O preço da passagem e o protesto que parece não ter fim

Sociedade

O preço da passagem e o protesto que parece não ter fim


por Igor Carvalho, da Revista Fórum


[caption id="attachment_89959" align="alignleft" width="290" caption="Manifestante são alvos de chuva de bombas da PM. Foto: Mídia Ninja"][/caption] Milhares de pessoas caminharam por mais de cinco horas pelas principais vias da cidade, foram alvo de violência da PM e pararam São Paulo. O terceiro protesto contra o aumento das passagens, em São Paulo, já caminhava para três horas de duração. Eram 19h50. Os 12 mil manifestantes, segundo os organizadores, que aceitavam pacificamente os destinos traçados pela Polícia Militar (PM) durante o ato, decidiram que queriam terminar a manifestação dentro do Terminal Parque Dom Pedro II. A PM impediu, da forma mais violenta possível. Naquele momento os manifestantes já tinham marchado pelas principais vias de São Paulo mais de 8 quilômetros. Os ativistas partiram da praça dos Cliclistas, na avenida Paulista, atravessaram a rua da Consolação, entraram no túnel que dá acesso à avenida 23 de Maio e quando queriam seguir para a Radial Leste, aceitaram pacificamente a instrução da PM, que lhes pediu para ir pela avenida Liberdade. Do bairro oriental, os ativistas caminharam até a praça João Mendes e desceram a Rangel Pestana até o Terminal Parque Dom Pedro II, local do confronto. O governador Geraldo Alckmin já havia dado uma declaração à Rádio França Internacional (RFI), em Paris, onde sinalizava sobre a postura que seria adotada por seu governo durante os protestos. O mandatário afirmou que bloquear vias é “caso de Polícia.” Uma das representantes do Movimento Passe Livre, Mayara Vivian, respondeu à Alckmin. “O lado dele é claro, ele defende os empresários e fará de tudo para nos criminalizar, inclusive mandar uma polícia repressora e racista aqui.”  Mayara lembrou que Alckmin e o prefeito Fernando Haddad estão em viagem internacional no momento em que a cidade é palco de protestos. “Só o povo na rua fará o governo ceder. Eles foram para Paris e nos abandonaram aqui, mas vão saber o que está acontecendo em São Paulo.” Parque Dom Pedro II Foram dez minutos de tensão, que terminaram com dezenas de pessoas chorando, com a garganta fechada, os olhos irritados e dificuldades de respiração. Bombas de gás lacrimogêneo, tiros de borracha e spray de pimenta foram lançados contra os ativistas, que responderam com pedras e sacos de lixo. O ato poderia ter acabado ali, após a dispersão da multidão, mas não foi o que aconteceu. Os manifestantes surpreenderam quando voltaram a se organizar na Praça da Sé e decidiram seguir com o protesto até a avenida Paulista. Eram aproximadamente 2 mil pessoas, marchando pela rua Brigadeiro Luiz Antônio. [caption id="attachment_89960" align="alignright" width="300" caption="Conflito no Terminal Parque Dom Pedro II foi mais violento, mas não impediu que o protesto fosse retomado (Foto: Mídia Ninja)"][/caption] Desde o princípio, ficou claro que o aparato policial, 400 homens, era “quase histérico”, como definiu o jornalista e professor da Universidade Federal do ABC, Gilberto Maringoni. Nos cordões de isolamento, provocações eram trocadas de ambos os lados. “Bichinha, se eu te pego sozinho te mato”, disse um PM para um dos manifestantes. Em seguida, o agente cobriu o nome e saiu para o meio dos demais agentes. O ato retomou o vigor e seguiu pela avenida Paulista. Na frente do Masp, um manifestante foi preso. A população começou a gritar: “solta, solta, solta”. Alguns chegaram a correr atrás do jovem preso. A resposta da PM veio com balas de borracha e bombas. No vão livre do Masp, jovens encurralados se aglutinavam nas miras das armas de agentes, que atiravam. A avenida Paulista foi fechada, nos dois sentidos. Um jovem, negro, sentado na calçada, parecia conformado. “Eu sou da periferia, sei como a polícia trata gente de bem”, afirmou Carlos Cerqueira. Movimento popular As cenas de guerra provocadas pela ação da Polícia Militar não arrefeceram o vigor político da manifestação, que ficou marcada pela presença democrática de vários setores e de classes distintas da população. “Apoio o movimento e acho que precisava estar aqui, temos um transporte incompatível com o preço que pago”, disse o professor de português Junior Vieira. Para o operador de telemarketing Cláudio Tavares, que mora em Campo Limpo, “a passagem pesa demais no orçamento. Para ir em um cinema com minha namorada, no centro, gasto mais de R$ 20 de passagem.” O fotógrafo Wes Nunes explicou porque estava no ato: “Eu vim aqui para demonstrar aos governantes que o povo não está em casa vendo tudo acontecer.” Fernando Ferrari, fundador do Sarau da Fundão, no Capão Redondo, zona sul da capital, também ressaltou a relevância da manifestação. “Isso que está acontecendo aqui é muito importante.” O Ministério Público agendou uma reunião com o Movimento Passe Livre para a próxima quarta-feira (12), para discutir sobre os protestos e a Secretaria Municipal de Transportes anunciou que enviará um representante ao encontro. Presos e feridos O dia terminou com 20 presos e três feridos, na manifestação. Todos os detidos foram encaminhados para a 78º DP (Jardins). A fiança foi fixada em R$ 20 mil. O trânsito na avenida Paulista só foi liberado após às 23h. A PM informou que segundo sua contagem, haviam 5 mil pessoas no protesto. Enquanto isso, na praça dos ciclistas, de onde partiu a marcha, sete manifestantes pulavam e repetiam o mantra cantado e alertado por milhares durante a noite. “Quinta vai ser maior”, lembrando a data do próximo protesto contra o aumento das passagens em São Paulo, dia 13, às 17h, na frente do Teatro Municipal. O que surpreende nas manifestações do Movimento Passe Livre é que ele parece não ter fim. * Publicado originalmente no site Revista Fórum.

Oceano Pacífico. Foto: Divulgação/ Internet Inter Press Service - Colunistas

Entre o Pacífico e o Atlântico

[caption id="attachment_89930" align="alignleft" width="300" caption="Oceano Pacífico. Foto: Divulgação/ Internet"][/caption] Miami, Estados Unidos, junho/2013 – O presidente nicaraguense, Daniel Ortega, convidou seu colega norte-americano, Barack Obama, a desafiar os investidores de seu país a aderirem ao projeto de construir um novo canal que uniria as duas costas da América e competiria com o do Panamá, imerso em uma multimilionária ampliação. Por outro lado, quatro países com costas no Oceano Pacífico (Chile, Colômbia, Peru e México) reforçaram sua aliança, que já atrai a atenção da Costa Rica e do Uruguai como observadores, com o interesse insólito da Espanha. O assunto tem os sintomas de uma epidemia. Está se instalando tenazmente. O Oceano Pacífico ocupou os meios de comunicação e aparece em persistentes declarações de políticos e comentaristas. Tudo se encaixa na também incontrolável febre de construção de esquemas regionais, que com doce alegria se chama de “integração”. Calma. Paradoxalmente, ao mesmo tempo em que se tem sérias dúvidas quanto à sobrevivência do euro, da própria União Europeia (UE) e – por que não dizer também, catastroficamente – da mesmíssima Europa, são alardeados experimentos que como carta de apresentação são agregados à genealogia de se inspirar no modelo de integração desse bloco. Assim, por exemplo, agora se comemora meio século da existência da União Africana, admirável ideia que desaparece quando uma crise séria se instala em dois ou três de seus componentes. O último “êxito” foi o de Mali, obtido pela Legião Estrangeira da França. Do outro lado da Europa ainda não se decifrou o que é a União da Euroásia, além de uma farsa da Rússia nostálgica de seu passado soviético para dominar seus vizinhos descarrilados. Se estes pudessem escolher livremente entre Moscou ou Bruxelas, a decisão seria uma emigração maciça para a Grande Place. O vergonhoso é que o governo russo vende essa ideia de “integração”, seguindo o modelo da UE. Sejamos sérios. Entretanto, com certa resignação e aplicação os países do istmo centro-americano se colocaram minimamente de acordo para assinar um Acordo de Associação com a UE. Nesta peculiar corrida superaram os gigantes da Comunidade Andina (CAN) e o Mercado Comum do Sul (Mercosul). Enquanto isso, no norte do Atlântico, se levanta o projeto de um ambicioso acordo de livre comércio (e de investimentos) entre a UE e os Estados Unidos, que se fará sentir como um imenso ímã no Canadá e no México. Portanto, se todas as previsões se cumprirem, pelas leis darwinianas da integração restará somente a ampliação do Tratado de Livre Comércio da América do Norte para a Europa e a Aliança do Pacífico. Desaparecerão só restos do Mercosul afundado por desavenças internas e pelo vírus do populismo interior e procedente da chavista Aliança Bolivariana para os Povos de Nossa América (Alba) em queda, e da CAN. Entretanto, também restará o Brasil, que não se casará com ninguém, se não tiver garantida a liderança. Tudo isso é “integração” seguindo a inspiração da UE? Cabe esclarecer o que (apesar das dificuldades, dos desafios e das ameaças) se deve entender como integração no caminho da UE, e o que simplesmente deve ser considerado como cooperação econômica e inclusive política de diversos graus. Em primeiro lugar, se deveria assumir a consideração da tradicional escala que começa com uma zona de livre comércio, seguida de uma união aduaneira, reforçada com um mercado comum e, já em um golpe de audácia, se apoiar em uma união econômica/monetária, para, finalmente, no paradoxo do entusiasmo se sublimar em uma união política. Nenhum dos esquemas mencionados supera, nem mesmo no plano teórico, o rigor do “mercado comum”. O Mercosul está cheio de “perfurações” tarifárias, a CAN é incapaz de apresentar uma simples frente comum ao exterior além do admirável edifício jurídico, e a Alba não superou a estratégia da troca e das dádivas (interesseiras) da Venezuela. Nenhum responde ao mandato das quatro “liberdades de movimento”: bens, capitais, serviços e pessoas. A livre circulação da força de trabalho é um sonho, excepcionalmente respeitada. Agora, o mistério reside na atuação da Aliança do Pacífico, apoiada pela necessidade de responder aos desafios asiáticos. Observe-se que, precisamente, são os Estados Unidos o país que mais presta atenção ao novo cenário, como se procurasse concentrar sua frota em uma Pearl Harbour segura. No entanto, com o renovado vínculo com a Europa, guarda zelosamente a roupa enquanto nada nas incertas águas enganosamente “pacíficas”. Então, destes esquemas, o que continua tendo a base mais solidamente ancorada pela história, pelo comércio, pelas línguas, pelo direito, pelas migrações e pelo desejo de futuro é o triângulo formado por Europa, Estados Unidos/Canadá e América Latina. É o único bloco que, cimentado por seu passado, pode enfrentar o incerto futuro dos desafios apresentados por outras regiões e coalizões de países emergentes e continentes sem amálgama. Daí que o entusiasmo da Nicarágua por um canal ser simbólico de um desejo centro-americano de servir de vínculo entre os dois oceanos, sem perder de vista o caminho para o Mar do Caribe que aponta para a Europa. Envolverde/IPS * Joaquín Roy é catedrático Jean Monnet e diretor do Centro da União Europeia da Universidade de Miami (jroy@Miami.edu).


por Joaquín Roy*
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Existe uma crise nos impressos? Nada a declarar, respondem os jornais

Empresas brasileiras negam que haja crise no setor; segundo sindicato, a portas fechadas, representantes reconhecem que negócios vão mal. “O argumento das empresas depende do interlocutor”, diz Paulo Zocchi, do Sindicato dos Jornalistas de São Paulo. “A gente chega numa negociação de campanha salarial, e os jornais sempre dizem que o negócio está indo mal. Mas para o público externo eles falam que está indo muito bem”. Presente em diversas das negociações referentes à atual revoada de passaralhos – demissões em massa de jornalistas – Zocchi descreve que até tem quem admita, na sala de negociações, que o discurso é duplo. “Os caras falam: ‘O que você quer que a gente fale pro mercado? Mas cá entre nós, está indo mal’. É dificílimo saber com detalhes a situação real das empresas”, diz Paulo. Os mesmos jornalistas que trabalham no dia-a-dia por transparência em todos os setores da sociedade ficam no escuro quando se trata da indústria em que trabalham. “Eu acho tudo muito estranho, pois, ao mesmo tempo em que acontecem esses passaralhos, somos informados, por meio de mensagens internas, que o número de venda de jornais aumentou, que o site bateu recorde etc. Ou seja, algo está fora da ordem, não!?”, resume um jornalista do Grupo Folha, recentemente demitido, que prefere não ter seu nome revelado. De fato, enquanto anunciava o corte de 24 funcionários, a Folha culpou o “fraco desempenho da economia e seu reflexo na publicidade” pelas demissões; mas dois anos atrás o Grupo Folha celebrava ter triplicado seu faturamento na primeira década deste século, chegando a R$ 2,7 bilhões em 2010 – com um lucro, antes de impostos, de R$ 600 milhões no mesmo ano. “A situação econômica da Folha é boa, a empresa não tem dívidas”, comentou, na sua coluna, a ombudsman Suzana Singer. Na Abril, a reestruturação – e os cortes, que podem atingir centenas de funcionários – vieram apenas dois meses depois da empresa exibir sua saúde financeira, anunciando receita líquida de R$ 2,98 bilhões em 2012, sendo R$ 1,03 bilhão proveniente de publicidade. A empresa também investiu na área Abril Educação, que absorveu marcas como Ática e Scipione, e o sistema Anglo Vestibulares. Em seu site, a Associação Nacional dos Jornais (ANJ) também se apresenta otimista: “Publicidade em jornais brasileiros deve aumentar 5% em 2013”, anuncia. “Apesar do pequeno crescimento do PIB em 2012, os investimentos em publicidade em jornal no Brasil devem aumentar 5%, conforme as previsões da Warc, um centro de pesquisa voltado ao levantamento das tendências do mercado publicitário mundial”. Usando outra fonte, a pesquisa Inter-Meios, uma iniciativa do jornal Meio & Mensagem com “os principais meios de comunicação do Brasil”, a ANJ mostra por A mais B que os anúncios em jornais têm aumentado ano a ano – foram de R$ 3,36 bilhões em 2011 para R$ 3,38 bilhões em 2012. Caso o infográfico não funcione, clique aqui (recomendado para dispositivos Android) Procurada pela Pública, a ANJ disse que não comenta casos específicos de demissões – e, sobre a famigerada crise nos meios, limita-se a indicar as otimistas análises de seu site. O diretor do Estadão disse que não se pronunciaria sobre o assunto; a Folha de S. Paulo e o Valor Econômico também foram procurados mas não responderam até o fechamento da matéria. Apenas o diretor da Editora Trip – uma editora de médio porte – Paulo Lima, conversou abertamente com a reportagem sobre as 19 demissões ocorridas em sua empresa. Mas afinal, o que está acontecendo? A inglesa Susy Young, diretora de estatísticas do centro de pesquisas britânico Warc, é uma das vozes mais confiáveis quando se trata de receita publicitária. Entusiasta do aumento de publicidade – que, em escala mundial, está concentrada na Ásia e na América Latina, contra uma decadência na Europa e nos EUA – ela verifica que não houve queda na publicidade de impressos, mas uma perda de espaço para outros setores. “Em 2012, o que nós previmos foi um crescimento modesto em gastos de anúncios para jornais e revistas. Mas previmos também que os meios impressos iriam perder em termos de fatia, nos gastos publicitários gerais”. O fato é que, embora digam aos quatro ventos que a crise dos jornais não chegou ao Brasil, os conglomerados estão vendo os anúncios migrarem – de maneira irreversível. “Existe a crise”, diz – em off – um alto executivo da indústria editorial. “O que não se sabe é dividir entre o que é estrutural e o que é conjuntural”. Embora a circulação dos jornais continue crescendo um pouco – o aumento foi de 2,7% em 2012– ela está sendo “puxada” pelos jornais populares como o Extra, do Rio, e Super Notícias, de Belo Horizonte. Já a circulação de revistas caiu 4,6% em 2012. Quanto à questão “conjuntural”, os jornais reclamam do fraco desempenho da economia – já que, em tempos de crise, os anunciantes recorrem à TV para se livrar dos seus produtos em estoque mais rapidamente. Não que isso seja uma novidade no panorama brasileiro. “Hoje continua fazendo sentido investir em impressos. Agora, se tiver uma migração de publicidade mais agressiva, é algo que vamos ter que pensar daqui a um tempo”, diz o executivo. Para ele, a internet, “ao mesmo tempo que democratizou o acesso à informação, está tirando parte do financiamento das publicações, das empresas de comunicação”. O grande problema são os anúncios online – daí a velha bronca da indústria de notícias com o Google, que tem faturado uma grande parte da publicidade na internet. A briga é feia, e levou alguns dos maiores jornais do país a retirarem seu conteúdo da busca do Google News, exigindo o pagamento de “royalties”. Aos poucos, estão voltando. Outros sites de buscas diretas de carros ou imóveis, por exemplo, também acabaram pulverizando um mercado que antes era concentrado nas mãos dos poucos grupos de comunicação. Internet superou jornais entre os anunciantes Segundo um relatório do IAB Brasil (Interactive Advertising Bureau), a receita publicitária da Internet superou a dos jornais no primeiro trimestre de 2012, tornando-se a segunda mídia com maior receita publicitária no Brasil, depois da TV. Embora uma boa parte desses anúncios vá parar nos grupos de comunicação tradicionais – como no portal UOL, o maior da América Latina, que pretence ao Grupo Folha –, outra gigantesca fatia vai para os sites de busca. Os dados da IAB apontam que, do total de R$ 4,57 bilhões arrecadados em 2012, R$ 2,2 bi foram investidos em publicidade display (como banners) e R$ 3,82 bilhões em ferramentas de busca – esse último modelo de anúncio cresceu 39%, sendo o que mais cresce nos últimos dois anos. “Os anúncios em impressos irão decrescer, mas os digitais vão aumentar”, diz Susy. “Olhando os dados de nossas previsões, vejo que o total de ganhos de anúncios com a internet vai superar os meios impressos (jornais e revistas) em 2014”. Mas ela faz uma ressalva: “É difícil falar em termos de declínio de anúncios de jornais, já que muitos deles também têm uma presença digital” – e, portanto, também estão lucrando com a proganda online, mesmo que seja menos que o Google. Em resumo, diz o executivo, “o que está acontecendo no mundo é o mesmo que tá acontecendo no Brasil”. Queda mundial no número de jornalistas empregados E o que está acontecendo no mundo é claro: os jornais têm optado por reduzir a mão de obra, aumentar a carga de trabalho e, assim, manter os lucros. Segundo a ASNE, Associação Americana de Editores de Notícia, em 2012 havia 40,6 mil jornalistas empregados em redações nos EUA; o número é o menor desde que o levantamento anual passou a ser feito, em 1973, quando havia 43 mil jornalistas empregados. “É um risco que a indústria corre”, diz o executivo, ao ser perguntado sobre o impacto dessas demissões no produto. Para alguns jornalistas, porém, como Paulo Zocchi, o problema é mais profundo: trata-se da consolidação de um estilo gerencial que privilegia metas ambiciosas e lucros altos. “Estamos vivendo no momento uma certa pressão econômica sobre as empresas. Elas trabalham com um padrão de rentabilidade muito alto hoje, uma rentabilidade de banco. Traçam metas altas e quando ficam abaixo dessa metas está longe de dar prejuízo, mas fazem cortes. Evidentemente isso significa um aumento da exploração do trabalho. Hoje em dia, em relação há 20, 30 anos, o ritmo está muito mais acelerado”. Quando Zocchi consulta os dados da Inter-Meios – os mais confiáveis sobre a indústria – com outros olhos, o que os dados revelam é que “a receita tem aumentado muito mais que o salário dos jornalistas nos últimos 10, 15 anos”. Para ele, é comum o discurso da indústria atribuir esse novo ritmo à informatização das redações. “É como se isso fosse resultado do avanço da técnica: tem mais tecnologia, é tudo virtual, então se trabalha mais. Na verdade, a empresa se apropria dessa tecnologia que permite unificar funções jornalísticas, e usa isso totalmente voltado para as necessidades dela, para aumentar a rentabilidade. Isso sacrifica as pessoas”. A voz do dono e o dono da voz No final de maio, a revista “Trip”, que se destaca por produzir conteúdo jovem, demitiu 19 pessoas, o que, segundo o editor e fundador Paulo Lima, representa menos de 8% do total de funcionários. Foram três jornalistas, quatro da área de publicidade, dois designers, quatro da área de produção de moda e ensaio sensual, e o restante de áreas de apoio, como TI (tecnologia da informação) e almoxarifado. Em entrevista à Pública, ele conta que os cortes foram resultado de uma consultoria realizada pela Falconi Consultores de Resultado, uma das principais consultorias de gestão do país. “Por isso que eu digo que essas demissões tem menos a ver com a crise momentânea e mais com um movimento planejado da empresa”, explica o publisher. Segundo ele, a Trip cresceu em média 30% ao ano nos últimos 10 anos. “Então, é quase inevitável que você termine um ciclo como esse com algumas questões de ineficiência. Vou dar alguns exemplos: a Trip tem ensaio sensuais femininos, a TPM tem ensaios sensuais masculinos e o site também tem uma sessão de ensaios. A gente tinha em um mesmo núcleo três equipes para fazer ensaios sensuais. É evidente que havia um excesso de pessoas para fazer a mesma atividade”. Essa equipe a que se refere é de produção, já que os fotógrafos já eram terceirizados. Para poupar ainda mais recursos, Lima conta que a empresa centralizou as divisões de revistas e de produtos customizados em um só núcleo. Além disso, ele aposta na terceirização. “A forma de fazer conteúdo está mudando. A tendência, como a gente pode ver recentemente com a Record, é terceirizar a produção e trabalhar com produtores independentes. Acho que é esse o processo que a gente está perseguindo. É adequar a nossa gestão ao nosso tempo”. O futuro, incerto A grande maioria dos analistas que tratam do futuro do jornalismo – em especial, nos EUA – fala de “mudança de paradigma”, com o fim da indústria das notícias. Os pesquisadores C.W. Anderson e Emily BelleClay Shirky, da Universidade de Columbia, assumem esse desfecho no relatório “O Jornalismo Pós-industrial: adaptando-se ao presente”: “Não existe mais uma indústria de notícias. (…) Antes a indústria era mantida pelas condições que determinam o que é uma indústria: métodos similares dentre um grupo relativamente pequeno e coeso de empresas, e uma inabilidade competitiva da produção de todo o resto daqueles que estavam fora deste grupo. Essas condições não são mais verdadeiras”. Isso não significa, é claro, que o jornalismo em si esteja à beira do precipício. Como diz Paulo Zocchi, a crise ocorre porque, justamente, “o negócio de comunicação está em franca expansão”. “Nada indica, na minha opinião, que o trabalho do jornalista vai acabar. Estamos, em primeiro lugar, lutando para que as condições de trabalho não piorem mais”. Existe, ao mesmo tempo diversas iniciativas que procuram realizar jornalismo de outras maneiras – como é o caso desta Agência Pública, uma organização sem fins lucrativos – mas, para a maioria dos jornalistas, resta a incerteza de como será o seu próprio futuro. “Eu acho que as pessoas estão vendo que vão ter que se adaptar, mas nem todo mundo, eu inclusive, ainda não sabe exatamente como se encaixar nesta nova realidade. A piada é ‘vou montar um blog e ficar rico’” – brinca uma jornalista da editora Abril que, ainda num cenário de possibilidades restritas, prefere não se identificar para não arriscar seu ganha-pão. * Publicado originalmente no site Agência Pública.


por Camila Rodrigues, Bruno Fonseca, Luiza Bodenmüller e Natalia Viana, da Agência Pública
passaralhos Sociedade

A revoada dos passaralhos

[caption id="attachment_89896" align="alignleft" width="300" caption="“Fui apanhada de surpresa, não podia imaginar que eu podia entrar numa lista negra, para ser cortada de uma maneira tão brusca” - Vera Durão "][/caption] Demissões em massa nos grandes jornais acontecem de forma sucessiva e tornam os jornalistas mais inseguros, vulneráveis, explorados – e com menor liberdade de expressão. O maior orgulho de Vera Saavedra Durão foi ver a filha virar jornalista. Isso porque ela própria, Vera, dedicou 35 anos à profissão, com a garra de quem cumpre uma missão. “Você quer que as informações sejam publicadas da melhor forma possível, que aquilo ali venha a público. A gente se entrega”, diz Vera. “Se minha filha seguiu o mesmo caminho é sinal de que ela viu valor nisso”. A jornalista, hoje com 65 anos, abraçou a reportagem com a mesma paixão que lutou contra a ditadura, como militante da Vanguarda Revolucionária Palmares (VAR-Palmares), onde foi companheira de Dilma Rousseff. Ficou dois anos na prisão; quando saiu, atuou como repórter de Economia nos então principais jornais do país – O Globo, Jornal do Brasil, Gazeta Mercantil, Folha de S. Paulo. Em 2000, fez parte da equipe que fundou o jornal Valor Econômico, onde ficou por 13 anos. “No início eu cobria muito tudo, o empenho era muito grande para manter o jornal, com furos, afinal ele precisava se firmar. A gente fazia muita coisa”, lembra Vera, que traz dessa época a lembrança de uma úlcera duodenal sangrante, que surgiu quando fazia uma cobertura particularmente tensa para o Valor. “Perdi dois litros de sangue, e eu nem sabia, até que caí desmaiada. Eu me alienei tanto naquela cobertura, me estressei muito”, conta a jornalista, respeitada por sua competência e dedicação pelos colegas e fontes. No dia 24 de maio passado, Vera foi demitida sumariamente, junto com mais de 20 colegas do Valor, jornal que pertence ao Grupo Folha e às Organizações Globo. “Fui apanhada de surpresa, não podia imaginar que eu podia entrar numa lista negra, para ser cortada de uma maneira tão brusca”. A surpresa foi ainda maior porque acabara de vir à tona que ela fora alvo de espionagem da empresa Vale S.A., segundo denúncia de um ex-gerente de segurança, caso ainda investigado pelo Ministério Público do Rio de Janeiro. Mas Vera, que estava de férias, nem chegou conversar com a direção do jornal sobre a denúncia. “O jornal não teve contato comigo sobre isso. Mandei email para a chefia para conversar sobre isso, mas acabou a gente não conversando porque eu fui demitida”, conta. “Depois de 13 anos trabalhando para engrandecer o jornal achei que teria direito a um período sabático e não a uma demissão”, diz ela. “O meu raciocínio sobre os meus direitos era o da minha classe, que é a dos jornalistas, dos que ‘carregam o piano’, e não dos acionistas, donos do jornal, que querem ver o resultado imediato do nosso trabalho”. Vera lembra de uma fonte empresarial que lhe dissera, em 2005, que merecia um bônus já que por causa de uma série de reportagens suas, o Valor passou a ser lido no Japão. “Eu disse que jornalista não tinha bônus, só ônus”. [caption id="attachment_89897" align="alignright" width="300" caption="“Isso leva o indivíduo a um nível de estresse que ele começa a se achar incompetente para executar as tarefas que faz há 20 anos” - Flávio José Cardoso, de jornalista à garçom"][/caption] Enquanto Vera ainda tenta digerir a demissão na sua casa do Rio de Janeiro, a mil quilômetros dali Flávio José Cardoso, de 51 anos, atende clientes de um belo restaurante à beira mar na ponta de Sambaqui, em Florianópolis. Há quatro anos, ele escrevia os editoriais do jornal mais lido de Santa Catarina, o “Diário Catarinense”, com 40 mil exemplares diários. Hoje, é garçom. A guinada em sua vida começou em 2010, quando mudou o editor-chefe do jornal. Ele deixou de ser editor de Opinião e foi “promovido” a subeditor de Geral, seção que inclui de polícia a comportamento. “Passei a editar também o caderno Mundo, sozinho. Depois de um tempo, me colocaram para escrever matérias especiais todos os dias”. Além das reportagens e da edição, ele passou a fazer a diagramação, montar tabelas, procurar fotos. Se antes trabalhava das 13h às 19h, passou a ficar no mínimo 12 horas dentro do jornal, todos os dias – e estava sempre atrasado. “O trabalho que estava fazendo era para ser resolvido por oito ou dez pessoas. Entrava às 13h e saía a 1h, 2h da manhã, todos os dias. Não parava para comer; comia um salgado, enquanto digitava”. Isso quando o editor não falava, em alto e bom som para todo mundo ouvir, coisas como “Eu já te expliquei isso. Uma pessoa com um neurônio entende”. Flávio aguentou a situação por um ano. “Isso leva o indivíduo a um nível de estresse que ele começa a se achar incompetente para executar as tarefas que faz há 20 anos”. Durante esse período, teve lesões nos tendões das mãos e na córnea, porque usa lentes de contato e ficava muito tempo exposto ao computador e ao ar condicionado. “Quando voltei de licença por causa da lesão, o editor-chefe teve a cara de pau de dizer que eu inventei a doença!”. Entrou com um processo contra o Diário. Hoje, embora seja garçom, colabora com uma revista especializada em economia. E não largou o jornalismo – ainda. As histórias de Vera e Flávio não são exceção entre os jornalistas brasileiros; o que é raro é algum deles vir a público denunciar essa situação. Acúmulo de tarefas, assédio moral, hora extra não-remunerada, insegurança sobre o próprio futuro são males que infestam a indústria das notícias no Brasil. Embora sejam fruto de decisões empresariais que já duram alguns anos, nos últimos meses a situação se agravou com diversos grandes cortes de pessoal – os chamados “passaralhos”. Uma ave que acaba com tudo Passaralho é um jargão agressivo para as demissões em massa nos meios de comunicação. Remete a pássaros, revoadas de algo que destrói tudo por onde passa. De março a maio de 2013, eles passaram sobre redações grandes como Estadão, Valor Econômico, Folha de S. Paulo e já sobrevoam a editora Abril, a maior do país, além de atingir a maioria dos jornalistas em redações menores, como Brasil Econômico e Caros Amigos. Isso, somente dentre as empresas sediadas na cidade de São Paulo. No estado inteiro houve demissões no jornal A Tribuna, o maior da região da Baixada Santista, e na Rede Anhanguera de Comunicações (RAC), que domina as regiões ao redor de Campinas, Ribeirão Preto e Piracicaba. Considerando apenas os jornalistas registrados em carteira e somente na cidade de São Paulo, foram registradas 280 demissões homologadas de janeiro a abril desse ano, 37,9% a mais que no mesmo período de 2012, quando foram registradas 203 homologações por conta de demissões. Ou seja, tudo indica que 2013 será pior que o ano passado, quando mais de 1.230 jornalistas foram demitidos de redações no Brasil. Os motivos, em geral, foram “reestruturações”, que nada mais são que novas formas de organizar o trabalho usando menos pessoas e mais tecnologia. “É um ponto fora da curva”, diz Paulo Totti, que, com quase 60 anos de jornalismo, também foi vítima do corte no Valor. Totti usa a expressão para explicar que, na indústria do jornalismo, os trabalhadores mais experientes são descartados facilmente e substituído por recém-formados – o oposto do que acontece em outras áreas. “Em nenhum outro ramo da economia se vê atitudes semelhantes. Os administradores têm a preocupação de manter a sua mão-de-obra qualificada”, diz Paulo, que sempre cobriu economia, e com excelência. Em 2006 foi vencedor Prêmio Esso, o mais respeitado do jornalismo brasileiro, com uma série sobre a economia chinesa. Meses antes de ser demitido, havia se oferecido para fazer oficinas com cada uma das editorias do Valor, para ajudá-las a melhorar a qualidade dos textos. “Há, claro, uma certa surpresa, já que a demissão não decorre de uma maior ou menor dedicação ao trabalho. Mesmo um jovem fica meio intranquilo quanto ao seu futuro. Pior: se o cara desempenhar bem suas funções, ele pode ter um aumento de salário, e esse aumento causa a sua demissão”. Aonde os donos de jornais querem chegar? Paulo Totti, que no momento considera a única opção que lhe foi dada pelo jornal – virar colaborador freelancer – compartilha um receio que se espalha nas redações com a mesma rapidez que o voo dos passaralhos. “Temo que isso esvazie o conteúdo do jornal. E esse é o sentimento de todo corpo de gente que integra o setor redação em todos os jornais brasileiros”, explica ele. “Não sabemos bem aonde os donos dos jornais querem chegar. A decisão no Valor, por exemplo, partiu da pressão de pessoas que integram o conselho administrativo do jornal, representantes dos acionistas. Nenhum deles tem no seu currículo alguma passagem pelo jornalismo”. Os cortes de pessoal se devem a um investimento milionário em um serviço de informações financeiras em tempo real, o Valor Pro. Esse investimento começou a ser feito há cerca de três anos, quando os funcionários foram avisados que a redação seria unificada. “Fomos avisados de que nos dois anos seguintes ninguém teria aumento salarial. Ao mesmo tempo, todos teriam que escrever para as três plataformas: tempo real, site e impresso”, diz um jornalista que sobreviveu ao último corte no jornal e que prefere não se identificar. Segundo o repórter, o clima da redação está ruim; além do trauma provocado pelas demissões, sobrou excesso de trabalho para todos. “O site, que antes era cuidado por cada editoria, agora é alimentado por pessoas de um ‘mesão’ digital, que não tem muita familiaridade com alguns assuntos. No impresso, a cada dia está uma briga por espaço e o número de páginas está sendo reduzido”. Também a Folha de S Paulo anunciou uma reestruturação na última semana, com o fim do caderno “Equilíbrio” e o reagrupamento de outros cadernos em três núcleos de produção. O número de jornalistas demitidos foi de 24. A direção comunicou à ombundsman, Suzana Singer, que “as redações do futuro deverão ser cada vez mais enxutas, assim como o produto impresso”. Entre os demitidos estão nomes do porte de Andreza Matais, ganhadora do Prêmio Esso de jornalismo 2011 pela série que demonstrou o enriquecimento do então ministro da Fazenda, Antonio Palocci. “Aos que acreditam que o jornalismo de qualidade faz bem à democracia resta torcer para que a travessia dê certo”, resumiu Suzana Singer, em artigo na Folha. A Pública falou com um dos jornalistas cortados do Grupo Folha, da área de cultura, que pediu para não ser identificado. “Ao chegar à redação um dos colegas comentou que haveria corte e, cerca de 20 minutos depois, fui chamado para ser avisado de que seria desligado da empresa. A justificativa? Corte de gastos. Tinham de ter uma meta x de gastos, e a minha saída ajudaria a atingir tal meta”. “Eu tenho pena de quem ficou e de quem está entrando no jornalismo”, diz, com certa serenidade, o repórter fotográfico Lula Marques, premiado jornalista da sucursal de Brasília da Folha de S. Paulo. No dia 1º de abril, ele acordou comemorando o aniversário de 26 anos de jornal. À tarde, foi comunicado que estava demitido. “Me falaram que eu estava ganhando muito, mais que o editor de fotografia de São Paulo, que meu nome estava na lista há dois anos e que não dava mais para me segurar na empresa”. Desde novembro de 2011 – quando a empresa cortou 10% dos seus jornalistas – os cortes, discretos e sem alardes, são constantes na Folha. Tanto, que Lula diz que já estava preparado. “Saí com um equilíbrio emocional bom, porque já estava me preparando para isso. Nos últimos dois anos, as pessoas que estavam com o salário lá no alto foram todas embora. Sabia que um dia ia chegar minha vez”. Tensão na Abril Era sexta-feira, dia 7 de junho, quase no final do expediente, e o clima no prédio da editora Abril S.A, zona oeste de São Paulo, estava pesado por conta dos rumores de um grande corte, previsto desde a morte do presidente do grupo, Roberto Civita, em 26 de maio. “Olha, está muito tenso e é uma tensão diferente. Eu já vivi outras demissões coletivas, mas antes era assim: os diretores das redações estavam plenamente por dentro de quantas pessoas deveriam ser cortadas de cada revista, enquanto os ‘peões’ estavam morrendo de medo. Agora não, ninguém sabe de nada direito, nem os diretores”, disse à Pública uma jornalista, que também pediu não ser identificada por medo de represálias. Pouco depois, seis executivos foram demitidos, junto ao anúncio de que o grupo passaria por uma “reestruturação”, com agrupamento de unidades de negócios, reduzidas de dez para cinco. O objetivo, segundo a empresa, era a “racionalização dos recursos”. Há boatos de que 11 revistas deixarão de circular – entre elas nomes lendários como Playboy, Capricho e Contigo. É a senha para o passaralho. “Deve acontecer na próxima semana”, diz a mesma jornalista. “Eu acho que, se na semana que vem já anunciarem qual revista vai ser cortada, o clima vai melhorar. Não saber o que vai acontecer que é estranho. A gente faz piada o tempo todo, tipo, estou me matando pra fazer esse editorial de moda e se a revista acabar amanhã…” “Entre os jornalistas, nesse momento o clima é de intranquilidade aguda”, diz Paulo Zocchi, diretor jurídico do Sindicato dos Jornalistas de São Paulo e que trabalha na redação da revista Quatro Rodas, da editora Abril. “Tá todo mundo morrendo de medo. Na minha redação, que é de uma faixa etária um pouco mais velha, tá todo mundo falando: ‘vamos ver se segunda-feira vamos estar aqui’”. A jornada dupla de Paulo – na revista e no sindicato – está ainda mais atribulada desde as últimas demissões. Toda vez que corre um boato de demissão, o sindicato é acionado, e pede uma reunião de emergência na empresa, para negociar. Foi o que aconteceu em abril, na negociação com o Estado de São Paulo – de desfecho inesperado. O Estadão anunciara a redução da quantidade de cadernos diários para apenas 3, a extinção do caderno Link, sobre tecnologia, e do caderno de Negócios. Ao mesmo tempo, passou a privilegiar as plataformas digitais, com o lançamento do novo aplicativo do Estadão, adaptável a qualquer dispositivo móvel. Segundo conta Paulo Zocchi, na quinta-feira, dia 4 de abril, ele recebeu uma ligação avisando sobre boatos de demissão em massa no Estadão. “Hoje, a redação tem 250 jornalistas. O boato era de que 100 seriam demitidos na segunda ou na terça-feira da semana seguinte”. O sindicato solicitou uma reunião de emergência com a direção do Estadão, mas o jornal não respondeu e começou a demitir já no dia seguinte, sexta-feira. No total, foram 31 demitidos. “Na sexta-feira, 12 de abril, fizemos uma assembleia na empresa, e desceram 90 pessoas. O objetivo era reverter todas as demissões. Até que uma das trabalhadoras demitidas disse que não queria ser reintegrada”, lembra ele, revelando sua surpresa. No fim da assembleia, em que estavam 14 dos 31 demitidos, nenhum deles queria voltar a trabalhar no Estadão. “As pessoas se sentiram descartadas, afetadas emocionalmente de uma forma tal que elas não queriam voltar”. Um dos demitidos, repórter com cerca de cinco anos de profissão, não disfarça sua revolta. Segundo ele, os rumores de cortes eram constantes no jornal, espalhando um “clima de terrorismo”: “O jornal esperava que os jornalistas continuassem a manter a quantidade e a qualidade de trabalho com menos pessoas, impossível. Jornalistas acumularam funções e a qualidade, como os leitores puderem observar, caiu”. Ao ser demitido, ele foi procurado por um dos diretores, “para deixar claro que eu não estou sendo demitido pela sua falta de competência, que é uma questão de corte de gastos”, lembra. “Querem que você não se revolte e não sai baixo astral, que saia feliz e tranquilo. Te apoiam, mas dizem: ‘vai lá’”. Como a maioria dos jornalistas demitidos, ele prefere não se identificar publicamente. Quase nenhum dos entrevistados, principalmente os mais novos, quiseram se expor. “Sabe como é, o mercado é muito pequeno e eu posso ter dificuldade para conseguir trabalho”, diz um deles. Do Sul ao Norte do Brasil Na ilha de Santa Catarina, o nome do passaralho é mais poético: chamam de “barca”, como aquela, dirigida por Caronte, que levava as almas ao inferno, ou Hades, na mitologia grega. A última barca do Diário Catarinense, o maior jornal do Estado, aconteceu no dia 21 de março e levou cerca de 20 profissionais da redação. Poucas pessoas souberam. A divulgação mais ruidosa do caso foi um e-mail do jornalista Célio Klein anunciando, aliviado, sua demissão após 25 anos de casa. Nela, ele se diz alegre por ter saído do jornal, mas expressa “profundo pesar pela situação”: “É muito grave e difícil não se ver outra saída que não a de abrir mão do trabalho do qual se gosta e ao qual se dedicou a maior parte da vida”. A carta prossegue: “Em uma empresa de comunicação, questionar, alimento do jornalismo, não é permitido. Em uma empresa de comunicação que tem a educação como bandeira, que implica justamente pensar de forma autônoma, pensar não é permitido. Em uma empresa de comunicação que exalta a democracia, vende a diversidade de opiniões, a participação dos leitores como case de ação, de sucesso, divergir não é permitido”. Semanas depois, em abril, o jornal “A Crítica”, no Amazonas – um veículo da RCC (Rede Calderaro de Comunicação), que tem filiadas à Rede TV!, ao SBT e à Record. – demitiu aproximadamente 15 pessoas, entre repórteres, editores e fotógrafos do jornal impresso e do site. A repórter especial Elaíze Farias, vencedora do prêmio Imprensa Embratel 2013, foi uma das cortadas. “A justificativa oficial é de que o jornal acabou com esse cargo”, diz ela. “Não sei quais foram os critérios”. [caption id="attachment_89900" align="alignleft" width="300" caption="Elaíze Farias em Barcelos, no Amazonas, fronteira com Roraima, durante cobertura da assembleia dos índios yanomami em outubro de 2012. Foto: Odair Leal"][/caption] Com quase 20 anos de experiência, Elaíze dedicou metade deste período a produções de reportagens sobre questões sociais e ambientais da região. Ela lembra de uma das últimas reportagens que fez, sobre um casal de índios matis que estava sendo acusado de tentar cometer ‘infanticídio’ contra seu filho doente em Manaus – o que foi completamente desmentido por eles. “Para conseguir entrevistar este casal, me desloquei de lancha pelo rio Solimões (uma hora) de Tabatinga até outro município, Benjamin Constant, e dali peguei um táxi-lotação (meia hora), viajando pela estrada até Atalaia do Norte, onde os índios matis estavam. Fiz o retorno de carona, na moto de um indígena, porque não havia mais táxi disponível entre Atalaia e Benjamin, até novamente voltar a Tabatinga. E precisava chegar antes das cinco da tarde, pois as lanchas que fazem a travessia do rio em Benjamin operam até neste horário. Ou seja, foi um gasto extra que precisei utilizar. Depois de uma jornada de oito dias, voltei a Manaus. Bom, é assim que se faz jornalismo na Amazônia”. Para ela a maior preocupação é ter que deixar de realizar reportagens como essa. “Fiquei muito frustrada por, após a minha saída, estes temas terem ficado parados, na minha própria gaveta de pautas. Elas continuam guardadas, para quando eu tiver algum espaço e logística para viabilizar”. Sobre o silêncio que cerca as demissões, Elaíze diz: “No geral, a notícia das demissões ficaram restritas ao boca-a-boca e às redes sociais – eu, por exemplo, fiz um comunicado pelo Facebook e por e-mail aos meus amigos, companheiros de luta, organizações sociais e fontes”, comenta. “Hoje se fala muito nas crises dos jornais impressos e na sua dificuldade de se adaptar aos novos tempos e às notícias publicadas nos portais de internet. O enigma é: a mídia vai se conseguir se reinventar, se ressignificar, para continuar sobrevivendo? Cabe a todos nós, os que estão dentro e os que estão fora das redações, passar a refletir”, acredita. Para o pesquisador José Roberto Heloani, da FGV, a esperança é a de que os jornalistas comecem a ter maior consciência e maior interesse nessas questões. “É isso que chamo de luz no fim do túnel. E isso vai fazer com que as pessoas comecem a perceber que a saída não é individual. A saída é coletiva”. Neste ano, em São Paulo, houve pelo menos quatro casos de organização de jornalistas contra demissões: “O Vale” e “Bom Dia”, de São José dos Campos; do “Jornal da Cidade de Jundiaí”; do “Brasil Econômico”; e a dramática greve da pequena redação de “Caros Amigos”, que se autodenomina “a primeira à esquerda” que terminou com demissões e ações na Justiça (veja box). [caption id="attachment_89898" align="alignright" width="300" caption="“A grande vítima, depois do jornalista, é a apuração. A qualidade da informação, que é o que garante historicamente a credibilidade, está prejudicada” - Audálio Dantas. Foto: unicos.cc"][/caption] O jornalista Audálio Dantas, que presidiu o Sindicato dos Jornalistas de São Paulo na época do assassinato de Vladimir Herzog e foi o primeiro presidente da Federação Nacional dos Jornalistas, tem uma avaliação mais pessimista. “Por mais que se lute, o panorama dos meios de comunicação concentrado em poucas mãos contribui para que as lutas sejam enfraquecidas”, diz Audálio, que considera a regulação da propriedade dos meios de comunicação essencial no debate sobre o futuro da profissão: “Há a necessidade de se regular, porque nós temos esse fenômeno: o sujeito faz o trabalho para o veículo impresso, a empresa faz uma adaptação do mesmo texto e o trabalho de um profissional é aproveitado em quatro meios”. Nesse cenário, ele diz, não há mais distinção entre bons profissionais e medianos. “Antes os grandes jornais tinham esses cuidados de preservar os bons jornalistas. Hoje, não se distingue os profissionais e vão todos no mesmo diapasão”, observa Dantas, que identifica um ciclo vicioso para a profissão: para aproveitar o rendimento máximo – em termos quantitativos – as empresas mantêm o jornalista dentro da redação, fazendo matérias por telefone e por e-mail, o que resulta em um número maior de matérias, mas de pior qualidade. “A grande vítima, depois do jornalista, é a apuração. A qualidade da informação, que é o que garante historicamente a credibilidade, está prejudicada”. Para os mais jovens, porém, a sensação é de que as mudanças são ainda mais profundas, como diz o jovem profissional, recém demitido do Estadão: “A justificativa [de cortes de papel e demissões] é a financeira. Se você acompanha o jornal, deve ter percebido que as editorias enxugaram, algumas sumiram… O jornal inteiro ficou menor. A sensação, dentro e fora da redação é de que o jornal está apenas adiando o seu fim”. Desrespeito também nas pequenas redações Tão comum é a precarização do trabalho do jornalista, que ela chega a redações grandes e pequenas, de todos os espectros ideológicos. Em março deste ano, a Revista Caros Amigos – na qual trabalharam, no passado, as duas diretoras da Pública – protagonizou uma dramática greve. Os 11 profissionais grevistas abriram uma página no Facebook, que chegou a ter mais de 1500 apoiadores; mas, ao cabo de 3 dias, todos foram demitidos pelo atual proprietário Wagner Nabuco. Os funcionários protestavam contra a ameaça de uma redução de parte da equipe ou redução dos salários. “O dono comunicou que iria fazer um corte de 50% dos custos da redação, o que significaria a demissão de metade da redação”, diz o ex-editor Hamilton Octavio de Souza. Também queriam direitos trabalhistas, como contratação formal no regime CLT. Em entrevista ao portal Sul 21, Nabuco mostrou-se indignado com as reivindicações. “Não tem carteira assinada porque ninguém entrou aqui com essa promessa. Foram crescendo devagar na empresa, muitos começaram como estagiários. A folha de pagamento da redação nunca foi tão alta, era maior que a do departamento comercial. Nunca me falaram que eu era um patrão ruim. Que instrumento eu utilizei para mantê-los acorrentados e explorados ao máximo? Por acaso coloquei um 38 na cabeça de alguém?”. Após uma tentativa de negociação, mediada pelo Sindicato dos Jornalistas, os demitidos decidiram entrar com ação judicial contra a empresa. Gabriela Moncau, uma das jornalistas demitidas da Caros Amigos, explica que nove dos onze profissionais desligados da empresa estão se organizando para mover uma ação reivindicando os direitos mínimos trabalhistas, negados no momento da demissão, o que deve ocorrer em breve. * Publicado originalmente no site Agência Pública.


por Camila Rodrigues, Bruno Fonseca, Luiza Bodenmüller e Natalia Viana, da Agência Pública
jornalismo Sociedade

A pior profissão do mundo

Nos últimos dez anos, a frustração e a tendência depressiva aumentaram entre jornalistas brasileiros – assim como a “naturalização do assédio” nas redações. Todo ano, o site americano CareerCast.com elenca uma lista de 200 profissões, classificando-as da melhor à pior a partir de cinco critérios: ambiente de trabalho, salário, nível de estresse, exigência física e condições de contratação. Pois bem. Em 2013, após alguns anos figurando entre as dez piores, a profissão de repórter de jornal chegou ao fundo do poço, ficando em 200◦ lugar na lista, atrás de lenhador, militar e trabalhador de fazenda de gado. A pesquisa, que não tem lá muito critério científico, é mais um sinal da percepção de que a indústria do jornalismo impresso está em crise no mundo. Segundo levantamento da Associação Mundial de Jornais e Publishers, que reuniu dados de 90% das publicações no mundo, os jornais encerraram o ano passado com queda de 0,9% na circulação e de 2% na receita publicitária. Um relatório recente do instituto Tow Center, da Universidade de Columbia, constata que se “anunciantes nunca tiveram interesse em apoiar agências de notícias”, a relação entre as receitas de publicidade e salários de jornalistas sempre esteve em função da capacidade das editoras de extrair lucro. Mas, para os pesquisadores do Tow Center, se isso funcionou bem no século 20, não funciona mais. Nos EUA, a receita publicitária tradicional, base do financiamento do jornalismo desde de 1830 começou a cair em 2006 – exatamente na época em que começaram as chamadas “integrações impresso-online” no mercado de notícias. Aqui no Brasil, os veículos de grande porte negam que haja crise, mas ao menos no que se refere ao trabalho do jornalista, a decadência é inegável – e verificável. Lançada em 7 de abril, dia do jornalista, a pesquisa “Quem é o jornalista brasileiro?”, realizada pela Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC), em convênio com a Federação Nacional dos Jornalistas – FENAJ, analisou características demográficas, políticas e do trabalho dos profissionais de jornalismo, a partir de uma enquete respondida por 2.731 pessoas. Constatou que 45,1 % dos jornalistas trabalham mais de 8 diárias e a maioria da categoria – quase 60% – tem renda de até cinco salários mínimos, o que equivale a R$ 3.110,00 (em valores de 2012, ano de realização da pesquisa). Clique aqui para visualizar todos os infográficos (recomendado para dispositivos Android) Conforme reiteram os sindicatos, a rotina dos trabalhadores dos jornais é de pelo menos 10 horas por dia, sem contar os plantões. No caso do Diário Catarinense, por exemplo, os repórteres, diagramadores e redatores começaram a registrar entrada e saída do trabalho apenas em março de 2011, mas os editores e subeditores são contratados em condição de “emprego de confiança” com horário flexível, ou seja, não batem cartão. Em termos práticos, como eles têm de fazer a pauta para o dia seguinte e fechar o jornal, acabam trabalhando entre nove e 11 horas por dia, sem receber remuneração pelas horas extras. Dos jornalistas atuantes na mídia, 59,8% possuem carteira assinada. Outros dados demonstram como variadas formas de contratação têm sido adotadas. Ao somar o número de freelancers (11,9%) com os jornalistas que possuem contrato de prestação de serviços (8,1%) e os que firmaram contrato de pessoa jurídica, os PJs (6,8%), são 26,8% de todos os trabalhadores de mídia. O percentual de freelancers em atuação na mídia é duas vezes maior que o de freelancers fora da mídia. Tem mais: segundo a pesquisa da UFSC, a maioria dos profissionais é composta por mulheres de até 30 anos, e é justamente esse grupo que integra a menor faixa salarial da categoria; as mulheres são minoria em todas as faixas superiores a cinco salários mínimos. Apenas 8% dos jornalistas têm mais de 50 anos. Propriedade cruzada, trabalho dobrado Seis em cada dez jornalistas que trabalham na mídia, em veículos de comunicação e produtoras de conteúdo, por exemplo, exercem sua profissão em meios impressos, setor mais afetado com as recentes demissões, embora muitas vezes publiquem textos também nas publicações online ou em agências de notícias de propriedade do grupo que edita o jornal. Trata-se da continuação de uma política adotada pela indústria de notícias na última década. Os grandes conglomerados aproveitam a condição de ter propriedade cruzada de vários veículos de comunicação e vão “convergindo” também os processos de trabalho. Os donos de jornais – em um processo de “sinergia” – integraram as redações de modo a eliminar a separação entre trabalhadores do online e do impresso, economizando custos com recursos humanos enquanto adquiriam novas tecnologias de organização de dados, captação e edição de vídeos e de transmissão das informações para desdobrar o conteúdo em tablets e celulares, por exemplo. O mesmo corpo de jornalistas, arrochado pelas demissões, tem de produzir conteúdo nos mais diferentes formatos para o impresso e para a internet. Diagramadores e editores de arte estão sendo treinados para produzir infográficos animados e layout para o papel e para a internet; os repórteres-fotográficos agora têm que fazer cursos de técnicas de filmagem e edição de vídeos. É a chamada “redação convergente”. “O processo de digitalização facilitou muito. Porque eu vou pagar R$ 2.000,00 em uma viagem se eu posso pagar R$ 100,00 em uma foto?”, observa o repórter-fotográfico Lula Marques, recém-demitido pela Folha, explicando por que a nova organização atinge especialmente os fotógrafos. É uma raridade encontrar algum veículo que contrata formalmente esses profissionais da imagem. O trabalho deles costuma ser substituído pelo conteúdo de agências ou pelo acúmulo de tarefas do repórteres de texto, que passam também a fazer imagens – ainda que, muitas vezes, com qualidade inferior. A “Pejotização” José – o nome é fictício – trabalhou no Grupo Estado por quatro anos sem registro em carteira e chegou à função de editor-assistente. “Entrei como frila na Agência Estado para cobrir férias e, em 2004, entrei no Estadão. Fiquei quatro anos lá, trabalhando diariamente sem registro em carteira, como frila fixo. Nenhum documento, nenhuma nota, nenhum contrato que provasse que eu trabalhei lá”. Se o leitor é profissional de outra área, saiba que “frila fixo”, figura muito utilizada nas redações, é um funcionário que trabalha como contratado, como subordinação e horário fixo, mas sem benefícios trabalhistas, como o registro em carteira. José tentou negociar a contratação dele durante todo esse período, no qual houve pelo menos três trocas de chefia. Nunca foi contratado. “Toda vez que trocava de chefe, eu tinha que renegociar”, conta, explicando que a situação acabou por se tornar insustentável. “Eu era bem avaliado pelas chefias e continuava sendo um colaborador, sem nenhum direito trabalhista”. Saiu de lá para uma empresa de outro ramo da comunicação. Ofendido com a maneira como foi tratado, José procurou o advogado do sindicato, que o orientou a processar o jornal. “Eu tinha horário para entrar e para sair, tinha um computador com meu login e senha. Mas precisava de testemunhas, o que era mais difícil”. O caso ainda segue na Justiça. Segundo o advogado trabalhista Kiyomori Mori, a forma mais comum de precarização do trabalho de jornalistas é o contrato de indivíduos através de empresas individuais – que eles são obrigados a abrir – como Pessoa Jurídica (PJ), caso de José. Além disso, nos contratos PJ, muitas empresas tentam se proteger de ações trabalhistas colocando cláusulas de multa, explica Mori: “Se o contrato for levado para a Justiça do trabalho, o contratado tem de indenizar a empresa com R$ 300 mil”, exemplifica. “Por isso, quem entra na Justiça, tem de pedir a nulidade do contrato firmado com a empresa antes de tudo”, alerta o advogado. No final do ano passado, o Sindicato dos Jornalistas do Estado de São Paulo entrou com uma ação contra a editora Abril no Ministério do Trabalho pela “pejotização” dos funcionários. “A empresa não negociou com o sindicato, mas reduziu praticamente os ‘frilas fixos’, contratando 120 deles. A gente apurou, indo de redação em redação, que foram dispensados entre 30 e 40”, diz Paulo Zocchi, do Sindicato de Jornalistas de São Paulo. Aos 53 anos, com 28 anos de jornalismo, Paulo, que trabalha na mesma editora Abril, faz parte de um “pequeno extrato” de colegas que têm mais de 50 anos. “Você tem uma quantidade gigantesca de jovens na faixa do 20 e tantos e 30 anos, aqui na Abril. O que acontece? Com o tempo a empresa vai simplesmente substituindo. Não é uma demissão em massa, é uma rotatividade mais difícil do sindicato impedir que aconteça”, diz, qualificando a profissão de “ingrata”. Frustração e saúde abalada A precarização do ambiente de trabalho chega a afetar seriamente a saúde dos profissionais de comunicação, como atesta o pesquisador da Universidade de Campinas (Unicamp) José Roberto Heloani, que desde 2002 investiga os problemas de saúde no ambiente de trabalho do jornalista. Ele diz que nos últimos dez anos a situação só piorou. Sua terceira pesquisa sobre o assunto, que está em vias de conclusão, traz um panorama soturno: entre 2002 e 2013, a pesquisa apontou maior tendência depressiva nos jornalistas e uso de medicamentos lícitos e ilícitos para amenizar a angústia. Roberto também identificou um fenômeno chamado “naturalização do assédio”. Ele cita o “pescoção”, nome que se dá a uma jornada de até 14 horas seguidas nas sextas-feiras, para o fechamento da edição de sábado e de domingo. Para os sindicatos, a jornada é ilegal, já que o máximo permitido por lei a qualquer categoria são dez horas diárias. O “pescoção” não é remunerado e, em alguns casos, o funcionário também tem que trabalhar no sábado. Isso significa também o desrespeito ao intervalo de 11 horas entre uma jornada de trabalho e outra, garantido pela CLT. Na maioria das vezes, a tarefa é encarada com naturalidade pelos jornalistas, simplesmente como parte da profissão. “A gente tem visto uma grande dificuldade de compreender pescoções e plantões como uma coisa ruim. As pessoas encaram como se fosse natural”, diz o pesquisador. Segundo ele, os profissionais desse setor têm, em média, um final de semana livre por mês. Isso leva ao rompimento de relacionamentos e problemas com a família, além de uma situação muito comprometedora de estresse patológico e exaustão, que é quando a pessoa tem a sensação de que o sofrimento não vai acabar mais. “Grande parte dos profissionais entra nesse sistema com a esperança de que o sofrimento acabe no curto prazo. Quem aguenta, tenta aceitar que o sofrimento faz parte da profissão e o que é preciso aceitá-lo como se fosse natural”. Segundo ele, a ausência de vínculo formal e as poucas possibilidades de esse cenário se reverter aumentam a situação de insegurança e, consequentemente, as chances de perturbações psíquicas. “Não existe possibilidade de, ao mudar de emprego, essa situação melhorar”. A idealização da profissão seria outro problema peculiar da profissão de jornalista. “O jornalismo é uma profissão que tem um certo glamour, que, no imaginário da população, ainda tem algo de heroico. Então, no primeiro choque com a realidade, normalmente já no estágio, o profissional tem um certo desencantamento que depois, quando ele começa a trabalhar, vira frustração. Isso é um problema sério. Essa frustração é resultado de um conflito entre a fantasia e o mundo real do trabalho. Não é à toa que alguns, depois de se formar, poucos meses ou anos, vão para outra profissão”. Para aliviar a tensão, muitos dos que ficam consomem cada vez mais álcool e ansiolíticos, como calmantes. “O aumento do consumo de álcool e drogas foram significativos em relação à última pesquisa, realizada em 2005”, diz o pesquisador. “É comum começar com álcool. Quando aumenta a tolerância à bebida, ou seja, o efeito relaxante fica menor, a pessoa começa a beber cada vez mais até um ponto que começa a usar medicamentos para insônia ou algum ansiolítico. Só que, assim como aumenta a tolerância ao álcool, aumenta a tolerância ao ansiolítico. E o profissional também abusa do medicamento. Paralelamente, ele começa a sentir os efeitos colaterais da medicação, como falta de concentração e depressão. Com isso, ele começa a tomar antidepressivo. Resultado: nessa lógica de tomar entorpecentes, muitos trabalhadores começam a partir para psicofármacos, como cocaína, para poder trabalhar. No começo, o uso da droga melhora a memória, raciocínio e o vigor físico para uma rotina de 12 horas de trabalho por dia. Mas, tal como outra medicação, a pessoa começa a criar tolerância e os efeitos ‘bons’ começam a ser mais fracos. É aí que a pessoa se afunda”. * Publicado originalmente no site Agência Pública.


por Camila Rodrigues, Bruno Fonseca, Luiza Bodenmüller e Natalia Viana, da Agência Pública
Índios da etnia munduruku acampados na sede da Fundação Nacional do Índio (Funai) nesta terça-feira 11. Foto: Antonio Cruz / ABr Sociedade

A dança das cadeiras na Funai

[caption id="attachment_89946" align="alignleft" width="300" caption="Índios da etnia munduruku acampados na sede da Fundação Nacional do Índio (Funai) nesta terça-feira 11. Foto: Antonio Cruz / ABr"][/caption] A recente exoneração da presidente da Fundação, a antropóloga e demógrafa Marta Azevedo, mostra a luta em torno da destinação das terras públicas no Brasil. Para quem acompanha a política indigenista, a recente exoneração a pedido, por motivo de saúde, da antropóloga e demógrafa Marta Azevedo da Presidência da Funai, não deveria surpreender. Ao longo dos seus quase 46 anos de existência, a Funai teve 34 presidentes, contando os interinos. É um presidente a cada um ano e quatro meses aproximadamente. Uma ONG chegou a cunhar a expressão “galeria da crise permanente” para se referir à galeria dos presidentes da Funai. Nos oito anos dos dois mandatos de FHC foram nove presidentes. Lula quebrou essa tendência ao ter apenas três presidentes em oito anos, dois do quais os mais longevos nessa função. Já a presidenta Dilma caminha para a terceira presidente em menos de três anos de mandato, que, assumindo como interina no lugar de Marta Azevedo, já sinaliza a retomada do ritmo da “galeria da crise permanente”, se aproximando da média nada honrosa de FHC. É óbvio que a troca de comando da Funai não é, em si mesma, expressiva – ainda mais quando se dá por motivo de força maior. Não obstante, o fato da alternância de comando se dar nessa cadência ao longo de quase toda a história do órgão – fenômeno de que nos damos conta quando se observam quebras nesse ritmo – é um indicador significativo da instabilidade institucional que marca a política indigenista e seu lugar relativamente subalterno em sucessivos governos – não importa quão populares, inclusivos e democráticos se pintem. Outros números e estatísticas são ainda mais significativos, pois permitem observar e correlacionar dimensões não necessariamente visíveis na dança das cadeiras de comando. Veja-se, por exemplo, o ritmo – no geral – decrescente de reconhecimento de Terras Indígenas (TIs) nos sucessivos governos “democráticos” (tabela a seguir). * As colunas não devem ser somadas, pois várias terras homologadas em um governo foram redefinidas e novamente homologadas em outro. Se somarmos os dados da tabela acima com outros de igual teor para o atual governo – quais sejam, o de que nenhuma unidade de conservação federal foi criada na Amazônia Legal no governo Dilma, que titulou apenas 632 hectares de terras de quilombos (contra cerca de 60 mil hectares nos dois mandatos do governo Lula, segundo dados oficiais do Incra) e assentou por meio do Incra o menor número de famílias registrado desde 1996 – o quadro se completa e fica mais inteligível: estamos diante da maior paralisia dos procedimentos administrativos de destinação e reconhecimento de terras públicas de que se tem notícia nos últimos 25 anos. Essa inércia em relação à proteção e gestão das terras públicas, em geral, e ao reconhecimento dos direitos territoriais indígenas e de outros grupos, em particular, parece estar articulada a um conjunto de outras estratégias conduzidas em várias frentes por distintos atores sociais que conformam a base de sustentação política do governo: no Legislativo, pela tramitação de proposições (de projetos de lei a propostas de emenda à constituição) que visam extinguir, ou reduzir áreas protegidas, ou flexibilizar suas figuras jurídicas, desconstruir os direitos territoriais de indígenas e quilombolas, e liberalizar a exploração de recursos naturais nas TIs (seja viabilizando a mineração nestas, seja tornando possível a posse indireta destas a produtores rurais na forma de concessão); na interface entre o Executivo e o Legislativo, alterando todo o procedimento de demarcação das TIs e fragilizando as normas relativas ao licenciamento ambiental de grandes obras de infraestrutura; e no Judiciário, por meio de ações judiciais que buscam, ou arguir a constitucionalidade da legislação em torno dos direitos territoriais indígenas e de povos e comunidades tradicionais, ou construir interpretações restritivas aos direitos coletivos e difusos – entre outras medidas em outras frentes. Nas palavras do professor titular do Museu Nacional da UFRJ, João Pacheco de Oliveira, estamos diante da maior e mais violenta ofensiva contra a política indigenista da história – “um fato realmente inédito na história do País”. Não se tratam, necessariamente, de medidas de má fé, ou de meros deslizes ligados às externalidades negativas de opções políticas e econômicas conjunturais; mas, sim, de desdobramentos gramaticais à atual arquitetura hegemônica da política e da economia do país. Vítima do delírio de crescer economicamente a taxas chinesas e almejando ampliar o superávit primário por meio da exportação de commodities de baixo input tecnológico e superar os entraves de infraestrutura logística ao crescimento de tais exportações – entre outras orientações macroeconômicas; o governo tornou-se refém político do modelo convencional de expansão do agronegócio (altamente demandante de terras e recursos naturais, e socialmente excludente) e do lobby de grandes conglomerados empresariais de infraestrutura, energia e mineração – que atuam simultânea e indistintamente nos três vértices da Praça dos Três Poderes. A primarização da economia brasileira e os sinais de aparente desindustrialização são as expressões mais evidentes dessas orientações, que se traduzem, por sua vez, na importância do agronegócio na manutenção do “PIBinho” [sic]. Considerando que o atual modelo de expansão do agronegócio se assemelha a um "Pacman" de terras e recursos naturais, não surpreende que seus representantes se esforcem para ampliar a oferta de terra barata. A estratégia, agora, tem sido abrir áreas hoje protegidas (TIs, territórios quilombolas, UCs) aos seus interesses econômicos, ou tirá-las do caminho, quando entendidas como entraves à sua consolidação e/ou expansão. Se sentindo rejuvenescidos com o bem sucedido desmonte do Código Florestal, os setores politicamente mais ativos do agronegócio, articulam-se agora para investir sobre o butim das terras públicas – ofensiva que se materializa, como relatado, em várias estratégias e frentes. Uma destas é a frente midiática e comunicacional. A ofensiva aí se dá por meio da ressurreição de velhos, porém sempre disponíveis, preconceitos em relação aos povos e comunidades que tradicionalmente ocupam essas terras (usualmente tratados como massa de manobra manipulada, sem vontade própria) e da desqualificação das expertises nas quais se assenta o reconhecimento dos direitos territoriais desses grupos, entre as quais, a Antropologia (vista não como uma disciplina científica com conceitos e métodos próprios, mas como uma expressão subjetiva de opiniões). Trata-se de um trabalho diuturno de deslegitimação dos procedimentos de reconhecimento de direitos territoriais (no caso, a demarcação de TIs e a titulação de territórios quilombolas), dos seus beneficiários (povos indígenas e comunidades tradicionais) e dos técnicos (da Funai, mas também de outros órgãos, e eventuais colaboradores) que os conduzem, usando para isso todos os meios disponíveis aos detentores do monopólio da violência simbólica legítima e das grandes corporações de comunicação. Assim sendo, o contexto atual traz ingredientes novos para se entender as mudanças de comando nos órgãos responsáveis pela gestão do que resta do patrimônio de terras públicas e de territórios étnicos do País, e de seus recursos naturais – entre os quais está a Funai. À sua instabilidade administrativa crônica, resultante do lugar convencionalmente subalterno dessa agenda, deve se agregar o quadro – aqui brevemente traçado – de uma investida sem precedentes sobre tais terras, territórios e recursos no Brasil, e da disputa feroz em torno dos mesmos. De um lado, o governo parece renunciar paulatinamente à obrigação constitucional de proteção dos direitos difusos e das minorias – renúncia esta ancorada na arquitetura político-econômica hegemônica, na investida sobre os direitos territoriais e em uma concepção de País baseada no desprezo pela natureza e pela diversidade. De outro, os movimentos sociais e os indígenas, em especial, têm respondido por meio das estratégias que se encontram ao seu alcance, a depender dos contextos dos conflitos e dos objetivos em jogo nestes: retomadas de terras ancestrais, ocupações de canteiros de obras e prédios públicos, e ações de desobediência civil (como a resistência a mandatos judiciais de reintegração de posse) – entre outras. Isso ajuda a entender os números levantados pelo Conselho Indigenista Missionário (CIMI), ligado à Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB), de 560 índios assassinados no Brasil nos dez anos de governos Lula e Dilma (praticamente um por semana) – um crescimento de 168,3% em relação à média, que já não era honrosa, dos oito anos de FHC. Em meio a esse cenário, fica-nos (para mim e para vocês leitores) a pergunta: a que determinações respondem (a serviço do quê e de quem se dão) as mudanças de comando nos órgãos responsáveis pela gestão das terras públicas no País? * Henyo Trindade Barretto Filho é antropólogo e diretor acadêmico do Instituto Internacional de Educação do Brasil (IEB). ** Publicado originalmente no site Carta Capital.


por Henyo Trindade Barretto Filho*
Rosa Cardoso, Adriano Diogo e o advogado Belisário dos Santos Jr. na audiência pública da Comissão da Verdade de São Paulo Sociedade

Comissão da Verdade de São Paulo pede revisão da Lei de Anistia

[caption id="attachment_89938" align="alignleft" width="300" caption="Rosa Cardoso, Adriano Diogo e o advogado Belisário dos Santos Jr. na audiência pública da Comissão da Verdade de São Paulo"][/caption] Para o presidente do órgão, governo brasileiro deve acatar integralmente a sentença emitida em 2010 pela Corte Interamericana de Direitos Humanos. Em meio à polêmica sobre a constitucionalidade da Lei de Anistia de 1979, a Comissão da Verdade do Estado de São Paulo pediu sua revisão. Durante audiência pública na Assembleia Legislativa do Estado de São Paulo, na segunda-feira 10, o órgão disse que fazer uma revisão do texto ou reinterpretá-lo é o “mínimo” diante da sentença proferida em 2010 pela Corte Interamericana de Direitos Humanos, ligada à Organização dos Estados Americanos. “Temos uma visão baseada na sentença e somos favoráveis à revisão da lei. Acreditamos que, dentro do encaminhamento da legalidade, seja feita ao menos sua reinterpretação”, explicou o deputado Adriano Diogo (PT), presidente da comissão estadual, sobre a aplicação de alguns pareceres da sentença da corte internacional antes mesmo de se rever a legislação de 1979. Para o parlamentar, enquanto não houver revisão da Lei de Anistia o País não conseguirá caminhar para frente. “O Estado nega ao povo brasileiro o que aconteceu. Quem é que vai se animar em fazer revisão da história sem a possibilidade de se apurar até o fim o que aconteceu?”, questionou em entrevista a CartaCapital. Coordenadora da Comissão Nacional da Verdade, a advogada e professora universitária Rosa Cardoso concorda que a maior dificuldade para se fazer cumprir a sentença da Corte internacional é a própria interpretação hoje dada à Lei de Anistia. “Para que haja cumprimento na íntegra, deve-se revê-la. Isso não significa que, mesmo com a interpretação do Supremo Tribunal Federal (STF) sobre a Lei de Anistia, não possam ser adiantadas algumas questões, como a própria busca que se faz no Araguaia.” Também em 2010, com os votos de Eros Grau, Ellen Gracie, Cezar Peluso (já aposentados), Cármen Lúcia, Gilmar Mendes, Marco Aurélio e Celso de Mello, o STF considerou que a Lei da Anistia seria fruto de um “acordo político” entre governo e oposição para promover a transição democrática. Ocorre que este acordo jamais foi realizado. A lei foi criada para anistiar aqueles que combatiam a ditadura, mas foi travestida de perdão eterno aos agentes estatais brasileiros que violaram direitos humanos da população brasileira. Soberania Presente na 50ª audiência pública da comissão estadual, na segunda-feira 10, o procurador regional da República Marlon Alberto Weichert lembra que o Brasil se comprometeu a respeitar a Corte ligada à OEA – uma vez que é signatário do Pacto de San José da Costa Rica, tratado que instituiu o tribunal – e deve fazê-lo por meio de seus órgãos. “Na medida em que a Lei de Anistia não passou pelo crivo internacional, não pode ser aplicada nesses casos de graves violações. O Estado brasileiro vem fazendo pouco para o cumprimento da sentença.” A presidente da Comissão de Familiares de Mortos e Desaparecidos Políticos de São Paulo, Criméia Alice Schmidt de Almeida, condena a legislação em vigor e urge pela condenação dos agentes de Estado autores de tortura durante a ditadura militar (1964-1985). “A lei não resolveu a questão dos desaparecidos, pois esses não voltaram nem como atestado de óbito”, disse Criméia, que perdeu na Guerrilha do Araguaia o marido André Grabois e o sogro Maurício Grabois. “Nós, familiares, nos negamos a aceitar desculpas enquanto os torturadores não forem punidos.” O direito de saber o fim levado por desaparecidos políticos também é uma reivindicação da comissão estadual. “O mínimo que o Estado brasileiro deveria fornecer é o paradeiros dessas pessoas. Dos 70 do Araguaia desaparecidos, apenas dois casos foram devolvidos à famílias. Os outros 68 continuam desaparecidos até hoje”, ressaltou Diogo, ao lembrar que do total de 540 desaparecidos políticos no País 154 são de São Paulo. Para ele, o debate político pede urgência em trazer à luz documentos das Forças Armadas, do Itamaraty e do extinto Serviço Nacional de Informação. Sentença Com base na decisão do STF, que acata a Lei de Anistia, o Brasil foi condenado pela Corte Interamericana em relação aos crimes contra a humanidade cometidos durante a ditadura e responsabilizado pelo desaparecimento forçado de 62 pessoas entre 1972 e 1974, na região do Araguaia, entre Tocantins e Pará. Quando publicada, em 14 de dezembro de 2010, a sentença deu prazo de um ano para o Brasil investigar e, se preciso, “punir graves violações de direitos humanos”. Além disso, exigiu a abertura dos arquivos oficiais do período e pediu uma declaração formal de responsabilidade do Estado sobre as violações do período. Crítico em relação à lei de 1979, o jurista Fábio Konder Comparato explica que a legislação não tem valor jurídico, uma vez que “desde do Tribunal de Nuremberg não se pode anistiar crimes de lesa-humanidade” ou considerá-los prescritos. “O Brasil, que deveria cumprir a decisão com base no Artigo 68 da Convenção de Direitos Humanos, é o único pais que se mantém fora da lei internacional. Outros, como Uruguai, Argentina, Chile e até mesmo Guatemala, ou aboliram a anistia ou processaram os torturadores”, lembra. Ainda que suscite mais debates antes de levar a uma possível revisão da Lei de Anistia, Rosa afirma que a importância da sentença da OEA se dá por seu caráter pedagógico. “A sentença nos ensina a primazia dos direitos humanos em relação à soberania dos Estados”, afirmou. “Os Estados civilizados recorrem a organismos internacionais porque querem que se crie um paradigma a partir do direito internacional. Se a gente não admite a força de um organismo internacional, há então uma contradição.” * Publicado originalmente no site Carta Capital.


por Marsílea Gombata, da Carta Capital
Além dos periódicos editados na França, circulavam pelo país publicações em francês produzidas aqui, indica pesquisa. Machado de Assis, Lima Barreto e Oswald de Andrade estão entre os leitores mais famosos Sociedade

Jornais franceses marcaram Brasil na virada para o século XX, indica pesquisa

[caption id="attachment_89989" align="alignleft" width="200" caption="Além dos periódicos editados na França, circulavam pelo país publicações em francês produzidas aqui, indica pesquisa. Machado de Assis, Lima Barreto e Oswald de Andrade estão entre os leitores mais famosos"][/caption] Agência Fapesp – Periódicos franceses tiveram circulação expressiva no Brasil, na passagem do século XIX ao XX. E contribuíram não apenas para o entretenimento e o aprimoramento cultural da elite letrada, mas também para a melhoria da imprensa brasileira, com a adoção de padrões editoriais mais exigentes. Le Figaro, Le Matin e Le Petit Journal foram alguns dos jornais, produzidos na França, que circularam no Brasil. Além deles, havia publicações, escritas em francês ou bilíngues, impressas por aqui. Machado de Assis, Lima Barreto, Coelho Neto e Oswald de Andrade estiveram entre os leitores mais famosos desses periódicos. Essas e outras informações fazem parte do material já levantado pela pesquisa “As transferências culturais na imprensa na passagem do século XIX ao XX – Brasil e França”, coordenada por Valéria Guimarães, professora de Teoria da História na Universidade Estadual Paulista (Unesp), campus de Franca. O trabalho, ainda em andamento, é apoiado pela FAPESP no âmbito do Programa Jovens Pesquisadores em Centros Emergentes e possui uma interface com o Projeto Temático FAPESP “A circulação transatlântica dos impressos: a globalização da cultura no século XIX”. “Por enquanto, nossa pesquisa está mais focada no âmbito da circulação. As perguntas que fazemos são: que jornais circulavam aqui e quem eram os agentes envolvidos nessa circulação, dos dois lados do Atlântico?”, disse a pesquisadora à Agência FAPESP. “Mapeadas essas redes, procuraremos nos aprofundar na recepção, para saber que impacto real esses jornais tiveram no jornalismo brasileiro.” A pesquisa já identificou vários agentes. No eixo Rio-São Paulo, havia firmas ocupadas na venda dos periódicos, como a Livraria Magalhães, a Livraria Commercial, a Livraria Garnier e a Casa Garraux, entre outras. E livrarias-editoras, comprometidas não apenas com a venda, mas também com a produção de publicações em francês ou bilíngues, como a belga Lombaerts. Diferentemente dos jornais editados na França, os periódicos em francês ou bilíngues produzidos aqui parecem ter interessado menos os intelectuais, uma vez que tinham objetivos específicos ou se destinavam prioritariamente à comunidade francesa residente no país. Produção brasileira Um exemplo de periódico feito no Brasil é La Petite Revue (A Pequena Revista), que se autodefinia como financière, économique, commerciale et littéraire (“financeira, econômica, comercial e literária”) e era publicada pelo Crédit Général Français (Crédito Geral Francês) com o objetivo de vender títulos do governo francês ao público brasileiro. “Era editada em São Paulo, com uma tiragem de 4 mil exemplares, e tinha agentes em São Paulo, Piracicaba, São José dos Campos, Jacareí, São Carlos do Pinhal, Rio Grande (não se sabe se do Sul ou do Norte), Pernambuco e Rio de Janeiro, e subagentes viajantes”, disse Guimarães. “Além das matérias relativas ao mercado financeiro, havia seções de anedotas, provérbios, poesias e crônicas, sempre visando a difusão de uma ideologia de boas práticas financeiras e administrativas”, acrescentou. Outro exemplo, de publicação mais voltada para a comunidade francesa residente no Brasil, é o semanário L’Éclaireur (O Esclarecedor). “Uma de suas edições trouxe rude polêmica com o primeiro cônsul da França no Brasil, lotado em São Paulo, Georges Ritt, acusado pelo periódico de incompetência, abuso de poder, divulgação de segredos profissionais, traição à honra, traição à pátria, calúnia, adultério, e daí para baixo”, disse Guimarães. A exemplo de alguns periódicos existentes na própria França, que alimentaram o furor da opinião pública durante o tristemente famoso caso Dreyfus, L’Éclaireur era explicitamente antissemita. E seu antissemitismo parece ter-se exacerbado por causa das boas relações do cônsul Georges Ritt com uma rica família de judeus franceses, proprietários da firma Bloch Frères (Irmãos Bloch), dedicada à confecção e comércio de roupas, de acordo com a pesquisadora. Essa ocupação dos Bloch, por outro lado, era bem característica da comunidade francesa em São Paulo no período. Segundo a historiadora Heloisa Barbuy, professora do Museu Paulista da Universidade de São Paulo e do Programa de Pós-Graduação em História Social da USP, cerca de 400 dos 2.500 franceses residentes em território paulista eram comerciantes de alto padrão. Especificidades da comunidade O perfil da comunidade francesa em São Paulo era semelhante ao da presente no Rio de Janeiro, conforme artigo de Ana Luiza Martins, publicado no livro Franceses no Brasil (Unesp/2009), de Tania de Luca e Laurent Vidal (organizadores). Diferentemente da comunidade italiana – que respondia por 63,38% dos imigrantes no Brasil, a maioria deles engrossando as fileiras dos trabalhadores braçais da indústria ou da agricultura –, a comunidade francesa, formada por apenas 1,55% dos estrangeiros que entraram no Brasil no período, dedicava-se principalmente ao comércio (modas, adereços etc.) ou a atividades culturalmente mais qualificadas (como engenharia, ensino, artes, edição e tipografia). Há duas explicações para isso. Em primeiro lugar, ao contrário da Itália, que, após o processo de unificação política, atravessou um longo período de pobreza, miséria e até fome, a França viveu sua belle époque (“bela época”) justamente na passagem do século XIX para o XX. Em segundo lugar, enquanto o governo italiano tomava poucas medidas em defesa de seus emigrantes, o governo francês emitiu atos proibindo o recrutamento de emigrantes a partir de 1875, quando constatou que as condições de trabalho no Brasil não eram boas como as agências de emigração anunciavam. O impacto dos jornais franceses no jornalismo brasileiro será objeto de fase posterior do estudo. Mas alguns exemplos pontuais já podem ser adiantados, como o de Lima Barreto (1881-1922), assíduo leitor de Le Figaro. Descendente de escravos, mas filho de pais que tiveram a oportunidade de estudar e valorizavam a cultura, o autor de Triste Fim de Policarpo Quaresma começou a trabalhar na imprensa ainda nos tempos de estudante. Crítico mordaz da Primeira República, mantenedora dos privilégios da oligarquia agrária e da alta oficialidade militar, o jornalista e escritor apontou também a “futilidade” e o “semianalfabetismo” dos jornais brasileiros da época. Para ele, Le Figaro era o paradigma da boa imprensa a ser seguido pela imprensa nacional. Outro exemplo é a observação do respeitado crítico literário José Veríssimo (1857-1916) sobre a preferência dos brasileiros pelo idioma francês, aprendido principalmente na leitura dos jornais populares parisienses, o que faria deles maus falantes da própria língua portuguesa. “Com o apoio da Fapesp, o material coletado pela pesquisa foi organizado em um grande banco de dados, que será franqueado ao público no futuro”, informou Guimarães. Desde já, porém, é possível acessar uma amostra representativa desse material no site http://jfb.cedaph.org. * Publicado originalmente no site Agência Fapesp.


por José Tadeu Arantes, da Agência Fapesp
Cetesb Sociedade

Preservação ambiental fica comprometida com a saída da Cetesb de Ubatuba

Para a Associação Amigos de Itamambuca (SAI), decisão da Cetesb de fechar a agência ambiental de Ubatuba deve sobrecarregar outras unidades e “burocratizar” a aprovação de licenças, fundamentais para o desenvolvimento sustentável da região.  O fechamento da agência ambiental de Ubatuba, anunciado pela Cetesb (Companhia Ambiental do Estado de São Paulo) para o final de maio, deve elevar a demanda de outras agências e, sobretudo, comprometer as iniciativas voltadas à preservação do meio ambiente nas cidades do litoral norte. Essa é a avaliação dos representantes da Associação Amigos de Itamambuca (SAI), entidade que há mais de 30 anos se dedica à preservação do Rio Itamambuca (que fica em Ubatuba) e entorno. A SAI ressalta que, “com o fechamento da agência, as licenças ambientais até então concedidas por essa unidade passarão a ser atendidas na agência de São Sebastião. Isso significa uma ‘sobrecarga’ de pelo menos 350 atendimentos ao mês, referentes a 50% de toda a demanda dos municípios do litoral norte”. A Associação alerta ainda para o fato de que “a burocracia pode dificultar a liberação de iniciativas de preservação que dependem de autorização ambiental, bem como o trabalho de fiscalização”. As licenças ambientais são indispensáveis para o desenvolvimento sustentável da região. Tem como objetivo garantir que o meio ambiente seja preservado e respeitado, evitando que interesses contrários a esse propósito se concretizem e “devastem” o que ainda resta de vegetação nativa no litoral norte paulista. Só o município de Ubatuba, por exemplo, tem 80% de seu território inserido em áreas de preservação, o que torna indispensável a necessidade de uma agência que cumpra o papel de zelar por esse amplo patrimônio natural. “Sabemos que o desenvolvimento da região é imprescindível para busca da autossuficiência do país nas questões portuária, petrolífera, entre outras. Portanto temos de buscar um desenvolvimento sustentável, ou seja, trabalhar a questão ambiental e desenvolvimentista em igualdade, buscando uma condição igualitária, coesa e desejável para ambos”, explicam os representantes da SAI. Para os “Amigos de Itamambuca”, a preocupação com as consequências do fechamento da agência da Cetesb também se justifica pela significativa representatividade da construção civil na economia de Ubatuba. “Trata-se da principal atividade econômica do município. Por isso, as áreas remanescentes para construção precisam da autorização da agência ambiental para projetos que envolvam a retirada de vegetação”, comenta a SAI. Além da construção civil, outras atividades empresariais dependem de um acompanhamento mais próximo do órgão, como marcenarias, fábricas de blocos, serralherias, limpadoras de fossas, fábricas de gelo, entre outras. “Os pedidos de licença para esses setores passam a depender do deslocamento dos responsáveis até São Sebastião, o que deve onerar os processos e dificultar os trabalhos dos técnicos, pois terão que vir até Ubatuba para as necessárias vistorias”, detalha a associação. Mais consequências Os representantes da SAI citam outras perdas geradas pela decisão da Cetesb de encerrar as atividades da agência ambiental de Ubatuba, após 28 anos de funcionamento. O volume de irregularidades autuadas, por exemplo, pode ficar comprometido. Hoje, a região de Ubatuba é a que mais gera autuações ambientais no Estado de São Paulo, devido a práticas como ocupações irregulares em Áreas de Proteção Permanente (APP), corte de vegetação sem licença ambiental, ocupações desordenadas em áreas não regularizadas, entre outras. A extinção da agência gerará ainda demissões (de cinco funcionários terceirizados) e a mudança da sede do Comitê de Bacias Hidrográficas do Litoral Norte, entidade que presta inúmeros serviços à população nas questões ligadas à quantidade e qualidade da água dos mananciais da região. A Associação Amigos de Itamambuca ressalta, enfim, que a estrutura administrativa da Prefeitura de Ubatuba é modesta e não dispõe, portanto, de condições para assumir a gestão ambiental sem o auxílio do Estado. Sobre a SAI A SAI – Associação Amigos de Itamambuca é uma entidade sem fins lucrativos, atuante desde 1977 com a missão de cuidar das questões de interesse ambiental, social e administrativas, que afetam ou possam vir a afetar a qualidade de vida no bairro de Itamambuca e seu entorno. Atualmente, sua principal bandeira é a batalha contra a poluição do Rio Itamambuca.


por Assessoria de Imprensa
As manifestações no Parque Gezi foram reprimidas com violência. "Extremistas", acusa o premier Sociedade

Turquia: O melhor atalho para o caos

[caption id="attachment_89973" align="alignleft" width="300" caption="As manifestações no Parque Gezi foram reprimidas com violência. "Extremistas", acusa o premier"][/caption] A população ocupa as ruas contra as duras leis islâmicas e a fome de poder do primeiro-ministro Recep Erdogan. Tudo começou de forma pacífica. Já no fim do mês de maio, manifestantes dormiam debaixo de tendas para protestar contra a construção de um centro comercial e uma réplica de um quartel otomano em um dos raros parques de Istambul, o de Gezi, adjacente à Praça Taksim. Na sexta-feira 31, a polícia entrou, porém, em ação. Fechou as portas do parque e, munida de gás lacrimogêneo e canhões d’água, atacou com brutalidade os manifestantes. Segundo o primeiro-ministro, Recep Erdogan, responsável pelo projeto e ex-prefeito de Istambul, os manifestantes são “extremistas”. E haveria potências estrangeiras envolvidas. Em seguida, Erdogan, líder do Partido de Justiça e do Desenvolvimento (AKP), sigla de centro-direita e com sólidas raízes islâmicas, saiu para um tour pelo Magrebe, sinal de que, no seu entendimento, os violentos acontecimentos seriam efêmeros. Não foi o caso. Na quinta-feira 6 o cômputo geral eram quatro mortos, milhares de feridos e centenas de presos. As manifestações, embora pacíficas na noite de quarta-feira 5, continuavam e haviam se esparramado pelo país que, até então, servira de modelo a outras nações árabes como a Tunísia e o Egito, liderados por islamitas da Irmandade Muçulmana. Desde 2002, a Turquia tem conseguido conciliar democracia com uma economia liberal e um governo moderado islâmico. “Vários oficiais norte-americanos, entre eles a ex-secretária de Estado Hillary Clinton, em numerosas ocasiões referiram-se à Turquia como o país modelo para as emergentes democracias árabes”, diz o cientista político Tolga Demiryol, da Universidade de Istambul. Os recentes eventos, diz o acadêmico, “mancharam essa imagem da Turquia, democracia exemplar”. Houve tentativas de compromisso por parte de aliados de Erdogan. Durante a ausência do premier, o presidente Abdullah Gull, também filiado ao AKP, e o vice-primeiro-ministro, Bulent Arinc, disseram que o povo tinha direito de se manifestar pela manutenção do parque. O vice-premier chegou a pedir desculpas pela brutalidade da polícia. Acreditava- -se em um consenso entre Ancara, a capital, e os manifestantes. De volta à Turquia, Erdogan deixou claro, no entanto, que seu projeto de construção de um centro comercial permanece inabalado. “O ódio dos manifestantes voltou-se, após esse ciclo de violência, contra Erdogan”, observa Demiryol. O AKP tenta regular a vida dos cidadãos. E, como me diz uma velha fonte, “Erdogan sempre teve uma agenda islamista, e agora quer os poderes de um sultão”. Ou de um Atatürk. Mustafa Kemal Atatürk, vale lembrar, foi o fundador da República da Turquia, em 1923, surgida após a queda do Império Otomano. O militar estabeleceu que sucessivos governos deveriam ser seculares. E as elites kemalistas, apoiadas pelas Forças Armadas, seriam responsáveis em manter esse secularismo. Por essas e outras, ao vencer as primeiras eleições legislativas em 2002, Erdogan, criado em um bairro islâmico e preso no passado por recitar poemas de conteúdo fundamentalista, apresentou-se como um islâmico moderado e favorável a um sistema democrático. Habilidoso, conseguiu enfraquecer o poder dos militares e aumentar aquele dos policiais. Dizer que Erdogan quer ser um sultão ou um Atatürk islamita seria um pouco anacrônico. Ele quer ser presidente. Depois de ocupar o posto de premier por três vezes, ele agora poderá, em 2014, candidatar-se a presidente. Com esse fim, pretende realizar uma reforma constitucional e transformar um regime político parlamentarista em presidencialista. O presidente na Turquia tem poderes limitados. Há, porém, obstáculos. De saída, o atual presidente não é subserviente. Diz Demiryol: “Gul tornou-se um político independente, uma figura forte. Acumulou muito capital político como presidente e adotou medidas moderadas durante crises”. E, assim como vários líderes políticos de outras legendas, não seria contra transformar o sistema político sem maiores deliberações. Na verdade, o processo constitucional para a reforma do sistema político encontra-se em um impasse. A comissão parlamentar responsável por uma nova Carta não conseguiu produzir um rascunho até o fim de 2012. Erdogan busca outros meios para se tornar presidente com poderes de sultão. A acima citada fonte anônima bem informada conta que o primeiro-ministro deseja dar maior liberdade aos curdos e, por isso, negocia com Abdullah Öcalan, o líder do grupo étnico em uma prisão turca. O objetivo de Erdogan é claro: obter votos dos parlamentares curdos para a formação de um regime político presidencialista. Caso o premier consiga vencer a partida de xadrez, poderá, como temem numerosos turcos, islamizar o país. E, quem sabe, até impor a Sharia. Erdogan baniu, por exemplo, a venda de álcool entre 22 horas e 6 da manhã. Nas cercanias de escolas e mesquitas, a venda de álcool é proibida. O beijo público também está vetado, assim como a venda de pílulas de aborto. O governo recomenda a cada casal ter ao menos três filhos. Protestos como aqueles na Praça Taksim são proibidos. A mídia é censurada. Intelectuais são presos. Ao contrário das revoltas na Tunísia e no Egito, na Turquia os protestos reivindicam “direitos” e não “empregos”. O país deve crescer 4% neste ano, apesar da crise na Europa. O regime pagou sua dívida ao Fundo Monetário Internacional e ofereceu 5 bilhões de dólares à instituição para ajudar a resolver a crise na Zona do Euro. Diz, no entanto, Demiryol, a pujança econômica beneficia uma minoria. “Além disso, o premier usa os indicadores econômicos como fonte para legitimar sua política.” Se Erdogan levar a melhor, a Turquia mergulhará no caos. * Publicado originalmente no site Carta Capital.


por Gianni Carta, da Carta Capital
zoologico Sociedade

Hora de abolir os zoológicos!

Encarceramento de outras espécies revela arrogância humana, consagra “superioridade” primitiva e deseduca crianças. Para conhecer vida selvagem, já temos aparatos audiovisuais. A relação do Homem com a natureza é historicamente controversa. De modo geral, a espécie humana nutre o sentimento de posse absoluta do planeta, não só quanto ao uso abusivo de seus recursos naturais – gás, óleo, pedra, madeira, minerais – como quanto à sua atitude frente à infinidade dos demais seres vivos. O conceito de Gaia vem sendo discutido há tempos; a consciência de uma Terra coletivamente interdependente em seu equilíbrio já não é novidade alguma. Entre os incontáveis desastres ambientais que a espécie humana promove seguidamente há séculos, venho levantar uma questão que considero básica: qual a razão lógica que nos o dá direito de aprisionarmos animais de outras espécies? Não me refiro aqui à questão alimentar: essa é uma outra discussão, que pode gerar argumentações tais como a sobrevivência. O que me chama a atenção é a facilidade que temos de aprisionar animais para mera exibição como se fosse uma atitude perfeitamente natural, em âmbito universal. Não é. Apenas demonstra uma deformação prepotente, ignorante e autoritária. À luz da psicanálise, deve ser fácil associar alguma forma de psicopatia a tal hábito, que de tão corriqueiro tornou-se aceito em todos os continentes. A evolução, no sentido do crescimento de uma consciência de manutenção equilibrada do planeta, aponta contra tal anacronismo. Ninguém, em sã consciência, pode defender o fato de que tirar um animal de seu habitat natural e confiná-lo em cubículos ou espaços restritivos seja um direito humano. Mesmo a tênue argumentação de que é um fator educativo mostra-se indefensável. Os atuais recursos tecnológicos permitem que não só os animais sejam mostrados em diversos ângulos, mas também vivendo em seu berço natural, de onde jamais deveriam ter sido retirados. Mas o que mais importa, causando danos irreversíveis, é que as crianças, sendo estimuladas a visitar os zoos, começam, desde muito cedo, a serem educadas segunda a ideia de que fazem parte de uma “raça superior”. Essas últimas palavras me foram literalmente ensinadas no colégio, não faz tanto tempo assim. Como se essa “raça superior” tivesse sido ungida com o direito de aprisionar em celas, de forma vil e covarde, a própria natureza que gera tantas preocupações para sua sobrevivência atual e futura. É óbvio que será muito mais difícil formar consciência ecológica na mente de jovens que participam dessa cerimônia medieval de visita ao zoo. Quem pode prender uma onça, ou qualquer outro animal, pode perfeitamente cortar as árvores que desejar, assim como desviar rios, derreter geleiras. Pode tudo, inclusive matar seus semelhantes. Pelo fim programado dos zoológicos de todo o mundo, por sua substituição por aparatos tecnológicos, pelo absoluto cuidado com os animais que ainda permanecem enclausurados até que o derradeiro encerre sua existência. Encerrará assim também uma fase humana que será considerada primitiva, desinformativa e cruel no futuro. * Caique Botkay é diretor musical e compositor. Formou-se em musicoterapia pelo Conservatório Nacional de Música. Em 2002, lançou, pela editora Nova Fronteira, o livro "Achados", reunindo lembranças e cartas de personalidades como Chico Buarque e Vinicius de Moraes, entre outros. ** Publicado originalmente no site Outras Palavras.


por Caique Botkay*

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