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Sociedade

Ética, amor e sustentabilidade: uma estrada de mão única


por Centro Sebrae de Sustentabilidade

[caption id="attachment_117915" align="alignleft" width="350"] Foto: Rodrigo Lorenzon[/caption] Professor de Ética da USP, Clóvis de Barros Filho, fala de filosofia e evolução de valores no Seminário Sebrae de Sustentabilidade Cuiabá (MT) – Felicidade, amor, convivência, harmonia com o cosmos, estão relacionados com sustentabilidade e ética, segundo o professor da Universidade de São Paulo (USP), Clóvis de Barros Filho. Ele foi o último palestrante do primeiro dia do Seminário Sebrae de Sustentabilidade, que está sendo realizado no Centro de Eventos do Pantanal em Cuiabá (MT), até esta quinta-feira (31). Muito aplaudido, fez um resgate do significado da palavra ‘ética’, desde a definição aristotélica, passando por Jesus de Nazaré, Maquiavel e Kant, até os dias atuais, quando o conceito sustentabilidade norteia ou pretende nortear as ações e valores da sociedade e mercado. “Nunca se falou tanto em ética como atualmente. Esta palavra antes era prerrogativa de filósofos”, disse o professor, que é mestre e doutor em Direito pela Escola de Paris e livre docente da USP. Aristóteles relacionava o conceito de ética com qualidade da vida, desfrutada pelo indivíduo que aproveitava e desenvolvia seus talentos, virtudes e potencialidades e assim se harmonizava com o cosmos e era feliz. Já o Mestre Jesus de Nazaré ensinou à humanidade que ético era amar o próximo. A felicidade está na capacidade de fazer a alegria do outro, do amado. O amor vale mais do que a vida. Na ética cristã, o sentido do trabalho é melhorar a vida de alguém, antes de mais nada, não é bater metas, conquistar ganhos pessoais e conquistar mercado, segundo Clóvis. “O acúmulo desenfreado de bens não aumenta a sua felicidade”, disse o professor, se referindo aos ensinamentos de Jesus. O bom da vida não é ser amado, mas amar, complementou. Por volta do ano de 1600, Newton e Copérnico causam grande perturbação ao provar que o universo não é finito como supunha Aristóteles. O sistema solar é apenas um entre tantos outros. Surge uma nova ética: a de Maquiavel, também conhecida como a ética de resultados. Para ele, conduta boa é aquela que permite bater metas, atingir os fins, resume o palestrante. Mas, na verdade, ética não pode depender de resultado. Aparece o filósofo alemão Kant, que lança a Ética dos Princípios, baseada no agir corretamente. Valores como honestidade, integridade, transparência são fundamentais. Vender não é tudo. Resultado não é valor, é consequência. “Ética é a preocupação de todos com a convivência. É a vitória da vontade geral sobre a vontade de cada um”, ressalta o professor. Uma sociedade eticamente desenvolvida é aquela em que as crianças aprendem que a conduta pessoal não deve comprometer a convivência com a família e a sociedade. Levar vantagem e obter resultados e prazer em detrimento de outros é totalmente antiético, alertou Clóvis. Uma sociedade que tem esta característica cultural é motivo de grande preocupação. Equivale a uma convivência totalmente sem harmonia, onde cada um luta por si, como no reino animal, comparou. O palestrante citou a torcida japonesa durante os jogos na Copa 2014 como exemplo ético, pois aguardava os torcedores saírem dos estádios para fazer a faxina. Recolhia os resíduos deixados nas arquibancadas em sacos de lixo e os descartavam corretamente. A convivência vale mais do que a comodidade pessoal, foi a lição dos japoneses, disse. Nos banners corporativos a palavra sustentabilidade aparece com ênfase, citou. Em francês, usa-se a palavra ‘durabilité’, que significa durabilidade. Para o palestrante, ela traduz melhor a ideia que se pretende transmitir. “Conduta boa é aquela que faz com as coisas boas durem”, observou. Para ele, sustentabilidade não está relacionada apenas ao meio ambiente e à necessidade de preservar a natureza. Também se refere aos valores morais que devem ser aplicados entre as pessoas, acrescentou. Por outro lado, há que se ponderar o que queremos que perdure. Quais são os valores que desejamos que continuem como são? “É preciso ter cautela”, argumentou. Clóvis disse que devemos conservar o que é bom e transformar o que é ruim. No Brasil, por exemplo, possuímos índices muito negativos que batem recordes mundiais em concentração de riquezas e desigualdade social. “Para viver melhor, temos que transformar, modificar, revolucionar esta situação”, enfatizou. O objetivo da ética é aperfeiçoar a convivência e não pode estar baseada em uma verdade pré-estabelecida. Ética é inteligência voltada ao futuro. “Se a palestra estivesse sendo feita há dez anos, haveria pessoas fumando na plateia. Hoje não há, pois os valores mudaram e a convivência foi aperfeiçoada”. O professor também lembrou que a palavra corrupção é um ato de duas pessoas. O prefixo co possui este significado. “É um ato que envolve o corruptor e o corrompido, destrói o tecido social, destrói a convivência em nome de ganho pessoal”, salientou. Ao contrário, quando se vive um momento feliz, o desejo é de torná-lo o mais duradouro possível, como um processo contínuo de construção. Este é o sentimento que move a ética, o amor e a sustentabilidade. A humanidade quer felicidade sustentável, duradoura. O palestrante foi muito aplaudido. * Publicado originalmente no site Centro Sebrae de Sustentabilidade.
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Sociedade

Faltam líderes para enfrentar crise ecológica e ambiental, diz Sérgio Besserman


por Centro Sebrae de Sustentabilidade

[caption id="attachment_117911" align="aligncenter" width="450"] Para Besserman, as populações menos favorecidas são as que mais sofrem os efeitos do desequilíbrio ambiental e consequências como o aquecimento global e a falta de água. Foto: Divulgação[/caption]   Vivemos um período especial da história. Nos próximos 20 a 30 anos, a humanidade terá de fazer escolhas inéditas sobre o futuro que desejará ter, quais os valores que serão passados para as próximas gerações, como produzir e consumir, e como deixará o planeta para a sobrevivência de seus semelhantes e descendentes. A atual escassez de lideranças, seja nos níveis local, regional ou global, deve ser uma preocupação, pois, por meio delas é que seria possível enfrentar as crises ecológica e ambiental, que já começam a causar graves consequências sociais (tempestades, inundações, furacões, estiagens prolongadas, etc) em todo o mundo. Sem falar nas guerras e sérios conflitos armados entre países, diante dos quais as estruturas das Nações Unidas se mostram frágeis. Estas observações foram feitas por Sérgio Besserman, economista, ambientalista, professor de economia da Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro (PUC/RJ), ex-diretor do Banco Nacional de Desenvolvimento Social (BNDES), ex-presidente do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) e membro do Conselho Diretor da WWF Brasil, na palestra proferida na quarta-feira, 30 de julho, no segundo dia do Seminário Sebrae de Sustentabilidade em Cuiabá. O tema da palestra foi “Liderança e Gestão Sustentável”. Cerca de 350 pessoas estiveram presentes no Centro de Eventos do Pantanal. Desde a Revolução Industrial, os hábitos e o modo de vida da sociedade humana mudaram totalmente, disse Besserman. Se por um lado se passou a viver mais, devido ao desenvolvimento científico que gerou antibióticos e vacinas, por outro a produção industrial e o consumo cresceram velozmente, especialmente no século 20, sem considerar o ritmo da natureza para repor os recursos naturais (matérias primas). A ciência econômica não se preocupava com o capital natural e o tratava como bem infinito, até que por volta da segunda metade do século 20 os cientistas começaram a apresentar estudos sobre o ritmo insustentável do crescimento econômico e da população mundial. Questão social Para Besserman, as populações menos favorecidas são as que mais sofrem os efeitos do desequilíbrio ambiental e consequências como o aquecimento global e a falta de água. As mudanças climáticas, que devem provocar o aumento da temperatura na Terra em 2 graus, nos próximos anos, e a extinção acelerada de espécies são sinais de muitos problemas pela frente. Para a economia, é certamente uma grande preocupação, pois as matérias primas serão cada vez mais caras, escassas e os processos produtivos terão de se tornar muito mais eficientes. Ficará muito mais difícil ser competitivo e ter um negócio sustentável. “Os economistas se esqueceram de que não existe almoço grátis”, disse Besserman, brincando. “Achamos que podíamos usar os recursos naturais sem se preocupar, que nunca iam faltar. Pensávamos que seria possível sempre substituir capital natural por capital humano, que a tecnologia resolveria tudo. Era uma ideia imbecil, fruto da onipotência narcísica do homem”, disparou. Perdendo a guerra O palestrante citou as grandes conferências da ONU sobre meio ambiente e desenvolvimento sustentável – Estocolmo (1972), Rio-92 e Rio+20 - como marcos dos debates mundiais sobre o tema. Ele lamenta que apesar das informações, dos alertas dos cientistas, dos estudos que apontam os perigos do aquecimento global e da extinção acelerada das espécies, países, governos e mercado continuam encarando devagar os problemas. “Estamos longe de ganhar esta guerra”, enfatizou Besserman. Ele se referiu ao estudo Limites da Terra, da Universidade de Estocolmo de 2009, segundo o qual doze limites do planeta estão sendo ultrapassados. Três deles e mais graves são: escassez de nitrogênio no solo, mudanças climáticas e crise da biodiversidade. Tempos distintos Segundo geólogos, os impactos que a humanidade está promovendo e possíveis consequências equivaleriam a cinco dos maiores apocalipses da história, citou o economista. “No nosso curtíssimo tempo de existência, estamos provocando uma severa crise na natureza”, resumiu. O tempo da natureza e do cosmos é outro e não significa que o homem vai destruir o planeta, acrescentou. Estamos dificultando o futuro e a nossa própria sobrevivência. Em termos de oportunidades para os negócios, Besserman falou que nos próximos dez a vinte anos, haverá uma janela pequena de escolhas. O momento de tentar recuperar o que foi perdido já se foi. De agora em diante, resta procurar se adaptar e ser recipiente às mudanças que vão ocorrer. As principais consequências serão sentidas na agricultura, nas cidades e na saúde. As grandes empresas estão estudando as mudanças climáticas e planejando seus negócios e investimentos de acordo com as previsões de temperatura e transformações de culturas e processos produtivos. Os pequenos negócios precisam se preparar também. “Vamos escolher continuar a fazer negócio como fazemos e deixar a temperatura do planeta subir até 6 graus ou vamos mudar tudo?”, provocou Besserman. Taxação dos serviços Ele finalizou a palestra sugerindo a inserção do custo do aquecimento global nos produtos e serviços. “Não tem outra saída. Consumo consciente é bom para resolver o atrito, mas preço é o que resolverá”, ressaltou. Para o economista, ao pagar pelo custo do aquecimento do planeta, consumidores e empreendedores iriam exigir que lideranças regionais, nacionais e globais surgissem e atuassem contra as mudanças climáticas e a crise da biodiversidade de maneira concreta. “A crise ecológica e ambiental causará problemas humanos principalmente para os mais pobres. Será uma crise social”, profetizou. * Publicado originalmente no site Centro Sebrae de Sustentabilidade.
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Sociedade

O passado manda lembranças


por Maria Helena Masquetti *

“Da minha infância? Ah, lembro muito pouco!”. Natural buscar entender o passado, a formação, os hábitos e as relações familiares quando a questão é entender a queixa de um jovem de vinte e poucos anos acometido de depressão, ansiedade ou tantos outros transtornos aceitos atualmente quase como triviais. No entanto, especialmente entre as crianças e jovens, essas lembranças têm se tornado cada vez mais escassas e pontuais: “Meu aniversário num buffet, a primeira excursão, a formatura, o debut, a viagem pra Disney, a primeira balada... Episódios que, em sua maioria, envolveram consumo e, claro, muitas fotos para as redes sociais. Somos o resultado de nossas experiências, de todas elas indistintamente. Quem compraria um livro faltando uma página? No entanto, as conversas triviais em torno da mesa, as traquinagens entre irmãos, a primeira volta de bicicleta sem as rodinhas, o lugar preferido de cada um na mesa, o castigo, a bronca, o tombo memorável e os tantos eventos que protagonizamos vêm sendo, amiúde, rebaixados à categoria de “nada a ver” como classifica a moçada. Tal qual um clipe dinâmico, essas memórias do dia-a-dia, vêm se compactando num enfadonho roteiro de comprar, malhar, ostentar, beber, fumar e seduzir. De que histórias nossas crianças se lembrarão para contar aos filhos se, mesmo numa roda de amigos, cada um preferir “conversar” com a tela de seu celular? Mais ou menos como atirar fora uma maçã e comer sua fotografia. Exata e lamentavelmente como um bando de crianças estourando balões tediosos e comendo tranqueiras numa lanchonete blindada de vidros, tendo ao lado um parque com ar de verdade, gramados para piquenique e liberdade para criar. Quando a publicidade promete: “Você vai chegar lá!”, contribui para esse desvio de atenção do aqui e agora para um lugar que, na verdade, não existe, da mesma forma que não existem limites para a ambição material. O momento presente se reduz, enfim, a um mero trampolim para o momento seguinte onde supostamente estará o sucesso, o futuro pronto, a felicidade parcelada no cartão. Não é difícil imaginar o quanto de vazio e de crise de identidade pode advir dessa corrida para futuro nenhum. Para lembrar onde colocamos a chave do carro, temos que estar presentes no ato: “Vou colocar estas chaves aqui neste lugar!”. E não será o quanto foi gasto ou o nome da grife por trás do evento vivido que tornarão nossas lembranças mais ou menos valiosas, mas sim a capacidade de vivê-las. Proteger nossas crianças da compulsão consumista é contribuir também para que elas cresçam sem perder um capítulo sequer da história que estão construindo. É possibilitar que contemplem a riqueza de cada experiência, do modo como um Drummond, entre tantos igualmente atentos à vida, nos ensina a contemplar, emocionando com tão pouco e gastando absolutamente nada: “Meu pai montava a cavalo, ia para o campo. Minha mãe ficava sentada cosendo. Meu irmão pequeno dormia. Eu sozinho menino entre mangueiras lia a história de Robinson Crusoé, comprida história que não acaba mais” * Maria Helena Masquetti é graduada em psicologia e comunicação social, possui especialização em psicoterapia e realiza atendimento clínico em consultório desde 1993. Exerceu a função de redatora publicitária durante 12 anos e hoje é psicóloga do Instituto Alana.
A favela do Morro do Vidigal, no Rio de Janeiro, vista parcialmente desde sua parte baixa. Em uma área no alto, mora Celina Maria de Souza. Foto: Fabíola Ortiz/IPS

Inter Press Service - Reportagens

Desenvolvimento humano no Brasil avança entre dívidas históricas


por Fabíola Ortiz, da IPS

[caption id="attachment_117885" align="aligncenter" width="529"] A favela do Morro do Vidigal, no Rio de Janeiro, vista parcialmente desde sua parte baixa. Em uma área no alto, mora Celina Maria de Souza. Foto: Fabíola Ortiz/IPS[/caption]   Rio de Janeiro, Brasil, 31/7/2014 – Diariamente, Celina Maria de Souza acorda antes do sol nascer e, após deixar quatro de seus filhos na escola próxima, desce os 180 degraus que separam sua empinada moradia da parte plana do Rio de Janeiro, para ir trabalhar como doméstica e voltar a subi-los horas depois. Celina, de 44 anos, vive há 25 no alto da favela do Morro do Vidigal, encravado em uma das zonas residenciais mais rica do Rio de Janeiro. Nesta favela de aproximadamente dez mil habitantes as casas, muitas construídas pelos próprios moradores, se comprimem entre o mar e a vizinha montanha. Originária de Ubaitaba, na Bahia, Estado do Nordeste brasileiro, mil quilômetros ao norte do Rio de Janeiro, com apenas 17 anos Celina deixou sua família para perseguir o sonho de uma vida melhor em uma grande cidade. Foi parte do contingente de migrantes que por décadas fugiram da seca do Nordeste em direção ao sul industrial. “Estou cansada de viver na favela. Sonho em ter um dia uma casa com um quarto para cada filho. Digo a eles para serem responsáveis e estudarem para que não sofram mais tarde. Gostaria de voltar a estudar, mas é difícil encontrar tempo”, contou à IPS. Mãe de seis filhos com idades entre 12 e 23 anos, os dois mais velhos já emancipados, Celina tem renda mensal de aproximadamente US$ 450. Quase metade provém do Bolsa Família, o programa de transferência da renda criado por Luiz Inácio Lula da Silva (2003-2010) quando chegou à Presidência e que é mantido por sua sucessora, Dilma Rousseff. Em 2013 o programa completou dez anos como a principal política social deste país de 200 milhões de habitantes. Beneficia 13,8 milhões de famílias, que equivale a 50 milhões de pessoas, justamente a quantidade que se estima ter tirado da pobreza extrema. Entretanto, 21,1 milhões de brasileiros ainda vivem na miséria, de acordo com os últimos dados oficiais, referentes a 2012. A Associação Internacional de Seguridade Social (Issa), com sede na Suíça, premiou em outubro o Bolsa Família por seu combate à pobreza e apoio aos direitos dos mais vulneráveis. Segundo a Issa, constitui a maior transferência de renda do mundo, com custo de apenas 0,5% do produto interno bruto. O orçamento do programa em 2013 foi de US$ 10,7 bilhões e atualmente integra o Plano Brasil Sem Miséria. [caption id="attachment_117886" align="aligncenter" width="540"] Por longas escadarias, com as deste trecho da favela Pavão-Pavãozinho, descem e sobem diariamente os moradores dos empinados bairros pobres do Rio de Janeiro. Foto: Fabíola Ortiz/IPS[/caption]   “Tinha ouvido falar dele e me diziam que era um subsídio que o governo dava para as crianças matriculadas nas escolas e vacinadas. Vivíamos muito mal, não tínhamos o que comer”, disse Celina. Há uma década seus filhos se beneficiam do Bolsa Família. Inicialmente recebiam cerca de US$ 40 no total. Celina se casou duas vezes, mas cria sozinha seus filhos após se separar do último marido. “Este dinheiro me ajuda muito. Criticam dizendo que é uma esmola, mas não vejo assim. Também é preciso trabalhar. Com a Bolsa Família compro material escolar, comida, roupa e sapatos para meus filhos. Não dá para todos, mas ajuda muito”, afirmou. Ela não esquece os dias que passou com fome e até algumas noites sem teto, junto com os dois filhos mais velhos, quando se separou pela primeira vez. “Eu dizia a eles: comam porque só de ver vocês, já me alimento”, recordou. Agora, vivem cinco em uma casa de apenas dois cômodos. Quase sem estudos, Celina luta contra a pobreza e busca que seus filhos tenham melhores oportunidades mediante trabalhos quase sempre informais, embora quando chegou ao Rio tenha trabalhado um tempo em uma fábrica de acessórios femininos. Celina é um dos incontáveis exemplos de brasileiras e brasileiros que tentam garantir para sua família uma melhor qualidade de vida, enquanto o país tenta mitigar os passivos históricos de muitos anos de atraso em seu desenvolvimento humano. Esse esforço lhe permitiu melhorar sua posição no Índice de Desenvolvimento Humano (IDH), divulgado este mês pelo Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento (Pnud), onde o Brasil está em 79º lugar entre 167 países estudados. Na América Latina, o Brasil é superado por Chile (41), Cuba (44), Argentina (49), Uruguai (50), Panamá (65), Venezuela (67), Costa Rica (68) e México (71). Andréa Bolzon, coordenadora do Atlas de Desenvolvimento Humano no Brasil, disse à IPS que o país avançou notavelmente nos últimos 20 anos. O Atlas realiza a contribuição nacional ao Informe sobre Desenvolvimento Humano, que inclui o IDH. O tema de 2014 é “Sustentar o progresso humano: reduzir vulnerabilidades e construir resiliência”. Segundo Bolzon, por trás da melhora, “há políticas que foram implantadas, como o aumento do salário mínimo, as medidas afirmativas para a redução das desigualdades raciais, a promoção do emprego e o próprio Bolsa Família”. O IDH, criado em 1980, mede a expectativa de vida e de saúde, os níveis de educação e renda. Em 2013, o Brasil registrou 73,9 anos de expectativa de vida, média de 7,2 anos de escolaridade e renda bruta por pessoa de US$ 14.275. No ano passado, o IDH do Brasil cresceu 36,4% em relação a 1980, quando a expectativa de vida era de 62,7 anos, a média de estudo de 2,6 anos e a renda por pessoa de US$ 9.154. “O Brasil é um dos países que mais evoluíram no desenvolvimento humano nos últimos 30 anos”, disse o representante residente do Pnud no Brasil, Jorge Chediek, durante a apresentação dos dados em Brasília. Porém, continua sendo muito desigual, destacou Bolzon. “É preciso investir nos sistemas públicos universais de qualidade, especialmente em saúde e educação, pois têm efeitos em todos os demais indicadores”, destacou. Justamente, o aumento dos anos de estudos entre as famílias é uma mudança visível, afirmou Bolzon. “O vemos entre as gerações de uma mesma família. As pessoas que estudaram pouco têm filhos que estudam mais anos, há uma grande diferença em termos de escolaridade”, acrescentou. Este é o caso de Celina e sua família. Ela estudou até a quinta série do primário e hoje sua filha mais nova, de 12 anos, já está no sexto ano. “Quase não estudei. Tive que parar aos 12 anos para trabalhar para ajudar meus pais a levar comida para casa. Quero que meus filhos tenham muito mais do que eu tive, que tenham boa educação e um bom emprego”, afirmou. Isis, sua filha, sabe das penúrias de sua mãe e dos seus esforços para melhorar suas vidas. “Gosto do colégio e de estudar matemáticas. Quando volto, ajudo minha mãe e arrumo a casa. Ela diz para estudarmos muito para termos um futuro melhor. Conheço sua história e faço isso”, contou à IPS, com um sorriso. Envolverde/IPS


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O secretário-geral Ban Ki-moon fala aos jornalistas no dia 28 deste mês sobre o conflito armado em Gaza e reitera seu pedido de um cessar-fogo humanitário, imediato e incondicional. Foto: UN Photo/Mark Garten

Tic-tac diplomático encobre a agressão de Israel a Gaza

[caption id="attachment_117881" align="aligncenter" width="529"] O secretário-geral Ban Ki-moon fala aos jornalistas no dia 28 deste mês sobre o conflito armado em Gaza e reitera seu pedido de um cessar-fogo humanitário, imediato e incondicional. Foto: UN Photo/Mark Garten[/caption]   Nações Unidas, 31/7/2014 – O único órgão político e com capacidade de decisão da Organização das Nações Unidas (ONU) se mantém impotente e quase paralisado diante do conflito armado entre Palestina e Israel, enquanto o número de mortos continua aumentando em Gaza e redobram as acusações de crimes de guerra contra o governo israelense. É possível que essa falta de ação seja uma opção. O Conselho de Segurança da ONU, único órgão que representa a comunidade internacional com poderes juridicamente vinculantes, não adotou nem mesmo uma resolução sobre o conflito, que já dura 22 dias e matou cerca de 1.250 palestinos em meio à destruição generalizada de moradias e escolas. Depois de uma sessão extraordinária à meia-noite, com o objetivo aparente de demonstrar uma falsa sensação de urgência, os 15 países membros do Conselho de Segurança acordaram, no dia 29, lançar uma declaração presidencial, que alguns diplomatas presentes em Nova York desqualificaram chamando de “brincadeira de mau gosto”. Um diplomata asiático disse que “ninguém, e menos ainda as partes em guerra, leva a sério essas declarações do Conselho de Segurança”. As declarações presidenciais não são juridicamente vinculantes e são feitas quando não há consenso entre os Estados membros. Um moderado projeto de resolução, copatrocinado por Jordânia e os Estados árabes, circula há duas semanas, mas não obteve apoio suficiente para chegar à mesa de negociações. Desde o início da última ofensiva contra a Faixa de Gaza, o governo israelense deixou claro que sua capacidade para manter os ataques depende do apoio internacional, afirmou Mouin Rabbani, coeditor da Jadaliyya, uma revista eletrônica do Instituto de Estudos Árabes, que tem sedes em Washington e Beirute. “É o que eles chamam de ‘tic-tac do relógio diplomático’, ou seja, o massacre pode continuar com impunidade só enquanto o Ocidente seguir disposto a lhe dar seu apoio político”, explicou à IPS. Como o Conselho de Segurança se nega a enviar a Israel a mensagem de que o massacre deve cessar e que haverá consequências se não o fizer, na prática se estende o período de carência para que continue seus bombardeios em massa na Faixa de Gaza, afirmou Rabbani, que também é editor colaborador da revista Middle East Report, com sede em Washington. Isto, naturalmente, reflete principalmente o apoio às ações israelenses por parte de Estados Unidos, França e Grã-Bretanha, três dos cinco membros permanentes do Conselho de Segurança junto com China e Rússia, mas também de outros membros, prosseguiu Rabbani. Como era de se prever, os três países ocidentais mantiveram o apoio a Israel e não aprovariam uma resolução acusando esse país de crimes de guerra, nem imporiam uma zona de exclusão aérea sobre Gaza ou solicitariam uma comissão internacional de investigação sobre as mortes de civis. Navi Pillay, alta comissária das Nações Unidas para os Direitos Humanos, disse que a ofensiva militar de Israel em Gaza pode equivaler a crimes de guerra. Também criticou os “ataques indiscriminados” do movimento islâmico palestino Hamas. “Parece que existiria uma forte possibilidade de se ter violado o direito internacional de uma maneira que poderia constituir crimes de guerra”, declarou Pillay, em Genebra, na semana passada, durante uma sessão especial do Conselho de Direitos Humanos para analisar a situação em Gaza. Esse Conselho, de 47 Estados membros, votou a favor de uma investigação internacional dos supostos crimes de guerra no conflito de Gaza. Mas Israel se negou a cooperar na aplicação da resolução, que foi rechaçada exclusivamente pelos Estados Unidos. “Washington não agirá contra Israel no Conselho de Segurança devido à consolidada influência do lobby pró-Israel no Congresso norte-americano”, disse Abba A. Solomon, autor de O Discurso, e Seu Contexto: o Discurso de Jacob Blaustein “O Significado da Divisão da Palestina Para os Judeus dos Estados Unidos”. O governo de Barack Obama opera em um contexto em que as duas casas do Congresso aprovaram por unanimidade resoluções de apoio absoluto à ação militar de Israel contra Gaza no começo de julho, explicou à IPS. Desde os anos 1940, as organizações judias norte-americanas cultivaram as relações com os funcionários eleitos a fim de buscar e proporcionar apoio político e financeiro, prosseguiu Solomon, que durante anos investigou a forma como o sionismo norte-americano acumulou poder a partir dessa década. “Essas organizações aceitaram que a defesa das posições israelenses faz parte de suas funções”, afirmou. Em épocas de crise, essas relações valem seu peso em ouro para o governo israelense, segundo Solomon. O apoio dos Estados Unidos obstrui o que neste caso seria uma ação humanitária, a resolução do Conselho de Segurança para proteger a população civil assediada, acrescentou. Historicamente, Washington argumenta contra aprovar as condenações da ONU às ações militares israelenses porque estas “deixariam valentes” os rivais árabes de Israel, disse o pesquisador. Para Rabbani, os Estados ocidentais no Conselho de Segurança priorizam acima de tudo o suposto direito de Israel à legítima defesa, enquanto o governo israelense declarou expressamente que seu objetivo é causar um dano de tal magnitude na Faixa de Gaza que gere a rebelião popular contra o Hamas. “Falar do direito de Israel à autodefesa nessas circunstâncias, quando mais de mil civis palestinos não combatentes morreram no que só pode ser classificado de um ato premeditado e deliberado de assassinato em massa, e quando a grande maioria de baixas israelenses foi de combatentes uniformizados, é muito mais do que obsceno”, afirmou Rabbani. “Constitui um apoio ativo e, portanto, com cumplicidade direta, aos crimes de guerra israelenses, mesmo sem considerar as numerosas formas diretas e indiretas com que estes Estados apoiam Israel”, acrescentou. Estes países entregam ajuda militar, econômica e política a Israel, dão acesso preferencial aos seus mercados para produtos elaborados nos assentamentos dos territórios ocupados e permitem que os cidadãos israelenses cometam crimes de guerra com o uniforme das forças de defesa israelenses, afirmou Rabbani. O especialista disse que o papel do Conselho de Segurança é o de preservar e proteger a paz e a segurança internacionais, e que, novamente, falhou nesse sentido. E o fez uma vez mais na questão da Palestina, um conflito no qual a ONU tem uma responsabilidade única em sua criação e solução. “De fato, isto demonstra uma vez mais a incapacidade do Conselho para servir como um guardião significativo da paz e da segurança internacionais em sua forma atual”, ressaltou Rabbani. Solomon disse à IPS que Washington tem a necessidade imperiosa de evitar as acusações no Congresso de que “traiu” Israel, seu “aliado estratégico mais importante no Oriente Médio”. Por isso, o poder militar e financeiro dos Estados Unidos, e seu poder de veto no Conselho de Segurança, controla o que pode ser feito, inclusive em momentos de uma carnificina extrema. Envolverde/IPS


por Thalif Deen, da IPS
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Idec lista evidências de racionamento de água em SP e cobra Alckmin, Arsesp e Sabesp

Pesquisa do Instituto Brasileiro de Defesa do Consumidor traz relato de falta diária de água e queda na qualidade; Ministério Público deu prazo de dez dias para que governo do estado se posicione. O Idec (Instituto Brasileiro de Defesa do Consumidor) enviou na última terça-feira uma carta à Arsesp (Agência Reguladora de Saneamento e Energia do Estado de São Paulo), ao governador do estado de São Paulo Geraldo Alckmin e à Sabesp (Companhia de Saneamento Básico do Estado de São Paulo) com dados de campanha realizada desde 26 de junho que revelam regiões da cidade de São Paulo que têm sofrido com falta de água. No documento, a entidade revela que, dentro da campanha "Tô Sem Água", recebeu 14 relatos por dia de ocorrências de falta de água, sendo que 27% dos 494 relatos recebidos alegam que houve falta de água todos os dias, ao menos uma vez por dia. Segundo a maior parte dos reclamantes (74%), o período de maior racionamento é à noite, e as regiões mais afetadas são a Oeste (27%) seguida de Leste (24%) e Norte (23%). Quase 60% dos participantes afirmaram ainda que perceberam que a água que recebiam em suas residências estava comprometida. Segundo Claudia Almeida, advogada do Idec e responsável pela campanha, em comunicado, os dados tornam urgente a conclusão da investigação da agência para apurar o que ocorre com a rede de distribuição de água. "A campanha recebeu uma média de 14 reclamações por dia, ou seja, está evidente que o racionamento está ocorrendo. (..) A falta de água tem sido um fato notório e a necessidade de ser declarado o estado de racionamento é imprescindível, pois o abastecimento de água é um serviço essencial e deve ser tratado com prioridade pelo Estado e em total respeito aos direitos que regem a adequada prestação de serviço, como o direito à informação, direito a transparência e tratamento igualitário.” Na última segunda-feira, 27, o Ministério Público Federal (MPF) em São Paulo recomendou que Alckmin e a Sabesp apresentem projetos de racionamento nas regiões atendidas pelo Sistema Cantareira com fins de evitar um colapso do conjunto de reservatórios. Ambos têm prazo de dez dias para informar que providências pretendem tomar em relação à recomendação. Segundo nota, o MPF não descarta adotar medidas judiciais caso a medida não seja atendida. A recomendação está baseada em um estudo da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp) que indica que o volume do Sistema Cantareira pode secar totalmente em menos de cem dias. Desde o dia 15 de maio, a Sabesp tem captado a água do chamado volume morto – camada mais profunda dos reservatórios – onde há maior concentração de poluentes como metais pesados, bactérias, fungos e vírus. * Publicado originalmente no site Carta Capital.


por Redação da Carta Capital
Estrada de acesso ao petróleo dentro do bloco 31 em Yasuní. Foto: Ivan Kashinsky

Desmatamento aumenta em Yasuní com os planos do Equador de abrir parque nacional para exploração de petróleo

[caption id="attachment_117900" align="alignright" width="350"] Mapa dos blocos de petróleo dentro do Parque Nacional de Yasuní. Cortesia de Finer, Pappalardo, Ferrarese, De Marchi (2014) ao Mongabay.com[/caption] O Parque Nacional Yasuní tem sido o centro das atenções nas questões de conservação nos últimos anos, com a exploração de petróleo ameaçando as florestas e a vida selvagem desse hotspot de biodiversidade. Recentemente, as perturbações no parque podem ter aumentado. Dados de satélite mostram um crescimento nos alertas de desmatamento dentro do Parque Nacional Yasuní desde 2011. Map of oil blocks within Yasuní National Park.O aumento nos danos florestais na região coincide com uma serie de atividades de extração de petróleo perto dos locais onde os alertas de desmatamento se mostram agrupados. O Parque Nacional Yasuní, estabelecido em 1979, cobre aproximadamente 982 mil hectares e fica no centro de uma pequena zona onde a diversidade de anfíbios, aves, mamíferos e plantas vasculares está entre as maiores do Hemisfério Ocidental. Por causa disso, o parque está entre os lugares mais biodiversos do mundo, com um grande número de espécies endêmicas e ameaçadas. Por exemplo, é lar de uma espécie de morcego (Lophostoma yasuni) não encontrada em nenhum outro lugar do mundo. Contudo, o Parque Nacional Yasuní também abriga cerca de 846 milhões de barris de petróleo. Apesar de seu estado de área protegida, companhias de energia têm explorado o Parque Nacional Yasuní para extração de petróleo desde os anos 1970. Entretanto, suas porções mais remotas ainda estão intocadas. Pesquisas indicam que os campos de petróleo do Yasuní contêm cerca de 20% das reservas de combustível fóssil do Equador, particularmente em uma porção do parque chamada de bloco ITT (Ishpingo-Tambococha-Tiputini). Uma proposta de proteção chamada Iniciativa Yasuní-ITT foi lançada pelo presidente Rafael Correa na Assembleia Geral da ONU em 2007. A iniciativa manteria esses blocos intocados se doadores internacionais pagassem metade da renda esperada da extração de petróleo – US$ 3,6 bilhões – a um fundo fiduciário estabelecido pelo Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento. A comunidade internacional prometeu cerca de US$ 330 milhões, embora tenha depositado apenas US$ 13 milhões, antes de Correa encerrar formalmente a iniciativa em 2013. [caption id="attachment_117901" align="alignleft" width="324"] Alertas FORMA no Parque Nacional de Yasuní têm aumentado nos últimos anos. A imagem mostra no quadro de cima os alertas registrados em janeiro de 2012 e no de baixo os alertas de julho de 2014. Cortesia do Global Forest Watch.[/caption] Dados do Global Forest Watch mostram crescentes distúrbios no parque, com 1.416 alertas do FORMA (Monitoramento Florestal para Ação, imagem ao lado) de 2011 a junho de 2014. A maioria dos alertas fica localizada perto dos poços de petróleo nas regiões norte e central – ou partes dos blocos de petróleo 14 e 16. O bloco 14 está atualmente sob o controle da chinesa Andres Petroleum Company, enquanto o bloco 16 é da Repsol. Alertas FORMA são usados para determinar áreas de prováveis danos florestais via dados de sensoriamento remoto e informações de satélite de fontes como Google e NASA. Além da exploração de petróleo, outras atividades humanas estão impactando o Parque Nacional Yasuní. “O desmatamento não é causado apenas pela extração, mas também pela influência externa de outros agentes/indústrias – incluindo comércio de drogas, caça/venda ilegal de animais e extração ilegal de madeira”, falou Pamela Martin, professora da Universidade Costeira da Carolina, que conduziu uma pesquisa sobre florestas equatorianas, ao mongabay.com. De acordo com Martin, madeireiros ilegais estão cortando árvores em regiões cada vez mais profundas do Yasuní, e no processo construem estradas que estão permitindo que as pessoas invadam ainda mais a floresta. [caption id="attachment_117902" align="alignright" width="370"] Estrada de acesso ao petróleo dentro do bloco 31 em Yasuní. Foto: Ivan Kashinsky[/caption] “As estradas construídas no parque aumentaram a colonização nessas áreas”, disse ela. “Um resultado de tais estradas e dos impactos de desmatamento associados, além das armas para caçar, é o excesso de caça e a captura ilegal de animais.” Conservacionistas há muito tempo se opõem à extração de petróleo, madeira e outras atividades de desmatamento dentro do parque por causa das ameaças que eles impõem à biodiversidade. Mas Martin afirma ainda que as comunidades que vivem em isolamento voluntário no parque, tais como os Tagaeri e os Taromename, também podem ser impactadas pela perda florestal, já que seus lares estão expostos para o mundo exterior. Além de fornecer habitat vital, as florestas tropicais no parque também agem como reguladoras climáticas e hídricas. Então, à medida que o petróleo é extraído e queimado, a carga de gases do efeito estufa na atmosfera aumentará, agravando o aquecimento global. “Em longo prazo, as atividades que promovem desmatamento, tais como extração, terão que ser equilibradas com a norma global de bem-estar - sumak kawsay - para as sociedades, a natureza e o planeta”, declarou Martin. Em 2005, o Ministério do Meio Ambiente do Equador decidiu que a exploração de petróleo no parque seria apenas permitida se nenhuma estrada fosse construída. No entanto, em maio de 2014, um grupo de cientistas argumentou que a Petroamazonas, uma enorme firma de petróleo no Equador, construiu uma estrada no parque, violando um estudo de impacto ambiental. [caption id="attachment_117903" align="alignleft" width="360"] Mapa de Matt Finer, Clinton Jenkins e Holger Kreft[/caption] “O Ministério do Meio Ambiente [do Equador] precisa pedir da Petroamazonas uma explicação de como e por que eles simplesmente violaram flagrantemente os termos do Estudo de Impacto Ambiental e a licença”, falou o coautor do relatório, Matt Finer, da Associação de Conservação do Amazonas, ao mongabay.com em uma entrevista anterior. Linha do tempo do desenvolvimento da extração de petróleo em Yasuní Agosto de 2011: A porta-voz Yvonne Baki lança uma campanha midiática para reviver a Iniciativa Yasuní-ITT. 2012: Estradas são vistas dentro do bloco 31, alegadamente desenvolvidas pela Petroamazonas. Janeiro de 2013: O projeto da usina de energia hidrelétrica de Huapamala é lançado. Fevereiro de 2013: O presidente Rafael Correa é reeleito para um terceiro mandato com mais de 57% dos votos. Nesse ponto, o governo do Equador havia arrecadado US$ 330 milhões para a Iniciativa Yasuní-ITT (com US$ 13 milhões depositados). Agosto de 2013: Correa encerra a Iniciativa Yasuní-ITT e começa a abertura do parque para a extração de petróleo. Ele declarou na televisão que a iniciativa não havia tido sucesso, uma vez que apenas uma porção relativamente pequena dos fundos necessários havia sido arrecadada. “Assinei o ato para o encerramento do fundo fiduciário Yasuní-ITT, colocando um fim na iniciativa protecionista”, disse ele, definindo sua decisão como “uma das mais difíceis que alguém pode tomar”. Setembro de 2013: A comunidade internacional envia petições e cartas a embaixadores equatorianos em muitos países para se oporem ao cancelamento da Iniciativa Yasuní-ITT. Junho de 2014: A aprovação para perfuração de petróleo é concedida pelo governo equatoriano depois que tentativas de ativistas de criar um referendo nacional sobre a questão foram rejeitadas pelo Conselho Nacional Eleitoral do Equador. A perfuração em grande escala está marcada para começar em 2016. Julho de 2014: De acordo com o jornal The Guardian, documentos vieram à tona revelando que o governo do Equador estava buscando instalar uma usina de energia para explorar os campos de petróleo de Yasuní enquanto ainda apoiava supostamente a Iniciativa Yasuní-ITT. * Tradução: Jéssica Lipinski,do Instituto CarbonoBrasil. ** Publicado originalmente no sie Mongabay e retirado do site CarbonoBrasil.


por Shaira Panela, do Mongabay
A Conservas Linken conta com equipe de dez funcionários, apoia 85 agricultores familiares e evita que centenas de vidros sejam descartados em lixões e na natureza. Foto: Rodrigo Lorenzon

“Somos sustentáveis por questão de necessidade”, destaca dono das Conservas Linken

[caption id="attachment_117908" align="aligncenter" width="450"] A Conservas Linken conta com equipe de dez funcionários, apoia 85 agricultores familiares e evita que centenas de vidros sejam descartados em lixões e na natureza. Foto: Rodrigo Lorenzon[/caption]   Quem diz que os pequenos negócios não combinam com a sustentabilidade, ainda mais quando encontram-se distantes dos grandes centros urbanos, precisa conhecer a história da Conservas Linken, uma micro empresa do norte de Minas que produz alimentos em conserva, é parceira de agricultores familiares e implanta logística reversa de vidros em Januária. O case de sucesso foi apresentado nesta quarta-feira, 30 de julho, durante o quarto Seminário Sebrae de Sustentabilidade, em Cuiabá. Fundada em Janaúba no final de 1999, a empresa nasceu de uma crise financeira enfrentada pela família Linck Warken. Para sair dela, dona Isabel, a mãe, começou a produzir conservas de hortaliças, baseadas em receita antiga passada entre gerações. O produto que fazia sucesso com as visitas criou clientela, salvou a família e conquistou mercado. O nome da empresa é a soma da primeira e última sílabas dos dois sobrenomes. A ausência de conservantes químicos nas Conservas Linken, a parceria com agricultores familiares, que fornecem hortaliças frescas, e o sistema de logística reversa dos vidros, utilizados para envasar os deliciosos alimentos, são alguns diferenciais da pequena e exemplar empresa sustentável do norte de Minas. A garra da família também, pois sem ela nada teria acontecido. Hoje, a Conservas Linken conta com equipe de dez funcionários, apoia 85 agricultores familiares, evita que centenas de vidros sejam descartados em lixões e na natureza, comercializa seus produtos em todas as regiões brasileiras e está prestes a começar a exportar. Como um todo No final de 2012, foi um dos seis destaques finais do Prêmio Sebrae MG de Práticas Sustentáveis 2012. “ Depois da premiação, as vendas cresceram 30%, os contatos aumentaram e gerou imagem positiva para a marca. Ser reconhecido é muito bom”, comemora Felipe Warken, o segundo filho da família e administrador da empresa. “Ser sustentável é enxergar o negócio como um todo. O empresário deve enxergar o negócio como um ciclo, senão nada funciona, inclusive o lucro não chega”, aconselha o jovem empresário. O carro-chefe do empreendimento é a pimenta biquinho, que conquistou recentemente um cliente alemão, e deverá inserir a Linken na pauta de exportações brasileiras. A empresa também produz conservas de pepino, mini milho, batatinha, cebola, mini quiabo, mini jiló, tomate seco, pequi, alho, outros tipos de pimenta (dedo de moça, malagueta, cumari, bode, jalapeña), entre outros. O sucesso das Conservas Linken se deve a vários fatores. O principal deles é a receita de família, segundo Felipe. “A salmora que usamos é nosso segredo guardado a sete chaves”, diz ele. As hortaliças colhidas no campo e o fato de serem envasadas em 24 horas e sem conservantes químicos, é outro. “Não passa pelo processo de pré-conservação como ocorre com os produtos industrializados. Assim conseguimos manter o sabor original das hortaliças. Os conservantes que usamos são sal e vinagre”, revela. Parceria Outro diferencial destacado pelo empresário é a parceria com os pequenos produtores agrícolas. A família Linck Warken trabalhou na agricultura, durante anos. Apoiar os agricultores familiares faz parte dos princípios da empresa. A Linken fornece adubo, sementes e aragem do solo nas duas primeiras colheitas. “Como aconteceu conosco, o agricultor nasce quebrado. Conhecemos essa realidade. Fizemos a empresa sem contar com crédito”, ressalta Felipe. As verduras e legumes são semiorgânicos, informa. Compostos orgânicos, esterco e alguns inseticidas são usados no cultivo das hortaliças. Ainda não é possível produzi-los totalmente orgânicos, acrescenta. No início, o empreendimento contava com poucos parceiros no campo, que acreditaram no trabalho da família. Atualmente, 85 agricultores familiares fornecem a matéria-prima, informa o empresário orgulhoso. “Meu pai sempre acreditou em cooperativismo. É o que estamos fazendo. Estamos crescendo juntos ”, acrescenta. A sede de 300 m² é alugada e a meta é comprá-la. “Nossa linha de produção é japonesa”, diz ele brincando. No momento, a produção é de 1,5 mil unidades/ dia. Logística reversa Os vidros utilizados no envasamento das Conservas Linken são adquiridos de uma empresa paulista que faz coleta seletiva. “Sai 50% mais barato do que comprar vidros novos”, argumenta Felipe. A empresa promove logística reversa como as cervejarias fazem, compara ele. O empreendimento compra vidros de 300 ml por R$ 0,25/cada e de 2k por R$ 1,50 para reutilização. “Até cliente traz vidro a nossa porta e descontamos a diferença no produto”, explica. "Somos sustentáveis por necessidade. Estamos longe dos insumos, como tampas e potes, ou seja, um problema de logística - fui obrigado a me adaptar ao meio em que estava. A reciclagem do vidro e das embalagens de papelão, portanto, é fundamental", acrescenta o empresário, que conclui: "a sustentabilidade precisa ser vivida pelos empreendedores, entrar na vida deles, porque a tentação de fazer o mais fácil e só pensar em si é muito grande." Assista ao vídeo sobre a Conservas Linken: * O repórter viajou a convite do Centro Sebrae de Sustentabilidade. ** Publicado originalmente no site EcoD.


por Murilo Gitel, do EcoD
O estudo comparou as taxas de desmatamento medidas pelo Inpe em municípios que entraram na lista de desmatadores. Foto: Leonardo F. Freitas

Estudo analisa impacto de políticas públicas sobre redução no desmatamento

[caption id="attachment_117928" align="aligncenter" width="450"] O estudo comparou as taxas de desmatamento medidas pelo Inpe em municípios que entraram na lista de desmatadores. Foto: Leonardo F. Freitas[/caption]   Um estudo conduzido por pesquisadores brasileiros buscou avaliar se diferentes níveis de fiscalização ambiental na Amazônia Legal tiveram impacto sobre a redução recente nas taxas de desmatamento da região. A pesquisa mostra que esses esforços de fiscalização intensa e específica evitaram até 10.653 km2 de desmatamento. Essa redução evitou ainda a emissão de 1,44 × 10-1 Pg de carbono. Tal diminuição de emissões provenientes de atividades que desmatam e degradam florestas, especialmente em países em desenvolvimento, são uma importante estratégia para reduzir os impactos das mudanças climáticas. Para chegar aos resultados, o estudo comparou as taxas de desmatamento medidas pelo Inpe em municípios que entraram na lista de desmatadores – divulgada pelo Ministério do Meio Ambiente – com as de municípios fora dessa lista. Os municípios da lista sofreram embargos e sanções a partir do ano de 2009 como forma de penalização pelos altos índices de desmate. No período de três anos (2006-2008) antes da implementação de políticas, os 43 municípios na lista de embargo do MMA foram responsáveis por quase metade do desmatamento total de 38.764 km2 na Amazônia brasileira. Resultados encorajadores Esses municípios desmataram em média cerca de 435 km2 nesse período, em comparação com apenas cerca de 28km2 dos municípios fora da lista. Já entre 2009 e 2011, o desmatamento caiu em ambos os grupos, mas foi mais pronunciado no grupo de municípios embargados (redução de 60%) do que no grupo fora da lista (47%). Embora esses resultados sejam encorajadores, é importante notar que o Brasil ainda precisa enfrentar desafios significativos para continuar a obter êxito neste sentido em virtude das mudanças recentes no Código Florestal, de investimentos maciços em empreendimentos hidrelétricos, redução de Áreas Protegidas e da demanda crescente por produtos agrícolas. Segundo Paulo Barreto, pesquisador do Imazon e coautor do estudo, "o aumento de 28% na desmatamento entre 2012 e 2013 evidencia a necessidade de reforçar as políticas que funcionaram no período avaliado neste trabalho". Para conferir o estudo, clique aqui. * Publicado originalmente no site EcoD.


por Redação do EcoD
Três agricultores analisam o traçado do Grande Canal Interoceânico sobre o mapa da Nicarágua, que a empresa chinesa HKND Group apresentou na cidade de Rivas, durante um encontro com afetados pela gigantesca obra. Foto: José Adán Silva/IPS

Nicarágua aposta seu progresso no sonho de canal interoceânico

[caption id="attachment_117850" align="aligncenter" width="529"] Três agricultores analisam o traçado do Grande Canal Interoceânico sobre o mapa da Nicarágua, que a empresa chinesa HKND Group apresentou na cidade de Rivas, durante um encontro com afetados pela gigantesca obra. Foto: José Adán Silva/IPS[/caption]   Manágua, Nicarágua, 30/7/2014 – Víctor Sánchez não quer ouro nem um futuro de folga econômica como lhe prometeram. Só exige que permitam que viva como sempre fez em sua propriedade às margens do rio Las Lajas, precisamente por onde passaria a projetada rota do Grande Canal Interoceânico da Nicarágua. Sánchez, de 59 anos e pequeno agricultor do departamento de Rivas, disse à IPS ignorar os detalhes da megaobra que o governo apresenta como solução definitiva para que o país deixe de ser o segundo com maior pobreza da América Latina, atrás do Haiti, segundo o Banco Mundial. Sua única preocupação é que vão tirá-lo das terras onde vive desde sempre com sua extensa família e que não recebe por sua propriedade, como disse no dia 15 deste mês aos representantes da empresa HKND Group, que ganhou a concessão para o canal, durante um encontro na Universidade Internacional de Agricultura e Pecuária de Rivas. Diante do público local, os técnicos chineses, apoiados por tradutores e funcionários nicaraguenses, apresentaram na cidade de Rivas, capital departamental, os detalhes do gigantesco projeto: um canal que ligará os oceanos Pacífico e Atlântico através de uma faixa aquática de 278 quilômetros de comprimento, dos quais 105 passariam sobre o lago Cocibolca. Os números e dados do projeto apresentados aos nicaraguenses são descomunais: com valor atualizado de US$ 50 bilhões, o canal terá largura de até 520 metros e profundidade mínima de 27,6 metros e máxima de 30 metros. As estimativas falam em 5.100 embarcações por ano cruzando a rota em 30 horas de trânsito. A KHND, por meio de Pang Kwok Wai, subdiretor do Departamento de Gestão de Construção, explicou à cidade, que fica 110 quilômetros ao sul de Manágua, que a obra começará em dezembro no município de Brito, em Rivas, na costa do Pacífico. Este departamento será dividido em dois, e uma parte de sua população será deslocada e reassentada. Em Rivas também será criada uma zona de livre comércio de 29,2 quilômetros quadrados, quatro complexos turísticos, uma cidade de 140 mil habitantes, um aeroporto internacional com capacidade de armazenar milhares de toneladas de carga, um porto de águas profundas, pontes gigantes e outros subprojetos, no jargão da HKND. Em junho de 2013, o governo de Daniel Ortega outorgou à HKND Group a concessão de um Canal Interoceânico por 50 anos prorrogáveis pelo mesmo prazo, porque, argumentou, o projeto transformaria para sempre a economia deste país centro-americano, onde 42,5% da população de 6,1 milhões de pessoas vive em condições de pobreza e 70% dos trabalhos são na área informal. O presidente do Conselho Nacional de Universidades e integrante da Comissão Especial do Grande Canal, Telémaco Talavera, explicou à IPS que para executar a obra serão abertas grandes empresas industriais que demandarão mão de obra nacional: 50 mil empregos diretos durante a construção e 200 mil postos fixos a partir de 2019, quando se estima o canal estará completado. A HKND também anuncia novas fábricas de aço, cimento, dinamite, asfalto, combustível e energia. O governo nicaraguense estima que as obras farão com que o produto interno bruto do país, que foi de US$ 11,2 bilhões em 2013, acelere seu ritmo de crescimento dos atuais 4% ou 5% para 10,8% em 2015 e 15% no ano seguinte. A companhia assegura que encomendou à gigante de engenharia China Railway Construction Corporation os estudos de viabilidade técnica, à norte-americana McKinsey & Company a análise da informação e à britânica Environmental Resource Management as avaliações de impacto social e ambiental. Técnicos da HKND repetem em reuniões públicas e privadas na Nicarágua e na China que o grupo convidou empresários de China, Rússia, Grã-Bretanha, Estados Unidos, Alemanha, Bélgica e Austrália para apoiarem o projeto. O canal agita as esperanças econômicas de milhares de nicaraguenses, segundo duas pesquisas nacionais sobre o projeto. Uma delas, da MyR Consultores, revelou este mês que 31,3% dos nicaraguenses pensam que essa obra trará entre “algum e muito beneficio”. Outra pesquisa, do Barômetro das Américas, como parte do projeto de opinião pública da América Latina da Universidade de Vanderbilt, dos Estados Unidos, apresentado em Manágua esse mês, mostra que 72,8% dos entrevistados destacam como potencial benefício a geração de empregos com as obras do canal. Mas, ao mesmo tempo, 43,4% dos entrevistados temem pelos danos ambientais que a obra produzirá, segundo a análise preliminar do informe apresentado em Manágua pelo pesquisador Kenneth Coleman, da Universidade de Michigan, e Arturo Maldonado, da Universidade de Vanderbilt. Este mesmo temor atinge dezenas de ambientalistas e organizações não governamentais, como a Fundação Nicaraguense para o Desenvolvimento Sustentável, que sob a direção do biólogo Jaime Incer, assessor ambiental da Presidência nicaraguense, se opõem à obra com o argumento de que afetará irremediavelmente o lago Cocibolca. Este corpo de água é o maior da América Central, com 8.624 quilômetros quadrados de água doce. Segundo as estimativas da organização, as obras do canal afetariam 400 mil hectares de selva e mangues. Incer afirmou à IPS que a Nicarágua outorgou à HKND a autoridade sobre o lago e suas periferias, onde convergem mais de 16 bacias hidrográficas e 15 áreas protegidas que concentram 25% das florestas úmidas do país. A HKND ainda não concluiu seus estudos de impacto ambiental, mas já definiu a rota que o canal atravessará e a construção de um lago artificial de 400 quilômetros quadrados, mais 41 depósitos gigantes ao longo da rota para armazenar a terra removida. Outro aspecto criticado pelos opositores ao projeto é a falta de transparência em torno de seus financiadores. Quem são e como operam?, questionam. O grupo e seus executivos na Nicarágua, bem como os responsáveis nicaraguenses pelo projeto, evitam revelar a identidade de seus sócios comerciais. “O fundo está assegurado, mas é confidencial, esses assuntos são segredos empresariais, especialmente pelas empresas que estão operando em bolsas de valores”, explicou Pang, da HKND. Talavera pontuou à IPS que o importante neste momento é explicar à população os alcances da megaobra e garantir os benefícios para o país. “Sobre o financiamento será informado em seu momento se assim os sócios determinarem”, afirmou. A negativa da companhia em revelar os dados dos sócios e a origem dos fundos gerou dúvidas e deu lugar a conjecturas como a do deputado opositor Eliseo Núñez, que insinua que por trás estaria o governo da China, suspeita que a HKND negou sempre em suas intervenções. Envolverde/IPS


por José Adán Silva, da IPS
angra 3 out 13

Geração de energia nuclear cai quase 7% em 17 anos

Um relatório independente aponta para a retração do setor de energia nuclear ao redor do mundo, alcançando um nível não visto há vinte anos; situação da usina em Fukushima é considerada como instável O novo ‘Relatório Mundial de Status da Indústria Nuclear – Uma avaliação independente dos avanços nucleares no mundo’ afirma que esse tipo de energia está em declínio, caindo de 17,5% da geração total de energia em 1996 para 10,8% em 2013. Atualmente, 388 reatores estão em operação, 50 a menos do que em 2002, quando foi registrado o maior número até agora. A fatia global da fonte nuclear na produção comercial de energia primária caiu ainda mais em relação a 2012, de 4,5% para 4,4% neste ano, um nível não alcançado desde 1984. A nova publicação, produzida por pesquisadores independentes, também mostra que a capacidade total instalada atingiu seu pico em 2010 com 376 GW antes de declinar para o nível atual, sendo que muitos projetos foram cancelados e novos programas indefinidamente adiados. Além da redução no número de reatores ativos, o relatório constatou que eles estão envelhecendo, sendo que a idade média em julho de 2014 era de 28,5 anos. Uma inovação importante do relatório é que ele nota que há distorções nas estatísticas mundiais sobre a energia nuclear devido “a motivações políticas”. Três anos após o trágico acidente em Fukushima, os dados da geração nuclear no país continuam sendo “mal-representados”, já que os 48 reatores japoneses atualmente inativos devido à pressão pós-acidente são considerados pela Agência Internacional de Energia Atômica como “em operação”. Isso equivale a 11% do que a AIEA considera como a ‘frota’ nuclear mundial. Para contornar essa divergência, os autores resolveram adotar o conceito de Long-Term Outage (LTO). Um reator é considerado em LTO se não gerou nada de energia em todo o ano anterior e no primeiro semestre do atual ano. O Greenpeace comemorou a nova publicação e seus dados: “Quando iniciamos o blog ‘reação nuclear’ em 2008, tudo o que a indústria nuclear e seus apoiadores falavam era da iminência da ‘renascença’ nuclear – um boom na construção de novos reatores após anos de estagnação.” A Associação Nuclear Mundial chegou a prever que 11 mil novos reatores seriam construídos até o final do século, lembra a ONG. Mas o relatório mostra que algo mudou. Em julho de 2014, 67 reatores estavam sendo construídos, um a mais que no ano anterior, com uma capacidade total de 64 GW. O Greenpeace ainda lembra que o tempo médio de construção das unidades é de sete anos, porém, oito reatores já estão em construção há mais de 20 anos. Pelo menos 49 tiveram atrasos, em grande parte significativos. Dois terços das unidades em construção estão em três países: China, Índia e Rússia. “Considerando o baixo nível de desenvolvimento nuclear nos últimos 15 anos, é surpreendente que órgãos como a Agência Internacional de Energia continuem a presumir em seus cenários de descarbonização que haverá um aumento significativo no uso de energia nuclear”, conclui o relatório. O que mudou? O relatório mostra que, na França, os custos da geração de energia nuclear subiram 16% em termos reais em três anos, e que várias unidades foram fechadas nos Estados Unidos porque a receita já não cobria mais os custos operacionais. A sobrevivência econômica das usinas nucleares também está ameaçada na Bélgica, Alemanha e Suécia. Além disso, é apontado que as energias renováveis estão tomando o espaço da nuclear. Apenas em 2013, 32 GW de fontes eólicas e 37 GW de solar foram adicionados à rede mundial de energia. Até o final de 2013, a China tinha uma capacidade instalada de 91 GW de eólicas e 18 GW de solar, superando pela primeira vez a nuclear – o país adicionou quatro vezes mais energia solar do que nuclear no último ano. Pela primeira vez, as turbinas eólicas se tornaram a maior fonte geradora de energia na Espanha e na Alemanha. É interessante ressaltar que o relatório comenta sobre o tão falado fator de variabilidade na geração das fontes renováveis, como eólica e solar, combatendo esse argumento. No caso da energia nuclear, a publicação aponta que as usinas não operam continuamente, e, inclusive, grande parte tem passado por desligamentos não planejados durando mais de um ano. A variabilidade na geração renovável geralmente pode ser projetada tão precisamente quanto se prevê a demanda por eletricidade, pondera o relatório ressaltando que mesmo assim, “a energia eólica e solar estão se tornando significativas”. Fukushima A situação dos reatores da usina de Daichii em Fukushima é considerada como instável. Terremotos continuam e as pessoas permanecem preocupadas que um abalo maior do que o de março de 2011 possa ocorrer. O governo afirma que levará 40 anos para retirar do local o combustível nuclear dos três reatores danificados, porém, como citado anteriormente, a unidade é frágil, constatam as avaliações. O relatório traz uma lista de desafios que Fukushima ainda tem que enfrentar. Entre eles está lidar com enormes quantidades de água radioativa geradas cotidianamente. Mais de mil tanques foram construídos no local, e muitos estão vazando. Além disso, é preciso garantir que os reatores e edifícios danificados suportem potenciais terremotos muito mais potentes, esvaziar piscinas no 4º e 5º andar, que estocam combustível usado, e transferi-lo para locais seguros, descobrir onde os invólucros dos reatores estão quebrados, impedir vazamentos para o subsolo, oceano e atmosfera, entre outros. Tudo isso precisa ser feito em meio a uma severa falta de mão de obra, já que os operadores mais capacitados estão rapidamente atingindo seu limite de exposição à radiação. Américas Em nosso continente, o relatório aponta que a Argentina atualmente opera três reatores nucleares. O mais recente foi conectado à rede em 27 de junho de 2014. O Brasil tem dois reatores ativos que forneceram 13,8 TWh em 2012, ou 2,8% da produção total (em 2001 a fatia era de 4,3%). Porém, uma terceira usina está em construção desde 1984 com interrupções, a chamada Angra-3 (Créditos da foto: Eletronuclear). Segundo o relatório, em 2010 a Comissão de Energia Nuclear do Brasil emitiu uma licença para a retomada da construção. Em 2011, o BNDES aprovou R$ 6,1 bilhões para os trabalhos e, em novembro de 2013, a Eletronuclear assinou um contrato de € 1,2 bilhão (cerca de R$ 3 bilhões) com a francesa AREVA para completar a usina, que deve estar pronta em 2018. * Publicado originalmente no site CarbonoBrasil.


por Fernanda B. Muller, do CarbonoBrasil
Foto: Rodrigo Lorenzon

Produção e consumo sustentável são debatidos em seminário do Sebrae

[caption id="attachment_117938" align="alignleft" width="380"] Foto: Rodrigo Lorenzon[/caption] Empresários mostram como boas práticas podem ser um diferencial na hora de captar clientes Cuiabá/MT – O dilema produção e consumo sustentável foi tema do segundo “Diálogos” do Seminário Sebrae de Sustentabilidade, na manhã desta quarta-feira, 30/07, no Centro de Eventos do Pantanal. Para debater o assunto, sob a mediação do jornalista Dal Marcondes, foram convidados representantes das duas pontas da cadeia produtiva, Paulo Pianez, da rede de supermercados Carrefour, segunda maior do mundo; e o empresário Felipe Warken, da pequena empresa de Conservas Linken, instalada em Janaúba, no Vale do Jequitinhonha, em Minas Gerais. Para compor o grupo, o representante do Instituto Ethos, Henrique Lian. Segundo ele, “as empresas precisam ser tocadas para desenvolverem uma consciência ecológica, mas como empresas não têm coração, elas são impulsionadas pela competitividade e pelo lucro”. Ao falar sobre o trabalho desenvolvido na rede Carrefour, Pianez disse que o comportamento do consumidor está mudando e apresentou dados de uma pesquisa sobre o tema. O levantamento aponta que 77% dos consumidores têm muito interesse em saber como as empresas tentam ser sustentáveis; 53% dos ouvidos disseram que deixariam de comprar sua marca preferida se soubesses que o fabricante faz algo prejudicial à sociedade ou ao meio ambiente; e 37% dos brasileiros estão dispostos a pagar mais caro por produtos com selo ambiental. Felipe Warken confessa que implantou sustentabilidade na empresa por necessidade, sobretudo por estar localizada em uma região distante mil quilômetros dos locais onde comprava embalagens para envazar as conservas. “Começamos a fazer logística reversa a partir desta dificuldade. É simples, os consumidores levam um vidro vazio e deixam ao comprar o produto”, conta, acrescentando ainda que as caixas utilizadas para embalar os produtos são resíduos de outras empresas. “Viramos as caixas do avesso e reutilizamos. Não é possível ter uma uniformidade de cores, mas isso não importa”. Segundo ele, é muito difícil implementar sustentabilidade nas micro e pequenas empresas. “Assim como o empreendedorismo, a sustentabilidade tem que entrar na veia, porque as tentações para não fazer são muitas”. O Seminário Sebrae de Sustentabilidade termina nesta quinta-feira, 31/07, com dois painéis, o primeiro sobre uso eficiente de energia nas empresas e o segundo com o tema certificação empresarial e competitividade. * Publicado originalmente no site Centro Sebrae de Sustentabilidade.


por Centro Sebrae de Sustentabilidade

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Utilize a água usada na lavadora de roupa para lavar o chão da área de serviço, do quintal e da cozinha.
Utilize sabão ou detergente biodegradável, que não poluem os rios porque se decompõem mais facilmente.
Evite a geração de lixo e a produção desnecessária de produtos. Cancele as correspondências que você não lê.
Recolha as roupas do varal com cuidado para não amassar muito e depois dobre. Isso facilita na hora de passar e reduz o tempo de uso do ferro.
Economize. Permanecer 15 minutos com a mangueira aberta pode gastar até 280 litros de água.
Procure ler seus e-mails na tela do computador. Não imprima nada sem absoluta necessidade.
Prefira tecnologias limpas e de baixo consumo energético.
Diminua custos de limpeza, adotando produtos biodegradáveis e receitas caseiras

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