as armas usadas nesses atentados com as armas nucleares, em particular, é absurdo”, ressaltou esta especialista, que também representa o Acronym Institute na ONU na questão de armas convencionais e comércio de armas em geral.

Especialistas militares afirmam que os artefatos improvisados utilizados em Boston não diferem dos usados pelos rebeldes contra as forças armadas dos Estados Unidos no Afeganistão e no Iraque.

Jody Williams, ganhadora do prêmio Nobel da Paz em 1997 e presidente da Iniciativa das Mulheres Prêmio Nobel, disse à IPS que, “se querem confundir as pessoas, apaguem as linhas que distinguem as coisas e também as situações”, acrescentando que falar de um artefato explosivo improvisado como “arma de destruição em massa” é apenas um exemplo, como o é o amplo uso das palavras “terrorista” e “terrorismo” depois dos ataques de 11 de setembro de 2001, que deixaram três mil mortos em Nova York e Washington.

Segundo Williams – que liderou com sucesso uma campanha que derivou na proibição mundial das minas antipessoais –, para o governo dos Estados Unidos é mais fácil continuar com sua “guerra contra o terrorismo” sem fronteiras com as pessoas não entendendo ou não vendo as diferenças. É tudo “muito confuso” e é melhor se ficar nas mãos dos “especialistas” em Washington, argumentou.

Siemon Wezeman, pesquisador do Programa de Transferência de Armas no Instituto Internacional de Estocolmo para a Pesquisa da Paz, disse à IPS que o uso da sigla WMD para descrever os explosivos de Boston é visto como “raro”. Para ele, a maioria das pessoas pensa que as armas de destruição em massa são as nucleares, químicas biológicas e potencialmente radiológicas. Porém, o termo é usado facilmente desde que foi cunhado, provavelmente em 1937, para descrever mais ou menos qualquer arma.

Na terminologia oficial dos Estados Unidos parece haver cerca de 50 definições diferentes, apontou Wezeman. Considerando essa nomenclatura, a categoria “armas de destruição em massa” serviria para cobrir “qualquer tipo de arma explosiva levemente maior: artefatos explosivos improvisados, granadas de mão, projéteis de artilharia, canhões pequenos, como os usados diariamente pelos “terroristas”, e também pelas forças armadas”, acrescentou Wezeman.

Por sua vez, Goldring disse à IPS que, apesar de os atentados de Boston terem sido horríveis, “a quantidade de vítimas que causaram foi uma fração diminuta das que provavelmente teria provocado a explosão de uma ou mais armas nucleares em uma cidade”. Os cientistas estimam que a explosão de uma arma nuclear relativamente pequena (de dez quilotoneladas) em uma cidade destruiria toda área compreendida no raio de uma milha.

“Chamar de armas de destruição maciça as bombas de Boston é uma declaração política”, opinou Goldring. Se fossem, “talvez isso significasse que todos os artefatos explosivos improvisados e usados no Afeganistão e no Iraque também se definem com armas de destruição em massa?”, perguntou. “Isso simplesmente não faz sentido. Os artefatos explosivos improvisados causam danos enormes ao pessoal militar e a civis nesses dois países, mas não são armas de destruição em massa”, ressaltou. Envolverde/IPS