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Sociedade

Ser jovem não é fácil


por Ladislau Dowbor*

O transporte numa cidade como São Paulo é sem dúvida caótico. Anos de poder de empreiteiras e montadoras articuladas com políticos fisiológicos a seu serviço nos deram muitos viadutos, túneis e ruas paralisadas por 7 milhões de veículos. A apropriação da política urbana pelos sucessivos malufismos gerou uma estagnação do transporte coletivo. O Paulistano perde uma média de duas horas e quarenta minutos no trânsito por dia. E na ausência de transporte de massa decente, quem mora na Capela do Socorro acorda às 5 da manhã para chegar na hora ao emprego, volta para casa às 9 e adormece no sofá vendo bobagens. Vida de família? Não tenho aqui a pretensão de explicar a juventude, nem de dar conselhos sobre os movimentos. Mas o contexto dá para delinear. Há tempos ajudei a organizar um livro para as Nações Unidas, Cities for Children, ou seja, cidades para crianças. Recusaram o título que eu propus inicialmente, que era “Administrando as Cidades como se as Crianças fossem Importantes” (nota 2). A realidade é que crianças e jovens representam um terço da população, mas as políticas urbanas foram organizadas para a faixa etária superior, e para as elites. Não se trata de 20 centavos, trata-se de um saco cheio generalizado com o caos urbano gerado, que transtorna a qualidade de vida das pessoas, e dos jovens em particular. Não é tão difícil assim colocar-se no lugar do jovem. Sai da escola sem nunca ter visitado uma empresa, uma repartição pública, uma organização da sociedade civil. A separação radical entre as fases de estudo e do trabalho, produz uma geração de jovens desorientados, à procura da sua utilidade na vida. Se cruzarmos esta situação com as dinâmicas do trabalho, a ausência de perspectivas torna-se muito forte, a não ser em alguns grupos privilegiados. Na realidade, no processo produtivo onde os conhecimentos passam a desempenhar um papel preponderante, em vez de estudo e trabalho serem etapas distintas da vida, devem crescentemente constituir um processo articulado onde aquisição de conhecimentos e a sua aplicação produtiva devem enriquecer-se permanentemente. Isto se organiza. Sentir-se inútil numa fase da vida em que o jovem chega disposto a fazer e acontecer, gera sem dúvida um sentimento de profunda frustração. Poder fazer uma coisa útil parece constituir um favor, alguém “deu” um emprego. Uma pesquisa nos Estados Unidos mostrou que no conjunto, o who you know (quem você conhece) tornou-se um fator mais importante de avanço profissional do que o what you know (o quê você conhece, as suas competências). O mundo para o jovem passa a ser visto como um universo opaco e fechado, gerando desânimo e passividade, e frequentemente revolta e violência. Esta tendência tem de ser colocada numa perspectiva mais ampla. As nossas crianças e os nossos jovens são criados num referencial de família muito frágil: com os dois pais no trabalho, o trabalho distante da casa, casais frequentemente separados, o silêncio no binômio sofá-televisão: constrói-se assim muito pouco balizamento entre o bem e o mal, muito pouco sentido de vida. Nos Estados Unidos apenas 25% dos domicílios têm pai, mãe e filhos. O joy-stick basta? A grande solução apresentada seria o tempo integral da criança na escola, em nome da educação, mas liberando os pais no horário completo. Um outro universo que contribuía muito para a construção de valores era a rua, a vizinhança. Ali, não era ainda o mundo¸ mas também já não era a família, ali a criança e o jovem testavam a sua presença social, delimitavam gradualmente os valores da amizade, o peso das rivalidades, construíam os seus espaços de sociabilidade. Hoje, nenhuma mãe em sã consciência diz à criança que vá brincar na rua. Fica sossegada quando as crianças estão sentadas no sofá, comendo salgadinho, e vendo “vale tudo por dinheiro”. Porque na rua é o perigo, são as drogas, as gangues, os acidentes de carro, o medo. Não inserimos mais as crianças no mundo, buscamos apenas protegê-las. E quando chega o momento inevitável de sua inserção, desabam sobre elas desafios difíceis de suportar. Os pais perdidos entram em intermináveis discussões sobre se devem ser mais permissivos, ou colocar mais limites, sorrir ou gritar, e terminam, quando têm dinheiro, lamentando-se com o analista. O analista pode sem dúvida ajudar quando os problemas são individuais, mas não resolverão grande coisa quando se trata de um processo socialmente desestruturante. A escola pequena, de bairro, frequentada por pessoas que convivem de uma maneira na escola, e de outra nas ruas da vizinhança, mas pertencendo ao mesmo tecido de relações sociais, era outro espaço de construção de referências. Boa parte disto subsiste no interior. Nas grandes cidades, e frente a uma construção escolar onde se buscam absurdas economias de escala (quanto maior, mais barato), gera-se um universo de gente que só se encontra na escola. Os universos sociais do local de residência e do local de estudo só se cruzam eventualmente. Na própria classe média, é patético ver mães que passam horas no trânsito para levar uma criança a brincar com outra no outro lado da cidade, porque já não aguenta a solidão em casa. E no outro lado da cidade, o coleguinha terá os mesmos videogames, o mesmo “vale tudo por dinheiro” na televisão. Se juntarmos os efeitos de desestruturação do referencial familiar, da ausência do referencial de vizinhança, e da perda da presença social local da escola, e acrescentarmos o cinismo dos valores martelados horas a fio na televisão, que valores queremos que eles tenham? Os pais ficam indignados: eles bebem, eles fumam, eles se drogam, eles transformam o sexo numa aeróbica banalizada, eles não vêm sentido nas coisas...O que é que nos fizemos para dar sentida às suas vidas? Todos nós estamos ocupados em ganhar a vida, em subir nos degraus absurdos do sucesso¸ como é que as crianças vão entender o nosso sacrifício como útil? A compreensão de que se matar de trabalho para construir uma vida sem sentido, ainda que com a garagem que ostenta um belo carro, e entulhada de esteiras de ginástica e outras relíquias de entusiasmos consumistas passageiros, sem tempo para fazer as diversas coisas que poderiam ser agradáveis, ou belas, – filtra gradualmente para dentro das nossas consciências, ainda que continuemos todos a correr sem rumo. Será que os nossos filhos realmente não vêm o absurdo das nossas próprias vidas? E que rumo isto aponta para elas? A verdade é que a vida reduzida a uma corrida individual pelo sucesso econômico, com a ilusão de que tendo sucesso, e por tanto dinheiro, compraremos o resto, é uma absurda ilusão que nos levou à civilização de guetos de riqueza e miséria que hoje vivemos. É significativo que em muitos lugares jovens, e até crianças, às vezes com apoio dos professores – outra classe á procura do sentido do que ensina – estão arregaçando as mangas e começando a tomar iniciativas organizadas. Vimos na Itália um movimento de crianças pela recuperação das praças. Um filme-reportagem feito pelas próprias crianças mostra a passeata, a negociação com a prefeitura, e o resgate progressivo de praças transformadas em estacionamento, para que voltem a ter água, árvores, espaço para brinquedos e jogos, uma dimensão de estética, de lazer, de convívio. Em muitas cidades já há câmaras-mirins, e não se podem aprovar projetos de espaços públicos sem o aporte do interesse organizado das crianças. Em muitos lugares, foram organizados trajetos seguros, acompanhando as principais rotas das crianças entre as escolas e lugares de lazer, parar melhorar a sua mobilidade e sentimento de liberdade na sua cidade: a tecnologia é simples, são aqueles passinhos pintados na calçada, semáforos, algum reforço de policiamento. O que estas experiências têm em comum, é o sentimento, por parte das crianças, de estarem recuperando o seu direito à cidade, à cidadania. Em Valparaíso, vimos uma experiência de crianças de rua que, com o apoio de uma ONG, passaram a resgatar os espaços vazios de um bairro, a organizar as suas próprias bandas de música, eventos culturais, a ponto que hoje as seis escolas formais do bairro se associaram ao projeto, e desenvolvem atividades de resgate dos espaços públicos, fazem aulas sobre meio-ambiente melhorando o próprio entorno, estudam ciências sociais melhorando o ambiente social do bairro. Aqui também, a cidade é deles, e fazer uma coisa útil e prazerosa não é o resultado de um emprego que lhes “dão”, mas de uma iniciativa que lhes pertence. O que isto aponta, na realidade, é a necessidade de evoluirmos de uma visão em que a organização social se resume a um Estado que faz coisas para nós, e de empresas que produzem coisas para nós, para uma visão em que a sociedade organizada volta a ser dona dos processos sociais, e articula as atividades do Estado e das empresas em função da qualidade de vida que procuramos. A expansão das organizações da sociedade civil, a força do terceiro setor, as políticas de desenvolvimento local e em particular do bairro, o resgate das funções sociais do Estado, o surgimento da responsabilidade social e ambiental das empresas, a crítica às grandes corporações da especulação financeira, do monopólio de produtos farmacêuticos, de comercialização de armas, o próprio surgimento muito mais amplo da noção de que um outro mundo é possível, pertencem todos a um deslocamento profundo de valores que estamos começando a sentir na sociedade em geral. Como indivíduos, podemos melhorar a nossa casa, batalhar o estudo para os nossos filhos, comprar um carro melhor. Mas as mudanças sociais dependem de organização social. O sentimento de desorientação é sentido como sofrimento individual, mas as raízes e as soluções são mais amplas. * Laidslau Dowbor é professor da PUC-SP, economista e consultor de várias agências das Nações Unidas. A presente nota se apoia no estudo mais amplo A Economia da Família, http://dowbor.org/2013/05/economia-da-familia.html/ ** Publicado originalmente no site Carta Maior.
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Sociedade

Transporte é mais caro para brasileiros


por Redação do Mobilize Brasil

Mobilize foi garimpar informações sobre o valor das tarifas e a renda média em outras cidades do mundo. Conclusão: ou a renda no Brasil é muito baixa ou a tarifa é alta.   Em meio aos debates e manifestações sobre o preço do transporte público no país, a equipe do Mobilize Brasil foi garimpar informações sobre o valor das tarifas em outras cidades do mundo. E concluímos que nas cidades brasileiras o custo relativo do transporte é alto, muito alto. Encontramos todos os dados reunidos no site Numbeo, que tem uma seção inteira dedicada ao custo de vida nas cidades. O site é uma plataforma colaborativa que reúne dados atualizados de milhares de localidades, incluindo qualidade de vida, trânsito, criminalidade, assistência e saúde, poluição, custos de viagem e vários outros indicadores. Selecionamos algumas cidades de vários continentes e verificamos a adequação das tarifas às rendas médias reais locais, tal como fizemos no Estudo Mobilize 2011 e na seção Acompanhe a Mobilidade. A ideia é mostrar quantos bilhetes de transporte se pode comprar com essa renda média. Finalmente, comparamos os resultados obtidos nas cidades mundiais com aqueles relativos às cidades brasileiras. No Brasil, com a renda média das cidades é possível adquirir cerca de 630 bilhetes de ônibus ou metrô, contra 1.581 de Nova York, 2.002 em Tóquio, ou 2.986 bilhetes na Cidade do México. Uma explicação para essa enorme diferença pode estar no baixo subsídio governamental ao transporte público, cerca de 12%, enquanto alguns países chegam a bancar 70% dos custos das tarifas, segundo o especialista Lúcio Gregori. A média brasileira está mais próxima de Lisboa, onde o salário médio de 850 Euros (R$ 2.422,50) pode comprar 608 bilhetes no valor médio de 1,40 Euros (R$ 3,99). Ou de Londres, onde as 2.000 Libras (R$ 6.700,00) do salário médio compram 667 bilhetes simples de metrô, ao valor de 3 Libras (R$ 10,05). Veja o gráfico abaixo, com a comparação das várias cidades e a tabela, que mostra os dados de cada localidade.     * Fontes: Numbeo (http://www.numbeo.com), IBGE,  Pesquisa Mensal de Emprego Abril/2013 e Banco Central (http://www4.bcb.gov.br/pec/conversao/conversao.asp)  ** Pesquisa, edição de dados e redação: Ricky Ribeiro, Henrique Rodrigues e Marcos de Sousa. *** Publicado originalmente no site Mobilize Brasil e retirado do site Mundo Sustentável.
Manifestantes fazem cordão de isolamento e tentam proteger Prefeitura

Notícias

Em breve, o preço da passagem será o menor dos problemas do poder público


por Leonardo Sakamoto*

“Sakamoto, seu comunista filho da puta! Eu vou te matar!” Ouvi isso de dois rapazes fortes e mascarados que estavam entre os que depredaram a entrada da Prefeitura de São Paulo, na noite desta terça (19), durante o ato contra o aumento nas passagens do transporte público em São Paulo. Comunista? Por sorte – ou azar, dependendo do ponto de vista – eles voltaram a se entreter com uma grade de segurança, feito gato com novelo de lã, junto com outros da sua espécie. O que foi bom, porque não pareciam do tipo que brincam em serviço. Logo antes, eles haviam entrado em confronto com um grupo de manifestantes que usou os próprios corpos em um cordão humano de isolamento, dando os braços, para proteger o prédio. Gritando “sem violência!”, permaneceram lá enquanto enquanto viam pedras serem arremessadas sobre suas cabeças contra as vidraças. Ouviam do grupo agressor – uma mistura de boladões bem-vestidos e uma molecada franzina, claramente mais simples – que estes eram “moralistas” e “coxinhas”. [caption id="attachment_90640" align="aligncenter" width="600" caption="Manifestantes fazem cordão de isolamento e tentam proteger Prefeitura"][/caption] Quando alguém me reconhece na rua (provavelmente pela cabeça inconfundivelmente grande) e vem conversar, normalmente discute algum texto ou ideia, concordando ou discordando em paz. Mas nesta noite fui surpreendido algumas vezes por um pessoal que – não duvido – grita “Anauê!” enquanto toma banho. São diferentes do pessoal extremamente politizado e consciente que vê a depredação de patrimônio como ação política, mas que não usam de violência contra pessoas (só para deixar claro que não concordo com esses métodos, antes que alguém me xingue). Após a pancadaria por parte da Polícia Militar, na última quinta (13), ter pegado mal para o poder público e as pesquisas de opinião (inclusive o hilário DataDatena) mostrarem que a maior parte dos paulistanos era favorável aos protestos, muita gente mudou o discurso com relação ao movimento pela redução do preço das passagens do transporte público em São Paulo. Vendo que o movimento ganhava força nas redes sociais, muito por conta da violência que manifestantes e jornalistas sofreram, trocaram o que – até então – era “vândalo” por “ativista”. Setores da mídia e da sociedade civil têm ajudado a incluir mais pautas às reivindicações, o que aglutinou outros grupos de descontentes aos atos. Para falar a verdade, quando vi algumas instituições conservadoras e reacionárias apoiando os protestos, fiquei com um arrepio na coluna. Isso não tira um milímetro de legitimidade das manifestações, mas preocupa a carona que alguns querem pegar. Páginas de extrema direita na internet, contrárias à pauta da manifestação, conclamando o povo para o ato são de doer. Seria apenas cômico se a coisa não fosse séria. O Movimento Passe Livre reforçou: este é um ato contra o aumento das passagens. O que, em qualquer sociedade minimamente decente, significa um transporte público com mais qualidade, ou seja, o respeito ao direto de ir e vir e à dignidade humana. “Ah, mas o movimento não consegue controlar a massa para garantir isso.” E nem é esse o trabalho deles. São as dores e delícias de uma ação horizontalizada. É claro que as manifestações chegaram a esse porte por reunir um leque muito amplo de pessoas. Inclusive gente que não concorda com o objetivo da manifestação e está lá com sua pauta própria. Bem, o direito à livre expressão faz parte da democracia. O objetivo principal do ato não é para pedir o impeachment de Haddad, Alckmin ou Dilma; não é recursos para educação, saúde e cultura – por mais que sejam pautas relacionadas ao direito à mobilidade urbana e importantíssimas; não é a favor ou contra o ovolacteovegetarianismo; não é pela volta da ditadura (sim, tem gente dodói da cabeça defendendo isso) ou a favor da redução de impostos; não é uma marcha contra a corrupção, a favor da contratação de reforços para o Palmeiras ou pela volta dos Teletubbies (adoro). Enfim, por mais que ela envolva descontentes de todos os cantos e com muitas reclamações, não é um grande “Cansei” contra o estado das coisas. Ela possui um guarda-chuva central, que mobiliza a maior parte das pessoas. Basta estar presente em um ato do começo ao fim para constatar isso. A maioria dos que gritam contra corrupção, pela saúde, pela educação, contra o pastor Feliciano, por mais teletubbies também entoam contra os 20 centavos. Há uma pauta principal, objetiva e clara, sem margem para grandes viagens filosóficas: a revogação do aumento da tarifa. É ela que reúne, é ela que justifica, é ela que conclama. Alguns políticos e outros setores econômicos e sociais podem até tergiversar, mas o povo sabe disso. O Datafolha indica, aliás, que 67% da população diz que o motivo dos protestos é o aumento no preço da tarifa. E 77% apoia as manifestações. Ao se articular pelas redes sociais após as manifestações dos dias 11 e 13, exigindo o direito de protestar, em muito por conta da violência da Polícia Militar, os jovens abriram uma avenida. E muita gente que defende a liberdade de expressão trouxe seu carro junto para rodar com a pauta do movimento. Estranho seria se não fizessem isso, dada a pluralidade da sociedade e a magnitude do evento. O Movimento Passe Livre e colegas jornalistas que têm coberto as manifestações já identificaram a ação de agitadores infiltrados que têm o objetivo de tocar o terror na manifestação. Para deslegitimá-la, para assustar participantes, para justificar ações da polícia, por um rosário de razões. É possível que o ataque à entrada da Prefeitura não tenha começado com os manifestantes que pediam a redução no preço da tarifa. O mesmo se aplica ao fogo que consumiu um carro de reportagem de TV. Da mesma forma, é difícil de acreditar que foram manifestantes que saquearam as lojas do Centro ou atingiram o Teatro Municipal (o saque também tem um significa político forte e claro, mas não creio que este era o caso). Essa minoria queria outra coisa. Há, é claro, manifestantes que descarregam sua frustração e indignação na forma de ataques a equipamentos públicos e patrimônio privado. Muita gente vinda da periferia que foi sistematicamente excluída da categoria de cidadã irrompe em fúria, bastando apenas uma faísca. Mais uma vez, não estou defendendo esses métodos, apenas explicando que entendo o que se passa na cabeça de alguém que não sente a cidade como sua, e a protege, porque a cidade nunca o tratou como um dos seus. Tem gente que sabe muito bem disso e, em algumas ocasiões, cria as condições dessa faísca. A força policial tem sido célere em agir contra manifestantes que caminham de forma pacífica. Contudo, demora para evitar saques ou destruição gratuita realizada por quem não está lá para reivindicar, mas sim promover o caos atendendo à sua pauta própria. Paga ou não. Por que? É uma boa pergunta a fazer aos comandantes das operações. Há uma grande quantidade de pessoas que nunca tiveram contato com discussões sobre a sua cidade, muitos menos sobre direitos fundamentais, que está caindo de paraquedas nos atos. Quem sejam cada vez mais bem-vindos. Concordo com quem diz que este é um excelente momento para formação política desse pessoal, a fim de que entendam o que está em jogo e transformem insatisfação, descontentamento e incômodo em ação com reflexão, espírito crítico e participação ativa e duradoura nos desígnios da pólis e do país. E também para evitar outros tipos de violências. Como as de gênero ou de orientação sexual, que podem parecer coisa pequena em meio à multidão, mas que são simbólicas e, portanto, fundamentais. Na manifestação desta terça, abordei educadamente um rapaz, próximo ao Parque Dom Pedro, que carregava um cartaz chamando Dilma de “vaca”. Pedi desculpas pela intromissão, mas expliquei que o protesto dele seria muito mais legítimo se ele usasse um termo para criticá-la que não fosse tão machista. Ele entendeu, ficou sem graça e disse que tinha escolhido só porque rimava com o restante da ideia. Contudo, um senhor mais velho que o acompanhava afirmou que ela é mesmo uma “vaca”. Perguntei a ele se gostaria que sua mãe fosse chamada de “vaca”, no que ele estranhamente respondeu que sabia que era professor de história e havia estudado a vida de Dilma e podia atestar que ela é uma “vaca”. Torci para uma das organizadoras da Marcha das Vadias passar naquele momento por ali para um processo rápido de desintoxicação do senhor em questão, mas como não tive o desejo atendido, tentei convencê-lo, em vão. Pouco depois, um rapaz gritava a plenos pulmões, com o apoio de um coro de moças, “Alckmin é gay!” Também fui conversar com eles (#sakamala). Perguntei por que não usavam outro termo para expressar o descontentamento contra o governador. Pois homossexualidade não deveria ser considerado xingamento. Apesar de uma resistência inicial, ao menos, parte do grupo, entendeu a mensagem. Ok, gente, não estou querendo provar que sou uma variação do “chato de palestra”, nesse caso o “chato de passeata”. Mas apenas reforçar algo que todos já perceberam: boa parte desse pessoal está saindo para a vida pública agora e seria importante enfatizar a eles que estes são atos suprapartidários, não apolíticos. Vi muitas cenas de jovens com caras-pintadas exigindo que bandeiras de partidos fossem abaixadas, o que é uma besteira sem tamanho. Há espaço para todas as denominações partidárias, religiosas, futebolísticas, desde que elas saibam que a manifestação não pertence a elas e não tente cooptá-la. Mas elas – como em qualquer outro momento na sociedade – têm o direito de participar do debate público, porque reúnem pessoas que pensam de uma mesma forma. A livre associação é um direito humano. Para exigir algo novo, não significa que é preciso considerar que tudo o que já existe é ruim (não acredito que estou escrevendo esse beabá, mas vá lá). Isso é muita arrogância e descolamento com a realidade. Muitos menos que todos os políticos são iguais – não, não são. Como eu já escrevi, o paradigma do sistema político representativo está em grave crise por não ter conseguido dar respostas satisfatórias à sociedade. Aos mais jovens, sobretudo. Bem pelo contrário, apesar de ser uma importante arena de discussão, ele não foi capaz de alterar o status quo. Apenas lançou migalhas através de pequenas concessões, mantendo a estrutura da mesma maneira e a população sob controle. A vanguarda dos progressistas foi ocupada por grupos que discutem as liberdades individuais e a qualidade de vida nas grandes cidades – da mobilidade urbana, passando pelas demandas de direitos sexuais e reprodutivos ao poder de dispor do próprio corpo. Os movimentos estão ainda no momento de tatear e descobrir como serão incorporados esses novos atores que vêm às ruas procurar não respostas para as suas indagações, mas encontrar as pessoas que, através das redes sociais, estavam perguntando a mesma coisa que elas. Enfim, as manifestações contra as tarifas estão crescendo porque são legítimas. E aglutinando gente. Que também protesta pelo direito de protestar. E, com isso, vai aglutinando pautas paralelas que atendem a demandas legítimas ou a interesses bizarros. Inclusive de gente que não quer debater e sim causar, sendo paga ou não para isso. Inclusive de gente que está lá porque ficou cansada de não ver perspectiva para si nos debates da ágora e está insatisfeita, pegando carona nas reivindicações do Passe Livre – que são bem claras. Quanto mais os políticos demorarem para dar uma resposta a essas reivindicações que originaram essas manifestações, mais estarão alimentando algo que ninguém sabe ainda onde pode parar. Ou seja, o preço da passagem será o menor dos seus problemas. * Publicado originalmente no site Leonardo Sakamoto.
Sexto ato contra o aumento das passagens de ônibus em São Paulo, que ocorreu ontem (18) em São Paulo

Sociedade

Marilena Chauí pede que Haddad quebre cartel de empresários de ônibus


por Redação da RBA

Em entrevista à Rádio Brasil Atual, professora da USP diz que revogação do aumento da tarifa de ônibus não resolve problema a longo prazo. Filósofa afirma que Haddad errou em demora para dialogar. [caption id="attachment_90670" align="aligncenter" width="624" caption="Sexto ato contra o aumento das passagens de ônibus em São Paulo, que ocorreu ontem (18) em São Paulo"][/caption]   São Paulo – A filósofa e professora aposentada da Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas (FFLCH) da USP, Marilena Chauí, avalia que a eventual revogação do aumento da tarifa de ônibus, embora importante, não resolverá o problema do transporte público de São Paulo. “Enquanto o prefeito não quebrar o oligopólio dos empresários de ônibus, vamos andar sempre mal das pernas, não vai funcionar, mesmo que no curto prazo ele atenda às exigências do movimento e revogue o aumento da tarifa. No longo prazo o problema não estará resolvido”, disse à Rádio Brasil Atual. Ela lembrou de quando era secretária municipal de Cultura, na gestão da prefeita Luíza Erundina (1989-93), quando foi elaborado o Projeto de Lei da Tarifa Zero, que pretendia custear o transporte público através de uma reforma tributária muncipal. “Erundina enfrentou a máfia dos ônibus, e uma reação em cadeia provocada pelos grandes empresários da construção civil e dos lojistas. Movimentos contrários dos chamados bairros nobres, como Cidade Jardim, Higienópolis, Moema, pipocaram. Foi uma coisa medonha no nível da sociedade civil, e os empresários de ônibus se mancomunaram com a Cãmara Municipal para impedir a aprovação do projeto.” Ontem o secretário municipal de Transportes, Jilmar Tatto, admitiu que os empresários são um grupo difícil de enfrentar. “São um setor atrasado, tanto que foram contra a criação do Bilhete Único. É um setor cartelizado. Hoje é muito difícil retirar um operador do sistema”, avalia. [caption id="attachment_90671" align="alignleft" width="300" caption="Chauí afirmou que as manifestações pela revogação do aumento das passagens são legítimas e justas"][/caption] Chauí afirmou que as manifestações pela revogação do aumento das passagens são legítimas e têm de estar na pauta dos movimentos sociais. “As manifestações não poderiam ser mais justas, significa que a luta pela dignidade do cidadão na luta pela educação, pela saúde, pelo trabalho, na moradia, tem de incluir aquilo que é condição de mobilidade, que é o transporte.” A professora, que é uma das conselheiras que esteve presente na reunião de ontem (18) do Conselho das Cidades, afirmou que a convocação do Movimento Passe Livre como participantes da reunião pelo prefeito foi democrática, mas ressalta que o prefeito Fernando Haddad (PT) demorou a agir. “As reações do governador Geraldo Alckmin e do prefeito foram diferentes, embora as duas demoradas. Alckmin reagiu com a polícia e com prisão. E Haddad foi pego de surpresa, demorou na resposta. Mas a atitude do prefeito foi de grandeza política porque ele chamou os movimentos, todas as lideranças, o conselho, o secretariado, para um debate transparente.” A filósofa ressalta, porém, que o momento atual de mobilização e protestos é importante para a democracia, mas não configura um momento histórico. “Não é momento histórico, é um instante politicamente importantíssimo, no qual a sociedade vem às ruas e manifesta sua vontade e sua opinião. Mas a ação política é efêmera, não tem força organizativa do ponto de vista social e política, não tem uma força de permanência, caráter dos movimentos sociais organizados, de presença organizada em todos os setores da vida democrática.” Ouça aqui a entrevista de Chauí à repórter Marilu Cabañas. * Publicado originalmente no site Rede Brasil Atual.


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Sete cidades reduzem preço das passagens de ônibus

Brasília - Com as manifestações em todo o país, pelo menos sete cidades vão reduzir as passagens do transporte público até o mês que vem: João Pessoa (PB), Recife (PE), Cuiabá (MT), Porto Alegre (RS) Pelotas (RS), Montes Claros (MG) e Foz do Iguaçu (PR). As reduções vão de R$ 0,05 a R$ 0,15 no valor das tarifas. Os governantes utilizarão reduções nos impostos para baixar os valores. Em Pernambuco, Eduardo Campos reduziu o preço da passagem de ônibus no Grande Recife. A redução será R$ 0,10 para todos os anéis - categorias em que são divididas as linhas de ônibus. Os novos preços começarão a valer no próximo dia 20. Os valores atuais variam de R$ 1,50 a R$ 3,35. Em João Pessoa, o prefeito Luciano Cartaxo anunciou a redução de R$ 0,10 na tarifa de ônibus na capital paraibana. O valor passará de R$ 2,30 para R$ 2,20 a partir do dia 1º de julho. Cuiabá vai reduzir em R$ 0,10 a tarifa do transporte coletivo. O novo valor, R$ 2,85, passará a valer a partir da meia-noite de quarta-feira (19). Em Pelotas haverá redução de R$ 0,15 e o novo valor R$ 2,60. A redução ocorreu por meio de decreto assinado pelo prefeito, Eduardo Leite. O prefeito de Montes Claros, Ruy Muniz, tomou a decisão de reduzir a tarifa em R$ 0,10. A partir de domingo (23), a redução passa a valer na cidade e a passagem passará de R$ 2,40 para R$ 2,30. Nas cinco cidades, a redução foi possível devido à Medida Provisória (MP) 617, de 31 de maio de 2013, do governo federal, que zera o Programa de Integração Social e de Formação do Patrimônio do Servidor Público (PIS/Pasep) e da Contribuição para o Financiamento da Seguridade Social (Cofins) incidentes sobre a receita da prestação de serviços de transporte coletivo de passageiros. Já em Porto Alegre, o prefeito José Fortunati, disse que vai enviar à Câmara Municipal um projeto de lei para reduzir a tarifa para R$ 2,80. A tarifa na capital gaúcha era R$ 3,05 e atualmente está fixada em R$ 2,85 por decisão liminar da Justiça. O projeto é para isenção do Imposto Sobre Serviços de Qualquer Natureza (ISSQN) e será encaminhado em regime de urgência. Além disso, Fortunati informou que vai apresentar ao governador do estado, Tarso Genro, um pedido de redução do Imposto sobre Circulação de Mercadorias e Serviços (ICMS) sobre o óleo diesel do transporte coletivo para de reduzir ainda mais a tarifa. O prefeito também vai aplicar a isenção do PIS/Pasep e Cofins prevista na MP 617. A redução em Foz do Iguaçu será R$ 0,05, segundo publicação no portal da prefeitura. Na última sexta-feira (18), prefeito Reni Pereira, anunciou durante a visita do governador Beto Richa (PSDB) à cidade o novo preço da passagem, que passa a valer ainda esta semana. Para o passageiro que usa o cartão eletrônico e que atualmente paga R$ 2,60, vai gastar R$ 2,55. Já para quem paga a tarifa com dinheiro, o valor será rebaixado de R$ 2,90 para R$ 2,85. A redução na cidade se deve a isenção da cobrança do Imposto sobre Circulação de Mercadorias e Serviços (ICMS) sobre o óleo diesel, anunciada pelo governo do estado em maio. Também serão contabilizadas as reduções das alíquotas previstas na MP 617. * Edição: Fábio Massalli ** Publicado originalmente no site Agência Brasil.


por Mariana Tokarnia, da Agência Brasil
n2

O que acordou o gigante

O país do futebol se demitiu. Bateu as portas e saiu gritando, entre outras coisas mais pesadas, que “o Neymar não vale mais que o professor”. A manifestação evoluiu tão rapidamente, do passe livre ao país livre, que pegou o mundo de surpresa e ainda será preciso “voltar a fita” muitas vezes para entender esse momento histórico. Mas já parece mais lógico do que ousado afirmar que não foram os 20 centavos que acordaram o país. O gigante acordou foi com sede. Falaram muito mal dos brasileiros quando, no início de 2011, as mobilizações articuladas pelo Facebook derrubavam presidentes nos países árabes, a começar por Tunísia e Egito, na chamada Primavera Árabe. Não muito depois, o agravamento da crise econômica mundial alastrou o desemprego por toda a Europa. Surgiram os “Indignados”, surgiu o “Occupy Wall Street” e a indignação popular ocupou o mundo – ou quase. Do lado de cá, os brasileiros consumiam o que ofertavam pela frente, com toda a fome de quem conheceu a pobreza. Juan Arías, correspondente do El País no Brasil, questionou a nossa apatia, no artigo “Por que o Brasil não tem indignados?” E a resposta é tão simples que já era um bordão em 1992, no contexto da disputa presidencial estadunidense: “é a economia, estúpido”. Escalada da inflação O brasileiro passou fome de consumo e nos últimos anos pôde experimentar um poder de compra praticamente anestesiante: entre 2004 e 2010, 32 milhões de pessoas ascenderam à categoria de classes médias e 19,3 milhões saíram da pobreza, segundo o governo federal. A nova classe média era o fenômeno da mídia e as notícias pareciam falar de extraterrestres: “nova classe média usa smartphone”, “nova classe C já faz compras pela internet”, “agora eles também apostam em intercâmbios – para Chile e Argentina”! Por trás do consumo faminto, no entanto, estava a inflação. Em escalada silenciosa. Um sinal claro de descontrole dos preços veio à tona com a alta de 122% no valor do tomate no acumulado do ano. Aqui e ali, as prateleiras dos mercados ficavam menos acessíveis, até que bastaram mais 20 centavos na tarifa de ônibus em São Paulo para pingar a gota d’água. Uma causa imediata para o protesto. Pequena, porque é só a última gota. E não há dúvidas de que é legítima: mais do que a gota que provoca o transbordo, ela é da mesma natureza das gotas que a antecederam: politico-econômica. Traduzindo, aquela sensação de que estão mexendo com a sua vida e você não pode fazer nada. Eu tenho a ver com isso Depois de descobrir que nada valhem as 1,6 milhão de assinaturas colhidas pela queda do senador Renan Calheiros e que Marcos Feliciano vai, sim, continuar na presidência da Comissão de Direitos Humanos da Câmara dos Deputados; foi a sede de participação que acordou o gigante. Também não podemos esquecer de articulações perigosas no governo federal que contrariaram todas as manifestações da vontade pública: o novo Código Florestal, a construção da usina hidrelétrica de Belo Monte, o final trágico do julgamento do mensalão com a tentativa do Legislativo se sobrepor ao Sistema Tribunal Federal, a lei contra os novos partidos e, para acabar (por enquanto), a PEC 37, encurralando o Ministério Público. Como detectou a ex senadora Marina Silva (http://www.youtube.com/watch?v=o3N-yWKYoRc), “por trás da tarifa, a revolta é por sermos apenas espectadores da política.” O que é horizontal se espalha Sob a bandeira “se a tarifa não baixar, a cidade vai parar”, o Movimento Passe Livre acabou lançando, em 7 de junho aqui em São Paulo, a convocação que faltava para o cidadão ocupar com os dois pés a cidade que, afinal de contas, já vive parada pelos carros. Essa semana começou com mais de 30 cidades brasileiras em protesto e outras oito cidades no exterior, pela Europa, Estados Unidos e ainda Sidney, na Austrália. Em Londres, havia mais de 7 mil pessoas em apoio ao movimento brasileiro. Mais de duzentas páginas no Facebook convocam os próximos atos. Os brasileiros seguem o exemplo dos indignados e do #occupy: não tem carro de som, não tem liderança, não tem pauta para negociação. E isso é justamente o que mais preocupa o governo federal, segundo declaração do ministro da secretaria-geral da Presidência, Gilberto Carvalho. O governo teme porque sabe que as revogações dos centavos nas tarifas não vão saciar o povo. E nem o povo sabe o que será suficiente para acalmá-lo novamente – tomara que não seja o tempo! Por trás da tarifa, uma democracia com participação A gota d’água da tarifa de ônibus serve como pauta simbólica. Por trás dela, dividem-se questões a serem investigadas seriamente. Para começar, o preço das passagens nos leva a perguntar para onde vai o dinheiro público. Ou seja, não levará muito tempo para o pleito da tarifa desembocar no maior pedido dos brasileiros: o combate à corrupção. A queda no conforto e na agilidade das viagens também nos faz questionar sobre a nossa qualidade de vida – que vai muito além da renda, para os governos desavisados – e qual o modelo de mobilidade urbana que queremos. É claro que tudo isso também se relaciona com a busca por um modelo de desenvolvimento mais sustentável, já que o consumo é o coração da mudança de paradigma e a mobilidade é o símbolo mais evidente da sustentabilidade nas cidades. Porém, uma condicionante essencial à sustentabilidade é a democracia, verdadeira e participativa, pois alicerça a maioria em torno do bem comum e daí tem meios para equilibrar o atual predomínio dos interesses econômicos sob os pilares social e ambiental. Só haverá sustentabilidade com democracia. E sim, a briga aqui ainda é por ela. *** *  Nota: trilha sonora. É de uma ironia bem vinda e vibrante que o jingle de um comercial de uma marca de carro, justamente!, tenha virado febre em uma manifestação pelo transporte público! Mas a música que recomendo para o momento foi lançada na decadência da Ditadura Militar de 1982. “É!”, de Gonzaguinha. É! A gente quer valer o nosso amor A gente quer valer nosso suor A gente quer valer o nosso humor A gente quer do bom e do melhor… A gente quer carinho e atenção A gente quer calor no coração A gente quer suar, mas de prazer A gente quer é ter muita saúde A gente quer viver a liberdade A gente quer viver felicidade… É! A gente não tem cara de panaca A gente não tem jeito de babaca A gente não está Com a bunda exposta na janela Prá passar a mão nela… É! A gente quer viver pleno direito A gente quer viver todo respeito A gente quer viver uma nação A gente quer é ser um cidadão A gente quer viver uma nação… * Ana Carolina Amaral é jornalista formada pela Universidade Estadual Paulista. Colunista de sustentabilidade, foi repórter de TV e de portais online, cobriu conferências internacionais como a C-40 e a Rio+20 e fez assessoria política e de 3o Setor. Atua há 12 anos em movimentos socioambientais e é moderadora da Rede Brasileira de Jornalismo Ambiental. ** Publicado originalmente o site Mercado Ético.


por Ana Carolina Amaral*
Senhora caminha em Nova York, próximo a um cartaz da campanha do Fundo de População da ONU (UNFPA) sobre o tema do crescimento populacional. Foto: ONU/Rick Bajornas

População mundial deve atingir 9,6 bilhões em 2050, diz novo relatório da ONU

[caption id="attachment_90664" align="alignleft" width="300" caption="Senhora caminha em Nova York, próximo a um cartaz da campanha do Fundo de População da ONU (UNFPA) sobre o tema do crescimento populacional. Foto: ONU/Rick Bajornas"][/caption] A população mundial de 7,2 bilhões de pessoas chegará a 9,6 bilhões em 2050, apontou um relatório da ONU divulgado na quinta-feira (13). Ele prevê que o crescimento será principalmente nos países em desenvolvimento. “Embora o crescimento da população vá diminuir como um todo, este relatório nos lembra que alguns países em desenvolvimento, especialmente na África, ainda estão crescendo rapidamente”, disse o subsecretário-geral da ONU para assuntos econômicos e sociais, Wu Hongbo. O relatório “Perspectivas da População Mundial: Revisão de 2012” observa que a população das regiões desenvolvidas permanecerá praticamente inalterada em torno de 1,3 bilhão até 2050. No entanto, a população dos 49 países menos desenvolvidos deve dobrar de cerca de 900 milhões de pessoas em 2013 para 1,8 bilhão em 2050. “Embora tenha havido uma rápida queda no número médio de filhos por mulher em grandes países em desenvolvimento, como China, Índia, Indonésia, Irã, Brasil e África do Sul, […] o rápido crescimento deverá continuar ao longo das próximas décadas em países com altos níveis de fertilidade como a Nigéria, o Níger, a República Democrática do Congo, Etiópia e Uganda, além do Afeganistão e Timor-Leste, onde há mais de cinco filhos por mulher”, disse o diretor da Divisão de População do Departamento de Assuntos Econômicos e Sociais da ONU, John Wilmoth. Ele acrescentou que a mudança nas taxas de fecundidade nas próximas décadas poderá trazer grandes consequências para o tamanho, a estrutura e a distribuição da população no longo prazo. O relatório observa que a Índia deverá se tornar o país mais populoso do mundo, passando a China por volta de 2028, quando ambos os países terão uma população de 1,45 bilhão. Depois disso, a população indiana deve continuar a crescer e a da China começará a diminuir. Enquanto isso, a população da Nigéria deve superar a dos Estados Unidos antes de 2050. Já a população da Europa deverá diminuir 14%, afirma o relatório, e Wilmoth alertou que o continente já está enfrentando desafios na prestação de cuidados e apoio para uma população em rápido envelhecimento. Expectativa de vida deve aumentar No geral, a expectativa de vida deverá aumentar nos países desenvolvidos e em desenvolvimento nos próximos anos. Em nível global, a previsão é de 76 anos no período entre 2045-2050 e 82 anos em 2095-2100. Até o final do século, as pessoas que moram nos países desenvolvidos poderão viver, em média, 89 anos, enquanto as que moram nas regiões em desenvolvimento devem viver cerca de 81 anos. Os dados do relatório são baseados em uma ampla revisão dos dados demográficos disponíveis de 233 países e regiões em todo o mundo, incluindo a rodada de censos populacionais de 2010. * Publicado originalmente no site ONU Brasil.


por Redação ONU Brasil
n5

Tarifa zero, planejamento urbano e ecologia

Foi só o ruído das ruas chegar aos ouvidos da nossa elite governante, que esta reagiu assustada diante da mobilização contra os aumentos nas tarifas de ônibus que grassava no país. Inicialmente reagiu de forma dúbia, mas logo exercitou o que melhor sabe fazer: arrefecer o clamor popular adotando discurso acolhedor à demanda para logo mais adiante nada fazer a respeito. E assim fica tudo como dantes. Será que dessa vez funcionará esse surrado estratagema político? A mobilidade urbana no contexto do Brasil moderno é um tema em torno do qual as elites se aferraram ao que existe de mais atrasado em todos os sentidos. Enquanto na saúde o povo conquistou duramente o SUS, a mobilidade urbana convive com o pior equipamento, vias e serviço, tudo em meio ao regime de concessão que dá, caso talvez único no mundo, garantia de exploração por décadas para um punhado de ‘empresários amigos’ dos governantes da hora, fiéis doadores de ‘contribuições eleitorais’, em ‘cadeia de corrupção e exploração’ que se fecha em círculo perfeito. As recentes tentativas de aumentos de passagens de ônibus, a par do barulho em rechaço a sofrer ainda mais hiper-exploração, colocaram como nunca a proposta da TARIFA ZERO na ordem do dia. Em resposta ao povo na rua, assistimos uma série de prefeitos de governadores acenarem com a diminuição (e não aumento como desejavam fazer) das atuais tarifas, oferecendo isenções fiscais de diversos tipos, fato que comprova uma única coisa que ao longo de décadas procuram negar: o transporte público pode ser oferecido gratuitamente por via de recursos públicos sim, desde que haja vontade política para tanto, pois recursos há de sobra. De sobra, pois são investidos em outros lugares que não mobilidade urbana, quesito que deixa o Brasil bem longe do seu lugar no panteão global do PIB. A ver pelos estádios de futebol e obras complementares para a Copa 2014 que receberão dezenas de bilhões de todos os governos ‘unidos pelo futebol profissional’ – municipais, estaduais e federal, há riqueza material como nunca houve na história ‘desse país’. Porém, não considerando o balanço ‘gastos na Copa X gastos com transporte público’, baixo uma situação ‘normal’ os orçamentos públicos podem sustentar perfeitamente os gastos para manter a ‘tarifa zero’, bastando para tanto inverter prioridades orçamentárias, deixar de lado gastanças em coisas que não interessam à melhoria da qualidade de vida para a grande maioria da população trabalhadora. Afinal, vivemos em um país rico, sexta economia do planeta, no qual se gasta em coisas inimagináveis em ‘modo perpétuo móbile’ de desperdício de dinheiro público. E isso não é dito por motivos óbvios: os atuais governantes foram eleitos em torno de outras propostas que não essa, com a qual não tem qualquer compromisso, simples assim, embora ela esteja presente há décadas e inclusive já foi testada no início dos anos 90 em São Paulo. De outra parte, os movimentos populares não conseguiram pressionar por avanços e conquistar melhorias substanciais nesse sentido nas décadas recentes, pois do contrário, teríamos muito mais que apenas três municípios, num país de 5.500, oferecendo ônibus e trens urbanos sem cobrança de tarifa e transporte público melhor na maioria de nossas cidades. Não é preciso salientar a significância social e humana da ‘tarifa zero’ enquanto melhoria no direito de ir e vir, enquanto direito de apropriação da cidade, enquanto economia no precário orçamento dos trabalhadores. Tudo isso é sobejamente sabido, pois a ‘tarifa zero’ equivale ao SUS na área de saúde: ela é o ‘SUS da mobilidade urbana’ – recurso à disposição de todos e usa quem quer. E, assim como tem o leito privado no hospital de luxo a disposição do rico, haverá o taxi de luxo para o rico que não quer se misturar com o ‘reles povinho’ que anda de ônibus. Mas também o rico, quando quiser, nada pagará no coletivo urbano, assim como no SUS. Tão importante quanto os quesitos acima, a implantação da ‘tarifa zero’ estimulará a demanda por transporte público coletivo numa sociedade dominada pelo ‘deus automóvel’, invertendo prioridades no espaço urbano, muitas vezes exíguo e saturado com equipamentos colocados a seu serviço, basta ver os imensos espaços de estacionamentos em nossas cidades. Além do possível resgate desses imensos espaços urbanos, que podem ser destinados a outras finalidades ‘mais nobres’ do ponto de vista da qualidade de vida e formação humana, eliminar automóveis nas ruas significa, acima de tudo, caminhar na despoluição da pestilenta atmosfera em nossas grandes cidades, fator que, por sua vez, consome imensos recursos na área de saúde pública. E desse modo, pode se abrir pouco a pouco os círculos viciosos que realimentam o atual estado de coisas e produzem o pestilento ambiente urbano. A quem interessa manter o sistema funcionando do jeito que está hoje? Na sociedade do consumo capitalista, na qual o dinheiro comanda todos os valores, as implicações de ordem ecológica são, via de regra, as menos lembradas, embora bem presentes e produzindo efeitos inquestionáveis, para o bem ou para o mal. O balanço energético, por exemplo, dentre outros quesitos, também mudará sob um regime de ‘tarifa zero’, pois milhares de automóveis deixarão hipoteticamente de rodar, deixando de consumir petróleo ou outros combustíveis, e isso interessa a toda a população que paga gordos subsídios à produção de energia, ainda que isso não seja do interesse dos produtores e de seus associados políticos e econômicos. Mas, se olharmos sob outro ângulo, ainda haverá uma possível mudança cultural como ‘efeito colateral’ na adoção da ‘tarifa zero’: o sentimento de coletividade, de pertencimento a uma sociedade, coisa tão fora de moda nos dias em que o mundo parece girar em torno do umbigo sob a égide do mais rastaqüera individualismo, obviamente associado ao domínio do ‘deus automóvel’. A atitude de deixar de pensar no carro para se locomover na cidade é resultado de uma pequena revolução mental, de valores de vida e atitude, e que induzem a alterações de comportamento, possivelmente como cuidar mais dos espaços públicos, das questões que afetam a todos no âmbito de uma comunidade. E, por mais incrível que pareça isso pode levar a uma maior politização, a um aumento no senso crítico no seio da população. A pergunta que decorre de um ‘noves fora’: isso tudo é desejável a elite que governa o país? É evidente que não, daí porque a constante tentativa de arrefecer a pressão popular, de adotar discursos ambivalentes, de procrastinar ao máximo a adoção de medidas que venham ao encontro de um novo rumo e que ensejem a quebra dos vínculos econômicos e políticos que as sustentam no poder. Como sempre, sua estratégia é fazer com que as mobilizações ‘morram na praia’. Diante do cenário e da dura leitura histórica de patropi, dessa vez é necessário arrancar mais que apenas ‘diminuição de tarifa’. CHEGOU A VEZ DA TARIFA ZERO !! * Gert Schinke é Historiador e ecologista, autor do livro ‘ECOPLAMENTO – a teoria que explica o processo de assimilação do colapso ecológico por parte do sistema capitalista global’ (Insular, 2013). ** Publicado originalmente no site CarbonoBrasil.


por Gert Schinke*
Owlabi Elabanjo, responsável de extensão agrícola em Antiga e Barbuda, disse que seu país sofreu muito devido aos furacões. Foto: Desmond Brown/IPS

Mudança climática ameaça água e alimentos em Antiga e Barbuda

[caption id="attachment_90612" align="alignleft" width="300" caption="Owlabi Elabanjo, responsável de extensão agrícola em Antiga e Barbuda, disse que seu país sofreu muito devido aos furacões. Foto: Desmond Brown/IPS"][/caption] Saint John, Antiga e Barbuda, 19/6/2013 – Com suas ilhas desprovidas de rios e riachos, há séculos os agricultores de Antiga e Barbuda constroem represas e tanques e coletam água de chuva para irrigar seus cultivos e dar de beber aos animais. Entretanto, atualmente, a mudança climática lhes apresenta vários desafios. As tempestades mais fortes e mais frequentes costumam destruir as árvores em volta das bacias, bem como a grama, que contribuem para diminuir a evaporação. “Desde o furacão Luis de 1995, tivemos muitas perdas”, disse à IPS Owolabi Elabanjo, um responsável de extensão técnica agrícola de Antiga. “Sofremos muito o impacto em algumas de nossas minirrepresas ou tanques devido aos furacões e de algumas tempestades”, acrescentou. Em setembro de 1995, o furacão Luis, categoria quatro numa escala até cinco, atravessou Barbuda e provocou uma situação catastrófica em Antiga e nas ilhas vizinhas de São Bartolomeu, San Martín e Anguila. O ciclone deixou 19 mortos, quase 700 mil desabrigados e danos materiais que chegaram a US$ 3 bilhões. Todas as praias de Antiga e Barbuda sofreram erosão devido à força das ondas geradas pelo furacão. A água é um dos elementos mais importantes para a produção agrícola, disse Elabanjo. Mas é um recurso escasso, afirmou, portanto caro, e não só para a agricultura, mas também para o uso doméstico. O Ministério da Agricultura trabalha, junto com a Autoridade de Serviços Públicos de Antiga e Barbuda e com a Organização das Nações Unidas para a Alimentação e a Agricultura (FAO), para capacitar os agricultores na coleta de água e criação de melhores oportunidades para seu uso, explicou. “Sim, de fato queremos fortalecer a segurança alimentar e reduzir o gasto com alimentos importados, devemos fazer algo a respeito da água”, destacou. A representante da FAO na Guiana, Lystra Fletcher-Paul, disse que uma das questões fundamentais da gestão hídrica é que o recurso esteja disponível para a agricultura. “Em vários países a prioridade sempre é ter água para uso doméstico, saúde e indústria, e se restar algo vai para a agricultura”, disse à IPS. “Não se pode falar sério sobre segurança alimentar se a água para a agricultura é a última prioridade. Deve-se ter uma estratégia que diga: tenhamos ou não seca, a agricultura receberá tal quantidade de água”, enfatizou. Fletcher-Paulo pontuou que a FAO ajuda os países da região na gestão do recurso. No caso de Antiga e Barbuda, a organização trabalha com as autoridades desde 1991 para melhorar a gestão da terra e da água, destacou. Antiga e Barbuda foi um dos oito países que se beneficiaram em 2008 de um estudo de viabilidade para coleta de água de chuva, a cargo do Instituto de Pesquisa e Desenvolvimento Agrícola do Caribe, do Instituto Interamericano de Cooperação para a Agricultura e do Banco de Desenvolvimento do Caribe. O estudo concluiu que a coleta de água era muito factível em Antiga porque a ilha recebe uma média de 750 milímetros de chuvas por ano. Fletcher-Paul destacou a importância de contar com um plano de gestão de desastres para o setor agrícola. A proteção deve ser pensada muito tempo antes da temporada de furacões, ou com pouca antecedência, disse, com adoção de medidas como plantar árvores ao redor de represas ou grama para ajudar a fixar o solo. O ministro da Agricultura de Antiga, Hilson Baptiste, disse à IPS que este país leva a sério a mudança climática. Dentro do Projeto Mudança Climática, o Ministério realiza uma iniciativa para combater o desmatamento, uma árvore por vez. O objetivo do projeto lançado em 2010 foi plantar 2.010 árvores. Três anos depois, “plantamos mais em Antiga do que qualquer outro país do Caribe”, comemorou. Anualmente, é apresentada aos estudantes a atividade de plantar árvores e eles semeiam entre cinco mil e seis mil. Todo Dia da Árvore, 29 de agosto, “entregamos meio milhão de plantas a escolas, grupos comunitários e eclesiásticos para estimular a sociedade a plantar”, contou, lembrando que são “plantados pés de laranja, abacate, manga”. O ministro explicou que após observar as consequências da mudança climática na produção agrícola, Antiga e Barbuda não têm outra saída a não ser intensificar os esforços para mitigá-las. Também disse que nem uma só árvore é destruída no processo de produção de alimentos. “A agricultura ocorre entre uma floresta e outra e, às vezes, debaixo delas. Não se destrói nenhuma para facilitar a agricultura”, afirmou. O subdiretor do Ministério, Ashley Joseph, concordou que o meio ambiente não deve sofrer com a produção de alimentos. “Se não se proteger o meio ambiente, com o tempo a produção diminuirá, por isso deve ser considerado na hora de produzir”, destacou. Por exemplo, o governo capacita os agricultores e pecuaristas sobre o pastoreio. “Quando o pastoreio é excessivo, a grama e a vegetação se esgotam. Quando isso ocorre, o solo fica pelado e, com a chuva, a água arrasta a camada superficial e a produção é cada vez menor”, afirmou. Envolverde/IPS


por Desmond Brown, da IPS
Degelo da Antártida está atraindo a atenção de vários países

O futuro da Antártida não está garantido

  [caption id="attachment_90653" align="alignleft" width="341" caption="Degelo da Antártida está atraindo a atenção de vários países"][/caption] Livro traça a história da empreitada humana no continente mais frio, seco e ventoso do mundo. A Antártida é o único continente onde nunca houve uma guerra. Nenhum tipo de atividade militar é permitida lá e as pesquisas científicas são prioridade. Definida como todas as plataformas de terra e gelo ao sul do paralelo 60 sul, os 14,2 milhões de km2 da massa terrestre mais fria, seca e ventosa do mundo são protegidos pelo Tratado Atlântico, o qual entrou em vigência em junho de 1961 e determinou que o território se tornasse uma “reserva natural dedicada à paz e à ciência”. Nem sempre foi assim, afirma David Day, autor, historiador e pesquisador associado da Universidade La Trobe em Melbourne. Robusto como um bloco de gelo antártico em si, sem que isso o torne menos legível, seu livro mais recente, Antartica: A biography se apoia em cinco anos de uma pesquisa meticulosa para contar a história da empreitada humana na Antártida, o último continente a ser descoberto. O livro expõe retratos biográficos pungentes dos personagens envolvidos, das inclementes expedições realizadas, e as rivalidades entre as nações à medida que elas disputavam para mapear o continente e reivindicar a posse sobre áreas. Além de descrever as grandes conquistas humanas na era da descoberta antártica, Day expõe a rivalidade política contemporânea por trás das disputas pelo continente. O futuro da Antártida como uma reserva natural não está de modo algum garantido. Embora o tratado criado para proteger o continente certamente tenha preservado a paz e servido como exemplo de cooperação internacional, a perspectiva de depósitos de minerais e petróleo sob o manto de gelo da Antártida está atraindo a atenção de países e grandes empresas sedentos por recursos. * Publicado originalmente na revista Economist e retirado do site e Opinião e Notícia.


por Redação da The Economist
Os tucanos são importantes dispersores na Mata Atlântica

Extinção de aves reduz tamanho de semente de palmito

[caption id="attachment_90657" align="alignleft" width="300" caption="Os tucanos são importantes dispersores na Mata Atlântica"][/caption] Um grupo de cientistas estudou detalhadamente a ecologia da palmeira conhecida como palmito juçara (Euterpe edulis) em 22 áreas na mata atlântica. Os pesquisadores notaram que em locais onde os tucanos haviam sido extintos há mais de 50 anos pela caça ou desmatamento, as palmeiras juçaras produziam frutos pequenos, enquanto em florestas conservadas, ainda com as aves, as palmeiras possuíam frutos de tamanhos mais variados, pequenos e grandes. O professor Pedro Brancalion, da Escola Superior de Agricultura Luiz de Queiroz (Esalq) da USP, em Piracicaba, integrou a equipe da pesquisa, liderada por Mauro Galetti, da Universidade Estadual Paulista (Unesp), em Rio Claro. O resultado do trabalho foi publicado na última edição de maio da revista Science. “Como consequência da redução da cobertura florestal e da caça, perdemos dispersores de sementes de maior porte, sejam eles aves ou mamíferos, por serem mais sensíveis à degradação e também mais caçados pelo homem”, comenta Brancalion. Se os grandes dispersores somem das matas, sobram as aves e animais de menor porte, que não conseguem dispersar plantas com sementes grandes. “Na falta desses animais, as sementes das plantas que dependem de animais dispersores se concentram próximas à planta mãe, prejudicando a regeneração da espécie”. O palmito juçara é bem conhecido por produzir o palmito, muito consumido na culinária brasileira e por isso hoje ameaçado de extinção. Na Mata Atlântica, o juçara é uma importante fonte alimentar para mais de 50 espécies de aves, como papagaios, sabiás, jacús, arapongas e tucanos. “Muitas aves grandes que consomem frutos são caçadas ou não sobrevivem ao desmatamento e a redução da floresta” relata Mauro Galetti. Segundo Brancalion, se a mata não tem mais esse tipo de animal perde-se o principal dispersor dos frutos maiores, o que pode comprometer a perpetuação da espécie. “Isso resultou numa mudança genética dessas populações ao longo dos mais de cem anos de fragmentação e defaunação da Mata Atlântica, fazendo com que hoje populações de juçara em matas sem tucanos produzam sementes menores”, observa. Coleta O professor contribuiu com a coleta de sementes em campo e, além disso, buscou entender quais as consequências da redução do tamanho da semente para a planta. “Foram avaliadas as consequências ecológicas associadas à variação do tamanho da semente na espécie”, conta. “Então observou-se que, com a redução do tamanho, a semente fica mais vulnerável à perda d’água e corre mais riscos de morrer”. A semente do juçara tem naturalmente alto teor de água e, se perder muito o líquido, morre rapidamente. “Da mesma forma como muitas outras espécies de florestas tropicais úmidas, as sementes de juçara não toleram a perda intensa de água, pois são adaptadas a ambientes com solo úmido o ano todo ou, pelo menos, na época de dispersão das sementes”, afirma Brancalion. “Sementes menores apresentam maior superfície de exposição, o que aumenta a intensidade de perda d’água em ambientes secos. Como as sementes de juçara são dispersas principalmente entre os meses de março a junho, período em que se inicia a estação seca, as sementes menores ficam mais vulneráveis”. De acordo com o professor, “no cenário atual das mudanças climáticas globais, no qual tem-se observado um aumento na intensidade e duração de períodos secos em florestas tropicais úmidas, as sementes menores de juçara tendem a ficar ainda mais vulneráveis, prejudicando a perpetuação da espécie em matas sem grandes dispersores como os tucanos”. O link para o artigo é http://www.sciencemag.org/content/340/6136/1086.full?sid=dd1b377f-2745-4998-9814-ae3dc140fddc. Além de Mauro Galetti e Pedro Brancalion, participaram da pesquisa Roger Guevara, do Instituto de Ecologia (Rede de Biologia Evolutiva), no México, Marina Côrtes, Milton Ribeiro, Abraão Leite, Fábio Labecca e Thiago Ribeiro, da Unesp, Rodrigo Fadini, da Universidade Federal do Oeste do Pará, Sandro Von Matter, da Universidade Federal Rural do Rio de Janeiro, Carolina Carvalho e Rosane Collevatti, da Universidade Federal de Goiás, Mathias Pires e Paulo Guimarães Junior, do Instituto de Biociências (IB) da USP, e Pedro Jordano, da Estação Biológica de Doñana (Espanha). * Publicado originalmente no site Agência USP.


por Caio Albuquerque, da Agência USP
Salada de quinua servida na sede da FAO em Roma. Foto: Julio Godoy/IPS

Boom da quinua desafia agricultura local

[caption id="attachment_90608" align="alignleft" width="300" caption="Salada de quinua servida na sede da FAO em Roma. Foto: Julio Godoy/IPS"][/caption] Roma, Itália, 19/6/2013 – Na última edição do informe Perspectivas Alimentares, a Organização das Nações Unidas para a Alimentação e a Agricultura (FAO) prevê que “no futuro a quinua poderá ter um papel mais importante no sistema alimentar global, devido à sua capacidade de adaptação a diferentes regiões agroecológicas e às suas qualidades nutricionais superiores”. Este milenar pseudocereal andino ganhou recentemente popularidade mundial graças aos seus valores nutritivos. O governo da Bolívia, principal produtor mundial, conseguiu inclusive que as Nações Unidas declarassem 2013 Ano Internacional da Quinua. No informe do dia 13, em antecipação à 38ª Conferência da FAO, que acontece em Roma, entre os dias 15 e 22, esta agência da ONU também estima que a demanda mundial continuará aumentando “com força nos próximos anos, impulsionada principalmente pelos países desenvolvidos, onde o gasto com alimentos naturais e mais saudáveis é uma tendência em alta”. O “grão de ouro” é um alimento excepcional, com alto conteúdo de proteínas, superior ao do arroz, do trigo e do milho. Também contém oito aminoácidos essenciais e elevadas quantidades de ferro, cálcio, magnésio, potássio, fósforo e zinco. É facilmente digerida, tem pouca gordura e está livre de glúten. A crescente demanda mundial é uma boa notícia alimentar e econômica. Entretanto, revela perversidades típicas do mercado global de alimentos. Segundo o escritório de estatísticas da FAO, no período 1992-2010, a área de colheita nos principais países produtores – Bolívia, Peru, Equador – quase duplicou, e entre 2005 e 2012 a produção cresceu oito vezes. Mas, em contraste com a popularidade da quinua entre consumidores de países industrializados, seu consumo na região andina continua relativamente baixo, pois sofre o estigma de ser “comida de pobre”, como disse Valeria Calamaro, ativista pelo comércio justo da organização Altromercado. O boom da produção andina apresenta vários desafios. Como seu preço de exportação é alto, desloca outros produtos locais, convertendo-se em monocultura em terras montanhosas e frágeis do oeste boliviano. Também provoca uma contração da pecuária de camelídeos, como a lhama. Menos gado significa menos esterco, fertilizante orgânico de uso tradicional para preservar os solos nessas regiões. “Diante da alta demanda mundial deste alimento, as práticas tradicionais foram abandonadas”, disse o agrônomo Vladimir Orsag, diretor do Programa de Pesquisa Estratégica da Bolívia e professor da Universidade Maior de San Andrés. “A fronteira agrícola se amplia nas zonas planas, ocupando espaços destinados à pecuária, que sempre foi uma atividade complementar para a agricultura”, acrescentou. Esta dinâmica não respeita os períodos de descanso da terra, “provocando erosão de solos, maior mineralização e perda acelerada de matéria orgânica, maior incidência de pragas e doenças nos cultivos e, por fim, queda da fertilidade e produtividade dos solos”, enfatizou Orsag, de La Paz, em entrevista por telefone à IPS. Em outras palavras, se a demanda internacional continuar crescendo, como prevê a FAO, o cultivo de quinua não é sustentável nas condições atuais. O governo da Bolívia tem consciência destes problemas. Por um lado, estimula o consumo interno, buscando mudar os hábitos alimentares da população, e, por outro, tenta recuperar as técnicas agrícolas mais apropriadas. Dados oficiais mostram que, do total da produção nacional de 2012 (50.566 toneladas), só 24%, cerca de 12 mil toneladas, foi destinada ao consumo interno. O governo espera que este suba para 20 mil toneladas este ano. O vice-ministro de Desenvolvimento Rural e Agropecuário, Víctor Hugo Vásquez Mamani, chefe da delegação boliviana na Conferência, admite que o boom da quinua provocou erosão. “Mas estamos recuperando as boas práticas agrícolas de nossos antepassados”, destacou Vásquez Mamani em entrevista à IPS. “Respeitamos mais os períodos de descanso da terra e praticamos o que chamamos complexo lhama-quinua, para obter adubos agrícolas e manter a riqueza dos solos”, afirmou. Em sua opinião, o aumento do preço internacional não é determinante do consumo interno. “Os bolivianos do altiplano bebem muita cerveja, que é mais cara do que a quinua. Além disso, o consumo interno cresceu de maneira proporcional ao aumento da produção e das exportações”, pontuou Mamani. As autoridades continuam estimulando o consumo. “Estou convencido de que também comemos com os olhos. Para que as pessoas comam mais quinua temos que preparar os pratos de uma maneira mais apetitosa”, acrescentou. Envolverde/IPS


por Julio Godoy, da IPS

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