Clima

COP 28: Sem falar de petróleo, documento final aponta para a transição

Por Dal Marcondes, especial para a parceria com a Synergia Socioambiental* – 

O documento aprovado pela assembleia da COP28 esta manhã, em Dubai, não cita a palavra petróleo, e não dá um ultimato para a eliminação dos combustíveis fósseis até 2050. No entanto, é visto por muitos como um passo histórico na transição energética das economias e na mobilidade do planeta. Isso porque carrega a meta de investimento em energias renováveis e a proposta para triplicar a produção de energias limpas em dois anos.

Pode-se dizer que o texto procurou um meio termo que, na linguagem popular, pode ser definido como: “Não tão rápido que pareça fuga, nem tão devagar que pareça provocação”. Sultan Al Jaber, que além de presidente da COP28 é presidente da companhia estatal de petróleo dos Emirados Árabes Unidos, sabia que, sem um aceno à transição para uma economia de baixo carbono, sua presidência seria um fracasso.

A ideia geral é que, se as energias renováveis e limpas tronarem-se mais competitivas do que o petróleo, a economia tenderá a migrar para o seu colo. Como diz o experiente jornalista de economia, Alex Branco: “a ver”.

A COP termina com humores oscilando entre a surpresa de se ter conseguido, pela primeira vez, que a descarbonização das economias assumisse lugar de destaque em quase 30 anos de conferências, e a sensação de que houve uma encenação de avanço, mas sem as decisões de metas necessárias.

Grande parte dos países já vem investindo fortemente na produção de energias limpas, o Brasil entre eles. As fontes de geração elétrica renováveis de energia hidráulica, eólica e solar, somadas, já são responsáveis por mais de 90% do abastecimento do Sistema Interligado Nacional (SIN). Além disso, o país tem o maior programa de biocombustível do mundo, que pode abastecer uma frota de 40 milhões de veículos flex em circulação no Brasil. Isso de um total estimado em 45 milhões de veículos.

Ao não estabelecer metas para a redução progressiva do uso de combustíveis fósseis no mundo, o documento final da COP28 também não sinalizou para limitar a abertura de novas frentes de exploração de petróleo ao redor do mundo. O Brasil, por exemplo, nesta quarta-feira, 13, realiza mais um leilão de blocos para exploração de petróleo. A ministra Marina Silva declarou, em Dubai, que há uma independência entre as agências, mas que, depois, as empresas que comprarem terão de lidar com a obrigação de obter licenças ambientais para a exploração do petróleo.

Nem só de tristezas foi feita a COP28. O Fundo de Perdas e Danos é uma notícia boa, embora os primeiros anúncios de doações somem apenas pouco mais de US$ 400 milhões, o que é considerado uma quantia irrisória perto dos prejuízos da emergência climática. Este ano, apenas o Paquistão registrou prejuízos de US$ 30 bilhões com os desastres climáticos. Especialistas, ouvidos pelo jornal Valor, apontam que o agro brasileiro pode estar contabilizando prejuízos de mais de R$ 30 bilhões com os eventos climáticos nos primeiros nove meses deste ano, nas regiões Sul, Centro-Oeste e Norte.

Marcio Astrini, secretário-geral do Observatório do Clima vê o acordo como um alento, na medida em que não ignorou por completo a descarbonização: “Agora vamos ter de trabalhar para que, na COP30, em Belém, a gente consiga estabelecer metas que restrinjam o uso de combustíveis fósseis”.

*Synergia Socioambiental e Envolverde na cobertura da COP28.